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21 dezembro 2016

Uma árvore Ticuna plantada no meu coração

Publiquei esse texto em 2008, mas até hoje continuo recebendo algum comentário ou mensagem sobre a lenda da bela árvore dos índios Ticuna. Hoje recebi uma mensagem do Rainel Costa da Silva, que diz o seguinte: "Amei,o post sou kambeba, da cidade de são Paulo de Olivença, mas meu sangue é tikuna, meu avô é tikuna, mais cresceu em uma comunidade kambeba, ele aprendeu apenas a falar a língua geral; ele contava e até agora conta a história de yoi e ipi. Nömãë!!"

Fiquei feliz de receber seu comentário, Rainel! E como parece que você ficou feliz com o post, vou republicar para que mais pessoas possam, quem sabe, também gostar e sentirem-se felizes.
Um grande beijo aos que leram e comentaram.
Um feliz Natal, com o amor de sempre.
Hanna

O universo no coração dos Ticuna 

Samaumeira - ou samaúma -  é o nome desta grande árvore que fotografei apenas por encantamento. Se conhecesse a história, talvez tivesse feito fotos melhores... ou me perdido por lá. A grande samaumeira dos índios ticunas é parte de uma lenda belíssima que fala de resistência e imortalidade. Para os índios, as árvores desempenhavam papel fundamental no universo. Os galhos fortes da gigantesca samaumeira, por exemplo, sustentavam o céu com todos os seus astros. A lenda sobre essa árvore soberba pode ser lida numa obra de 1985, escrita pelos próprios ticunas e publicada pelo Museu Nacional (RJ) . O livro, chamado Nosso Povo, narra a lenda que conta como nasceu o dia e a história do coração da samaumeira. Quase ninguém com quem falei aqui em Belém sabia sequer o nome da árvore, que dirá a história mítica e linda que ela guarda. Alguns ainda disseram: "é uma árvore centenária que todo mundo diz que tem coração". Como fomos aprender tanto sobre minotauros e medeias e não conhecíamos o coração da samaumeira que sustenta o firmamento e que ainda hoje nos contempla em sua altivez, no meio de uma floresta que o mundo inteiro conhece? Precisamos descobrir o Brasil, antes que os aventureiros lancem mão. E faço a minha pequena parte, postando o resultado da pesquisa para saber que árvore maravilhosa era aquela.

Lendas desconhecidas de uma terra chamada Brasil

Como apareceu o dia. Naquele tempo era sempre noite. Os galhos da samaumeira cobriam o mundo, escurecendo tudo. Os irmãos Yoi e Ipi tentaram abrir um buraco na copa da árvore, jogando-lhe caroços de araratucupi, mas sem resultado. Chamaram o pica-pau, que tentou cortar o tronco com o bico, mas não conseguiu. Resolveram então tirar o machado da cutia. Ipi colou penas em todo o corpo e ficou deitado de boca aberta no caminho da cutia. A cutia estranhou a figura que encontrou no caminho e começou a fazer-lhe perguntas. Como Ipi não respondesse, ameaçou urinar na boca dele, cortar-lhe a língua, até que ele respondeu, dizendo que podia arrancá-la. Ela se aproximou e Ipi arrancou-lhe a paleta, a perna de trás, que era o seu machado. A cutia perseguiu Ipi mancando e gritou-lhe que, quando fizesse roça, não dissesse o nome dela, e que ela iria cobrar-lhe o roubo, furtando nas roças que fizesse. É o que a cutia faz até hoje. A cutia não pode mais plantar. Só cutia pequena ainda tem o machado. De posse do machado, Ipi começou a cortar a árvore. Mas o corte se tornava a fechar. Yoi então tentou cortar e, onde ele batia, o corte se mantinha aberto. Quando se cansou, entregou o machado a Ipi, que continuou a cortar, mas agora o corte não se fechava mais. Apesar de o tronco estar bem fino, a árvore não caía. Olhando para cima, viram que era uma preguiça que a segurava. O quatipuru, convidado para subir e tirar a mão da perguiça do galho, foi até a metade e desceu, com medo da altura. O quatipuru pequeno aceitou subir com formigas de fogo para jogar nos olhos da preguiça. Ele subiu e conseguiu atingir os olhos da preguiça. Deu então um pulo para trás e caiu, machucando o rabo no machado. Por isso o quatipuruzinho tem o rabo dobrado nas costas. A samaumeira caiu, e daí por diante se pôde ver o sol, o céu, as estrelas. Como recompensa, Yoi e Ipoi deram sua irmã para casar com o quatipuruzinho.
O coração da samaumeira. Depois de algum tempo, Ipi foi até a árvore derrubada para ver se já tinha apodrecido. Mas ela estava viva e tinha começado a brotar de novo. Ipi ouviu batidas de coração e resolveu tirá-lo. E começou a cortar com o machado. Ipi e Yoi disputavam o machado, cada qual querendo a tarefa de tirar o coração da samaumeira. Finalmente um golpe de Yoi fez o coração pular fora. Um calango o engoliu e ele ficou parado na garganta. Ipi encostou um tição na garganta do calango e o coração pulou fora. Mas uma grande borboleta azul engoliu o coração. Ipi queimou a asa da borboleta com o mesmo tição e ela vomitou. Por isso as borboletas azuis de hoje têm manchas na asa. O coração caiu num buraco muito apertado. Yoi então mandou a cotia roer o coração pelo lado direito, trazer o caroço e plantar no terreiro. Passado algum tempo, daí nasceu a árvore de umari.

O mito da grande samaumeira e o de seu coração também estão divulgados em O Livro das Árvores (Benjamin Constant: OGPTB, 1997), um volume escrito e ilustrado pelos professores indígenas ticunas, que trata da importância das árvores na vida e cultura de seu povo. Entre as suas muitas ilustrações, há um desenho da árvore Tchaparane, que produzia terçados. Ela ficava em Cujaru, um lugar perto do rio Jacurapá, e as pessoas iam até lá e esperavam que caíssem no chão.

Fonte: http://www.geocities.com/RainForest/Jungle/6885/mitos/m08arvor.htm

Sobre os ticunas
Os Ticunas constituem, hoje, a maior nação indígena do Brasil com mais de 32 mil pessoas. Eles são encontrados também na Colômbia e no Peru. No Brasil, estão localizados no estado do Amazonas, ao longo do rio Solimões, em terras dos municípios de Benjamin Constant, Tabatinga, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Fonte Boa, Anamã e Beruri. Os Ticunas falam uma língua considerada isolada, que não mantém semelhança com nenhuma outra língua indígena. Sua característica principal é o uso de diferentes alturas na voz, peculiaridade que a classifica como uma língua tonal. Os Ticuna estão organizados em clãs, ou "nações", agrupados em metades, que regulam os casamentos. Membros de uma metade devem casar-se com pessoas da metade oposta, e seus filhos herdam o clã do pai. Numa das metades agrupam-se os clãs com nomes de aves: mutum, maguari, arara, japó etc. Na outra metade estão os clãs que possuem nomes de plantas e de animais, como o buriti, jenipapo, avaí, onça, saúva.

O texto completo sobre os índios ticuna pode ser visto no site http://www.rosanevolpatto.trd.br/ticuna1.htm

15 janeiro 2016

Do amor e sua infinita graça

Amar é plenitude e assim se basta. Amar é deixar que se desfaçam as amarras que empurram a vida para a margem da vida, ali por onde o passado e os não acontecimentos arrastam suas correntes. Amar é apenas deixar que a vida flua para dentro, em torno e através de nós, derrubando muralhas de incerteza. Felizes aqueles que portam esse vaso transbordante. A estes, o universo convida a dançar.
Para os que foram tangidos por tão divina graça, um campo imenso de lindos girassóis.
Amor de sempre.
H

27 agosto 2015

Assim tão de repente

Sussurram os não ditos em uníssono
Afligem-me os ouvidos, que ouvem reticentes
É para dar atenção?
Entre a razão e a estrada deserta, a sombra das árvores do silêncio.
Bastam os sons dispersos, distantes, desconhecidos.
Não precisam de atenção.
Onde está o ruído grave, som distorcido que berra impropérios de vida?
Onde está o barulho das almas, dos cães que ladram e nunca mordem?
Onde se escondeu a coragem dos temores sussurrantes?
Onde está a resposta a perguntas impertinentes?
Não. Perguntas equivocadas não carecem de respostas.

08 abril 2015

Se tenho medo
(John Keats)

Se tenho medo de meus dias terminar
   Antes de a pena me aliviar o espírito, antes
De muito livro, em alta pilha, me encerrar
   Os grãos maduros como em silos transbordantes;
Se vejo, nas feições da noite constelar,
   Enormes símbolos nublados de um romance
E penso que não viverei para copiar
   As suas sombras com a mão maga de um relance;
Quando sinto que nunca mais hei de te ver,
   Formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
   Do amor irrefletido! - então no litoral
Do vasto mundo eu fico só, a meditar,
Até ir Fama e Amor no nada naufragar.

14 março 2015

Catando poesia no chão...


Achei enquanto andava em um bosque de Brasília. O autor, pelo que deu para entender da assinatura, é João Blenner. E agora chove lá fora... muito.
H.
PS: ...no chão da alma.

11 março 2015

O que basta...

A poesia que me atravessa é de tal forma intensa, que chego a duvidar de minha própria humanidade.
O amor que me habita é tão imenso, que me afogo em solidão e impossibilidades - a que devo?
Ave tempo que me trascende; ave o desconhecido, o descalabro - vida, o que é então, se mais que nada que a si se basta?
H.

02 março 2015

Demasiadamente humano

Nietzsche foi um dos filósofos mais importantes do Século XIX. Ele era um monte de coisas mais além de filósofo – poeta, por exemplo. Dos seus escritos filosóficos pode-se ver que não tinha muita paciência para lidar com as ideias acomodadas e com as teorias de consenso – aliás, nem eu tenho paciência para a mesmice acadêmica – eu, logo eu. Escrever é um ato de coragem, que às vezes devo confessar que me falta. Preguiça intelectual, talvez preguiça moral... ou simplesmente preguiça de me embrenhar em discussões inúteis que me estressam as veias. Ou apenas preguiça daquelas simples e baratas, sem nada mais que a possa adjetivar. Nietzsche morreu muito jovem. Tinha 44 anos quando entrou em colapso e perdeu completamente a capacidade mental. Isso foi em 1889; ele morreu em 1900. Triste sina... conspiração do universo; pensou o que podia no tempo que lhe cabia e desautorizou Deus com sua vontade de potência:"Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!”
Gosto particularmente dos aforismos em "Humano, demasiado humano", onde as verdades se mostram ligeiras, ágeis, desafiadoras e finas como uma espada de esgrima: "Toda crença no valor e na dignidade da vida se baseia num pensar inexato; (...) porque cada um quer e afirma somente a si mesmo".

Talvez daí venha a minha preguiça – qualquer esforço é apenas a tentativa de afirmação de si mesmo; uma grande bobagem. Mas vamos à poesia, que é a afirmação da alma, onde se guarda a pureza das verdades tolas, inauditas, belas, simples – mesmo em Nietzsche, porque humano, demasiadamente humano.

Ninguém pode construir em teu lugar
as pontes que precisarás passar
para atravessar o rio da vida -
ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem número
e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio;
mas isso te custaria a tua própria pessoa;
tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho
por onde só tu podes passar.
Aonde leva? Não perguntes, segue-o.
(Nietzsche)

No mais, beijos de Hanna em profusão.


28 fevereiro 2015

Viagem...voragem

Alguma coisa acontece... sempre. E é bom que seja assim, para que nossos olhos não fiquem demasiadamente voltados a uma cena única. O mundo é cheio de ilusões, e às vezes temos o impulso de trocar todo um longo percurso já vencido por momentos parcos de descanso, aconchego, paixão, alegria, volúpia, prazer, gozo, sono, preguiça - catarses e aflições de espírito, que a permanência engendra e nos faz desejar, com toda a ênfase de quem merece o prêmio. Hora de voltar à estação e esperar o aviso do trem. Malas abertas, saltam velhas lembranças que lá foram esquecidas ao longo de tantas viagens. E todas cantam alguma música para distrair a memória; acalanto, canções de ninar.Vida louca, vida breve... Eu vou descendo por todas as ruas e vou tomar aquele velho navio...Um dia eu volto, quem sabe... O vento vai levando tudo embora... Mas a vida continua e se entregar é uma bobagem!
Olha só o que eu achei...

H.


10 janeiro 2015

O general, o poeta e o cantor...sobre (in)certezas

Ah! Esqueci do lead! Na postagem aí embaixo, eu pretendia dizer que ao tentarmos nos lançar ao que desejamos, ou quando decidimos tomar decisões para resolver questões fundamentais que sempre adiamos, é comum gelar de medo, insegurança, como crianças assustadas. E a situação fica pior ainda quando, depois de vencermos esta primeira etapa, temos que decidir o que fazer da vida! Já pensou em quantas vezes você desistiu no meio de um caminho que estava quase levando você até lá? Pois é. Aprendemos a desacreditar de nossas competências, embora tenham sido elas que nos trouxeram até aqui e nos fizeram sobreviver a todos os percalços efetivamente vividos. E isso às vezes resulta em depressão, em desânimo crônico. Uma espécie de "eu quero a minha mãe!!!", figura simbólica da proteção e amparo. Às vezes, apenas simbólica mesmo. Mas a nossa mente desamparada diante da decisão de assumir o comando quer voltar para o colo a qualquer preço, seja lá que colo for. E adiamos viver, voltando para um playground imaginário, onde alguém está cuidando de "tudo" - tudo o que você adiou, porque, se prestar bem atenção, você continua dando conta de estar no mundo, seja lá como for, porque viver é preciso, embora não seja exato. Que tal pegar estes instrumentos de navegação e planejar uma viagem para fora dos playgrounds onde andou se escondendo, hein?
Nossa, fiz lá embaixo um nariz de cera tão grande que esqueci do lide...rs. Mas agora que você já leu o lide, que tal dar uma passadinha no nariz de cera aí embaixo? Se não gostar do texto, tem Fernando Pessoa e Caetano Veloso para compensar. Vai lá!
Bom fim de semana, com o amor de sempre.

H.

30 novembro 2014

Acordei pensando...
Noves fora o filtro por onde enxergava a vida, a conta agora fecha. Isso mesmo: a conta está encerrada. Não ter moedas de troco talvez seja lucro - não devo tostão a ninguém. O que me devem, o tempo cobra, mas que a paga vá parar em outras mãos. Nadie puede escapar a la rendición de cuentas. Na vida, a dobra do tempo indica o novo ponto de partida. 

Sim, viver é uma sequência de possibilidades de começo, à disposição de uso quantas vezes vezes forem necessárias, até encontramos as coordenadas exatas -  como as ondas do mar. Parece papo de navegador... e é. Navegar é a metáfora predileta dos poetas para o exercício da vida: "navegar é preciso", diz Fernando Pessoa, "viver não é preciso". Vida é também um processo de reinterpretação, releituras. E aí está o nó de marinheiro: o problema básico do "re" é a incidência e insistência sobre o mesmo; sobre as bases por onde muitas vezes deixamos escorregar as infinitas possibilidades - dentre elas, às vezes, as nossas melhores chances, ou não! 

 A frase a que Fernando Pessoa emprestou fama foi originalmente dita por um general romano, 70 anos antes de Cristo.  Pompeu precisava enfrentar os riscos de singrar os mares, vencer piratas, rebeliões e guerras para cumprir o destino de Roma - tornar-se uma das mais importantes potências da Antiguidade, um império de dimensões gigantescas. Navegar, então, tinha prioridade sobre a vida. Mais do que levar o trigo para saciar a fome do povo romano, navegar se sobrepunha à vida para garantir o fluxo da história. Os escravos famintos e as ameaças de rebelião foram apenas uma... digamos... forma de organizar as prioridades daquele momento - navigare necesse; vivere non est necesse

Sem prioridades, as possibilidades tornam-se difusas e a vida navega sem bússola em alto mar. Nos versos de Pessoa, a localização do mar no íntimo do ser; no orgulho de ser; na ânsia de posteridade em favor de uma "humanidade" difusa - o sonho de um tripulante da nau de Pompeu, convencido de que a grandeza do sacrifício  garantiria a imortalidade na História. É... não deixa de ser uma priorização, não dos fatos, mas do desejo pessoal de imortalidade. Talvez a "pátria" dos grandes navegadores onde o poeta nasceu jamais tenha aspirado a ser uma grande nação no sentido do poder e da hegemonia entre os povos. Talvez tenha querido ser uma grande nação entre os homens. Vai saber...

Mas isso não vem ao caso, porque a viagem de que falamos é mesmo aquela de toda pessoa, assim como a de Pessoa. Então, voltando ao ponto:  navegar não é necessário; é compulsório - não é a viagem que traz a bússola, mas o ser que em geral adere à opção mais comum de se deixar guiar pelas estrelas... quando estrelas há. Não há certezas na vida e nem "precisão"! Se assim fosse, onde a soberania da vontade? O que há é a liberdade de se construir as caravelas, os mares - revoltos ou não! - e até mesmo a bússola que nos vai guiar. E o general? E o general que dá o comando para lançar as velas ao mar, ditando o rumo da história que ainda não viu, para completar o destino que jamais saberá? É disso que estamos falando: não precisamos de general, porque cada um é a história completa em si mesmo.

Viver é um ato de coragem e requer decisão para atravessar os territórios conhecidos e confortáveis onde a fome, as rebeliões e as guerras pessoais ameaçam destruir a grandeza natural do ser. Navegar é preciso, é exato, é necessário, é desejável; talvez por isso seja compulsório, o que nos faz pensar que há um "general" no comando, incitando-nos ao mar de nossas próprias possibilidades, nem que seja só para escapar da fome, das guerras e rebeliões - mas isso é de uma outra natureza. Onde então nossa coragem?! Navegar só é preciso, porque viver não é preciso, exato! Mas como queria Pessoa, o importante é criar, ao que esta Hanna atrevida acrescentaria: criar a vida que pretendemos, com a precisão dos mestres dos mares. Aí sim, poderemos falar de viver.

Amor de sempre, 
mesmo quando navegando por mares distantes, 
guiada (também) por estrelas.
H.




A letra de Os Argonautas é de Caetano Veloso. Neste vídeo, Caetano lê a carta de Caminha, descrevendo como via a nova terra, hoje Brasil. Abaixo, as letras das duas poesias. Só pra não faltar com a informação...rs.

Navegar é preciso
(Fernando Pessoa -1888/1935)

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso."
Quero para mim o espírito desta frase, transformada 
A forma para a casar com o que eu sou: 
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. 
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. 
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. 
Cada vez mais assim penso. 
Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. 
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça.


*******
Os argonautas(Caetano Veloso - 1942/ainda navegando)
O Barco!
Meu coração não aguenta
Tanta tormenta, alegria
Meu coração não contenta
O dia, o marco, meu coração
O porto, não!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...(2x)
O Barco!
Noite no teu, tão bonito
Sorriso solto perdido
Horizonte, madrugada
O riso, o arco da madrugada
O porto, nada!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso (2x)
O Barco!
O automóvel brilhante
O trilho solto, o barulho
Do meu dente em tua veia
O sangue, o charco, barulho lento
O porto, silêncio!...
Navegar é preciso
Viver não é preciso...

O Rio me lembra tudo o que passa...sem parar para dar tempo de a lembrança transformar em prelúdio, falsete ou uma canção de amor. O rio apenas passa.
Hanna de amor

19 novembro 2014

Às vezes, uma certa necessidade de poesia nos põe em xeque...
 sem fundos, sem assinatura, com o ano ultrapassado
A vida nos passa em falso, estelionato da  possibilidade, fantasia, calote
Xeque... mate.

11 novembro 2014

Olá, vocês que ainda passam por aqui. Fiquei distante um longo tempo. O tempo passou e mudou muitas coisas na realidade comum - na minha e na de vocês, claro. Mudaram também as convicções que fazíamos questão de defender - para mim e para vocês também, certamente. E agora estamos aqui - sempre a um passo de sermos felizes. A felicidade é uma coisa tola que está sempre adiante de nós e que perseguimos como se fosse possível alcançar, já que a colocamos em lugares e possibilidades tão distantes.  Não, eu não desacredito da verdade de que podemos ser felizes; acho apenas que não sabemos o que a felicidade é, e nem sequer desconfiamos com o que ela se parece. Já perceberam que quando a vida nos proporciona tudo o que queremos - e às vezes até algo a mais - imediatamente começamos a desejar algo que nem estava nos nossos planos? Felicidade é o nosso dedão do pé!...
Quem bom estar de volta. Tomara que você ainda passe por aqui.
Amor da Hanna de sempre!

20 outubro 2013

Quando estamos distantes...


A distância se mede muitas vezes em pensamentos - podemos estar longe demais ou quase perto. Esta romântica Hanna, em necessário exílio, brinca com a saudade como se fosse um círculo de elástico. Às vezes os meus amores incondicionais parecem estar juntinhos e todos bem perto de mim. Às vezes se distanciam, como os cinco dedos de uma mesma mão, testando a resistência da saudade elástica. Este post aí embaixo eu fiz para o Eduardo, em uma conversa quase esotérica, onde uma árvore frondosa nos ensinou a ter paciência com a vida; hoje, caminhei ao som da música do Leonardo, passando entre as árvores de um infindável bosque, enquanto os pensamentos me distraíam com a lembrança da sagacidade do Rafael e da sabedoria da Tatiana. Amores incondicionais são como elásticos que se expandem para caber quem vem depois - o sorriso da Michele... a seriedade do Rodrigo... Ramos novos da mesma árvore; filhos de segundo grau. Para eles, essas poucas palavras, como beijos em profusão. 

27 agosto 2013

UMA ÁRVORE E O CAMINHO

Pelo caminho, ainda bem cedo, vinha pensando no que te dizer para dar a plena certeza de que este momento é apenas uma parte do processo lento de crescimento. Mas como, se eu mesma ainda estou em processo? As palavras não foram criadas para dar certezas, mas apenas para distrair a mente enquanto a vida acontece. Mas no caminho havia uma árvore! Essa aí da foto. A natureza é igual para todos - tudo ocorre de forma semelhante. Parei em frente à bela e frondosa árvore. Sabia que havia ali uma mensagem que poderia me ajudar a te dizer o que as palavras não conseguem. As árvores guardam sabedoria sim, talvez por isso os monges budistas preferiam sentar-se embaixo de árvores para meditar e atingir a iluminação. Cultivo bonsais, o que não me dá espaço para meditar sob as singelas copas, mas o meu caminho é repleto de lindas árvores, que falam sempre que me disponho a ouvi-las, ou quando não sei o que dizer a quem amo. Pronto... lá vai a divagação puxando essa distraída Hanna pelos cabelos...rs. Mas ao me dispor ao chamamento daquela árvore, entendi o que poderia dizer para curar a minha e a tua ansiedade, defeito que nos esgota a capacidade de sonhar e modelar uma realidade mais afortunada. Ela apenas me deixou ver-lhe a natureza própria de árvore, e então  uma intuição sussurrou ao meu ouvido: na natureza tudo repete a mesma ordem. E pensei nela como uma semente minúscula, na cova escura, lutando para cumprir o destino que agora podemos testemunhar - raízes profundas, tronco forte, espraiado em vários galhos, copa frondosa, quem sabe até dê flores e frutos...  Foi quando olhei para o alto e vi o Sol por detrás das nuvens cinzentas, banhando os galhos altos e o chão comum entre mim e ela.
E aí está a foto deste momento também. O percurso humano guarda uma profunda semelhança com a história das árvores: o Sol nos oferece luz e calor, mesmo quando estamos na cova funda e escura, nos alimentando de luz, nos fortalecendo a ponto de conseguirmos romper a terra espessa. Talvez este momento em que vencemos a primeira das muitas etapas seja o de mais intensa dor... quando apontamos as primeiras folhas tenras e somos obrigados a nos adaptar a um ambiente até então desconhecido... ou ignorado. Mesmo que a cova escura fosse aprisionadora, o hábito de estar lá se confundia com conforto e proteção. Pensei então que os sofrimentos a que tantas vezes somos atirados e nos parecem incompreensíveis são  apenas os interstícios entre uma fase e outra; uma espécie de nó do crescimento, uma oportunidade e comprovação de que estamos a caminho. O sofrimento da alma - espécie de consciência do existir - é apenas o certificado de que nos tornaremos fortes, frondosos, frutíferos, capazes de ter para dar ao mundo - um apelo à coragem de resistir. Sim, os que sofrem a dor de existir trazem sementeiras no embornal, que vão alimentar os que passam, desprovidos de força e de fé, através do conhecimento, da sabedoria, da experiência. Ah, como são lindas as imensas árvores do caminho... Preste atenção nas estações e também poderá ver como a vida se comporta. Nossas primaveras dão lugar aos verões, que por sua vez cedem o tempo ao outono; o inverno é inevitável, mas logo a seguir será novamente primavera... e outra vez verão... outra vez e outra vez.  Se entendermos isso, saberemos esperar o inverno passar, na certeza de que é apenas uma estação. Alimentemos o solo da nossa vida de acordo com cada estação e deixemos ao Sol a tarefa maior - apenas confie. Olho para a árvore e vejo você -  folhas verdes e lustrosas nos galhos mais tenros; raízes firmes que sustentam a certeza do que será; o tronco forte que se alinha apesar do impacto dos ventos; uma seriedade visível na capacidade de resistir às intempéries. 
 Eu penso que esta árvore se parece muito com você.
Amor de sempre, sempre.
H.

08 junho 2013

Cartas de amor

Cartas de amor... Caíram em desuso depois da internet. Os sentimentos explicitados no Facebook fazem o amor parecer bugiganga de camelô sem banca, mercadoria mal arrumada sobre um pano preto no chão - disposição estratégica para fugir quando o rapa chegar. Amor de cartas se eterniza, mesmo que morra, que acabe. Registro ensolarado de sentimentos e fatos obscuros, as cartas de amor enfeitam a dor, lavam as ofensas, desnudam as esperanças que a vida real não soube concretizar.  O que a vida torna real é registrado em documentos que não reproduzem alegrias, sobressaltos, expectativas, dores. Documento é ponto final sem texto, sem parágrafos, sem reticências. Nas cartas, o fim do amor é o último gesto de resistência, que a vida já não deixa perceber, mas fica lá, transmutando-se em promessa encantada que se recusa a não se realizar - promessa encantada, feito cristal.  Fernando Pessoa trocou centenas de cartas com Ofélia, a amada com quem nunca se casou. A correspondência foi publicada recentemente em um pesado livro. Em um dos seus belos poemas, Pessoa diz que "cartas de amor são ridículas", a que Ofélia responde: "ridículo é quem nunca escreveu uma carta de amor."
A todos, uma missiva de amor desta tola Hanna.

10 maio 2013

"1001 discos para ouvir antes de morrer"

Esse é o nome de um livro literalmente de peso, editado por Robert Dimery e prefaciado por Michael Lydon, editor e co-fundador da revista Rolling Stone (Editora Sextante). E o assunto é exatamente o que diz o título. Como meus dias de ócio criativo trocaram de adjetivo (isso é o que dá negociar a criatividade nos balcões insensíveis do mercado!) tenho vindo aqui bissextamente e me comovo com o reloginho lá embaixo, sempre registrando um passante ou outro. Vou tentar recuperar o fôlego, aproveitando essa  incursão musical e compartilhando com vocês os 1001 discos que pretendo ouvir antes de virar purpurina, confete, algodão doce, estrelinha lusco-fusco no meio do céu.  Espero que gostem... e comentem, por favor! Vamos começar pelos anos 50, quando Fidel se tornou presidente de Cuba e Hitler foi declarado oficialmente morto. Ah! Informação relevante: o bambolê também foi inventado nessa época (está tudo lá no livro; juro que não testemunhei!). Um dos álbuns referidos por Dimery como marco dos anos 50 é In the Wee Small Hours, do inigualável Frank Sinatra. O disco foi lançado em 55, quando Sinatra se separou de Ava Gardner. Conta a lenda que este é o mais impressionante trabalho musical sobre o tema da separação - a dor faz coisas, não? Então vamos conferir Sinatra interpretando a música de Cole Porter que deu título ao disco.  A próxima postagem será dedicada ao rock...yeah!

01 maio 2013

Pensei andando... poesia


PONTOS DE CONFETES

Palavras sobram e dançam nuas
Mentiras amenas, verdades cruas,
Há sempre o que ser dito
Seja lá o que for
O equilíbrio é o meio da dor

Mas onde está o ponto afinal?

Não importa o que
Ou como dizer
Para quem ou para que
Há sempre o que ser dito
Pensado, prescrito, reticente, calado

Mas nunca chega o ponto final.

Saquinho de confetes
que grudam nos corpos suados
Pontos coloridos
prontos para serem usados.

Hanna

07 abril 2013

Retomando a conversa...

Pois é, caro(a) visitante anônimo(a), cuja mensagem está reproduzida na postagem aí embaixo. Escrever a vida em dois minutos pode ser uma experiência interessante. Talvez com isso a gente descubra que para fazer o que até aqui fizemos, dois minutos foi tempo demais. Meio pessimista, não? Mas o que é a vida diante da eternidade? Somos seres eternos e infinita é a nossa vida. O problema é que estamos condenados ao degredo de tempos em tempos... e isso nos entristece e cansa. Noutro dia soube que a pressão da atmosfera sobre uma pessoa de 1,50m, por exemplo, é algo em torno de 10 toneladas. Talvez por isso às vezes me sinta tão cansada, com um desejo enorme de poder flutuar... Engraçado isso, não? Vontade de flutuar... Lembro nitidamente das experiências de voar. Verdade! Juro! Claro que em todas as oportunidades eu estava dormindo, mas sempre experimentava a sensação  de voar e andar no ar; parecia real. Muitas coisas na minha vida parecem reais, aliás. Mas sei que a maior parte delas é apenas ilusão - e essas são as que mais me custam. Mas felizmente temos tempo para além de dois minutos para desperdiçar, até que encontremos o que seja realmente viver.  E no final, a vida de verdade talvez caiba toda em poucos segundos.
Bom domingo, amados e amadas. Estejam onde estiverem, que a sorte esteja com vocês!
Amor de Hanna.