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26 abril 2009

Universos paralelos

Olá, queridos e sempre pacientes leitores! Voltei de uma viagem extremamente comum, onde o universo se embaralhou e me levou para o lugar certo... sim, porque o universo nunca erra. Mas poderia ter sido mais perto - do outro lado da baía - ou mais longe, na Califórnia. Mas foi lá, em BH. Publico aí ao lado a primeira foto só para ilustrar o que digo, passagem boba das minhas inevitáveis bobagens. Mas trouxe outras coisas pra contar, que não conto agora porque tenho factuais para comentar. De passagem apenas, porque de futebol só entendo do que o Botafogo faz ou desfaz, embora até já comece a conhecer o time para além das pernas. Sei quem é o tal do Emerson, o que só faz gols contra; e o Maicosuel, aquela figura que a cada jogo vai conquistando a chance de se superar e de superar o nome bobo que lhe deu o seu Rebit lá em Cosmópolis, no Paraná, naquele ano em que os raios das chances e oportunidades andavam caindo sobre o mundo.

Ao dizer isso, construo o gancho para falar do que realmente me interessa, já que esse empate entre Botafogo e Flamengo requer o adiamento da conversa para o domingo que vem. Quero mesmo é falar do Ronaldo, o Gordo, o Traveco, o sei-lá-mais-o-quê que andou rolando na imprensa esportiva e de cadernos de fofoca dos jornalões que constroem os destinos dos agraciados pelos raios que caem no mundo. É... o Ronaldo foi um agraciado, lá em um lugar do subúrbio onde as autoridades jamais pensaram em chegar e que ainda hoje não chegam, apesar do raios que caíram por lá. É bem verdade que alguns raios são daqueles que os antigos diziam "raios que os partam", mas que não podemos negar que fazem sucesso incontestável por aí, a Xuxa, por exemplo...ai! Mas de lá desse lugar chamado Bento Ribeiro, subúrbio da Central do Brasil logo depois de Madureira e antes da estação de Marechal Hermes, veio Ronaldo, o Fenômeno. Pois é... fenômeno foi invenção da imprensa, porque ele era apenas um cara, como o Adriano. Só que Ronaldo foi ficando por lá naquele jardim confortável da fama, driblando a vida que inventaram pra ele e fazendo merda porque ninguém nesse mundo é exatamente perfeito. Pois bem, amados leitores, o Ronaldo deu um show de bola hoje na Vila Belmiro, com a camisa do Corinthians, o Flamengo dos paulistas. Marcou dois em seu melhor estilo e deixou o time com a taça na mão - vai moleque, herói da parada!!!!!! Pois é, né? Depois daquele vexame nas previsões sobre a reeleição do Lula, a imprensa só tem dado bola fora. Talvez fosse a hora de deixar de lado a pretensão de de ser pitonisa, contentando-se apenas em contar histórias. E já que nada mais há a comemorar nesta terra de São Sebastião, viva Ronaldo, o paulista!!!!!!!
Mas se quiserem mesmo falar de futebol, passem lá no blog do Veríssimo, que deve rolar alguma coisa mais tecnicamente adequada : www.hsempreoqueserditooumnostradoouno.blogspot.com.

Quero ainda saudar a presença de uma leitora que não conheço, mas que se dispos a seguir minhas bobagens e fez isso publicamente, para a alegria desta que vos escreve. É... isso mesmo! Está lá no pé da página, onde se reunem os "seguidores" do blog, com foto e tudo. O outro, ao lado dela, é o Veríssimo, a quem já agraciei com todas as honras do blog e de quem recomendo o blog aí encima. Seja bem vinda, Márcia. Espero que se alegre com minhas histórias, se nada mais de útil houver. E quanto a ser última ou primeira, na descrição que faz de si mesma, tenho algo a ofertar, da minha caixa de penduricalhos, para lhe dar as boas vindas: saiba que o universo é rotundo, e assim nunca haverá primeiros e nem últimos. Todos estamos apenas juntos, igualmente, compartilhando o mesmo lugar. Divirta-se neste blog que fala de tudo, mas que sobretudo fala de qualquer coisa. Obrigada pela sua presença.
Hanna

21 abril 2009

Um comentário que merece virar postagem

A postagem que mereceu este elegante comentário é aquela do Adriano, que abandonou o Inter de Milão. A postagem já está em arquivo. Mas leiam o texto abaixo, que remonta uma das histórias mais inusitadas do futebol para além de nossas fronteiras físicas, mas muito próxima das nossas bordas emocionais.

O texto é de Anselmo Veríssimo.

Arthur da Távola, escreveu: "Ninguém sabe aquilo que nunca sentiu..."

Como jogador de futebol, técnicamente, tenho minhas restrições ao "Imperador". Mas, como não entender essa decisão? O turbilhão de notícias macabras e pouco inteligentes não nos dá essa possibilidade. Então, vem a Hanna e mostra.

Essa decisão do Adriano deveria servir para que todos aqueles que trabalham com os fatos vinculados ao esporte se encaixem. Algo do tipo: será que não somos nós os responsáveis...? Como incomodamos as celebridades...

Eu (e quem sou eu...) prefiro a informação edificante. Aquela que traz a emoção dos mortais, da gente. O Adriano não vai mais ajudar a vender jornais com seus golaços. Parece que isso incomoda muito. Menos um craque (?) na mídia?

Talvez! Mais um ser humano que volta pra terra. Que fique bem, entre nós.

O futebol deu ao jogador o que ele precisava: o BASTANTE (o que basta). A vida, agora cobra ao homem o que ele necessita. É simples assim. A droga que ele pretende consumir, por uns poucos instantes, é a chama da infância perdida em campos de treinamentos pesados, para ser um atleta de alto rendimento; o colo da mãe e do pai, que foi trocado por infinitas horas de concentação e poltronas de aeronaves. O dinheiro? É!!! o dinheiro...E daí? Não devolve aquele tempo de colo que faltou.

"...meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado. Quando penso no futuro, não esqueço o meu passado...desilusão...". A música do Paulinho da Viola pode dar uma pincelada nas imagens turvas que esses rapazes de redação, que nunca jogaram uma bela de uma pelada num campinho de terra batida, pensam ter da vida. Se é que pensam...

Boa, Hanna! Golaço...

Obrigada, Veríssimo!

H.

20 abril 2009

Ninguém pode reinventar a própria história. Deve ser por isso que eu escrevo...

19 abril 2009

Querida meia dúzia de três ou quatro leitores, acostumados à idéia de que qualquer coisa vale a pena se a paciência não é pequena: tenho algo a oferecer. Principalmente àqueles que reclamam a volta às bobagens quando me meto a dialogar com jornalismos. Pois bem, agora é bobagem com categoria - categoria de novela, conto longo, romance, ficção. Se em nada disso o esforço se encaixar, podem colocar na conta da mentira mal contada, que disso não me importo. Vocês sabem que considero que o mais importante é contar, keep in touch. Então o destino me fez encontrar com o fio da história que lhes vou contar. Sim, a história tem fonte original e verdadeira, embora os fatos sejam completamente inventados. Qualquer semelhança com a realidade de quem quer que seja é tudo, menos má intenção, intriga, maledicência, porque vocês que me conhecem sabem que não sou dada a torpezas de espírito. Ponham também na conta dos delizes de texto. Nossa... como estou distribuindo a conta! Puro medo do fracasso! Mas como ia eu dizendo, trata-se de uma história dividida em uns tantos episódios, que vou postando a cada domingo. Já sei o que vão perguntar os amados bisbilhoteiros de plantão de final de semana: mas quem é a fonte? Antecipo-me a esclarecer: alguém que existe e que acabou de me autorizar o desague, o transbordo, a exurrada de ser ver pelos olhos alheios. Alguém que passo agora a amar, para poder contar com generosidade a sua vida que vou inventar. Amor intenso e profundo, quase eterno, como se jamais tivesse amado em todas as tolas histórias da vida. Não há laços, compromisso algum, e o amor é pura retórica. Aliás, estamos inaugurando a liberdade, a qual nenhum de nós efetivamente está acostumado. Chances de desastres é a possibilidade do efeito colateral da vontade de escrever uma boa história. Portanto, tudo certo. O resto são fantasias de quem veio ao mundo apenas para amar.... ou para fantasiar e escrever histórias, tanto faz.

Episódio UM

A notícia não era nova, mas parecia cair como uma bomba, todos os dias, na mesa de trabalho daquele homem sóbrio, sério e tão ciente das suas medidas. O mais sólido dos mundos parecia desmanchar-se no ar. Naquela tarde, ele registrou entre milhares de números o de um amigo que o trouxera para aquele lugar. Consolava-o saber que o amigo conseguira uma razoável estabilidade financeira e que a compulsória demissão voluntária não seria assim tão desastrosa.
Aquele lugar lhe fora ofertado de mãos quase beijadas, quando decidiu abdicar do sonho juvenil de ser um atleta profissional bem no momento em que o sonho já se tornava quase real. O Sol brilhava na sua vida, mas não considerava que um sonho pudesse realizar a noção plena do que entendia como realização profissional. O que era, na prática, a realização profissional ele ainda sequer podia imaginar.
Mas o que são os sonhos? De que são feitos? Para que servem? Onde me levarão? Eram questões demais para quem necessitava apenas de respostas. Naquele momento, apenas respostas. Mas de uma coisa, embora não tivesse certeza, certamente tinha medo: não poderia bancar seus próprios desejos, não daquela maneira como se apresentavam, assim tão exclusivamente seus. Era preciso, de alguma forma, devolver ao pai a felicidade que ele perdera em algum canto da vida. Dignidade e estudo - eram essas as palavras que indicavam a trilha por onde deveria seguir. E isso não tinha nada a ver com a fama e o reconhecimento público que tantas vezes imaginou ao receber alguns trocados por vencer umas partidas de futebol em pequenos clubes da cidade. O espaço do sonho era largo – fama, reconhecimento, aplausos, ser a referência. Mas ainda eram muito vivas as impressões de uma vida que lhe deixou sempre em falta. Carregava como fardo leve a imagem do pai que tanto amava. Era preciso compensá-lo da dor que era só dele, com o que pudesse oferecer em sacrifício do que fosse só seu.
Nunca se dera conta de que abdicara de algo importante ou que fosse realmente seu. Nunca se dera conta de que trocava a essência de seu ser pela fantasmagoria de apenas uma imagem ideal. Não tinha muito a oferecer, além do sonho juvenil. Depositou o sacrifício no altar da ingenuidade e tomou para si, em troca, o orgulho. Em lugar do reconhecimento, o orgulho que ele sorveu de apenas um gole, quando entrou para aquela empresa em posição de funcionário público. Era apenas um menino e já tinha a garantia de emprego, salário digno. Tudo o mais se apagou. Precisava agora estudar para completar a tarefa; e fez isso apenas para portar um título que jamais usaria. Mas cumpriu o que considerava seu dever.
E agora, tarefa quase cumprida, a história reabre e desfaz o que ele fez. A empresa fora privatizada há doze anos, mas ele não considerou que os seus projetos enquadrados estivessem aí envolvidos. Na verdade, acostumara-se à linearidade da realidade acomodada. Aprendera a trocar as emoções pelos deveres e necessidades. A figura paterna ocupava todos os espaços; ao mesmo tempo, urdia todas as contradições. Deixou de lado os sentimentos – era melhor não sentir coisa alguma do que ter um mal sentimento que ferisse a lógica dos amores consagrados. Na verdade, ele não conseguia olhar para dentro de si, confrontar-se com seus sentimentos. Talvez ainda não tivesse a noção de que amar é diferente de sofrer; ou talvez tenha acolhido em si o que considerou ter sido a desdita de seu pai.
Aos trinta anos, deixou que escrevessem com as tais mãos beijadas mais um capítulo de sua história. Mas as compensações lhe pareciam maiores que os sacrifícios desta vez – uma mulher bonita, atraente, corpo perfeito. Mal a conhecia para além dos atributos quando abrigou-a em sua casa depois de um incidente. E lá ela ficou, com seus dois filhos, por 18 anos. Casou-se sem que tivesse planejado. E planejou o resto da vida como se tivesse escolhido ser assim. Construiu uma bela casa, criou os filhos como se fossem seus, criou cães, trabalhou e cumpriu com dignidade e honradez o seu papel. Os sentimentos não pareciam ser necessários, diante de tanta responsabilidade e seriedade.
E agora, aos poucos, ele vai ficando nu, despido das roupas que lhe vestiram. A última e mais importante das peças, chapéu nobre, está prestes a cair. Hora de limpar os armários, ele diz, comprar roupas novas. Vida nova! Quanto de sacrifício ele estará disposto a empenhar desta vez?

18 abril 2009

Conversinha fiada

A insistência é uma espécie de equívoco de direção. Se é preciso insistir, é porque há resistência do que vem de lá. É como estar com o nariz encostado na parede, tentando atravessar, sem se dar conta de que a saída é para o outro lado, para o lado de lá!!!! Insistência é resíduo da teimosia. Os teimosos são conquistadores, interessantes, decididos, sabem o que querem; mas os insistentes são apenas equivocados, meio míopes, com os pés virados para as costas. Só andam para o lado errado. A insistência é prima irmã do desastre. E o pior é que apesar de primos em primeiro grau, não se dão e jamais se entenderam; se apontam mutuamente como os culpados da situação, acusam-se entre si e choram cada um para seu lado. Nem solidários são! Resíduo de teimosia é como lixo contaminado de usina nuclear: o que sobra daquela energia que ilumina tudo (a teimosia é meio assim), pode matar sem piedade (a insistência às vezes é meio assim). O universo não leva em conta a insistência, porque tudo está corretamente em seu lugar e assim seguirá sendo - nem adianta insistir. A realidade não consegue se abaixar tanto para ouvir a voz pequena da miúda e residual insistência. Mesmo que a insistência consiga imprimir alguma marca nos fatos, serão marcas irrelevantes, que se apagam facilmente, perdurando apenas no esforço inútil do insistente. A realidade é harmônica, em paz, muito melhor do que supõe nossa insistente fantasia.
É como diz o ditado: "Deus só nos castiga quando nos faz a vontade".
E a todos um final de semana de muita paz.
Hanna.

17 abril 2009

Eu estava escrevendo uma história baseada no mapa astral do personagem principal. Mas de repente o mapa sumiu. Não sei onde foi parar. A história parou. Não sei como continuar, mas pode ser que dia desses eu resolva inventar um novo enredo; completar por minha conta e risco. Histórias são assim: elas começam e depois a gente inventa o final que vamos contar pra todo mundo. As histórias inventadas são sempre melhores do que as histórias reais. Um dia eu conto, prometo.
H.

"A minha próxima vida", de Wood Allen

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí viro um bebê inocente até nascer. Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto a disposição e espaço maior dia a dia, e depois - Voilà! - desapareço num orgasmo.

Bonitinho, né? A cara do Wood Allen...rsrsr. Obrigada pela colaboração, Max!

Confidências botafoguenses de Hanna

Pensei que jamais falaria desse assunto - muito menos em primeira pessoa. Mas acabou sendo quase que uma história pronta, da forma como o final do enredo acabou se apresentando. Vinha eu de minhas altas conjunturas - sim, porque não é pelo fato de eu ser uma Hanna chorona, bobona, banana que não tenho credenciais simbólicas que me autorizem a transitar elegantemente neste mundo de meu Deus. Mas voltando ao tema: vinha eu em final de quinta-feira, direto para casa, quando ao passar na porta do Pavão Azul, pé sujo de estirpe, resolvi parar numa espécie de pit stop para relaxar o resto da noite. Primero chope no capricho, pastel de camarão como convém, e começou o jogo do Botafogo que eu nem sabia que iria ocorrer. E aí eu fiquei. Obviamente que não vou narrar o jogo pra vocês. Até porque não sei sequer o nome dos caras, embora garanta que poderia diferenciá-los pelas pernas. Mas o jogo foi apenas pano de fundo para reminiscências às quais vocês já sabem a que sou dada. Foi na conquista do título do último campeonato carioca, pelo Botafogo, que me despedi de uma das minhas várias encarnações; aliás, aquela que durou quase que uma encarnação inteira. Acho que foi exatamente ali que me apaixonei pelo escudo alvinegro. Talvez tenha sido apenas porque não sei viver sem paixão, mas o fato é que depois desse dia, sozinha - ou livre, como queiram - eu não mais consegui me descolar das atividades deste time de futebol. E estava lá eu pensando nisso, olhando a movimentação em campo pela Sport TV, quando me dei conta de que sou botafoguense quase doente, daquelas que sofrem na derrota e querem comemorar todas a vitórias. Terminado o jogo, naquele vexame ridículo de pênaltis onde provamos não ter goleiro, fiquei novamente pensando na possibilidade de ir a Maracanã no domingo ver a decisão entre Botafogo e Flamengo. Quem sabe aí reinauguro uma outra encarnação onde o Fogão será novamente campeão. Marcos históricos, para quem acredita que a vida é feita de intervalos. Boa noite, ilustres botafoguenses. A vocês, as horas de sono que dediquei a este texto sem inspiração, mas cheio de boas intenções. E com não pode faltar, amor.
Hanna

15 abril 2009

Filosofia de internet

Não trate como preferência quem te trata como opção...
É, pode ser...rsrsrsr.

H.

Arquivo geral!!! Preciosidade!! Torquato Neto

Jards Macalé e Paulo José intepretam Torquato Neto, aquele que ficou de saco cheio, mandou parar o mundo e desceu. Mas teve a delicadeza de dizer "Adeus", entre outras generosidades. Vejam essa!!!!

Historieta para redecorar caquinhos

Ei, menina! Ei!!! Olha pra cá! O que está fazendo aí sozinha? Ah, não chora.... O que houve? Onde está sua mãe? Hã? Fale alto! Não estou escutando! Venha cá...me dê a mão. Vou te levar para a sua casa. Me mostre onde é. O quê? Nossa... Tá bom. Vem comigo; eu te ajudo. Tudo vai ficar bem.
Chora não...
H.

14 abril 2009

É primoroso! Eu sei que já postei este vídeo no ano passado, mas vale repetir, acreditando que este ano tenho leitores novos...Yeah!!!!
Hanna Metida a Bacana


13 abril 2009

Aforismos de Hanna

Há coisas na vida que só foram boas porque não duraram tempo suficiente para serem ruins. No fundo, é disso que é feita a saudade...
Hanna Banana

12 abril 2009

A realidade como discurso

O jornalismo de elite tomou uma calça arriada com a decisão "inusitada" do jogador Adriano de deixar o que o Globo chamou de giardino dei Finzi-Contini* do futebol italiano - para quem será que essa galera pensa que está falando? Pois bem: as notícias não estão acostumadas a serem contrariadas. Como falar de um ídolo que fura a maior bola cheia de sua vida? Como explicar para o estimado leitor? Sim, porque o jornalismo na terra de Adriano não se contenta em narrar os fatos; tem que explicar a história, dar-lhe razoabilidade dentro dos padrões da moral e da estética das classes hegemônicas. Difícil explicar que um seja-lá-quem-for troque a fama pela perspectiva, mesmo que incerta, de ser feliz. Mas como tem jornalista para tudo, a "página móvel" do jornal categorizou logo a notícia: O banzo de Adriano. Não se preocupem com a expressão "banzo". Os jornalistas explicam logo nas primeiras linhas do texto o que é banzo - entendem que os leitores não sabem o que é banzo, ao contrário da história do giardino, que acham que não precisa de explicação. Banzo, segundo contam, era a saudade letal da terra mãe África que acometia os escravos. Muitos morriam de inanição, outros de suicídio. Um discurso que retoma a dor dos negros, escravos e desvalidos. Teria isso algum ponto de comparação com a saga de Adriano? Para além do hoje, talvez sim. Um negro que guarda em sua memória histórica a dor de todos os degredados da África. Mas o que fez com que o jornalista sacasse essa comparação, ao invés de outra qualquer? Talvez sua memória histórica, que está do outro lado do continente africano e de onde jamais tivera que sentir saudade. Vê-se aí de que lado da história o jornalista observa os fatos. Mas como explicar, meu senhor! Sim, porque, repito, jornalismo por essas bandas tem mania de entregar o prato feito. Como explicar uma história como essa? No caderno de Esportes o cara já não cabe! Vai pra tal da página móvel, onde jornalismo pode até ser ensaio poético - e haja ensaio! E lá pegaram tudo o que tecnicamente poderia compor a notícia - infância trágica, favela, subúrbio, pobreza, drogas, alcoolismo, sexo compulsivo, e por aí vai. Um jornalista apenas não seria suficiente para explicar tanta desnotícia. Tem lá o outro, naquela coisa técnica de oferecer o contraditório, até quando os próprios fatos enredam sua contradição. E o poético jornalista, depois de sacar até uma ultrapassada AR-15 e todo o "clã" de traficantes mortos da Zona da Leopoldina, mandou essa: "Bonsucesso Blues: o suburbano coração bate mais forte, seguro, confiante nos locais onde não precisa marcar gol para ser rei". Apequenou com bela frase o Adriano ídolo, o Adriano que cagou pra fama. É mesmo muito difícil falar diferente daquilo que somos; dar espaço ao outro possível. A realidade de Adriano já começa a virar apenas uma versão - versão que sai de um lugar que não fala a mesma língua dos degredados da África, ou dos reféns das favelas da cidade, e que no máximo considera a possibilidade de proteção que oferecem os jardins dos Contini. A versão dos vencedores, se me permitem a acidez da referência. Versão daqueles que explicam que a boa realidade é aquela construída do lado aprazível de um túnel que nunca conseguiu unir a cidade, que nunca conseguiu deixar o outro lado fazer sentido. Estão aí as notícias de jornal para lhes guiar a vida, a compreensão, o sentido, o nexo, caros leitores. Daqui em diante, Adriano corre o risco de acabar virando assunto da Editoria Geral - lá onde os jornalistas da página móvel foram buscar o passado inglório para o qual acreditam que o jogador está voltando, depois de sair do conforto dos jardins alheios. Vejam só com quantas retóricas sorrateiras se destitui um ídolo que teve a ousadia de querer escrever a própria história e acabou derrubando a porra da notícia.
Salve, Adriano!
Hanna.

* Explicando os giardino, do jornalista da página móvel:
É um filme de Vittorio de Sica, de 1970, sobre os Finzi-Contini, uma das importantes famílias da Itália. São aristocratas, ricos e judeus. Os filhos mais velhos - a bela Micol e o refinado Alberto - sempre reúnem os amigos para disputadas partidas de tênis, além de promover festas muito alegres. Mas eis que os italianos fascistas se aliam aos alemães nazistas, dando início à perseguição dos judeus. Os ricos Finzi-Contini irão abrir os portões de sua mansão para abrigar os amigos perseguidos.
Entenderam agora o que o jornalista móvel quis dizer?

11 abril 2009

A lua apaixonada por Saturno

Deu no The New York Times. Cientistas descobriram que Titã, a maior lua de Saturno, possui dunas de areia, lagos de metano líquido e, quem sabe, até vulcões glaciais. Howard Zebker, o cientista da Universidade de Stanford que participa da missão Cassini - que bisbilhota a vida da mais importante lua daquele planeta vaidoso, cheio de anéis - diz que ela é uma lua "achatada" e que esse achatamento se deve ao fato de que a pobrezinha sempre teve a mesma face voltada para Saturno. E Saturno, com sua poderosa força gravitacional, provoca nela grandes marés. E o resultado desse idílio planetário, segundo os cientistas, é a formação de lagos de metano, concentrados perto dos pólos, semelhante a um lençol d'água na Terra. Apostaria eu e minhas tolices nada científicas em uma espécie de gozo astral. E digo isso baseada nas palavras dos bisbilhoteiros de Stanford! Eles também disseram que Titã é "ligeiramente saliente ao redor de seu centro". Não é o que eu digo?Palavras deles!!! Está no The New York Times! Eu exagero, mas não invento! Se os astros afetam o tempo, as marés, os humores.. porque não os amores? Vai ver que o desejo vem de lá, daquela lua absolutamente envolta em marés de metano, provocadas por aquele monumento que é Saturno.
Acreditem; é fato! E elazinha, na foto, é aquela coisinha redondinha e alaranjada à direita do grande astro.
Hanna Bobona

10 abril 2009

Salve, Adriano!!!!

Se todos tivessem a coragem de fazer o que fez o Adriano com o Inter de Milão, o mundo não seria esse vai-no-monte onde se vende gato por lebre e ilusão por felicidade. É isso aí, Adriano! Vem ser feliz do teu jeito, com a tua gente! É como diz a música: "...pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para se feliz."
Hanna Bacana

07 abril 2009


Queridos e parcos leitores,
Peço licença para abusar da sempre aconchegante companhia com que distinguem esta malfadada pretensão de escritora. Não tenho tentativas de texto ou poesia sem rima para lhes apresentar, mas peço um minuto da sua atenção, se não for atrapalhar o seu silêncio e a sua viagem - tal e qual fazem os ambulantes que vendem "mercadoria de primeira" nos ônibus da cidade.
Desta vez não trago mercadoria, daquelas que recolho pelos caminhos das minhas vidas-viagens. É só uma conversinha rápida, sobre alguma coisa que já há tempos me ocorre, feito uma lembrança que esqueceu de se apagar. Era um documentário da CBS que eu editava para um programa de TV naquela minha encarnação de jornalista. Já nem lembro se foi ao ar, de tão dramático que era. Houve um tempo na TV brasileira, acreditem os mais jovens, onde se considerava o sofrimento e a dor como algo a se resguardar e tratar com outros remédios que não o espetáculo e o exibicionismo. Pois bem: eram pessoas com as mais graves deformações que davam depoimentos sobre como conseguiam viver em mundo que exige o máximo da perfeição estética e vende toneladas de produtos para que os menos dotados se disfarcem e sigam na disputa pela aceitação. Dentre os personagens, havia um menino de 9 anos - este que nunca mais me saiu da memória e agora apresento a vocês. Ele nasceu com uma deformidade que afetava não apenas a parte externa de seu corpo, mas também a estrutura óssea, tornando quase impossível amenizar seu sofrimento através de cirurgias. Ele parecia um peixe. Isso mesmo! Imaginem o formato de um peixe: cabeça e rosto compridos; orelha como guelras; não havia nariz... e os braços pareciam pequenas barbatanas. E ele, coitadinho, não sabia que era assim. Fora protegido dos espelhos por longo tempo na vida. Na primeira infância, causar espanto para ele era como brincar de esconde-esconde... e ele até sorria com o que mal parecia ser uma boca. Á medida que foi crescendo e tomando contato com a ideologia da beleza no mundo, começou a ver que não era igual e quis se ver. Neste momento, o choro interrompeu a narrativa daquela voz que mal se conseguia entender... e a edição original da matéria deixou que o choro se prolongasse, emocionando a todos que reeditávamos aquele VT. Choramos copiosamente quando o menino retomou a fala e declarou como última frase da reportagem: "But I'm cool... I'm lovely, like everybody... I'm beautiful inside..."- Eu sou legal... sou amável como todo mundo... sou bonito por dentro...
Agora lembro que a matéria acabou não indo ao ar. Era muito constrangedora para um mundo que cada vez mais julga a si mesmo pelas aparências. Não era aconselhável incomodar o domingo das famílias perfeitas com a dor de uma aberração. Não me lembro se reclamei, se lutei pela matéria, reclamona que sou. Mas isso agora não importa. O garoto certamente nem existe mais. O destino cruel o agraciou com um perspectiva curta de vida. Não chegaria aos dezoito. Mas eu nunca mais esqueci... e nem sei porque agora tenho me lembrado tanto disso.
Algum motivo deve ter, para quem não acredita em acaso. Mas como meu sexto sentido anda em baixa, arrisco apenas uma interpretação banal: as aparências enganam, para o bem e para o mal. Hummmm...frase feita, pobre, sem qualquer efeito prático, mera bundice de quem precisa correr porque já está perdendo a hora.
Com muito, muito amor aos meus amigos lindos e perfeitos, sejam eles como forem.
Inté!
Hanna Banana.

06 abril 2009

Pegando carona em pensamentos alheios

Aos 104 anos, Barbosa Lima Sobrinho escreveu seu último artigo para o Jornal do Brasil. Aos 100, Oscar Niemeyer planejava construir um centro de discussões filosóficas para falar sobre tudo e qualquer coisa. Será que hoje, aos 101, já terá conseguido? Cora Coralina, poetisa em um tempo e um lugar em que ler não era assunto de mulher (que dirá escrever), viveu produtiva e poeticamente até quase 100 anos. Aos 50, ela relata ter passado por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde, apenas mais tarde, como "a perda do medo". Já Drummond, dentre os longevos, foi meio covarde: escondeu a vida inteira um amor clandestino. Mesmo assim, com as duras penas por que passam os que se impõe guardar segredos, ele amou até seu último instante. Já Einstein não viveu tanto, morreu aos 76, talvez porque tenha gasto todo os minutos da sua cota fazendo aquilo que amava. Um físico sem-medidas! Considerado um gênio, publicou quatro dos artigos mais importantes do século XX. Mas resvalou para o mundo dos comuns mortais com a alegria estampada na imortal careta. Se não fosse físico, seria músico, disse ele um dia. É... na vida tudo é arte. Madre Teresa de Calcutá, que viveu em missão até os 87 anos, entrou em crise espiritual por volta dos 50 - "Tão profunda ânsia por Deus...e repulsa, vazio, sem fé, sem amor, sem fervor. Almas não atrai. O céu não significa nada - reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959: "Se não houver Deus, não pode haver alma; se não houver alma então, Jesus, Você também não é real". Era uma mulher que não sabia esconder, nem mesmo com tamanha dimensão, o que quer que fosse... nem mesmo suas questões, angústias, desamparo - ao contrário de Drummond. Mas a pobre Teresa não abriu mão do que acreditava apenas por si e seguiu pelos caminhos da longa vida fazendo pelos desvalidos da humanidade o que lhe competia. Linda e pobre Teresa de Calcutá.
Jorge Luiz Borges, aos 85, descobriu que não era imortal. Talvez, na verdade, tenha descoberto que uma vida era pouco para quem tinha tanto a oferecer, tanto a querer conhecer - filosofia, metafísica, mitologia, teologia!
"Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que só tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos, não percas o agora". O "agora" é o "sempre" do final da história. Podem estes personagens não terem sido mais felizes, não terem amado tanto, não terem se perdido tanto. Mas ao olhar para trás, tiveram boas e grandes coisas do que se arrepender. Ainda bem que todos os gênios e espíritos grandiosos só se arrependeram de não terem feito diferente quando a tarefa já estava concluída. E para Borges, certamente não teria sido suficiente ter sido apenas um, ele mesmo, do jeito que era: um virginiano.
Ave, todos!

Ei, Sel, obrigada pelo gancho que me inspirou este textinho sem-vergonha.

05 abril 2009

04 abril 2009

Cheguei cheia de textos.. mas encontrei um Gonzaguinha no caminho...

Conversinha boba entre gêmeos e aquário

Ainda não era meio dia e o Sol mostrava seus raios com extrema humildade para quem é astro rei. Nem os mais esotéricos poderiam imaginar que naquele momento haveria uma concessão astral, de tão discretos que eram os sinais. Nem mesmo os xamãs se deram conta de que as portas amplas do universo discretamente se abriam, deixando vazar luz tão intensa, que seria capaz de ofuscar até o Sol. A luz que vinha de lá inundava tudo - montanhas, mares, nuvens, ventos, tudo o que sobre a Terra já fora criado. O êxtase infiltrava-se mansamente pelos poros vibrantes dos seres e do planeta - alegria estranha que exultava sem ter porquê. E de repente, uma multidão, tocada pelo calor da intensa luz, acorreu em direção àquele rio largo de correnteza incerta, que fluía para todo lado. Desejavam todos atravessar a porta e buscar a pedra mágica de onde emanava tamanha claridade. O universo, naquele instante, era aberto e receptivo e a todos deixou entrar. No afã de encontrarem a fonte e trazer para si um pedaço de luz, atropelaram-se uns aos outros e guardaram nas mão fechadas o que conseguiram pegar, cada um o seu cadinho. E a razão aconselhava a todos com o velho adágio - "mais vale um pássaro na mão do que dois voando!". Era suficiente o que conseguiam levar. Mãos fechadas, apressaram-se a voltar para os seus lugares de sempre, suas preocupações e dores de sempre, seus sonhos e desejos sempre iguais. Mas desta vez, pensavam todos, eles tinham uma pedra mágica que produzia a alegria, o êxtase, o calor e a luz. Tudo estaria de acordo e suas vontades seculares seriam realizadas. Alguns, ao chegarem de volta, abriram logo as mãos para começar a usufruir da realização dos desejos postergados. Mas, incompreensivelmente, as mãos mostraram-se vazias...não havia nada lá. Outros, assustados e ansiosos, abriram as mãos lentamente e encontram apenas o medo, quebrado em pedacinhos que se multiplicavam a cada olhar. Outros sequer abriram as mãos para não deixar vazar nem um pouquinho de valioso achado. Estes nunca souberam o que havia exatamente ali - se tristeza, se alegria, se amor ou redenção. Outros, ainda, foram abrindo as mãos aos pouqinhos, na esperança de fazer demorar o instante mágico de ser feliz, tão acostumados que estavam com as expectativas e as desilusões. E à medida que lentamente abriam as mãos, a luz ia-se esvaindo, misturando-se à vida, tornando-se a tudo igual. Sentindo-se desiludidos e ludibriados, voltaram-se todos para o lugar de onde veio aquela luz. A porta já estava fechada. Do lado de fora, em um carnaval de enexplicável alegria, estavam os frágeis, o sensíveis, os receptivos, os intuitivos, os esperançosos, os xamãs, os bruxos, as feiticeiras, as crianças, os sábios, os esotéricos, os malabaristas, os poetas e alguns outros que o manto do segredo não deixava ver. Todos aqueles que geralmente ficavam sempre atrás e nunca conseguiam entrar. Os últimos, entre aqueles que sempre chegam primeiro. Estavam todos banhados em intensa luz - sorriam e amavam-se de mãos abertas, corações abertos, mentes quietas; não pareciam precisar de mais nem um pingo de luz. Tinham o que lhes bastava sem nem ter tido que buscar. Com as mão abertas para o ar, bebiam direto da fonte clara de um universo que está sempre lá - um universo que só tem portas para aqueles que precisam de portas para conseguir entrar.

A essência da liberdade está no ato de mudar de idéia - porque é fácil contrariar a vontade de outros; o difícil é contrariar a vontade de si mesmo.
Como de sempre, amor.
Hanna


PS.: Em Goiás, a partícula verde luminosa era Césio 137. Mas aquelas pessoas que foram contaminadas poderiam estar alinhadas com os frágeis, os ingênuos e os poetas. Os últimos entre os que chegam primeiro. Eram apenas ignorantes, deixados de lado pelo poder público que geralmente, ao abrir a mão, transforma em lixo o que o universo oferece como solução. A todos um fim de semana de paz.

31 março 2009

30 março 2009

Joana é mais uma mulata triste que errou...Errou na dose, errou no amor, Joana errou de João. Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal. A dor da gente não sai no jornal.
Chega...Cansei de escrever.

Fim
"Notícia de Jornal" - Haroldo barbosa e Luiz Reis

Que lindo de se ouvir....

29 março 2009

Coisas de Hanna

Um bom texto, reza a lenda, deve ter começo meio e fim - aliás, como tudo na vida. Mas devo confessar que tenho uma certa dificuldade com os últimos parágrafos. Nada que uns dois ou três sofrimentos não resolvam. No final, texto redondo, a vida segue... ou será que eu não sei ler?

Historieta para redecorar caquinhos

Sem limites encontrou sem medidas e foram juntos passear. Deram-se as mãos, que se encaixaram perfeitamente, e começaram a buscar aonde ir. Mas como? Se não há limites e nem medidas, fronteiras também não há. Pode-se ir ao mesmo tempo a todo lugar! Resolveram então dormir, já que a liberdade, era certo, estaria sempre lá.
Ilustração sobre foto de Anselmo Veríssimo

28 março 2009

Pensamento mágico e desejo real

A noite estava calma, com uma brisa leve que vez ou outra trazia o cheiro do mar. Ele parecia seguro de sua posição naquele emaranhado de pensamentos, que ela oferecia em desconcerto, em uma fina aflição do não saber... não saber o que estava, ela mesma, desenhando no universo com seu desejo.
- Sim, você pode colapsar outras possibilidades, novas realidades - explicava ela na tentativa de convencê-lo da verdade que, no fundo, ela tanto temia. Sim, você pode decidir o que será. O que será? A intimidade com as perguntas não a protegia do medo das respostas. E ele, semblante suave, parecia saber e guardar o segredo, com um sorriso que indicava que a resposta estava bem ali. Mas ela não conseguia ver; precisava das bruxarias de um xamã para antes poder crer. Era um esforço inútil, debater-se buscando parâmetros antigos para enquadrar o novo. Então se deixou ficar, sem esforços para desenhar um si-mesma melhor do que na verdade era; para se transformar no que quer que fosse para ser recebida e amada. Estava cansada. Ao depor as armas e romper as amarras, ela simplesmente sorriu. Aí então começou a ver: ao universo não importa como você pensa que a felicidade é; ao universo basta apenas saber que você quer ser feliz. Ela começou a se mesclar à serenidade dele, aconchegando-se a uma intimidade que se foi desenhando no ar. Ao fundo, um som dizia "minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro...". À frente, o mar; lá longe, a janela para um outro lugar. O pensamento serenou... já não era preciso se inventar. O botões que fechavam as cercas foram cedendo às mãos suaves e firmes que ele estendeu para conduzi-la. O calor da proximidade dos corpos formou uma fina aura de atração e desejo. Era impossível não se entregar. Como a anfitriã de um castelo, ela se curvou ligeiramente e fez as honras da casa, saudando a nobreza do visitante: pode entrar. As portas e janelas se dissolveram, deixando apenas um campo largo, imensa relva orvalhada de suor. Ele caminhou seguro, incluindo-a em si-mesmo, como quem chama: vem pro mar. Ela o seguiu sorrindo, mesclando o seu ser ao ser que ele era, corpos ardentes e espíritos apacentados. A pele perfumada de sedução adornou a cena com as cores vivas dos afagos, dos beijos e carícias em movimentos intensos, como os de um artista ávido para compor a tela. Ela estava cansada de portar a si mesma e se deixou reinventar. Ele a refez delicadamente aos poucos - pés, pernas, o ventre das energias criativas... se demorou ali, para que não faltassem detalhes. As mãos esculpiam o corpo novo, como quem alisa o barro que se transformará em jarro. E ele amava, embevecido, as partes que aos poucos iam surgindo, ganhando forma e vibrando - os quadris, os seios, o colo, o rosto, os cabelos. Quando a arte se completa, o artista percebe a verdadeira dimensão da separação e sofre - tenta resgatar a si mesmo, a sua parte, e trazê-la a todo custo de volta. E na sofreguidão do resgate, acaba ofertando mais de si, cada vez mais de si. Neste momento, o universo responde ao desejo de felicidade, plenitude e paz com um fugaz momento de comunhão.

25 março 2009

Em construção

Há uma ponte. Sempre há uma ponte, porque a vida é feita de travessias. O desejo inaugura o trajeto e o habita de circunstâncias, entre as quais o medo. Se as pontes fossem traços rabiscados no chão, passaríamos sem nos dar conta do percurso. Mas uma ponte supõe a ligação ao que está distante, ao lado de lá, ao outro, ao que não estamos habituados a habitar. Uma ponte inaugura possibilidades, constrói ilusões, desilusões e até realidades. Uma ponte pode ser o caminho desejado, mas nunca dantes percorrido; pode ser o começo de um novo estar no mundo, um novo lugar. Uma ponte pode ser apenas uma ponte. Daí o abismo, primo-irmão do medo. As pontes inauguram possibilidades... e as possibilidades não estão rentes ao chão...
Foto: Anselmo Veríssimo

Eu preciso dizer...

É apenas parecido.. não é igual.

O que nos atrai do outro lado do abismo é o que nos encoraja para a travessia. Enamoramento, encantamento, enlevo...
e la nave vá.

24 março 2009

Pensamentos inspirados


Acordei com um trecho de música ecoando no pensamento: "... pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz...". Não sei de onde veio e o que pretendia informar. Música antiga, que há muito não ouvia. Costumo pensar que existe um canal que às vezes sintoniza a fonte do universo e deixa antever determinadas coisas que nos chegam como mensagens cifradas. Passo pelo menos a metade do dia tentando entender, depois vai passando, até que um dia volta e do meio do nada eu descubro, como se fosse um eureka! ou um bingo! sei lá. O mistério não está na frase que brota, mas no que a faz brotar, o começo da conversa que entabulamos em algum lugar no espaço do estar dormindo. E só trazem um restinho de lembrança os cursiosos e os teimosos, que insistem em saber como foi que Deus fez isso. Não estou postando a história só para ilustrar o blog, mas para ver entre meus sempre amados leitores qual deles, mais esotérico, poderá me dar a pista do que acontece do lado de lá. A curiosidade é um dilema, na vida de um geminiano!

Mas nem tudo é ocultismo e mistério se o ascendente é aquário...rssr. Dia claro, pensamento alinhado com as possibilidades reais, conectei-me à fonte de inspiração concreta que vem acolhendo meus melhores pensamentos e instigando meus sonhos e devaneios - devaneios... fonte perene das humildes letras com que teço os textos que ofereço aqui, qual camelô das ruas tentando convencer a freguesia de que a mercadoria é boa. Não abra sua janela para universos sem paisagens - recomendei em um gesto de inspiração espontânea que nem eu sei de onde partiu. E fiquei eu mesma a tentar investigar se na minha casa de onze janelas havia alguma que por ventura daria para lugar nenhum. Não deu tempo de checar todas, porque o edifício é alto e se espalha para todo lugar. Tinha que seguir. O dia já reclamava um mínimo de bom senso e razão! Apressei-me e fui embora, contando as horas para um dia que promete chegar. No meio do caminho, abri a janela para ver a paisagem do aterro passar.

23 março 2009

Finalmente, segunda-feira

Piadinha de segunda-feira: a produção da crença
São marcos o que a humanidade arranjou para se dar sempre uma nova chance de recomeçar. O primeiro dia do ano... o primeiro ano ímpar... ano bissexto...o primeiro ano do novo século, do novo milênio. E por que não uma nova segunda-feira? Já que são apenas convenções, porque não inventar mais e nos dar mais chances a cada dia de fazer tudo diferente do que já provou ser projeto furado? Talvez por nossa leniência e preguiça, desperdiçamos a segunda-feira agregando a ela o discurso simbólico do trabalho. Mas a mim, que amo o trabalho, a segunda-feira só faz bem. Vem com cara de casa nova, onde a gente entra na sala vazia e começa a pensar como vai ser o lugar que vamos habitar — encher de nós mesmos e nossas tantas circunstâncias e circunstantes. Pois bem. Entrei na sala vazia, com as caixas entupidas de coisas que venho trazendo de outras casas e que às vezes transbordam nos sábados e domingos. Empacoto tudo em tambores de chumbo forte, como se césio 147 fosse — verde luminoso, pó de pirlimpimpim, mas mortal como a peste! E assim como acontece com nossas usinas nucleares, todo lixo passível de contaminação fica sem ter onde enterrar. Pego as tintas e pincéis com que ando enfeitando a realidade e faço nos tambores umas flores improvisadas , com jeito de arte moderníssima — pétalas de esquecimento, raízes de perdão, gravetos de alegria, sementes de amor, uma ou outra lágrima de orvalho aqui e ali. E ao final da tarefa enjoada, batuco neles um reagge para exorcizar. Everything is gonna be all right... E sigo em frente na nova segunda-feira, onde tudo está por começar e a se fazer. Abro a janela da sala vazia e deixo o sol entrar — primeiro habitante de uma vida que acaba de nascer. E se chover, não tem problema: daqui a sete dias começo tudo outra vez.
E aos meus amados, uma semana de muita paz!

22 março 2009

Encantos do acaso, da chuva e do mar

Chovia. O tempo ainda guardava um resto do dia de sol que fizera antes, mas chovia discretamente... quase sem molhar, mas chovia. Distraída, ela não percebeu a chuva quando abriu a janela para a esperança de um dia novo. Viu apenas um céu nublado, de um cinza todo por igual. Mas o que importava? O mar não se importava com os humores do céu e estava sempre lá. Somente ao chegar à rua, percebeu que chovia. E ela ali, vestida para um dia de sol, decidiu continuar. A ingenuidade tola, que por vezes se crê coragem, instigou um gesto de transgressão quase tão discreto quanto aquele tempo sem sol: caminhar à beira do mar e da chuva. O céu inteiro parecia estar de olhos fechados, mas as ondas lambiam a areia sem se importar. Por que ela se importaria? Seguiu apenas assim, olhando a paisagem nova que se oferecia - as gaivotas, que ela tanto invejava, estavam lá, suaves, navegando sem ter porque chegar; as espumas do mar se dissolviam na areia da certeza de que tudo é um eterno refazer; as ondas se dobravam em tubos de esmeralda cristalina, repetindo incansável que o que sabemos e o que somos são a arte que nos distingue, mesmo contra a nossa vontade. Um céu de olhos fechados, deixando que a vida seguisse à revelia, para gáldio da serenidade. E ela seguia se misturando aos elementos - a areia molhada sob os pés; o vento manso nos cabelos, o som do mar calando a voz do pensamento... Ao fundo, lá no fim do horizonte, o céu escondia as montanhas, deixando entrever apenas a silhueta cinza da cordilheira que separa o aqui do lá. E lá já nada havia que os olhos pudessem alcançar - uma cidade inteira que se apagou, porque os olhos do céu naquele dia não quiseram se abrir. Somente havia o aqui, por onde ela passava e se incluía. Os laços finos do biquini, que balançavam com o seu andar, alertaram-na para o que talvez jamais tivesse notado - um quadril de linhas suaves e ainda firmes; os seios que, por terem cumprindo repetidamente a missão, tiveram da natureza a recompensa de se manterem quase intactos. E ela se acreditou bonita sem que ninguém precisasse dizer. Talvez já não fosse a mesma; talvez já nem fosse... Se distraiu de si e se encontrou sem querer; surpreendeu-se de ver-se assim tão outra. Uma frase inesperada ressoou na percepção lúcida daquele dia sem sol; uma frase de um mestre ancestral que talvez nem tenha se dado conta de que passara por ali e da mensagem que lhe competia entregar: "Tudo que amo deixo livre. Se for meu, um dia volta; se não voltar é porque nunca foi meu". E ela se deixou ficar livre, em gesto de profundo amor por si mesma. Abriu a porta da gaiola onde ficava seu ser passarinho e o instigou a voar. No céu, as gaivotas rodopiavam sobre sua cabeça... e ela já não tinha mais por que as invejar. Agora ela sabia que a Felicidade é muito mais do que o Desejo... e que o Universo é muito generoso para apenas nos realizar a vontade. Deixou-se ir, assim tranquila, flertando com o acaso e deixando cair ao mar, distraída, tudo o que guardava em uma caixa antiga que sempre carregou, mas nunca conseguiu fechar. Se um dia ela volta ou se jamais vai voltar, não importa. Tudo o que amamos, devemos libertar.

21 março 2009


Desejo
(Glauber Rocha)

Queria você profundamente aberta
Num beijapaixonado sem memória e futuro

Queria
prazer desintegrado no infinitamor de nossos corpos desconhecidos

Queria um rio negro
como branco
contando a Vytoria
De uma tragycomedia morta

Queria o maramoroso
De tua pele viva
E a poesia da madrugada

"As coincidências são elegâncias da providência divina."

Um poemeu

Estou de saída,
arrumando uma pequena mala.
Tão pequena que não suporta mais que o essencial,
o importante, o fundamental.
Três pequenas coisas...
Coisas apenas minhas.
Que as não cobicem o próximo,
que as não contestem os ricos,
que as admirem os pobres,
que as entendam as almas nobres.
Ao sair, fecho a porta
de onde todo o resto está meticulosamente ordenado,
arquivado por ordem de desimportância,
por data, por autor, por assunto, por absoluto cansaço.
A chave que tranca a porta não há,
para que eu exercite a cada instante a decisão de não voltar.
Na estação, o trem que faz surgir a estrada necessária,
à medida que ela precisar existir.
Nas janelas, todas as paisagens que meu olhar construir.
Diante de mim, o percurso.
Perto de mim, todas as saídas.
Dentro de mim, a vida.
O resto é apenas uma foto na parede morta da lembrança.

Historinhas curtas do céu

Enquanto tentava ensinar a ela como amar e depois de ter resistido a seus apelos, ele declarou: "Tudo que amo, deixo livre. Se voltar é porque me pertence; se não voltar é porque nunca foi meu." Crédula na sabedoria dele, ela tomou um susto ao percebê-lo bem ali, diante de si, depois de ter ido embora. E mais intrigada ficou ao se dar conta de que ela também estava lá, no mesmo lugar onde ainda bem cedo prometera não mais voltar. Depois, sem preceber que se comprometia, ele perguntou a ela: "você não acha que está se comprometendo?".

FIM

Contos e desencontros da vida

E de repente as lágrimas começaram a vir, uma a uma, à superfície dos olhos. Não era previsto, não estava nos planos daquela mulher. E ela contava cada gota que caía, no desejo ingênuo de comparar com os rios que já tiveram aqueles olhos como nascente. Na conta do pensamento mágico, era simples assim. Alguns poucos desejos, algumas parcas alegrias, um quase romance, uma paisagem não concluída convertidos em poucas lágrimas, que ela contava no afã de se certificar de que eram mesmo tão poucas. A dimensão da dor era equivalente à dimensão do desejo, que ela mensurava por aquele fio d'água que insistente corria pelo seu rosto. Ela tentava racionalmente recolher as fantasias, para se convencer de que havia sido mesmo quase nada. Cabia tudo em uma pequena caixa: sonhos, desejos, alegrias, afagos não concebidos...
Não, não eram assim tão poucas as ilusões. Quando tentava incluir as lágrimas, a caixa não fechava. O que seria o destino? O que premedita o acaso? Haveria um plano? Quem comanda a razão? Quem inventou a distância? De onde vêm os sonhos? O que seria a vida se aquela caixa se fechasse...ou se estivesse vazia? Era da natureza daquela mulher encurralar a dor pela astúcia da razão. Não queria ter respostas; a ela bastavam as perguntas. Tinha um certo gosto pelo segredo. Talvez tivesse sido isso que infiltrou seu coração - o segredo e a tradição, estampados em um mapa que não desvendava o lugar, indicando apenas onde estava o céu. Ou teriam sido aquelas longas conversas que atravessavam a madrugada e invadiam o território dos sonhos? Impossível saber - o fato é que as tintas da vontade de paixão já haviam alterado a paisagem, preenchendo de sentido o espaço entre as montanhas lá no fim do mar. Não importava mais saber... Bastavam, como sempre, as perguntas. O tempo se encarregaria de acomodar todas as coisas. A paisagem e o mundo haveriam de voltar ao seu antigo lugar. O sol que iluminava o lado de lá das montanhas era apenas uma miragem de seu olhos verdes, imaturos. O som da voz que nunca ouviu se apagaria aos poucos. Os risos, os carinhos, a alegria e o desejo que nunca se realizaram voltariam a esperar. Não... não havia nada real sobre o que chorar. Ela se levantou e saiu, deixando para trás a caixa que ficou aberta para a possibilidade de o acaso se decidir a entornar.

Há coisas na vida que valem a pena mesmo não tendo acontecido...ou talvez valham apenas por isso


Quando temos sensibilidade para verdadeiramente ver o trabalho delicado que Deus fez sobre o universo, nós estamos nos encontrando com Ele. E desse encontro a gente nunca volta o mesmo, para o mesmo lugar. Trazemos um pouco de divindade nos olhos e colorimos nossa vida com outras tintas, mudando de lugar. E se compartilhamos o que vimos, descrevendo em fotos, palavras e êxtase, estamos oferecendo um pouco de Deus para o outro. E se o outro aceita... Deus sorri, porque valeu a pena o esforço para a realização do trabalho. Que o dia de todos seja pleno de consciência cósmica, permitindo que se emocionem de alegria por Ele nos ter incluído na paisagem.
Pôr do Sol em São Francisco
Foto: Anselmo Veríssimo

23 fevereiro 2009

Contos em cantos da vida

De dentro de uma gaiola, como quem revela um segredo, ela ensinava a três pequenos pássaros a liberdade de voar. Era exercício diuturno, que não encerrava nem mesmo quando a noite chegava e todos se recolhiam na escuridão. Era nesse momento de silêncio do mundo que ela diligentemente preparava o que haveria de dizer quando o dia voltasse e trouxesse de novo as três promessas de voo alto. Quando o sol começava a ensaiar seus primeiros raios, ela já estava desperta, pronta a recomeçar, embora nem sempre de onde havia parado. As lições teóricas falavam de liberdade, do que havia para além do que os olhos enxergavam e o pensamento podia ver. As palavras fortes se uniam em elos densos, formando um discurso que flertava com a contradição - ora coragem; ora receio... mas nunca medo. E era simples assim: a prática ia se intrometendo a cada espaço de silêncio necessário à decantação das longas dissertações. O que viria a seguir não se deixava saber. Não havia como perceber, de dentro daquela gaiola, como aquele imenso texto, tecido ao longo de tantos dias, poderia significar à luz do dia. Não havia tempo e nem espaço para a questão - o tempo urgia, na vida curta, o cumprimento de toda a lição. O hábito que faz o monge também disfarça o real do ser. E por repetição incansável, ela se tornou ciente de que aquilo era a trama de um dever - dever ser, devir, de servir, de se ver... O fato é que assim foi - vida seguindo, tempo voando e a teoria da liberdade aprendida se manifestando em prática tão forte como a contradição dos elos da corrente - corrente que aprisiona, corrente do pensamento, corrente de um rio que com persistência e força rompe os laços e cria seus próprios caminhos. Uma cena: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Essa uma das primeiras lições, tirada de Brecht, para dizer às águas que deviam transbordar. E ela brandia palavras consagradas na memória:
— Nenhum país, nenhuma vida precisa de heróis; os que acreditam que precisam não os merecem! Porque não há na vida heróis que antes não tenham sido mártires!
"You can surrender
Without a prayer
But never really pray
Without surrender
You can fight
Without ever winning
But never ever win
Without a fight".
E as palavras iam assim construindo a realidade... realidade à revelia.
Um dia, não se pode saber ao certo quanto tempo havia decorrido, as grades que conformavam a gaiola se dissolveram com a luz do dia que chegava. Não havia como evitar o dia, reter a luz do sol com as margens opressoras de um longo rio; não havia mais a divisão entre o lá dentro e o lá fora... os opostos não apenas se atraem, como passam a vida a justificarem-se mutuamente, a prover de sentido suas existências, driblando quaisquer outras possibilidades, instaurando o controle e o domínio. O fato é que não havia mais grades... e nem teorias que explicassem a irrecorrível liberdade que avultava sobre todas as coisas. E para espanto e constatação, aqueles três pequenos pássaros voavam! Apenas voavam, como se fosse mesmo de suas naturezas; como se sempre tivesse sido assim. E ela ficou ali, olhando, tentando classificar, categorizar, controlar, entender, explicar... Não fazia um único movimento, porque não apenas se foram as grades, como também já não havia chão. O que fazer? Para onde ir? Como andar, quando chão já não há? E ela ficou ali, maravilhada tentando aprender o que era, na prática, aquilo que só sabia ensinar.

14 fevereiro 2009


"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas; elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos."

Clarice Lispector

30 janeiro 2009

Coisas do Centro da cidade. Veja as imagens por satélite. Faça um passeio virtual pelo Centro. Se quiser, pode ir a outros lugares também.


Exibir mapa ampliado
Os videozinhos são bobos, mas vale a pena dar uma olhada. Mas voltando às coisas do Centro...

"Si sobrá, nóis vende".

Becos, becos, becos.... todos com saídas.

Rua do Comércio, Rua da Alfândega, Rua do Ouvidor... Uma história do passado cotidiano por onde hoje passamos em cortejo de efêmera realidade.

Rua da Assembléia.
Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes e passava todos os dias por lá.

Avenida Senhor dos Passos... para caber tantos passos, de tantos passantes, com seus pensamentos passados. Avenida quase larga, mas velai Senhor, para que se alargue seus espaços. Velai, Senhor, pelos passos dos que por ali passam, sem ciência e sem compasso que lhes confirme que nessa vida tudo passa.

Muita água anda rolando por debaixo desta ponte que me liga ao universo. Sorte que não sei nadar, portanto não me arrisco ao que me ensinaram sobre afogamento. E mesmo assim, as águas continuam rolando.

Nossa Senhora dos Homens é o nome de uma igrejinha linda na Rua da Alfândega. A rua que ganhou este nome teve origem em um caminho que ia da orla marítima até a Lagoa da Sentinela, nas proximidades do que hoje é a Praça da República. A rua teve diversos nomes ao longo do tempo, até se chamar da Alfândega, como é hoje. A história é interessante e pode ser consultada em sites que falam da cidade. Mas voltando à igrejinha dedicada à proteção dos homens, confesso que imaginava que haveria neste mundo quem zelasse pelos homens além das dedicadas mães. E haveria de ser ainda uma senhora, talvez avó - aquelas que vieram ao mundo para dar aos homens liberdade e condescendência. E na igreja, uma dessa avós, certamente progressista, foi consagrada santa. Eram avós, com certeza não eram mães. Porque as mães, sei de cátedra, ensinam tudo o que aprenderam - cerceamento e restrição. E a consciência do dever materno, ponto máximo do sacrifício da cultura judaico-cristã que a mídia venera para vender fornos de microndas, diz que as avós estragam os filhos. Mesmo assim elas seguem amando incondicionalmente esses futuros homens, esperando que sejam melhores do que o resultado que a vida produz. Às vezes perdem, às vezes ganham - a avó do Betinho, por exemplo, deve estar sorrindo no céu. Mas a gravidade que aprisiona as mulheres fez com que a condescendência parecesse demasia e desobediência. E assim, conta a realidade da lenda, ficou perdida a liberdade que as avós guardavam nas cestas de costuras - sim, porque liberdade é algo assim banal, que se guarda em qualquer lugar junto a objetos de fiação. Mas voltando ao tema, aprisionados seguem os homens que a senhora da igreja ainda proteje. Acorrentadas seguem as mães, que não conseguem conjugar o amor que sentem pelos filhos com a redenção que os liberta da culpa de terem nascido. Valei-nos Senhora dos homens, porque eles são os nossos filhos!
Mas, perguntinha incômoda que não quer calar: e as meninas, mulheres que não têm igrejas que as consagrem para se apegar, essas que são as mães de todos os homens. Somos o centro da vida? Ou somos escravas subalternas sem redenção? Decidam vocês.
Com o mesmo amor de sempre,
Hanna

25 janeiro 2009

Traduzir-se

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?"

Ferreira Gullar

19 janeiro 2009

Encontro marcado

Emmanuel
O problema da ansiedade

Ante as dificuldades do cotidiano, exerçamos a paciência, não apenas em auxílio aos outros, mas igualmente a favor de nós mesmos. Desejamos referir-nos, sobretudo, ao sofrimento inútil da tensão mental que nos inclina à enfermidade e nos aniquila valiosas oportunidades de serviço.
No passado e no presente, instrutores do espírito e médicos do corpo combatem a ansiedade como sendo dos piores corrosivos da alma. De nossa parte, é justo colaboremos com eles, a benefício próprio, imunizando-nos contra essa nuvem da imaginação que nos atormenta sem proveito, ameaçando-nos a organização emotiva. Aceitemos a hora difícil como a paz do aluno honesto que deu o melhor de si, no estudo da lição, de modo a comparecer diante da prova evidenciando consciência tranquila.
Se nosso caminho tem as marcas do dever cumprido, a inquietação visita-nos a casa íntima na condição de malfeitor decidido a subvertê-la ou dilapidá-la; e assim como é forçoso defender a atmosfera do lar contra a invasão de agentes destrutivos, é indispensável policiar o âmbito de nossos pensamentos, assegurando-lhes a serenidade necessária. Tensão à face de possíveis acontecimentos lamentáveis é facilitar-lhes a eclosão, de vez que a idéia voltada para o mal é contribuição para que o mal aconteça; e tensão à frente de sucessos menos felizes é dificultar a ação regenerativa do bem, necessário ao reajuste das energias que desatres ou erros hajam desperdiçado.
Analisemos desapaixonadamente os prejuízos que as nossas preocupações causam aos outros e a nós mesmos, e evitemos semelhante desgaste empregando em trabalho nobilitante os minutos ou as horas que, muita vez, inadvertidamente, reservamos à aflição vazia. Lembremo-nos de que as Leis Divinas, através de processos de ação visível e invisível da Natureza, a todos nos tratam em bases de equilíbrio, entregando-nos a elas, entre as necessidades de aperfeiçoamento e os desafios do progresso, com a lógica de quem sabe que tensão não substitui esforço construtivo, ante os problemas naturais do caminho. E façamos isso, não paenas por amor aos que nos cercam, mas também a fim de proteger-nos contra a hora da ansiedade que nasce e cresce de nossa invigilância para asfixiar-nos a alma ou arrasar-nos o tempo sem qualquer razão de ser.
Texto de Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier

15 janeiro 2009

A vida como ela pode ser...

Amados, estou feliz. Assim, desse jeito sem exclamacoes.
Com o teclado desconfigurado, tambem sem os acentos que a reforma ortografica recente nao aboliu, sem cedilha, sem tils, sem os meus preciosos e angustiados tremas, sem os hifens que ligavam coisas nao pertinentes... Mas tenho certeza de que mesmo assim voces vao me entender, porque sao generosos, de espirito elevado e julgamento leniente. Pelo que agradeco e me sinto acarinhada. Mas o que me traz aqui e nada mais do que a vontade de falar com cada um dos que passaram por esse blog, assiduamente ou nao. As vezes (ponham crase nesse As, porque das crases nao abro mao)apesar da intensidade da vida e dos afazeres com que Deus nos brindou, temos necessidade de ofertar carinho, de nos aproximar em afeto e nos aconchegar simplesmente no ombro de alguem que conosco compartilha a viagem da vida. Nao precisamos estar juntos, mas que nos cumprimentemos ao passar uns pelos outros; que nos reconhecamos no esforco da caminhada. E isso o que nos faz amigos e, as vezes, dependendo da permanencia e intensidade, nos faz amores. E assim segue a vida, sem porto que seja seguro, porque nao ha parada eterna. Nao ha parada, simplesmente. Entao, quero agradecer a todos os viajantes da vida que encontrei ate hoje e por tudo o que compartilharam comigo de suas proprias bagagens. Nao ha mal.. porque nao ha mal que nao venha para bem. Entao, as oportunidades de compatilhar a jornada, com todos e qualquer um, sao apenas as oportunidades de avancar no caminho. E que todos os que de certa forma construiram a estrada por onde hoje passo sejam abencoados pelas bem aventurancas divinas. Mais ainda aqueles que o fizeram com amor.
Com o carinho de sempre,
Hanna