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17 fevereiro 2010

Acabou o Carnaval...

MÚSICAS LINDAS, QUE SEQUER FORAM TOCADAS

(foto minha - sábado de Carnaval)
 
Mas como tudo na vida, o carnaval também acaba. Quem quiser, pode levar adiante a festa — é só mudar o nome. Na Bahia, ainda vai ser carnaval por muito tempo e, reza a lenda, vai durar o ano todo. Acho os bahianos interessantes, quase quânticos neste aspecto: o tempo sem parâmetros de medida. Meu avô era bahiano, a figura mais adorada de que tenho lembrança — e adorada não somente por mim, mas por toda a gente que sabia que nas emergências podia bater em sua porta, se precisasse de uma ajuda. Para ter filhos, então, nem se fala.... íxi! Vem de lá esse "íxi", que em tradução livre pode ser "virgem!", ou "minha Nossa Senhora". Assim como "ó xente!", que talvez seja "Olhe, gente". Não sei, porque sempre entendi sem precisar saber. Vem de lá muita coisa que trago comigo e me faz saber onde estou e quem eu sou; que não me deixa me perder de vista. O único mapa astral que fiz na vida apontou isso: "o seu avô é o centro de referência do seu mapa", falou a astróloga. Íxi... chorei de baldes! Aprendi a gostar de mim como gosto dele (in memoriam) e como sou. E assim vou me perdendo, me reencontrando e me achando. Devo esse movimento a ele, que era um bahiano dos bons e do bem... embora nenhum bem tivesse. O último legado que ele me deu foi aquela imagem de um terreno baldio, onde ele se despediu inesperadamente desta passagem no tempo e a partir da qual construo minhas pontes para um universo de boa vontade e amor. Ele era valente, e acho que também sou... chorona, mas sou. Devo ter sonhado com ele esta noite, não sei. Mas acordei com uma música no pensamento. Fazia tempos que isso não acontecia: acordar com a lembrança de uma música que fica tocando na minha mente a manhã inteira. Houve uma época em que eu queria decifrar a mensagem...rsrsr. Nunca consegui! E desisti desse joguinho difícil. Talvez por isso as músicas tenham cessado (ou as mensagens cifradas tenham sido interrompidas, quem sabe...rsrs). Nesta manhã, uma frase de música acordou junto comigo. Custei a identificar a música toda e vim aqui pesquisar. Deu nisso, ó xente! Um texto do tamanho de uma samaumeira...rssr. A música é do incomparável Gilberto Gil, que ontem se emocionou com memórias felizes do passado, vestido com as roupas de Ghandi, no meio  da folia do Asa de Águia. Chorou, meu rei, chorou... Não achei uma gravação de boa qualidade com Gil, mas a música ficou linda na voz de Zizi Possi:  A Paz, para soprar as cinzas que ficaram deste Carnaval.
Beijos!! E a todos, o amor de sempre
Hanna

14 fevereiro 2010

Não entendi o enredo deste samba, amor...

ENREDOS DA FOLIA

Fantasias, fantasias, fantasias
Como vestem certas almas de alegria
Fantasias, fantasias, fantasias
Se desmancham de uma noite para o dia.
H.
 (Para um querido amigo do Clube do Samba, o bloco que vem me buscar em casa)

A vida em blocos

Carnaval nunca foi minha predileção. Gosto de festa sem data marcada e fantasia fora de contexto, daquelas que a gente usa, sem perceber que  usamos e que apenas quem está de fora consegue ver... e rir. Se me fosse dado o direito de sinceramente escolher a fantasia real, me vestiria, pasmem, de palhaça! Não que eu tenha talento — vocação e talento são coisas diferentes. Ser palhaço depende de prática, treinamento, vivência, autoconhecimento. Palhaços sem talento somos todos nesta vida, quando nos levamos demais a sério; quando, apesar dos pesares, ainda insistimos e em ser felizes aos tropeções, passando aturdido sem ver o que é o essencial; atravessando o enredo de todo samba, amor — esta é a parte mais engraçada da arte-vida dos palhaços, já dizia Chaplin: a tentativa de se pôr novamente de pé e recuperar a dignidade, sem rasgar a fantasia. Palhaços por vocação, mesmo sem talento,  insistem em alegrar a quem quer que seja, e sofrem da dor que conseguem curar apenas nos outros.  Porque palhaços são espíritos nobres, fantasiados de seres humanos, mas incumbidos de uma missão delicadíssima e especial, o que não lhes  confere qualquer salvo conduto nesta vida. Palhaços são elite em uma humanidade tosca que não sabe amar e que não consegue se emocionar por nada que não seja si mesmo.  Palhaço é coisa séria. Eu amo sinceramente os palhaços — aqueles que riem de si mesmos; que sabem que seus escudos são pura fantasia; que fazem graça do que não se poderia rir; que resistem, apesar da vida.  E para quem não entendeu, insisto em meu sincero amor aos palhaços, categoria que exige, de quem a ela se canditada,  atributos como desprendimento, equilíbrio, sensibilidade, alegria, bondade, coragem altruísta, humildade e fé. Ser palhaço não é pra qualquer um. Não basta vestir a  fantasia, nem encaixar a carapuça...Ops! quer dizer... o chapéu.

Hanna, a aprendiz de palhaça.


EM TEMPO (do alto de meu nariz vermelho de aprendiz): Também são palhaças, por vocação, as pessoas que abrem mão da festa só para fazer companhia a quem precisa aprender quais são as coisas que nos fazem verdadeiramente sorrir. Por falta de talento, talvez - para certas coisas, não basta ter vocação - acabam trocando a graça  e a festa por uma ressaca sem precedentes. E aí não tem jeito....só morrendo de rir!!! Os palhaços podem até perder o rebolado, mas nunca abrem mão da graça que Deus lhes deu. 
Respeitável público, e com vocêêêêêêssssssssssss......
Hanna, a metida a saber de coisas que ninguém vê... 
....rsrs.....


Mas voltando aos inevitáveis blocos: comecei o carnaval muito antes, logo depois do  Natal e Ano Novo,  no Saco do Noel, um bloco pós-natalino e pré-carnavalesco, que se orgulha de ser o maior bloco de Vila Isabel. Conta a lenda que cerca de três mil pessoas defilam no tal do Saco. Fui lá conferir, conduzida por um de seus fundadores e diretor de alguma coisa que jamais consegui entender do que se tratava. Mas Hanna sempre leva tudo muito a sério. Chegando na concentração, tratou de deixar o diretor à vontade para cumprir sua missão. Enquanto isso... bloco para que te quero...rsrs. Já era sabido que o famoso Cacique de Ramos estaria honrando o Saco do Noel com sua marcante presença. Mas Hanna não imaginava o quão marcante esta presença seria. Tinha bandeirão, fogos e galera paramentada com traje guerreiro, bem no meio do Saco do Noel. Para os que não sabem, o Cacique de Ramos é um dos mais famosos blocos de carnaval do Rio, depois do Bola Preta, claro. Não sei muito sobre eles, mas tive o imaginário carnavalesco povoado desde infância pelas história de valentia dos Caciques.  Eram para mim verdadeiros guerreiros. E Hanna tem uma queda especial por esta categoria de seres humanos...rsrs. Pois bem: estava eu lá, toda acompanhada, quando vi a primeira manifestação dos Caciques, que traziam nas camisas a garantia de que eram realmente uma tribo, adornados pelos tradicionais cocares. Soltaram fogos, e o meu coração  disparou. De repente, uma imensa bandeira começa a tomar conta da pista, como em dia de Botafogo vitorioso no Maraca. Não resisti. Caí na folia do bloco convidado, com se tivesse nascido lá. Mas como vocês sabem, Hanna prima pela lealdade. Minha consciência logo apontou: você está no Saco do Noel, como convidada de um de seus oito fundadores! Pensava o que fazer para conter o enredo deste samba, amor, quando  voltei na passarela, disposta a  retornar ao que me levou a este carnaval extemporâneo e bom. Atravessei por baixo do bandeirão e dei de cara, do outro lado, com um corpo  quase feito à mão, fantasiado com aquelas roupas esquisitas do Saco de Noel. Vazei para fora da bandeira e qual não foi minha supresa: agarrado no pavilhão caciquence, aquela figura linda, simpática,  ainda mais depois que engordou uns quilinhos após o emagrecimento forçado pela prática do triatlon —Hanna sempre admirou a beleza da obra divina encarnada em gente. Ele sambava sorridente, agarrado àquela bandeira. Custei a entender o lance.
— Me desculpe, mas  não resisti. O Cacique... —  falei, gritando para me fazer ouvir no meio da batucada de uma bateria que aliás é nota 10! E antes que eu contasse como aquele bloco habitava meu imaginário, um sorriso largo e lindo se abriu feito lona de circo para me dizer  em meio aos volteios de carnaval:  —  Sem problemas! Eu também adoro o Cacique! Vamos desfilar nele? Eu arranjo as fantasias! — Tudo acertado. Pura alegria.  E saímos a esbanjar a felicidade que nos transborda, independentemente de qualquer coisa, de qualquer bloco, de qualquer das bobagens de Hanna.  Traição perdoada no ato do flagrante! 
Sábado de Bola Preta. Como a fama faz tudo ficar sem graça, né não? Mas a sorte recuperou o lance e fomos parar em Paquetá, num bloquinho humilde, mas bonzinho, com direito a muitos tchibuns... e cliques fantásticos.  Tudo de bom! O daqui a pouco a Deus pertence, como sempre! Humm... acho que vou fazer um tchibum de novo na cama... ainda é cedo, amor.... Prometo que não vou passar o carnaval no Sobretudo... Estava só dando umas acertadinhas...rsrs. 
H. 

13 fevereiro 2010

Aláááá, meu bom Alá...

Se beber, não volte de bicicleta... e não vá perder os sapatos!
Dentro ou fora do Carnaval,
sincero amor de Hanna
a todos os palhaços!!!!!!

12 fevereiro 2010

Poemeu — reedição

DA VIDA E SEU ETERNO DEIXAR PARA LÁ

Estou de saída,
arrumando uma pequena mala.
Tão pequena que não suporta mais que o essencial,
o importante, o fundamental.
Três pequenas coisas...
Coisas apenas minhas.
Que as não cobicem o próximo,
que não as contestem os ricos,
que não as admirem os pobres,
mas que as entendam as almas nobres.
Ao sair, fecho a porta
do lugar onde todo o resto está meticulosamente ordenado,
arquivado por ordem de desimportância,
por data, por autor, por assunto, por absoluto cansaço.
A chave que tranca a porta não há,
para que eu exercite a cada instante a decisão de não voltar.
Na estação, o trem que faz surgir a estrada necessária,
à medida que ela precisar existir.
Nas janelas, todas as paisagens que meu olhar construir.
Diante de mim, o percurso.
Perto de mim, todas as saídas.
Dentro de mim, a vida.
O resto é apenas tristeza passageira
pelo equívoco de um outro olhar.
Adeus.
 H.

Quantificando coisas da vida

Hanna tem muitas coisas das quais não se aproveita, porque não é uma aproveitadora. Hanna tem flores que não colhe para que não morram; tem mares que iluminam seu olhar e também não os colhe, para que não se turvem; tem o céu que é pleno e adorna seus cabelos, mas não o toca para não afugentar suas nuvens. Hanna tem árvores exuberantes que a fazem se emocionar, nas quais sequer pensa em tocar. Tem um amor que se pretende eterno —  trata-o como as flores, o mar, o céu, deixando-o onde está. Às vezes Hanna entende que ele é apenas uma árvore antiga, que se faz de amor na ânsia de se renovar. Recebe seus presentes que insistem em corporificar sua distante presença, fazendo de contas que nem está lá.  Deixa que fique onde está.  Não o colhe, para que não se desvaneça como o algodão doce da ilusão de amar. Hanna sabe que o amor é o fluido mágico de um universo encantador  que a todos une — que não se vê, não se traduz e que geralmente se rompe ao se tentar tocar. Há que se ter muita grandeza, quando se pretende amar. Hanna é pequena; de grande, somente seus sonhos, que não a deixam acordar.

EXPLICITUDES: este texto é para alguém concreto, que Hanna acha que por mais que queira, jamais vai conseguir esquecer. Fica como agradecimento pelo amor que conserva em potes de ilusão, e pela poesia e música que compartilho com todos vocês, na intenção de dizer que o amor (parece) que existe. E quanto mais distante dele nos mantivermos, olhando apenas de longe, mais ele pode durar. Assim como... picolé no isopor de gelo seco...rsrs. Poético, não? Vieram juntas: a poesia e a música; ambas maravilhosas. Tudo a propósito do Dalai Lama...rsrsr.
O coração de Hanna, comovido, agradece, fazendo o que pede a poesia... Aparecendo...  apenas para dizer: "não basta ter fé; é preciso confiar".
PS.: Aproveitem o Carnaval... da melhor maneira possível.
H.
Ausência 
(Vinícius de Moraes)
Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados.
                        

11 fevereiro 2010

Alma suburbana - Madureira

 O subúrbio tem alma, história, poesia, fama, enredo, paixão, amor. Por que será que o poder público não vê? Só pra chatear... Arlindo Cruz.

07 fevereiro 2010

Episódio final da história da cigana - encontro com personagens

Os dias transcorriam como deveriam ser — felizes e calmos. Há muito não tinha dias tão habitados por tantas pessoas amáveis e queridas durante o tempo todo. Talvez por isso tenha deixado de lado o papel dobrado que a cigana me dera, havia quase uma semana. Resistia a saber que poderia estar ali o legítimo fim da história que já havia acabado tantas vezes. Às vezes esquecia completamente o episódio, aquela história, suas personagens inventadas. Contava as vezes em que me lembrava, apenas para certificar-me de que aos poucos estava esquecendo. Mas o fato é que lembrava. Estava um dia agradável, quando resolvi romper o lacre da ilusão que inventou todo o enredo de uma história banal, sem talento — non sense que ganhou autonomia e seguiu em frente, à revelia do próprio autor. A decisão de desfazer aquela intrigante dobradura surgiu repentinamente, agarrada à vontade inegável de que a história não tivesse terminado da forma real como terminou. Olhava uma revista de turismo, enquanto pensava. Apenas olhava, sem me deter nas informações, quando encontrei a forma simbólica de pôr um ponto final naquela história sem fim. Jorge Luis Borges. O escritor argentino costumava frequentar um botequim restaurante chamado El Preferido, autêntico bodegón espanhol, em Palermo Soho. Lugar ideal para enterrar os restos imortais de um história. Já não faziam mais diferença, mas também não paravam de transitar os personagens inquietos e decididos a não interromper uma trajetória sem saída. O restaurante tem duas entradas— uma pela Guatemala, 4801, e outra pela Jorge Luis Borges, 2108. Uma construção antiga, de 1885, que em 1952 virou armazém e depósito de bebidas. A casa de Borges ficava em frente àquela casa rosada, embricada entre as duas ruas. Entrando pela Guatemala, era como se estivéssemos em um armazém de secos e molhados. Pela rua que homenageava o frequentador ilustre, chegávamos ao bodegón, com mesas altas e banquetas que certamente não deixam os fregueses ficar para além do almoço. Uma ceveza e no más! parecia que diziam os bancos altos. Nem mais uma cerveja. Não conseguia imaginar Borges naqueles bancos por mais de uma cerveza.
Borges sentaba en una silla de ali— explicou rindo o garçon, diante da minha constatação. Tentei olhar a cadeira que ele apontava, mas o bancão não me permitia alcançar o lugar nem com o olhar.Distraía-me com aquele passado alheio; com aqueles vidros imensos de conservas coloridas e com a demora do garçom em resolver trazer uma cerveja Quilmes, aquela da garrafa imensa que se via gente bebendo no gargalo nas ruas perto da feira de Santelmo.
Aqui está. Tiene un buen apetito — serviu o sonolento garçon que logo desapareceu. 
Já quase me esquecia do que fora fazer ali, quando uma mulher se espantou com um gato que dormia em uma espécie de janela de sótão, redonda, que ficava a um palmo do chão e deixava entrar a luz forte do dia quente e do vento que trazia folhas para dentro das frestas. O garçon surgiu lentamente e arrastou o gato para debaixo do braço. O bicho nem reagiu, mas voltou para a clarabóia assim que o garçom o pôs no chão. A mulher nem viu e continuou seu almoço em paz. Finalmente o bancão começava a me expulsar do lugar. Era o tempo exato de um almoço e uma cerveja. Paguei a conta, olhei as curiosidades do lugar, que não eram muitas, e saí. Andei por muitas ruas, lembrando e esquecendo do papel que guardava no bolso da saia de linho colorida. A mesma saia que usava quando atravessei o rio Guamá para ver a floresta. A mesma saia que usava quando comecei esta história. As árvores eram linda e exuberantes, apesar do calor e do vento quente. Aproveitei a sombra de uma delas e me dispus a ler o que havia naquele papel que um escriba imaginário inventou. Meu coração disparou numa estranha ansiedade; esperança sabe-se lá de quê.
Toda vez que Deus se referia à casa, como por exemplo "a casa de Israel", "a casa de Davi" ou "arruma a tua casa", e várias outras passagens bíblicas, estava se referindo à casa espiritual. No meu humilde entender, a casa simboliza você mesma. E o fato de ser linda, talvez esteja relacionado às suas intenções, ao seu coração, mas a dúvida de ser sua casa ou não, penso que você precisa prestar mais atenção a você mesma, ao seu coração, em vez de mostrá-lo a pessoas que você nem conhece. As casas vazias pelo caminho são as pessoas que aparentemente estão bem à sua volta, sorrindo, brincando, mas na realidade estão com um imenso vazio dentro de si. Mas as janelas estavam abertas. Elas estão receptivas. A Bíblia diz: "...de tudo guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida eterna. Continue andando... vamos ver os acontecimentos...”
Pensei em amassar o papel e deixá-lo cair das mãos, mas não consegui.Tentei dobrá-lo da forma original, mas não consegui. O vento veio e se encarregou de fazer o que eu não quis. Soprou para longe o papel e eu senti um alívio esotérico, quase uma alegria. Teria sido uma comunicação da inteligência do Grande Universo? Melhor pensar que sim. Ajeitei a bolsa e me preparei para atravessar a rua, quando outra rajada de vento ameaçou levantar-me a saia. Baixei as mãos em gesto automático e um papel me veio bater ao peito. Qual não foi o susto quando vi que era o mesmo papel. E o vento estranhamente parou... ou eu não me dei conta de que ele já havia soprado o quanto lhe bastasse. Li novamente, tentando decifrar um possível código, uma mensagem, sei lá.
Una moneda, señora; una limosna, por favor — a mão suja e enrugada do homem que pedia esmolas surgiu sob meus olhos, que estavam abaixados e fixos no papel em uma de minhas mãos. Levantei a cabeça e o homem repetiu com um sorriso ameno, como se me reconhecesse:
Una limosna... cosa qualquer — olhei o papel na minha mão e para a mão dele, ainda estendida na minha direção. Entreguei o papel, que ele recebeu e guardou, como se dinheiro fosse.
Gracias, querida... sigue tu camino — e se foi. Fiquei ainda por alguns instantes tentando decifrar o que agora pressentia como uma mensagem... ou apenas a lembrança de uma mensagem.
"Continue andando... vamos ver os acontecimentos", a frase ecoou como um sussurro em meu pensamento. Atravessei a rua e fui embora a pé pela Jorge Luis Borges, pensando em como contar uma história que não quer ter fim. 

FIM


 
...ou não...
Hanna

06 fevereiro 2010

A ilusão da imortalidade — mais um golpe rude

Como todos sabem, jamais uso este espaço para dar más notícias. Uma notícia ruim é aquela que ocorre por força das circunstâncias, contrariando o bom senso e, às vezes, até mesmo a honradez. Não vou me estender muito, para não poluir o Sobretudo com a tristeza dos fatos evitáveis, mas que se impõem por descuido da realidade. Faço isto apenas como registro de um protesto que não chegou a tempo. A Associação Brasileira de Imprensa está novamente sob o risco dos oportunismos dos quais pretendíamos livrá-la como aquele movimento chamado "A ABI que nós queremos". Entenda-se pelo "nós", os jornalistas.  Naquele abril de 2004, acreditávamos nós, os jornalistas, termos afastado de vez a vitaliciedade de seus presidentes e conselheiros, trazendo a Casa de volta à tradição de respeito aos princípios  republicanos e democráticos. Não foi preciso muito tempo para ver que  alguns de nós acalentava uma ilusão romântica. Cumprimos nosso papel até o último segundo do mandato que nos foi confiado; outros companheiros deixaram-se abater pelo personalismo e autoritarismo do presidente que elegemos e desertaram. A reforma que promovemos no Estatuto da ABI , para garantir a integridade da instituição considerada um dos pilares mais representativos e respeitados da vida democrática do país,  dava-nos o alento de saber que outras eleições viriam para corrigir o engano, afastando do comando da entidade alguém que , por duas vezes, teria a oportunidade de dar sua contribuição à Casa, mas que, lamentavelmente, optou por fazê-lo da forma mais rude e autoritária jamais vista na história da ABI. Estávamos mais uma vez enganados. No último dia 2, um golpe traz de volta o fantasma moribundo e estropiado do continuísmo. Um golpe, porque forjado na calada de um conselho subalterno. Não houve uma convocatória para a Assembleia-Geral, o que deveria ocorrer de forma ampla, explicitando a justificativa para o que se pretendia "reformar" no estatuto. Esta não era a ABI que nós queríamos. O que vai acontecer é o que a história já mostrou: os jornalistas se afastarão, como já havia acontecido mesmo antes que Maurício Azêdo assumisse o segundo mandato em uma eleição marcada pela ausência, ao contrário do que caracterizou a primeira. A Associação Brasileira de Imprensa, com este golpe consumado no dia 2 de fevereiro de 2010, transforma-se em um mausoléo da vaidade e do autoritarismo. Sim, um mausoléo, que tem-se  prestado apenas ao autoelogio, à doentia reverência à memória dos mortos, e à legitimação da opinião dos grandes jornais, quando usam as declarações do seu representante, porta-voz da entidade, para impingir suas vontades ao poder público. Leiam os fatos,  nesta comunicação do jornalista Lima de Amorim:

Meus amigos e amigas:   
Comunico que renunciei ao posto de conselheiro suplente da ABI, em protesto contra a revogação do artigo 44 do Estatuto Social, que vedava a eleição do presidente da entidade e de seus principais auxiliares para mais de um mandato.  Discordei também da forma como a questão foi previamente encaminhada - restrita ao colegiado e  com empenho direto da presidência e da secretaria geral, partes interessadas. A história de vários povos e instituições demonstra como são nocivas as ditaduras ou a reeleição ad aeternum de dirigentes com mandatos eletivos. São duas faces de uma mesma moeda.  Sem o artigo 44 do Estatuto Social, revogado por maioria de votos na última assembleia-geral extraordinária do Conselho Deliberativo, a ABI, desde já, corre o risco de brevemente ser comandada por presidentes personalistas, manipuladores, continuístas e autoritários.  
 Segue abaixo a mensagem que enviei ao presidente Maurício Azedo sobre minha renúncia
Obrigado pela atenção e abraço
Lima de Amorim 

A CARTA

Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 2010
Ilmo. Sr. Maurício Azedo 
Presidente da Associação Brasileira de Imprensa   
Nesta

Caro Maurício: Comunico, a partir de hoje, minha renúncia como membro suplente do Conselho Deliberativo desta entidade, por discordar da decisão aprovada na assembleia-geral extraordinária deste colegiado, no dia 2/2/2010, que revogou o artigo 44 do Estatuto Social da ABI. Reiterando o que já disse de viva voz durante a Assembleia, discordo frontalmente da supressão do referido artigo, por considerar que a possibilidade de reeleição ad aeternum dos dirigentes pode comprometer o futuro da instituição, além de ferir os princípios democráticos pelos quais a ABI sempre lutou. Respeito as opiniões contrárias, mas entendo que o propósito original do artigo 44, limitando a reeleição para apenas um mandato, era importante. Além de estimular a renovação de quadros representativos, esse dispositivo era uma barreira contra a eventual ambição de dirigentes personalistas, manipuladores, continuístas e autoritários. A reeleição de dirigentes executivos por número indefinido de mandatos costuma causar graves danos, como a história de muitos povos e instituições já demonstrou, em várias épocas e contextos. Solicito que meu pleito seja comunicado ao conjunto do Conselho Deliberativo, bem como as razões da presente renúncia. Cordialmente,
Lima de Amorim

30 janeiro 2010

Bloco de hannotações - vício em imprensa


* A imprensa teve e tem tantos vícios que fica até difícil enumerar. Um deles, simpático por sinal, era freqüentar os botecos das esquinas, tradicionais pés sujos — lá onde se reúnem as fontes das notícias da vida. Hoje, os coleguinhas estão mais afeitos a fontes que dão outro tipo de notícia — fontes limpas, bem vestidas, engomadas e que preferem um 12 anos. Mas vamos aos vícios mais fáceis de se recuperar: os de linguagem! Deu no Terra notícias: “Cabañas passa por cirurgia, mas bala segue alojada”. Caramba: como alguma coisa que está “alojada” pode “seguir”? Ou bem segue, ou bem se aloja. Diguissonão, criatura!

* Pode parecer implicância... e vai ver até que é. Mas será que houve alguma reforma na maneira de se escrever para jornais e ninguém avisou aos pobres professores de redação jornalística, que continuam batendo nas mesmas teclas? Está lá, no lead de uma coluna de política de um jornal de hoje. Dois períodos: um de uma linha e meia; o outro, de 11 linhas. Até aí, pode-se até considerar que é uma questão de liberdade de estilo, porque desta liberdade quase ninguém reclama em jornais. Mas um período de 11 linhas com três (isso mesmo, 3!) orações intercaladas? Depois de ler três vezes para tentar entender o raciocínio do texto, resolvi dar uma pausa na playlist que tocava Robert Cray, achando que o blues estava ocupando toda a minha atenção. Li de novo. Humm... facissonão,  menino!

* A Fafá de Belém deve estar pagando um jabá monumental para ser citada em quase todos os telejornais — locais e de rede! Se a pauta tratar de algum assunto que envolva dificuldade, não dá outra: os queridos tascam lá: "não é tarefa fácil...". Leiam a frase em voz alta para ver no que dá. Não é o que eu digo? Os professores de redação telejornalística continuam ensinando que os "cacófatos" (êita!) são horríveis e estragam um bom texto de TV. Será que isto caiu com a reforma e ninguém avisou? Será que liberaram também o uso de  "havia dado", "tapa nela"... Expliquissoaí, tchurma!
Alegrem-se! Hoje ainda é sábado! Amanhã a gente descansa.
Beijos, muitos mesmo.
H.

Peraí! Peraí!!! Acabei de dar uma passada lá no Gordo Falante (link ali nos meus recomendados) e está im-per-dí-vel!  Hilário! Gordo Falante é blog do Utahy Caetano, jornalista que traz no DNA ter começado no JB, quando JB havia... Ele já lançou dois livros, que eu não comprei, não li e só vou recomendar quando ele me der um exemplar autografado — parece até jabá, pra conseguir uma boca livre...rsrsr. Grande Utahy! Passem lá e divirtam-se. O Gordo é bom.

29 janeiro 2010

Hã?!!!!

 O filho do síndico, que se acha o dono do playground

Parece piada pronta, montagem, mas é verdade. Encontrei lá no blog do Sirelli, o Andei Pensando, que vocês podem acessar da minha lista de recomendações ali ao lado.  O texto da postagem dele merece ser lido; tem credibilidade. Publiquei lá um comentário, para aplacar a vontade de falar dessa história. Aliás, achei lá outras coisa dignas de se recomendar: o blog do Andrei Bastos, que está fazendo uma petição pelo fim da dívida externa do Haiti — "O povo do Haiti não deveria ter que pagar uma dívida feita por ditadores não eleitos do passado, enquanto eles tentam se recuperar do terremoto", defende o Andrei. Acho mais que justo. Se quiserem aderir, o link para a petição está lá no blog dele e no pé desta postagem. Achei também  um outro blog que vai levantar polêmica, já pelo nome — HTP, de Homem é Tudo Palhaço. Me abstenho de comentários...rsrs. Também aderi ao Visão Suburbana — cultura e crítica na veia — e ao Mais pra Opa que pra Oba, musical pelo que andei vendo. Tudo da melhor qualidade! Confiram.

http://www.avaaz.org/po/haiti_cancel_the_debt_7/98.php?CLICK_TF_TRACK.

Coluna do Otelo

OLHEM BEM PARA ESTE HOMEM, QUE NÃO ESTÁ NOS JORNAIS

"Sob a égide de Lula, o Brasil se transformou em um país mais próspero, mais igualitário e mais saudável".  Estas foram as palavras com que o ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, saudou o presidente da República do Brasil, ao agraciá-lo, por intermédio do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com o Prêmio Estadista Global, o primeiro desta categoria. O discurso de Lula, que foi lido por Celso Amorim, começava com a frase emblemática, que resume as demandas e o credo do Fórum Social Mundial: "Outro mundo é possível". Vejamos agora como vão tratar o assunto os colunistas de plantão,  que ora reclamam quando Lula vai a Davos; ora reclamam quando ele não vai; metem o malho quando ele não vai ao Fórum Social Mundial, e o esculacham quando vai. Vá entender... Mas um coisa é fato: se os participantes do Fórum Social Mundial não entenderem que, ao estilo de Lula, eles conseguiram invadir os salões nobres da conferência de Davos e não pararem de acender fogueiras de ocasião na imprensa quando Lula vai lá, então perdemos de vez o foco de sinceridade na letra central do título do encontro paralelo.
Voltando ao tema
"Uma casa só é forte quando é de todos", afirmou Lula, que disse também que "o Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair dela, graças a essa mesma política". E afirmou ainda, do alto de suas vassouras de trabalho, e não apenas da bancada de presidente que ocupa, que é preciso "estabelecer regulações claras para evitar riscos absurdos que nos levem a outra crise". O otimismo e a capacidade de liderança, do presidente do Brasil foram elogiados por Kofi Annan: "Seu caminho de uma infância de pobreza até se tornar um estadista respeitado no mundo todo é destacável e deve inspirar a todos, porque, além disso, fez isso com sua luta contra as desigualdades de seu país e do mundo", afirmou Annan. "Sob a égide de Lula, o Brasil se transformou em um país mais próspero, mais igualitário e mais saudável". A imprensa brasileira deveria considerar isso um fato altamente relevante e dar a este expressivo mérito — que é do país! — o merecido destaque. E me pergunto: por que diabos a pressão alta do Lula mereceu mais destaque na primeira página do Globo e a honraria ficou diluída no texto? Por que raios um título que admite que o Brasil saiu da crise tem que realçar que, apesar disso, a indústria saiu mais fraca nas exportações? Por que, me digam, ao relatar as atividades do presidente que levaram à estafa e pressão alta, iluminam-se as viagens, com um pequeno e malicioso detalhe que o leitor geralmente "reconhece" sem perceber? Vamos à integra do texto, sob o título Dupla Jornada do Presidente, na primeira página da edição de hoje:
"Em 2009, foram 83 dias viajando pelo Brasil e 91 dias no exterior (três meses), visitando 31 países". 
Os parênteses que informam que 91 dias são o mesmo que três meses (desnecessariamente, na minha humilde avaliação, até porque  três meses não perfazem 91 dias nem por um cacete)  mostram a astúcia do apontamento do texto. Reação provável do leitor: "Nossa, três meses "visitando" 31 países! Uma vergonha!Igualzinho a todos os outros!. "Visitando", meus caríssimos visitantes, é o mesmo que passear, né não? Ou vocês estão em missão oficial quando "visitam"o Sobretudo? A diferença está em que as "visitas" puseram o Brasil no alto do pódium. Lula afirmou, ainda, que é preciso mudar de modelo, e é preciso fazer isso rápido. "Não sou apocalíptico, pelo contrário, sou otimista, mais que nunca nosso destino está em nossas mãos", disse, defendendo que "é o momento de reinventar o mundo e as instituições. O mundo perdeu a capacidade de criar e sonhar, e devemos recuperá-la". Mas não é isso que toda a gente  lê, vê e ouve na imprensa. A imprensa está apenas constipada? Ou seria preciso reinventá-la também?
Otelo Coelho
(com sutis interferências da assistente que acredita em liberdade de expressão, ao que Otelo salta um metro do chão: "será que ela estaria confundindo liberdade de expressão com liberdade de imprensa?)

Reflexos tardios

A vida é rude.
Há que se ter habilidade para passar entre os espinhos 
Habilidade também cochila, tem suas falhas
Não seria mesmo melhor se rasgar?

Dores não passam; adormecem.
Minutos de alívio com tempo contado entre as contrações
Não se nasce sem antes um  parto
Ainda assim é preciso nascer.

Um dia passa.
O útero do universo tem duas saídas iguais
Por uma delas se nasce aqui; enquanto pela outra se morre lá
Ainda assim, é melhor resistir.

A vida é rude.
Me deixo rasgar.
A vida é rude.
Me deixo nascer.
A vida é rude.
E é melhor resistir.

Cicatrizes são memórias dos equívocos
Luta contra espinhos inevitáveis
Dar à luz sem dor de parto
Ver nascer por um dos lados
Do outro lado, nem ver.
H.

27 janeiro 2010

Coisas mínimas de Hanna

CARNAVAL
No meio da multidão
foi-se perdendo o amor que senti
Era promessa de ouro dos tolos,
era igualzinho a ti.
Passou no meio de um bloco,
e agora vejo que nem percebi.
****

 COMO OS ANIMAIS 

Não sabia como era; fiz como fazem os animais
Ensinei antes de tudo, desde os primeiros passos,
o que é a liberdade. 
Seguiram cada um seus caminhos
E eu nem sabia que liberdade era assim
De repente me encontro com suas presenças
que me convidam a alegrias que jamais conheci.
Ave Tati, ave Leo, ave Du, ave Rafael e quem mais vier,
porque a casa é grande!

UMA LÁGRIMA 
Quanto tempo levamos  para saber de nós?
Quantos espelhos, até nos encontrarmos?
De repente, uma lágrima vem
Sem que se queira chorar
Traça um caminho, um desvio, uma rota
desenha no contorno do rosto
e da estrada que nos leva até lá
Seja lá onde esse lá for
O tempo é uma ilusão.



****
Barquinhos, cestinhas, bobagens;
costuras , curvinhas, retalhos;
desenhos, rabiscos, lembranças;
coisinhas de Hanna...
Amor. 


26 janeiro 2010

Coluna do Otelo: saudades do Henfil


Otelo é um coelho sabido que adora livros, mas não gosta de jornais. Para que não pensem que esta posição faz dele um antidemocrata, ele lê uma noticiazinha aqui, uma coluninha ali, mas sempre de jornais velhos. Notícia quente, para ele, pode queimar os neurônios da razão e da independência crítica. Otelo também não escreve; ele só pensa. Não é por covardia, mas por instinto de sobrevivência. É que ele considera sempre todos os riscos, do alto de suas orelhonas de coelho. Sua intuição intelectual diz que o mundo é dividido entre petiscos da cadeia alimentar e predadores. Ele acha que as duas posições são desumanas e não sabe qual delas é a pior. Por isso, evita o desconforto de se expor e vir a ser presa fácil de predadores vorazes e sem escrúpulos — o “sem escrúpulos” é por conta da assistente dele, que não pensa, somente escreve, mas fica indignada com o que lê.


Otelo vem de uma estirpe nobre, embora com ela não guarde parentesco algum. Coisas deste mundo animal, explica ele. Era ainda criança, quando se meteu com um grupo denominado Alto da Caatinga. Era uma época difícil, onde a porrada comia solta em quem pensasse em voz alta — escrever nos jornais então, nem pensar! Mas a liberdade era concedida aos animais, o que, de certa forma, preocupava Otelo quanto à sua reputação futura. Achava que a turma do porrete não incomodava seus iguais. Otelo morria de pavor de ser considerado um igual; igual àquela turma de predadores, torturadores, castradores... vixi! Por isto resolveu não falar, nem escrever. Hoje, em tempos de paz na Zona Sul do Sul Maravilha, com os traficantes se mudando com suas malas, cuias, sacolés, trouxinhas e armamento pesado para os subúrbios e baixada fluminense, lá onde o povo só não fala porque não tem voz, Otelo resolveu arriscar, embora ainda o preocupe as interferências da assistente-digitadora, que pode eventualmente metê-lo em alguma encrenca.
Pois bem: é de lá que vem Otelo. Aprendeu a devorar livros com o Bode Orelana, intelectual que acreditava no proletariado e lutava pela democratização das instituições sociais e políticas. Era o ídolo de Otelo, apesar de suas contradições! Mesmo quando a coisa apertava e Orelana medrava, cooperando com “as formas conservadoras de organização sociopolítica”, ele acabava encarnando uma espécie de autocrítica e esculachava os intelectuais da época, que se dividiam entre o vigor revolucionário, a covardia e a neurose. Otelo não entendia as contradições de Orelana e achava que eram apenas disfarce, para enganar os predadores da liberdade e da cultura. Nesta época, Otelo consumia apenas capim e, vez em quando, uma cenoura. Mas veio de lá sua sabidez.

Ao relembrar o passado, do alto de suas orelhas, Otelo se comoveu e resolveu usar o primeiro crédito da liberdade de imprensa que acha que terá. Ele entende de liberdade de imprensa como poucos, porque aprendeu a duras penas o que isso não é; sabe dos riscos e acha que jornalistas com liberdade de imprensa acabam todos como acabou Frei Caneca: no calabouço, escrevendo enciclopédias. É nesta hora que ele lembra das estratégias de fuga do Bode Orelana: Calma, gente! Não me confundam; eu sou apenas um pobre e pacato intelectual; não sou jornalista!



Mesmo assim, com este rasgo de pavor a predadores que às vezes o acovarda, Otelo resolveu fazer desta primeira postagem de sua coluna uma homenagem à turma do cangaço Alto da Caatinga, e seu imortal criador, Henfil.
Otelo Coelho
(interferência indevida 1: com auxílio luxuoso da assistente, uma fofa..)

Interferência indevida 2:  no quadrinho, entre Orelana e os cactos, aparecem umas orelhinhas e uns olhões assustados que a história não registra, mas  garanto que era Otelo...rsrsrs.




25 janeiro 2010

Chamada de primeira

Neste domingo, três novas postagens: (1) O presente musical do blog Hollywoodland para o Sobretudo; (2) "Estamos em guerra", crítica de imprensa; (3) "Aquela cigana", continuação da crônica de Buenos Aires, encontro com personagens. Teríamos também a estréia da Coluna do Otelo, com a postagem  "Coelho escaldado", mas a assistente dele não deu conta da tarefa. Também ficamos devendo o artigo prometido "O que seria das revistas, se não fossem as bobagens?", do Bloco de Hannotações. Fica pra depois.  Na sequência, daqui para baixo, o que foi possível postar por hoje. Espero que gostem da nova edição desta Hanna de Domingo! E se puderem, comentem, que eu fico contentem...rsrs.

24 janeiro 2010

Aquela cigana


Continuação da postagem A Cigana, de 13/01/2010 (arquivo)...


Eu não sabia como chamá-la; aliás, sequer sabia seu nome. Estávamos agora naquela constrangedora situação; constrangedora para mim, certamente; talvez não para ela, que demonstrava uma segurança e tranquilidade que eu desconhecia. Desta vez, nossos olhos estavam no mesmo nível; cara a cara. Ela, elegantemente distraída, como se aquele encontro fosse natural. Eu, vestida para jogging, descompromissada, suada e em viagem de férias. Como poderia encarar uma personagem que saiu sofrida de meu último capítulo, acusando-me de ter-lhe impedido de viver o que acreditava ser o grande amor de sua vida? Eu sentia um misto de pena e de culpa que não pareciam ter para ela a menor importância.  Displicentemente, ela manipulava os saquinhos de adoçante e os copinhos de água e suco de laranja como quem arranja as peças de um inquestionável xeque mate em tabuleiro de xadrez. Foram apenas alguns segundos de silêncio, antes que eu me desse conta de que não sabia o que dizer. Ela interrompeu o desconforto com uma conversa banal de quem, vivendo no lugar, indica a um viajante algum lugar de interesse turístico:
— Você vai gostar de Caminito — afirmou sem ao menos perguntar se eu já havia ido lá — Vai gostar mais do que qualquer um que já tenha ido lá como turista. Você vai se emocionar; vai conseguir ver com os olhos da alma. É um lugar pobre, meio sujo, caro em comparação com os lugares mais sofisticados de Palermo, por exemplo. Mas é impregnado de arte, de poesia, de amor de porto, que leva e traz e leva de novo e instala a dor da espera vã.
Disse a palavra "vã" com um gesto discretamente teatral, complementado pela pequena xícara de café que tocou-lhe os lábios, comandada pela firmeza do gesto das mão de unhas médias, pintadas de esmalte vermelho. Tive a impressão de ter percebido um leve toque de tristeza,q ue se apagou antes que eu pudesse me certificar.
— Deve ser bonito. É difícil chegar lá? Fica muito distante? — perguntei, com alívio, por finalmente termos iniciado uma conversa.
— Caminito é quase um beco; uma rua que foi transformada em rua-museu em 1959. Fica no bairro La Boca da cidade de Buenos Aires. É perto do estádio do Boca Juniors, La Bombonera. — ela disse isso com um leve sorriso, que a xícara de café rapidamente escondeu. Pensei que a referência a futebol fosse a deixa para retomarmos a verdadeira conversa que nos mantinha ali; porque, quanto a nós, nada distinguia o interesse por detalhes desta natureza. Mas ela seguiu com as referências ao lugar.
— Lá você pode ver de obras de arte de grande importância:, a artistas de rua que fazem um trabalho encantador:  O Retorno de pesca, de Benito Quinquela Martín, por exemplo; tecelões como Luis Perlotti, entre outros. Sábados e domingos, das dez da manhã às sete da noite, várias barracas vendem artesanato e souvenirs da região de La Boca. São caros e  excessivamente industrializados.  Mas acho que você vai gostar mesmo é dos casais dançando tango, com roupas caractarísticas, gestos dramáticos, ao som de Francisco Canaro, Carlos de Sarli,  Juan D'Arienzo, Piazzola... e tantos outros que falam de paixão, de amor, de sofrimento e... — neste momento, um pássaro pousou na janela baixa ao lado da mesa onde estávamos e ela interrompeu a dissertação que poderia conduzir a conversa à minha principal curiosidade.
A garçonete, ao ver que admirávamos a tranquilidade do recém chegado, apressou-se a explicar:
Las aves proceden de allí, jardín, el Botánico. Ellos ven a comer migajas de las mesas. Son mui bellas — a simpática interrupção da garçonete nos devolveu ao vácuo de silêncio e me fez perceber que o constrangimento era apenas meu. Ela parecia ter-se deixado envolver pela presença do passarinho, que levou seu olhar a se perder na direção do Botânico. A elegância dela vinha da tranquilidade. Senti um certo alívio da culpa que me foi impingida pelo choro dela, misturado ao riso, no último capítulo. Tudo já deveria ter passado; ou talvez não tivesse mesmo passado de um história.
— Está vivendo aqui há quanto tempo? — perguntei como quem se interpõem na porta antes que se feche.
 — Não muito tempo. Mas o bastante para saber onde ficam todas as coisas aqui. — disse com um sorriso que me dava a certeza de ser mesmo a tal cigana. As perguntas borbulhavam na minha mente; tinha vontade de saber detalhes de tudo o que havia passado desde o fim da história.
— Você... trabalha aqui? — perguntei como quem é empurrada porta a dentro.
— Não exatamente aqui; eu trabalho em muitos lugares; viajo muito. É o meu trabalho: coletar dados da vida em sua performance, digamos...
— Não me diga que é...
— Jornalista? Não, jornalista não — ela disse sorrindo, tornando o caminho mais fácil para a minha incontrolável vontade de esquadrinhar uma provável outra história.
— Sou pesquisadora em Ciências Humanas...— ela disse sem arrogância. Talvez gostasse mais de se dizer cigana.
— Como assim? — não contive o espanto. Afinal, ela era...
— Lembra do jornalista? — perguntou, logo emendando — aliás...escriba.
— Claro! Claro! — como eu poderia esquecer de uma de minhas mais caras personagens. O escriba, que ficava olhando a realidade e a vida dos humanos para relatar aos sábios, que depois deitavam regras sobre como são as coisas da vida. Mas se bem me lembro, ele estava a ponto de se apaixonar por ela, quando foi embora e deixou os sábios com suas "sabedorias". Ela parecia ter ouvido meus pensamentos:
— Ficamos muito amigos. Ele me ensinou tudo o que sabia, em teoria; em troca, ofereci a ele o que eu sabia por experiência de vida, digamos, humana.
— Demasiadamente humana... — completei a frase, provocando o riso que veio espontaneamente, nos fazendo lacrimejar.
— E ele, onde está? — perguntei como quem vai aos poucos invadindo a casa.
— Juntou-se à Associação dos Jornalistas sem Fronteiras e saiu pelo mundo, feito um cigano, contando para todo mundo com a vida realmente é. Jornalista independente. Está feliz assim, eu creio.
— Os sábios... — fui aos poucos me aproximando daquele universo onde a vida pulsava como se pudesse se tornar realidade.
— Os sábios se dispersaram. Sem um escriba, como mediador, nunca mais conseguiram entender nada do que pensavam. Sairam a "deitar regras", como você dizia. Mas como a realidade não se encaixava na teoria, dispersaram. Alguns estão dando aulas; outros, fazendo palestras; alguns escreveram livros e vivem de vendê-los para os alunos dos que dão aulas; outros, nem uma coisa e nem outra, mas se viram como podem, agenciando palestras para os que adoram falar. Apenas um deles permaneceu no Olimpo e continua tentando entender como tudo funciona: aquele que dormia, lembra? Ele fficou lá por uma certa preguiça que lhe era característica, mas também porque toda vez que dorme, sonha que está recebendo um Nobel — ela disse isso sem esboçar qualquer expressão de deboche ou humor. Como se fosse mesmo apenas constatação.
— É para ele que você trabalha? — perguntei, sem conseguir esconder uma certa decepção.
— Não. Eu trabalho para governos, que têm que fazer alguma coisa pelo povo, mas não sabem exatamente o que e nem como. Eu os ajudo a descobrirem "o que", porque a melhor coisa que a sua história me deu foi a vida cigana, de onde tiro toda a experiência que hoje é meu trabalho. Conheço bem esta realidade humana... demasiadamente humana. — ela disse a frase com um certo travo de tristeza, que eu preferi não questionar, e continuou — Estou tentado aprender a outra parte, o "como". Mas como diz meu amigo jornalista, ou escriba, se preferir, uma coisa puxa a outra e quando a gente dá por si, já sabe como fazer. Acredito muito na sabedoria dele, porque é um homem bom.
Não havia muito mais como evitar a pergunta que me torturava. Falei como quem se joga contra uma porta fechada, bem na hora em que alguém resolve abri-la:
— E aquele homem? — perguntei de um fôlego.
— Que homem? — ela perguntou sem demonstrar qualquer perturbação, parecendo sincera.
— Aquele homem, demasiadamente humano...
— Desculpe-me, mas aquele homem não existe.
— Como não?! — reagi com uma ênfase indisfarçável  E ela pausadamente respondeu:
— "Aquele homem", o "demasiadamente humano", não existe. Ele foi uma invenção da sua criatividade.
Não conseguia entender o que ela estava dizendo; onde queria chegar. Ou seria eu que não estava entendendo o enredo da história? Não, impossível! A história, quem inventou....
— Acho que deve estar havendo algum equívoco. Eu conheço a história...
— Claro que conhece; foi inventada por você.
— Mas você esbravejou comigo, obrigando-me a fazer mais um capítulo para dar conta da sua indignação por ter-se apaixonado por ele. Você chorou!
Ela não parecia impactada pelas minhas dúvidas e pela ênfase que eu colocava nas afirmações. Olhou calmamente o discreto relógio de pulso; virou-se para a janela e encerrou a conversa delicadamente:
— Preciso ir; e você vai acabar perdendo sua visita ao Botánico — disse sorrindo gentilmente, enquanto depositava, sobre a mesa, duas notas de cinco pesos e algumas moedas para pagar a conta. O desconforto pela elegância com que ela se portava novamente me constrangeu. Não perguntaria mais nada. No entanto, ela parecia perceber que eu não ficaria bem , se me faltasse uma resposta.
— Quem esbravejou e chorou não fui eu; foi você — e tirou da bolsa um papel dobrado de uma forma interessante, entregando-o a mim.
— Fique com isso. É um bilhete que o escriba me entregou certa vez, logo depois do final da história. Eu li, mas não entendi o que teria a ver comigo. Disse isso a ele, tentando entender o que queria dizer. Ele respondeu que se não servisse para mim, que eu o guardasse. Um dia serviria para alguém. Quem sabe pode servir para você? — disse, apertando o papel na minha mão. Nos despedimos sem muitas palavras.
— A entrada do Botánico é ali. Não deixe de visistar o Jardim Japonês; é lindo. E vá a Caminito. Poderá inspirar-se para novas histórias. Ah, aqui também aprendi a dançar tango; em termos de emoção, é muito parecido com as danças ciganas. Vou indo. Qualquer dia, quem sabe, nos encontramos outra vez. Fique com Deus.
— Vá com Deus... — respondi já sem qualquer intenção de fazer perguntas e obter respostas. Atravessei a rua em ligeira corrida, como quem foge de um pensamento. Não olhei para trás, temendo que a cigana tivesse desaparecido completamente e que nunca houvesse estado realmente ali. Depois me dei conta de que sequer havia perguntado como ela se chamava. Olhei o papel com aquela dobradura especial e tive vontade de não abrir; não naquele momento. Segui pela alameda principal do Botánico, pensando em Caminito e suas poesias da beira do cais.

Continua (e termina) na próxima postagem. Aguardem!


Beijos de Hanna, direto de La boca.











Presente musical de um jornalista de cinema

Pois é, pessoal! Pensam que todo mundo é que nem uns e outros que adoram o Sobretudo, mas não postam nem um comentariozinho banal? Pois Hanna acaba de ganhar um auxílio luxuosíssimo para as postagens musicais. Matheus Feitoza, jornalista dedicado a cinema, entre outras temáticas jornalísticas para garantia da sobrevivência, fez uma seleção bacana de hits dos anos 70, que acho que vocês vão amar. É o que está rolando, neste momento, no iPod Sobretudo, qualquer coisa. O blog do Matheus está na relação de blogs que leio e recomendo; chama-se Hollywoodland e comenta todos ( eu disse "todos") os filmes que a indústria cinematográfica do planeta consegue produzir. Não vá ao cinema sem ele! Hollywoodland, valeu!
Beijos, Matheus!
H.