Todos os caminho apontavam para lá. Não sabia se queria mesmo ir ou se o desânimo e indecisão eram fruto de um certo medo de que o trem saísse de vez dos trilhos. Sim, claro! As decisões repercutem, mas somente as decisões graves provocam realidades que nos podem fugir ao controle - o famoso "deu merda". O resto é bobagem, coisa pequena... Nada que não se possa transformar em vaga lembrança... e algumas guardam até uma certa graça, convenhamos. O perigo está na insistência. Se temos que insistir, seja lá com o que for, já estamos contrariando o ritmo natural das situações. Deixar pra lá é um santo remédio, sabia? E nada deve durar, no pensamento, mais do que o tempo que leva para se apagar o aroma do acontecimento. Ao olhar para trás, percebemos que os desastres que se abateram sobre nós foram fruto da insistência, do murro em ponta de faca... arf.. e quantos! A vida segue em seus próprios trilhos e é bom ficar olhando, constatando, deixando fluir. A isso esta tonta Hanna costuma chamar de libertação, plenitude e suavidade. Como é bom estar em plenitude de si mesmo. Melhor ainda se não nos sentimos instados a dialogar com os conceitos correntes dos que preferem estar no epicentro das difusas possibilidades. Estar por si não é o mesmo que estar só - o que aliás é humanamente insuportável... Mas só humanamente. Dizer isso me faz lembrar umas tolices de Hanna, que tinham gancho no louco do Nietzsche - humano, demasiadamente humano. Uma história da categoria do "vai dar merda...". E deu. Quem mandou insistir?Sobretudo, qualquer coisa ...
Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano IV
19 Março 2012
Demasiadamente humano
Todos os caminho apontavam para lá. Não sabia se queria mesmo ir ou se o desânimo e indecisão eram fruto de um certo medo de que o trem saísse de vez dos trilhos. Sim, claro! As decisões repercutem, mas somente as decisões graves provocam realidades que nos podem fugir ao controle - o famoso "deu merda". O resto é bobagem, coisa pequena... Nada que não se possa transformar em vaga lembrança... e algumas guardam até uma certa graça, convenhamos. O perigo está na insistência. Se temos que insistir, seja lá com o que for, já estamos contrariando o ritmo natural das situações. Deixar pra lá é um santo remédio, sabia? E nada deve durar, no pensamento, mais do que o tempo que leva para se apagar o aroma do acontecimento. Ao olhar para trás, percebemos que os desastres que se abateram sobre nós foram fruto da insistência, do murro em ponta de faca... arf.. e quantos! A vida segue em seus próprios trilhos e é bom ficar olhando, constatando, deixando fluir. A isso esta tonta Hanna costuma chamar de libertação, plenitude e suavidade. Como é bom estar em plenitude de si mesmo. Melhor ainda se não nos sentimos instados a dialogar com os conceitos correntes dos que preferem estar no epicentro das difusas possibilidades. Estar por si não é o mesmo que estar só - o que aliás é humanamente insuportável... Mas só humanamente. Dizer isso me faz lembrar umas tolices de Hanna, que tinham gancho no louco do Nietzsche - humano, demasiadamente humano. Uma história da categoria do "vai dar merda...". E deu. Quem mandou insistir?11 Março 2012
Impressões
Não preciso escolher. Não preciso ser escolhida.
Não há coisa alguma neste mundo que dure ou resista.
Pura ilusão, que a presença implica.
O melhor é fazer dormir o pensamento.
Apagar a impressão.
Seguir em frente.
Nada é tudo ausente.
25 Fevereiro 2012
Como Einstein via o mundo
Por ele mesmo...
"Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas. E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito. Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo. Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava. Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens. Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente. A virtude republicana corresponde a meu ideal político. Cada vida encarna a dignidade da pessoa humana, e nenhum destino poderá justificar uma exaltação qualquer de quem quer que seja. Ora, o acaso brinca comigo. Porque os homens me testemunham uma incrível e excessiva admiração e veneração. Não quero e não mereço nada. Imagino qual seja a causa profunda, mas quimérica, de seu sentimento. Querem compreender as poucas idéias que descobri. Mas a elas consagrei minha vida, uma vida inteira de esforço ininterrupto. Fazer, criar, inventar exigem uma unidade de concepção, de direção e de responsabilidade. Reconheço esta evidência. Os cidadãos executantes, porém, não deverão nunca ser obrigados e poderão escolher sempre seu chefe. Ora, bem depressa e inexoravelmente, um sistema autocrático de domínio se instala e o ideal republicano degenera. A violência fascina os seres moralmente mais fracos. Um tirano vence por seu gênio, mas seu sucessor será sempre um rematado canalha. Por esta razão, luto sem tréguas e apaixonadamente contra os sistemas dessa natureza, contra a Itália fascista de hoje e contra a Rússia soviética de hoje. A atual democracia na Europa naufraga e culpamos por esse naufrágio o desaparecimento da ideologia republicana. Aí vejo duas causas terrivelmente graves. Os chefes de governo não encarnam a estabilidade e o modo da votação se revela impessoal. Ora, creio que os Estados Unidos da América encontraram a solução desse problema. Escolhem um presidente responsável eleito por quatro anos. Governa efetivamente e afirma de verdade seu compromisso. Em compensação, o sistema político europeu se preocupa mais com o cidadão, com o enfermo e o indigente. Nos mecanismos universais, o mecanismo Estado não se impõe como o mais indispensável. Mas é a pessoa humana, livre, criadora e sensível que modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidade e de embrutecimento. A pior das instituições gregárias se intitula exército. Eu o odeio. Se um homem puder sentir qualquer prazer em desfilar aos sons de música, eu desprezo este homem... Não merece um cérebro humano, já que a medula espinhal o satisfaz. Deveríamos fazer desaparecer o mais depressa possível este câncer da civilização. Detesto com todas as forças o heroísmo obrigatório, a violência gratuita e o nacionalismo débil. A guerra é a coisa mais desprezível que existe. Preferiria deixar-me assassinar a participar desta ignomínia. No entanto, creio profundamente na humanidade. Sei que este câncer de há muito deveria ter sido extirpado. Mas o bom senso dos homens é sistematicamente corrompido. E os culpados são: escola, imprensa, mundo dos negócios, mundo político. O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência. Se alguém não conhece esta sensação ou não pode mais experimentar espanto ou surpresa, já é um morto-vivo e seus olhos se cegaram. Aureolada de temor, é a realidade secreta do mistério que constitui também a religião. Homens reconhecem então algo de impenetrável a suas inteligências, conhecem porém as manifestações desta ordem suprema e da Beleza inalterável. Homens se confessam limitados e seu espírito não pode apreender esta perfeição. E este conhecimento e esta confissão tomam o nome de religião. Deste modo, mas somente deste modo, soa profundamente religioso, bem como esses homens. Não posso imaginar um Deus a recompensar e a castigar o objeto de sua criação. Não posso fazer idéia de um ser que sobreviva à morte do corpo. Se semelhantes idéias germinam em um espírito, para mim é ele um fraco, medroso e estupidamente egoísta. Não me canso de contemplar o mistério da eternidade da vida. Tenho uma intuição da extraordinária construção do ser. Mesmo que o esforço para compreendê-lo fique sempre desproporcionado, vejo a Razão se manifestar na vida".