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12 abril 2009

A realidade como discurso

O jornalismo de elite tomou uma calça arriada com a decisão "inusitada" do jogador Adriano de deixar o que o Globo chamou de giardino dei Finzi-Contini* do futebol italiano - para quem será que essa galera pensa que está falando? Pois bem: as notícias não estão acostumadas a serem contrariadas. Como falar de um ídolo que fura a maior bola cheia de sua vida? Como explicar para o estimado leitor? Sim, porque o jornalismo na terra de Adriano não se contenta em narrar os fatos; tem que explicar a história, dar-lhe razoabilidade dentro dos padrões da moral e da estética das classes hegemônicas. Difícil explicar que um seja-lá-quem-for troque a fama pela perspectiva, mesmo que incerta, de ser feliz. Mas como tem jornalista para tudo, a "página móvel" do jornal categorizou logo a notícia: O banzo de Adriano. Não se preocupem com a expressão "banzo". Os jornalistas explicam logo nas primeiras linhas do texto o que é banzo - entendem que os leitores não sabem o que é banzo, ao contrário da história do giardino, que acham que não precisa de explicação. Banzo, segundo contam, era a saudade letal da terra mãe África que acometia os escravos. Muitos morriam de inanição, outros de suicídio. Um discurso que retoma a dor dos negros, escravos e desvalidos. Teria isso algum ponto de comparação com a saga de Adriano? Para além do hoje, talvez sim. Um negro que guarda em sua memória histórica a dor de todos os degredados da África. Mas o que fez com que o jornalista sacasse essa comparação, ao invés de outra qualquer? Talvez sua memória histórica, que está do outro lado do continente africano e de onde jamais tivera que sentir saudade. Vê-se aí de que lado da história o jornalista observa os fatos. Mas como explicar, meu senhor! Sim, porque, repito, jornalismo por essas bandas tem mania de entregar o prato feito. Como explicar uma história como essa? No caderno de Esportes o cara já não cabe! Vai pra tal da página móvel, onde jornalismo pode até ser ensaio poético - e haja ensaio! E lá pegaram tudo o que tecnicamente poderia compor a notícia - infância trágica, favela, subúrbio, pobreza, drogas, alcoolismo, sexo compulsivo, e por aí vai. Um jornalista apenas não seria suficiente para explicar tanta desnotícia. Tem lá o outro, naquela coisa técnica de oferecer o contraditório, até quando os próprios fatos enredam sua contradição. E o poético jornalista, depois de sacar até uma ultrapassada AR-15 e todo o "clã" de traficantes mortos da Zona da Leopoldina, mandou essa: "Bonsucesso Blues: o suburbano coração bate mais forte, seguro, confiante nos locais onde não precisa marcar gol para ser rei". Apequenou com bela frase o Adriano ídolo, o Adriano que cagou pra fama. É mesmo muito difícil falar diferente daquilo que somos; dar espaço ao outro possível. A realidade de Adriano já começa a virar apenas uma versão - versão que sai de um lugar que não fala a mesma língua dos degredados da África, ou dos reféns das favelas da cidade, e que no máximo considera a possibilidade de proteção que oferecem os jardins dos Contini. A versão dos vencedores, se me permitem a acidez da referência. Versão daqueles que explicam que a boa realidade é aquela construída do lado aprazível de um túnel que nunca conseguiu unir a cidade, que nunca conseguiu deixar o outro lado fazer sentido. Estão aí as notícias de jornal para lhes guiar a vida, a compreensão, o sentido, o nexo, caros leitores. Daqui em diante, Adriano corre o risco de acabar virando assunto da Editoria Geral - lá onde os jornalistas da página móvel foram buscar o passado inglório para o qual acreditam que o jogador está voltando, depois de sair do conforto dos jardins alheios. Vejam só com quantas retóricas sorrateiras se destitui um ídolo que teve a ousadia de querer escrever a própria história e acabou derrubando a porra da notícia.
Salve, Adriano!
Hanna.

* Explicando os giardino, do jornalista da página móvel:
É um filme de Vittorio de Sica, de 1970, sobre os Finzi-Contini, uma das importantes famílias da Itália. São aristocratas, ricos e judeus. Os filhos mais velhos - a bela Micol e o refinado Alberto - sempre reúnem os amigos para disputadas partidas de tênis, além de promover festas muito alegres. Mas eis que os italianos fascistas se aliam aos alemães nazistas, dando início à perseguição dos judeus. Os ricos Finzi-Contini irão abrir os portões de sua mansão para abrigar os amigos perseguidos.
Entenderam agora o que o jornalista móvel quis dizer?

11 abril 2009

A lua apaixonada por Saturno

Deu no The New York Times. Cientistas descobriram que Titã, a maior lua de Saturno, possui dunas de areia, lagos de metano líquido e, quem sabe, até vulcões glaciais. Howard Zebker, o cientista da Universidade de Stanford que participa da missão Cassini - que bisbilhota a vida da mais importante lua daquele planeta vaidoso, cheio de anéis - diz que ela é uma lua "achatada" e que esse achatamento se deve ao fato de que a pobrezinha sempre teve a mesma face voltada para Saturno. E Saturno, com sua poderosa força gravitacional, provoca nela grandes marés. E o resultado desse idílio planetário, segundo os cientistas, é a formação de lagos de metano, concentrados perto dos pólos, semelhante a um lençol d'água na Terra. Apostaria eu e minhas tolices nada científicas em uma espécie de gozo astral. E digo isso baseada nas palavras dos bisbilhoteiros de Stanford! Eles também disseram que Titã é "ligeiramente saliente ao redor de seu centro". Não é o que eu digo?Palavras deles!!! Está no The New York Times! Eu exagero, mas não invento! Se os astros afetam o tempo, as marés, os humores.. porque não os amores? Vai ver que o desejo vem de lá, daquela lua absolutamente envolta em marés de metano, provocadas por aquele monumento que é Saturno.
Acreditem; é fato! E elazinha, na foto, é aquela coisinha redondinha e alaranjada à direita do grande astro.
Hanna Bobona

10 abril 2009

Salve, Adriano!!!!

Se todos tivessem a coragem de fazer o que fez o Adriano com o Inter de Milão, o mundo não seria esse vai-no-monte onde se vende gato por lebre e ilusão por felicidade. É isso aí, Adriano! Vem ser feliz do teu jeito, com a tua gente! É como diz a música: "...pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para se feliz."
Hanna Bacana

07 abril 2009


Queridos e parcos leitores,
Peço licença para abusar da sempre aconchegante companhia com que distinguem esta malfadada pretensão de escritora. Não tenho tentativas de texto ou poesia sem rima para lhes apresentar, mas peço um minuto da sua atenção, se não for atrapalhar o seu silêncio e a sua viagem - tal e qual fazem os ambulantes que vendem "mercadoria de primeira" nos ônibus da cidade.
Desta vez não trago mercadoria, daquelas que recolho pelos caminhos das minhas vidas-viagens. É só uma conversinha rápida, sobre alguma coisa que já há tempos me ocorre, feito uma lembrança que esqueceu de se apagar. Era um documentário da CBS que eu editava para um programa de TV naquela minha encarnação de jornalista. Já nem lembro se foi ao ar, de tão dramático que era. Houve um tempo na TV brasileira, acreditem os mais jovens, onde se considerava o sofrimento e a dor como algo a se resguardar e tratar com outros remédios que não o espetáculo e o exibicionismo. Pois bem: eram pessoas com as mais graves deformações que davam depoimentos sobre como conseguiam viver em mundo que exige o máximo da perfeição estética e vende toneladas de produtos para que os menos dotados se disfarcem e sigam na disputa pela aceitação. Dentre os personagens, havia um menino de 9 anos - este que nunca mais me saiu da memória e agora apresento a vocês. Ele nasceu com uma deformidade que afetava não apenas a parte externa de seu corpo, mas também a estrutura óssea, tornando quase impossível amenizar seu sofrimento através de cirurgias. Ele parecia um peixe. Isso mesmo! Imaginem o formato de um peixe: cabeça e rosto compridos; orelha como guelras; não havia nariz... e os braços pareciam pequenas barbatanas. E ele, coitadinho, não sabia que era assim. Fora protegido dos espelhos por longo tempo na vida. Na primeira infância, causar espanto para ele era como brincar de esconde-esconde... e ele até sorria com o que mal parecia ser uma boca. Á medida que foi crescendo e tomando contato com a ideologia da beleza no mundo, começou a ver que não era igual e quis se ver. Neste momento, o choro interrompeu a narrativa daquela voz que mal se conseguia entender... e a edição original da matéria deixou que o choro se prolongasse, emocionando a todos que reeditávamos aquele VT. Choramos copiosamente quando o menino retomou a fala e declarou como última frase da reportagem: "But I'm cool... I'm lovely, like everybody... I'm beautiful inside..."- Eu sou legal... sou amável como todo mundo... sou bonito por dentro...
Agora lembro que a matéria acabou não indo ao ar. Era muito constrangedora para um mundo que cada vez mais julga a si mesmo pelas aparências. Não era aconselhável incomodar o domingo das famílias perfeitas com a dor de uma aberração. Não me lembro se reclamei, se lutei pela matéria, reclamona que sou. Mas isso agora não importa. O garoto certamente nem existe mais. O destino cruel o agraciou com um perspectiva curta de vida. Não chegaria aos dezoito. Mas eu nunca mais esqueci... e nem sei porque agora tenho me lembrado tanto disso.
Algum motivo deve ter, para quem não acredita em acaso. Mas como meu sexto sentido anda em baixa, arrisco apenas uma interpretação banal: as aparências enganam, para o bem e para o mal. Hummmm...frase feita, pobre, sem qualquer efeito prático, mera bundice de quem precisa correr porque já está perdendo a hora.
Com muito, muito amor aos meus amigos lindos e perfeitos, sejam eles como forem.
Inté!
Hanna Banana.

06 abril 2009

Pegando carona em pensamentos alheios

Aos 104 anos, Barbosa Lima Sobrinho escreveu seu último artigo para o Jornal do Brasil. Aos 100, Oscar Niemeyer planejava construir um centro de discussões filosóficas para falar sobre tudo e qualquer coisa. Será que hoje, aos 101, já terá conseguido? Cora Coralina, poetisa em um tempo e um lugar em que ler não era assunto de mulher (que dirá escrever), viveu produtiva e poeticamente até quase 100 anos. Aos 50, ela relata ter passado por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde, apenas mais tarde, como "a perda do medo". Já Drummond, dentre os longevos, foi meio covarde: escondeu a vida inteira um amor clandestino. Mesmo assim, com as duras penas por que passam os que se impõe guardar segredos, ele amou até seu último instante. Já Einstein não viveu tanto, morreu aos 76, talvez porque tenha gasto todo os minutos da sua cota fazendo aquilo que amava. Um físico sem-medidas! Considerado um gênio, publicou quatro dos artigos mais importantes do século XX. Mas resvalou para o mundo dos comuns mortais com a alegria estampada na imortal careta. Se não fosse físico, seria músico, disse ele um dia. É... na vida tudo é arte. Madre Teresa de Calcutá, que viveu em missão até os 87 anos, entrou em crise espiritual por volta dos 50 - "Tão profunda ânsia por Deus...e repulsa, vazio, sem fé, sem amor, sem fervor. Almas não atrai. O céu não significa nada - reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959: "Se não houver Deus, não pode haver alma; se não houver alma então, Jesus, Você também não é real". Era uma mulher que não sabia esconder, nem mesmo com tamanha dimensão, o que quer que fosse... nem mesmo suas questões, angústias, desamparo - ao contrário de Drummond. Mas a pobre Teresa não abriu mão do que acreditava apenas por si e seguiu pelos caminhos da longa vida fazendo pelos desvalidos da humanidade o que lhe competia. Linda e pobre Teresa de Calcutá.
Jorge Luiz Borges, aos 85, descobriu que não era imortal. Talvez, na verdade, tenha descoberto que uma vida era pouco para quem tinha tanto a oferecer, tanto a querer conhecer - filosofia, metafísica, mitologia, teologia!
"Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida; claro que só tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida, só de momentos, não percas o agora". O "agora" é o "sempre" do final da história. Podem estes personagens não terem sido mais felizes, não terem amado tanto, não terem se perdido tanto. Mas ao olhar para trás, tiveram boas e grandes coisas do que se arrepender. Ainda bem que todos os gênios e espíritos grandiosos só se arrependeram de não terem feito diferente quando a tarefa já estava concluída. E para Borges, certamente não teria sido suficiente ter sido apenas um, ele mesmo, do jeito que era: um virginiano.
Ave, todos!

Ei, Sel, obrigada pelo gancho que me inspirou este textinho sem-vergonha.

05 abril 2009

04 abril 2009

Cheguei cheia de textos.. mas encontrei um Gonzaguinha no caminho...

Conversinha boba entre gêmeos e aquário

Ainda não era meio dia e o Sol mostrava seus raios com extrema humildade para quem é astro rei. Nem os mais esotéricos poderiam imaginar que naquele momento haveria uma concessão astral, de tão discretos que eram os sinais. Nem mesmo os xamãs se deram conta de que as portas amplas do universo discretamente se abriam, deixando vazar luz tão intensa, que seria capaz de ofuscar até o Sol. A luz que vinha de lá inundava tudo - montanhas, mares, nuvens, ventos, tudo o que sobre a Terra já fora criado. O êxtase infiltrava-se mansamente pelos poros vibrantes dos seres e do planeta - alegria estranha que exultava sem ter porquê. E de repente, uma multidão, tocada pelo calor da intensa luz, acorreu em direção àquele rio largo de correnteza incerta, que fluía para todo lado. Desejavam todos atravessar a porta e buscar a pedra mágica de onde emanava tamanha claridade. O universo, naquele instante, era aberto e receptivo e a todos deixou entrar. No afã de encontrarem a fonte e trazer para si um pedaço de luz, atropelaram-se uns aos outros e guardaram nas mão fechadas o que conseguiram pegar, cada um o seu cadinho. E a razão aconselhava a todos com o velho adágio - "mais vale um pássaro na mão do que dois voando!". Era suficiente o que conseguiam levar. Mãos fechadas, apressaram-se a voltar para os seus lugares de sempre, suas preocupações e dores de sempre, seus sonhos e desejos sempre iguais. Mas desta vez, pensavam todos, eles tinham uma pedra mágica que produzia a alegria, o êxtase, o calor e a luz. Tudo estaria de acordo e suas vontades seculares seriam realizadas. Alguns, ao chegarem de volta, abriram logo as mãos para começar a usufruir da realização dos desejos postergados. Mas, incompreensivelmente, as mãos mostraram-se vazias...não havia nada lá. Outros, assustados e ansiosos, abriram as mãos lentamente e encontram apenas o medo, quebrado em pedacinhos que se multiplicavam a cada olhar. Outros sequer abriram as mãos para não deixar vazar nem um pouquinho de valioso achado. Estes nunca souberam o que havia exatamente ali - se tristeza, se alegria, se amor ou redenção. Outros, ainda, foram abrindo as mãos aos pouqinhos, na esperança de fazer demorar o instante mágico de ser feliz, tão acostumados que estavam com as expectativas e as desilusões. E à medida que lentamente abriam as mãos, a luz ia-se esvaindo, misturando-se à vida, tornando-se a tudo igual. Sentindo-se desiludidos e ludibriados, voltaram-se todos para o lugar de onde veio aquela luz. A porta já estava fechada. Do lado de fora, em um carnaval de enexplicável alegria, estavam os frágeis, o sensíveis, os receptivos, os intuitivos, os esperançosos, os xamãs, os bruxos, as feiticeiras, as crianças, os sábios, os esotéricos, os malabaristas, os poetas e alguns outros que o manto do segredo não deixava ver. Todos aqueles que geralmente ficavam sempre atrás e nunca conseguiam entrar. Os últimos, entre aqueles que sempre chegam primeiro. Estavam todos banhados em intensa luz - sorriam e amavam-se de mãos abertas, corações abertos, mentes quietas; não pareciam precisar de mais nem um pingo de luz. Tinham o que lhes bastava sem nem ter tido que buscar. Com as mão abertas para o ar, bebiam direto da fonte clara de um universo que está sempre lá - um universo que só tem portas para aqueles que precisam de portas para conseguir entrar.

A essência da liberdade está no ato de mudar de idéia - porque é fácil contrariar a vontade de outros; o difícil é contrariar a vontade de si mesmo.
Como de sempre, amor.
Hanna


PS.: Em Goiás, a partícula verde luminosa era Césio 137. Mas aquelas pessoas que foram contaminadas poderiam estar alinhadas com os frágeis, os ingênuos e os poetas. Os últimos entre os que chegam primeiro. Eram apenas ignorantes, deixados de lado pelo poder público que geralmente, ao abrir a mão, transforma em lixo o que o universo oferece como solução. A todos um fim de semana de paz.

31 março 2009

30 março 2009

Joana é mais uma mulata triste que errou...Errou na dose, errou no amor, Joana errou de João. Ninguém notou, ninguém morou na dor que era o seu mal. A dor da gente não sai no jornal.
Chega...Cansei de escrever.

Fim
"Notícia de Jornal" - Haroldo barbosa e Luiz Reis

Que lindo de se ouvir....

29 março 2009

Coisas de Hanna

Um bom texto, reza a lenda, deve ter começo meio e fim - aliás, como tudo na vida. Mas devo confessar que tenho uma certa dificuldade com os últimos parágrafos. Nada que uns dois ou três sofrimentos não resolvam. No final, texto redondo, a vida segue... ou será que eu não sei ler?

Historieta para redecorar caquinhos

Sem limites encontrou sem medidas e foram juntos passear. Deram-se as mãos, que se encaixaram perfeitamente, e começaram a buscar aonde ir. Mas como? Se não há limites e nem medidas, fronteiras também não há. Pode-se ir ao mesmo tempo a todo lugar! Resolveram então dormir, já que a liberdade, era certo, estaria sempre lá.
Ilustração sobre foto de Anselmo Veríssimo

28 março 2009

Pensamento mágico e desejo real

A noite estava calma, com uma brisa leve que vez ou outra trazia o cheiro do mar. Ele parecia seguro de sua posição naquele emaranhado de pensamentos, que ela oferecia em desconcerto, em uma fina aflição do não saber... não saber o que estava, ela mesma, desenhando no universo com seu desejo.
- Sim, você pode colapsar outras possibilidades, novas realidades - explicava ela na tentativa de convencê-lo da verdade que, no fundo, ela tanto temia. Sim, você pode decidir o que será. O que será? A intimidade com as perguntas não a protegia do medo das respostas. E ele, semblante suave, parecia saber e guardar o segredo, com um sorriso que indicava que a resposta estava bem ali. Mas ela não conseguia ver; precisava das bruxarias de um xamã para antes poder crer. Era um esforço inútil, debater-se buscando parâmetros antigos para enquadrar o novo. Então se deixou ficar, sem esforços para desenhar um si-mesma melhor do que na verdade era; para se transformar no que quer que fosse para ser recebida e amada. Estava cansada. Ao depor as armas e romper as amarras, ela simplesmente sorriu. Aí então começou a ver: ao universo não importa como você pensa que a felicidade é; ao universo basta apenas saber que você quer ser feliz. Ela começou a se mesclar à serenidade dele, aconchegando-se a uma intimidade que se foi desenhando no ar. Ao fundo, um som dizia "minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro...". À frente, o mar; lá longe, a janela para um outro lugar. O pensamento serenou... já não era preciso se inventar. O botões que fechavam as cercas foram cedendo às mãos suaves e firmes que ele estendeu para conduzi-la. O calor da proximidade dos corpos formou uma fina aura de atração e desejo. Era impossível não se entregar. Como a anfitriã de um castelo, ela se curvou ligeiramente e fez as honras da casa, saudando a nobreza do visitante: pode entrar. As portas e janelas se dissolveram, deixando apenas um campo largo, imensa relva orvalhada de suor. Ele caminhou seguro, incluindo-a em si-mesmo, como quem chama: vem pro mar. Ela o seguiu sorrindo, mesclando o seu ser ao ser que ele era, corpos ardentes e espíritos apacentados. A pele perfumada de sedução adornou a cena com as cores vivas dos afagos, dos beijos e carícias em movimentos intensos, como os de um artista ávido para compor a tela. Ela estava cansada de portar a si mesma e se deixou reinventar. Ele a refez delicadamente aos poucos - pés, pernas, o ventre das energias criativas... se demorou ali, para que não faltassem detalhes. As mãos esculpiam o corpo novo, como quem alisa o barro que se transformará em jarro. E ele amava, embevecido, as partes que aos poucos iam surgindo, ganhando forma e vibrando - os quadris, os seios, o colo, o rosto, os cabelos. Quando a arte se completa, o artista percebe a verdadeira dimensão da separação e sofre - tenta resgatar a si mesmo, a sua parte, e trazê-la a todo custo de volta. E na sofreguidão do resgate, acaba ofertando mais de si, cada vez mais de si. Neste momento, o universo responde ao desejo de felicidade, plenitude e paz com um fugaz momento de comunhão.

25 março 2009

Em construção

Há uma ponte. Sempre há uma ponte, porque a vida é feita de travessias. O desejo inaugura o trajeto e o habita de circunstâncias, entre as quais o medo. Se as pontes fossem traços rabiscados no chão, passaríamos sem nos dar conta do percurso. Mas uma ponte supõe a ligação ao que está distante, ao lado de lá, ao outro, ao que não estamos habituados a habitar. Uma ponte inaugura possibilidades, constrói ilusões, desilusões e até realidades. Uma ponte pode ser o caminho desejado, mas nunca dantes percorrido; pode ser o começo de um novo estar no mundo, um novo lugar. Uma ponte pode ser apenas uma ponte. Daí o abismo, primo-irmão do medo. As pontes inauguram possibilidades... e as possibilidades não estão rentes ao chão...
Foto: Anselmo Veríssimo

Eu preciso dizer...

É apenas parecido.. não é igual.

O que nos atrai do outro lado do abismo é o que nos encoraja para a travessia. Enamoramento, encantamento, enlevo...
e la nave vá.

24 março 2009

Pensamentos inspirados


Acordei com um trecho de música ecoando no pensamento: "... pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz...". Não sei de onde veio e o que pretendia informar. Música antiga, que há muito não ouvia. Costumo pensar que existe um canal que às vezes sintoniza a fonte do universo e deixa antever determinadas coisas que nos chegam como mensagens cifradas. Passo pelo menos a metade do dia tentando entender, depois vai passando, até que um dia volta e do meio do nada eu descubro, como se fosse um eureka! ou um bingo! sei lá. O mistério não está na frase que brota, mas no que a faz brotar, o começo da conversa que entabulamos em algum lugar no espaço do estar dormindo. E só trazem um restinho de lembrança os cursiosos e os teimosos, que insistem em saber como foi que Deus fez isso. Não estou postando a história só para ilustrar o blog, mas para ver entre meus sempre amados leitores qual deles, mais esotérico, poderá me dar a pista do que acontece do lado de lá. A curiosidade é um dilema, na vida de um geminiano!

Mas nem tudo é ocultismo e mistério se o ascendente é aquário...rssr. Dia claro, pensamento alinhado com as possibilidades reais, conectei-me à fonte de inspiração concreta que vem acolhendo meus melhores pensamentos e instigando meus sonhos e devaneios - devaneios... fonte perene das humildes letras com que teço os textos que ofereço aqui, qual camelô das ruas tentando convencer a freguesia de que a mercadoria é boa. Não abra sua janela para universos sem paisagens - recomendei em um gesto de inspiração espontânea que nem eu sei de onde partiu. E fiquei eu mesma a tentar investigar se na minha casa de onze janelas havia alguma que por ventura daria para lugar nenhum. Não deu tempo de checar todas, porque o edifício é alto e se espalha para todo lugar. Tinha que seguir. O dia já reclamava um mínimo de bom senso e razão! Apressei-me e fui embora, contando as horas para um dia que promete chegar. No meio do caminho, abri a janela para ver a paisagem do aterro passar.

23 março 2009

Finalmente, segunda-feira

Piadinha de segunda-feira: a produção da crença
São marcos o que a humanidade arranjou para se dar sempre uma nova chance de recomeçar. O primeiro dia do ano... o primeiro ano ímpar... ano bissexto...o primeiro ano do novo século, do novo milênio. E por que não uma nova segunda-feira? Já que são apenas convenções, porque não inventar mais e nos dar mais chances a cada dia de fazer tudo diferente do que já provou ser projeto furado? Talvez por nossa leniência e preguiça, desperdiçamos a segunda-feira agregando a ela o discurso simbólico do trabalho. Mas a mim, que amo o trabalho, a segunda-feira só faz bem. Vem com cara de casa nova, onde a gente entra na sala vazia e começa a pensar como vai ser o lugar que vamos habitar — encher de nós mesmos e nossas tantas circunstâncias e circunstantes. Pois bem. Entrei na sala vazia, com as caixas entupidas de coisas que venho trazendo de outras casas e que às vezes transbordam nos sábados e domingos. Empacoto tudo em tambores de chumbo forte, como se césio 147 fosse — verde luminoso, pó de pirlimpimpim, mas mortal como a peste! E assim como acontece com nossas usinas nucleares, todo lixo passível de contaminação fica sem ter onde enterrar. Pego as tintas e pincéis com que ando enfeitando a realidade e faço nos tambores umas flores improvisadas , com jeito de arte moderníssima — pétalas de esquecimento, raízes de perdão, gravetos de alegria, sementes de amor, uma ou outra lágrima de orvalho aqui e ali. E ao final da tarefa enjoada, batuco neles um reagge para exorcizar. Everything is gonna be all right... E sigo em frente na nova segunda-feira, onde tudo está por começar e a se fazer. Abro a janela da sala vazia e deixo o sol entrar — primeiro habitante de uma vida que acaba de nascer. E se chover, não tem problema: daqui a sete dias começo tudo outra vez.
E aos meus amados, uma semana de muita paz!

22 março 2009

Encantos do acaso, da chuva e do mar

Chovia. O tempo ainda guardava um resto do dia de sol que fizera antes, mas chovia discretamente... quase sem molhar, mas chovia. Distraída, ela não percebeu a chuva quando abriu a janela para a esperança de um dia novo. Viu apenas um céu nublado, de um cinza todo por igual. Mas o que importava? O mar não se importava com os humores do céu e estava sempre lá. Somente ao chegar à rua, percebeu que chovia. E ela ali, vestida para um dia de sol, decidiu continuar. A ingenuidade tola, que por vezes se crê coragem, instigou um gesto de transgressão quase tão discreto quanto aquele tempo sem sol: caminhar à beira do mar e da chuva. O céu inteiro parecia estar de olhos fechados, mas as ondas lambiam a areia sem se importar. Por que ela se importaria? Seguiu apenas assim, olhando a paisagem nova que se oferecia - as gaivotas, que ela tanto invejava, estavam lá, suaves, navegando sem ter porque chegar; as espumas do mar se dissolviam na areia da certeza de que tudo é um eterno refazer; as ondas se dobravam em tubos de esmeralda cristalina, repetindo incansável que o que sabemos e o que somos são a arte que nos distingue, mesmo contra a nossa vontade. Um céu de olhos fechados, deixando que a vida seguisse à revelia, para gáldio da serenidade. E ela seguia se misturando aos elementos - a areia molhada sob os pés; o vento manso nos cabelos, o som do mar calando a voz do pensamento... Ao fundo, lá no fim do horizonte, o céu escondia as montanhas, deixando entrever apenas a silhueta cinza da cordilheira que separa o aqui do lá. E lá já nada havia que os olhos pudessem alcançar - uma cidade inteira que se apagou, porque os olhos do céu naquele dia não quiseram se abrir. Somente havia o aqui, por onde ela passava e se incluía. Os laços finos do biquini, que balançavam com o seu andar, alertaram-na para o que talvez jamais tivesse notado - um quadril de linhas suaves e ainda firmes; os seios que, por terem cumprindo repetidamente a missão, tiveram da natureza a recompensa de se manterem quase intactos. E ela se acreditou bonita sem que ninguém precisasse dizer. Talvez já não fosse a mesma; talvez já nem fosse... Se distraiu de si e se encontrou sem querer; surpreendeu-se de ver-se assim tão outra. Uma frase inesperada ressoou na percepção lúcida daquele dia sem sol; uma frase de um mestre ancestral que talvez nem tenha se dado conta de que passara por ali e da mensagem que lhe competia entregar: "Tudo que amo deixo livre. Se for meu, um dia volta; se não voltar é porque nunca foi meu". E ela se deixou ficar livre, em gesto de profundo amor por si mesma. Abriu a porta da gaiola onde ficava seu ser passarinho e o instigou a voar. No céu, as gaivotas rodopiavam sobre sua cabeça... e ela já não tinha mais por que as invejar. Agora ela sabia que a Felicidade é muito mais do que o Desejo... e que o Universo é muito generoso para apenas nos realizar a vontade. Deixou-se ir, assim tranquila, flertando com o acaso e deixando cair ao mar, distraída, tudo o que guardava em uma caixa antiga que sempre carregou, mas nunca conseguiu fechar. Se um dia ela volta ou se jamais vai voltar, não importa. Tudo o que amamos, devemos libertar.

21 março 2009


Desejo
(Glauber Rocha)

Queria você profundamente aberta
Num beijapaixonado sem memória e futuro

Queria
prazer desintegrado no infinitamor de nossos corpos desconhecidos

Queria um rio negro
como branco
contando a Vytoria
De uma tragycomedia morta

Queria o maramoroso
De tua pele viva
E a poesia da madrugada

"As coincidências são elegâncias da providência divina."

Um poemeu

Estou de saída,
arrumando uma pequena mala.
Tão pequena que não suporta mais que o essencial,
o importante, o fundamental.
Três pequenas coisas...
Coisas apenas minhas.
Que as não cobicem o próximo,
que as não contestem os ricos,
que as admirem os pobres,
que as entendam as almas nobres.
Ao sair, fecho a porta
de onde todo o resto está meticulosamente ordenado,
arquivado por ordem de desimportância,
por data, por autor, por assunto, por absoluto cansaço.
A chave que tranca a porta não há,
para que eu exercite a cada instante a decisão de não voltar.
Na estação, o trem que faz surgir a estrada necessária,
à medida que ela precisar existir.
Nas janelas, todas as paisagens que meu olhar construir.
Diante de mim, o percurso.
Perto de mim, todas as saídas.
Dentro de mim, a vida.
O resto é apenas uma foto na parede morta da lembrança.

Historinhas curtas do céu

Enquanto tentava ensinar a ela como amar e depois de ter resistido a seus apelos, ele declarou: "Tudo que amo, deixo livre. Se voltar é porque me pertence; se não voltar é porque nunca foi meu." Crédula na sabedoria dele, ela tomou um susto ao percebê-lo bem ali, diante de si, depois de ter ido embora. E mais intrigada ficou ao se dar conta de que ela também estava lá, no mesmo lugar onde ainda bem cedo prometera não mais voltar. Depois, sem preceber que se comprometia, ele perguntou a ela: "você não acha que está se comprometendo?".

FIM

Contos e desencontros da vida

E de repente as lágrimas começaram a vir, uma a uma, à superfície dos olhos. Não era previsto, não estava nos planos daquela mulher. E ela contava cada gota que caía, no desejo ingênuo de comparar com os rios que já tiveram aqueles olhos como nascente. Na conta do pensamento mágico, era simples assim. Alguns poucos desejos, algumas parcas alegrias, um quase romance, uma paisagem não concluída convertidos em poucas lágrimas, que ela contava no afã de se certificar de que eram mesmo tão poucas. A dimensão da dor era equivalente à dimensão do desejo, que ela mensurava por aquele fio d'água que insistente corria pelo seu rosto. Ela tentava racionalmente recolher as fantasias, para se convencer de que havia sido mesmo quase nada. Cabia tudo em uma pequena caixa: sonhos, desejos, alegrias, afagos não concebidos...
Não, não eram assim tão poucas as ilusões. Quando tentava incluir as lágrimas, a caixa não fechava. O que seria o destino? O que premedita o acaso? Haveria um plano? Quem comanda a razão? Quem inventou a distância? De onde vêm os sonhos? O que seria a vida se aquela caixa se fechasse...ou se estivesse vazia? Era da natureza daquela mulher encurralar a dor pela astúcia da razão. Não queria ter respostas; a ela bastavam as perguntas. Tinha um certo gosto pelo segredo. Talvez tivesse sido isso que infiltrou seu coração - o segredo e a tradição, estampados em um mapa que não desvendava o lugar, indicando apenas onde estava o céu. Ou teriam sido aquelas longas conversas que atravessavam a madrugada e invadiam o território dos sonhos? Impossível saber - o fato é que as tintas da vontade de paixão já haviam alterado a paisagem, preenchendo de sentido o espaço entre as montanhas lá no fim do mar. Não importava mais saber... Bastavam, como sempre, as perguntas. O tempo se encarregaria de acomodar todas as coisas. A paisagem e o mundo haveriam de voltar ao seu antigo lugar. O sol que iluminava o lado de lá das montanhas era apenas uma miragem de seu olhos verdes, imaturos. O som da voz que nunca ouviu se apagaria aos poucos. Os risos, os carinhos, a alegria e o desejo que nunca se realizaram voltariam a esperar. Não... não havia nada real sobre o que chorar. Ela se levantou e saiu, deixando para trás a caixa que ficou aberta para a possibilidade de o acaso se decidir a entornar.

Há coisas na vida que valem a pena mesmo não tendo acontecido...ou talvez valham apenas por isso


Quando temos sensibilidade para verdadeiramente ver o trabalho delicado que Deus fez sobre o universo, nós estamos nos encontrando com Ele. E desse encontro a gente nunca volta o mesmo, para o mesmo lugar. Trazemos um pouco de divindade nos olhos e colorimos nossa vida com outras tintas, mudando de lugar. E se compartilhamos o que vimos, descrevendo em fotos, palavras e êxtase, estamos oferecendo um pouco de Deus para o outro. E se o outro aceita... Deus sorri, porque valeu a pena o esforço para a realização do trabalho. Que o dia de todos seja pleno de consciência cósmica, permitindo que se emocionem de alegria por Ele nos ter incluído na paisagem.
Pôr do Sol em São Francisco
Foto: Anselmo Veríssimo

23 fevereiro 2009

Contos em cantos da vida

De dentro de uma gaiola, como quem revela um segredo, ela ensinava a três pequenos pássaros a liberdade de voar. Era exercício diuturno, que não encerrava nem mesmo quando a noite chegava e todos se recolhiam na escuridão. Era nesse momento de silêncio do mundo que ela diligentemente preparava o que haveria de dizer quando o dia voltasse e trouxesse de novo as três promessas de voo alto. Quando o sol começava a ensaiar seus primeiros raios, ela já estava desperta, pronta a recomeçar, embora nem sempre de onde havia parado. As lições teóricas falavam de liberdade, do que havia para além do que os olhos enxergavam e o pensamento podia ver. As palavras fortes se uniam em elos densos, formando um discurso que flertava com a contradição - ora coragem; ora receio... mas nunca medo. E era simples assim: a prática ia se intrometendo a cada espaço de silêncio necessário à decantação das longas dissertações. O que viria a seguir não se deixava saber. Não havia como perceber, de dentro daquela gaiola, como aquele imenso texto, tecido ao longo de tantos dias, poderia significar à luz do dia. Não havia tempo e nem espaço para a questão - o tempo urgia, na vida curta, o cumprimento de toda a lição. O hábito que faz o monge também disfarça o real do ser. E por repetição incansável, ela se tornou ciente de que aquilo era a trama de um dever - dever ser, devir, de servir, de se ver... O fato é que assim foi - vida seguindo, tempo voando e a teoria da liberdade aprendida se manifestando em prática tão forte como a contradição dos elos da corrente - corrente que aprisiona, corrente do pensamento, corrente de um rio que com persistência e força rompe os laços e cria seus próprios caminhos. Uma cena: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Essa uma das primeiras lições, tirada de Brecht, para dizer às águas que deviam transbordar. E ela brandia palavras consagradas na memória:
— Nenhum país, nenhuma vida precisa de heróis; os que acreditam que precisam não os merecem! Porque não há na vida heróis que antes não tenham sido mártires!
"You can surrender
Without a prayer
But never really pray
Without surrender
You can fight
Without ever winning
But never ever win
Without a fight".
E as palavras iam assim construindo a realidade... realidade à revelia.
Um dia, não se pode saber ao certo quanto tempo havia decorrido, as grades que conformavam a gaiola se dissolveram com a luz do dia que chegava. Não havia como evitar o dia, reter a luz do sol com as margens opressoras de um longo rio; não havia mais a divisão entre o lá dentro e o lá fora... os opostos não apenas se atraem, como passam a vida a justificarem-se mutuamente, a prover de sentido suas existências, driblando quaisquer outras possibilidades, instaurando o controle e o domínio. O fato é que não havia mais grades... e nem teorias que explicassem a irrecorrível liberdade que avultava sobre todas as coisas. E para espanto e constatação, aqueles três pequenos pássaros voavam! Apenas voavam, como se fosse mesmo de suas naturezas; como se sempre tivesse sido assim. E ela ficou ali, olhando, tentando classificar, categorizar, controlar, entender, explicar... Não fazia um único movimento, porque não apenas se foram as grades, como também já não havia chão. O que fazer? Para onde ir? Como andar, quando chão já não há? E ela ficou ali, maravilhada tentando aprender o que era, na prática, aquilo que só sabia ensinar.

14 fevereiro 2009


"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas; elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos."

Clarice Lispector

30 janeiro 2009

Coisas do Centro da cidade. Veja as imagens por satélite. Faça um passeio virtual pelo Centro. Se quiser, pode ir a outros lugares também.


Exibir mapa ampliado
Os videozinhos são bobos, mas vale a pena dar uma olhada. Mas voltando às coisas do Centro...

"Si sobrá, nóis vende".

Becos, becos, becos.... todos com saídas.

Rua do Comércio, Rua da Alfândega, Rua do Ouvidor... Uma história do passado cotidiano por onde hoje passamos em cortejo de efêmera realidade.

Rua da Assembléia.
Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes e passava todos os dias por lá.

Avenida Senhor dos Passos... para caber tantos passos, de tantos passantes, com seus pensamentos passados. Avenida quase larga, mas velai Senhor, para que se alargue seus espaços. Velai, Senhor, pelos passos dos que por ali passam, sem ciência e sem compasso que lhes confirme que nessa vida tudo passa.

Muita água anda rolando por debaixo desta ponte que me liga ao universo. Sorte que não sei nadar, portanto não me arrisco ao que me ensinaram sobre afogamento. E mesmo assim, as águas continuam rolando.

Nossa Senhora dos Homens é o nome de uma igrejinha linda na Rua da Alfândega. A rua que ganhou este nome teve origem em um caminho que ia da orla marítima até a Lagoa da Sentinela, nas proximidades do que hoje é a Praça da República. A rua teve diversos nomes ao longo do tempo, até se chamar da Alfândega, como é hoje. A história é interessante e pode ser consultada em sites que falam da cidade. Mas voltando à igrejinha dedicada à proteção dos homens, confesso que imaginava que haveria neste mundo quem zelasse pelos homens além das dedicadas mães. E haveria de ser ainda uma senhora, talvez avó - aquelas que vieram ao mundo para dar aos homens liberdade e condescendência. E na igreja, uma dessa avós, certamente progressista, foi consagrada santa. Eram avós, com certeza não eram mães. Porque as mães, sei de cátedra, ensinam tudo o que aprenderam - cerceamento e restrição. E a consciência do dever materno, ponto máximo do sacrifício da cultura judaico-cristã que a mídia venera para vender fornos de microndas, diz que as avós estragam os filhos. Mesmo assim elas seguem amando incondicionalmente esses futuros homens, esperando que sejam melhores do que o resultado que a vida produz. Às vezes perdem, às vezes ganham - a avó do Betinho, por exemplo, deve estar sorrindo no céu. Mas a gravidade que aprisiona as mulheres fez com que a condescendência parecesse demasia e desobediência. E assim, conta a realidade da lenda, ficou perdida a liberdade que as avós guardavam nas cestas de costuras - sim, porque liberdade é algo assim banal, que se guarda em qualquer lugar junto a objetos de fiação. Mas voltando ao tema, aprisionados seguem os homens que a senhora da igreja ainda proteje. Acorrentadas seguem as mães, que não conseguem conjugar o amor que sentem pelos filhos com a redenção que os liberta da culpa de terem nascido. Valei-nos Senhora dos homens, porque eles são os nossos filhos!
Mas, perguntinha incômoda que não quer calar: e as meninas, mulheres que não têm igrejas que as consagrem para se apegar, essas que são as mães de todos os homens. Somos o centro da vida? Ou somos escravas subalternas sem redenção? Decidam vocês.
Com o mesmo amor de sempre,
Hanna

25 janeiro 2009

Traduzir-se

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?"

Ferreira Gullar

19 janeiro 2009

Encontro marcado

Emmanuel
O problema da ansiedade

Ante as dificuldades do cotidiano, exerçamos a paciência, não apenas em auxílio aos outros, mas igualmente a favor de nós mesmos. Desejamos referir-nos, sobretudo, ao sofrimento inútil da tensão mental que nos inclina à enfermidade e nos aniquila valiosas oportunidades de serviço.
No passado e no presente, instrutores do espírito e médicos do corpo combatem a ansiedade como sendo dos piores corrosivos da alma. De nossa parte, é justo colaboremos com eles, a benefício próprio, imunizando-nos contra essa nuvem da imaginação que nos atormenta sem proveito, ameaçando-nos a organização emotiva. Aceitemos a hora difícil como a paz do aluno honesto que deu o melhor de si, no estudo da lição, de modo a comparecer diante da prova evidenciando consciência tranquila.
Se nosso caminho tem as marcas do dever cumprido, a inquietação visita-nos a casa íntima na condição de malfeitor decidido a subvertê-la ou dilapidá-la; e assim como é forçoso defender a atmosfera do lar contra a invasão de agentes destrutivos, é indispensável policiar o âmbito de nossos pensamentos, assegurando-lhes a serenidade necessária. Tensão à face de possíveis acontecimentos lamentáveis é facilitar-lhes a eclosão, de vez que a idéia voltada para o mal é contribuição para que o mal aconteça; e tensão à frente de sucessos menos felizes é dificultar a ação regenerativa do bem, necessário ao reajuste das energias que desatres ou erros hajam desperdiçado.
Analisemos desapaixonadamente os prejuízos que as nossas preocupações causam aos outros e a nós mesmos, e evitemos semelhante desgaste empregando em trabalho nobilitante os minutos ou as horas que, muita vez, inadvertidamente, reservamos à aflição vazia. Lembremo-nos de que as Leis Divinas, através de processos de ação visível e invisível da Natureza, a todos nos tratam em bases de equilíbrio, entregando-nos a elas, entre as necessidades de aperfeiçoamento e os desafios do progresso, com a lógica de quem sabe que tensão não substitui esforço construtivo, ante os problemas naturais do caminho. E façamos isso, não paenas por amor aos que nos cercam, mas também a fim de proteger-nos contra a hora da ansiedade que nasce e cresce de nossa invigilância para asfixiar-nos a alma ou arrasar-nos o tempo sem qualquer razão de ser.
Texto de Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier

15 janeiro 2009

A vida como ela pode ser...

Amados, estou feliz. Assim, desse jeito sem exclamacoes.
Com o teclado desconfigurado, tambem sem os acentos que a reforma ortografica recente nao aboliu, sem cedilha, sem tils, sem os meus preciosos e angustiados tremas, sem os hifens que ligavam coisas nao pertinentes... Mas tenho certeza de que mesmo assim voces vao me entender, porque sao generosos, de espirito elevado e julgamento leniente. Pelo que agradeco e me sinto acarinhada. Mas o que me traz aqui e nada mais do que a vontade de falar com cada um dos que passaram por esse blog, assiduamente ou nao. As vezes (ponham crase nesse As, porque das crases nao abro mao)apesar da intensidade da vida e dos afazeres com que Deus nos brindou, temos necessidade de ofertar carinho, de nos aproximar em afeto e nos aconchegar simplesmente no ombro de alguem que conosco compartilha a viagem da vida. Nao precisamos estar juntos, mas que nos cumprimentemos ao passar uns pelos outros; que nos reconhecamos no esforco da caminhada. E isso o que nos faz amigos e, as vezes, dependendo da permanencia e intensidade, nos faz amores. E assim segue a vida, sem porto que seja seguro, porque nao ha parada eterna. Nao ha parada, simplesmente. Entao, quero agradecer a todos os viajantes da vida que encontrei ate hoje e por tudo o que compartilharam comigo de suas proprias bagagens. Nao ha mal.. porque nao ha mal que nao venha para bem. Entao, as oportunidades de compatilhar a jornada, com todos e qualquer um, sao apenas as oportunidades de avancar no caminho. E que todos os que de certa forma construiram a estrada por onde hoje passo sejam abencoados pelas bem aventurancas divinas. Mais ainda aqueles que o fizeram com amor.
Com o carinho de sempre,
Hanna

30 dezembro 2008


NAO DEIXE PARA AMANHA O FELIZ ANO NOVO QUE VOCE PODE FAZER HOJE!!!!
COMECE JA!
A TODOS, O MEU DESEJO DE PLENITUDE E FELICIDADES!

23 dezembro 2008

18 dezembro 2008

Não esqueça... não desista...

Talvez fosse a influência da chegada do Natal, ou do final do ano que é sempre desprezado em função de um novo que promete trazer o futuro. O muro alto que se começa a construir em dezembro põe do lado de lá tudo o que já passou - vala comum dos arrependimentos que engole até o que não se devia deixar de lembrar - como se a vida não fosse uma sequência de coisas que passam. E assim ela estava lá, olhar perdido sobre a paisagem, tentado convencer a si mesma daquilo que vive fazendo os ourtos acreditarem que não. Não era mesmo da natureza dela, mas esforçava-se para se adaptar. Talvez fizesse isso na perspectiva de ter um ano novo melhor, como todo mundo, como se o ano velho não tivesse sido suficientemente bom. Meninas boazinhas ganham mais presentes no Natal... será? Ou estaria apenas perdendo a coragem e se curvando à lógica de querer sempre mais, mesmo ao custo de si mesma? Eram essas dúvidas que vinham de mansinho e derrubavam os tijolos que ela diligentemente tentava organizar em um muro alto de convicção. De repente, em um daqueles privilégios que somente ela era capaz de ver, um beija-flor chega apressado, esvoaçando, ligeiro, passando pela copa das mangueiras imensas e deixando tudo cheio de luz. Era noite já e o beija-flor surgiu, mesmo assim o beija-flor surgiu. Quem, nesse mundo feito de paus e pedras, poderia ter olhos de ver? Um beija-flor na noite calma de um lugar distante. Um pássaro lindo, espalhando luz por todo o espaço, repetindo com o movimento rápido das asas — não esqueça... não desista... não desista... não esqueça...você encanta!!! E todas as árvores se foram iluminando, crescendo por entre a pretensão de se fazer a vida com tijolos prontos, de se fazer do passado entulho e escombro para construir por cima um futuro incerto. Naquele momento ela entendeu, como quem lê a mensagem de um pergaminho que o vento desenrola, que cada dia tem sua própria graça e beleza; cada atitude tem seu valor perfeito — cada riso, cada brincadeira, cada beijo, cada romance de faz de contas, cada alegria escondida nas pregas das saias da inconsequência. Não, beija-flor... ela jamais vai desisitir... ela jamais vai esquecer. Nasceu no meio de uma floresta imaginária e aprendeu com elfos e duendes que amar é como um rio largo, de correnteza forte, que rasga a terra e faz seu norte... e simplesmente vai. E assim a noite amanheceu de mansinho, com cada coisa em seu lugar — inclusive ela, que acordou e continuou a sonhar. A vida é puro encantamento.

25 novembro 2008

Espero que gostem do novo layout

Pois é. Já estava na hora de alguma coisa mudar nesse blog, visto que eu não mudo e já decidi que sou assim mesmo. Mas o retorno de um amigo ao seu blog abandonado me animou a arrumar a casa. Sei que ainda falta muita originalidade e competência tecnológica para poder dizer que fui eu quem fiz, mas as bolinhas me pareceram tão simpáticas... Ah! E passei as notícias para um lugar de destaque. Não há como fugir a essa crise americana global que os jornais insistem que já está chegando aqui. Esse é o problema. Quando alguém começa a ver telejornais demais, acaba alinhando-se à realidade enquadrada e esquecendo as possibilidades que estofam a entropia. E a primeira coisa que desanda é a criatividade, a fé. É... a fé. Fé em Deus, em si mesmo, nas outras pessoas, nos seus próprios negócios, na realidade que não bate com o noticiário, mas que o Renato Machado garante que vai desandar... e logo nas primeiras horas da manhã. E aí é que a vaca vai mesmo pro brejo, enquanto as terríveis variações climáticas não acabam também com a porcaria do brejo. E lá se vai a vaca, assustada com a retração de contratos acertados; com as medidas restritivas de precaução contra a crise que vem lá; com a certeza mais do que consagrada de que se o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil, então... E haja brejo pra tanta vaca. Então tomei uma atitude que considero mais do que suficiente para não dizer que não falei de crise: postei o noticiário em lugar de destaque. E assim acabo me sentindo mais compenetrada, mais...jornalística, digamos. Igual ao meu querido amigo de quem eu falava no começo desta conversa. Ele é irretocável na redação - até porque não perde tanto tempo quanto eu, que me dedico excessivamente a esse trabalho não remunerado. Mas ele transfere para o blog a seriedade com que faz seu trabalho e escreve suas notícias. E pensar que ele é anarquista e adepto da filosofia do ócio criativo, hein... Como esse mundo é crivado pelas contradições. Mas vale a pena visitar, meus amados leitores! Lá tem um vídeo feito por ele mesmo - uma coisa assim descompromissada, quando andava de carro pelo viaduto... da Perimetral, eu acho - com imagens lindas dos prédios históricos do Centro do Rio. E a sonorização das cenas é com um violão marvilhoso, tocado pelo Chico Mário, irmão mais novo e também já ido do Betinho e do Henfil. O endereço é http://www.luznagaleria.blogspot.com. Eu garanto que vocês vão amar. Principalmente esses meus leitores queridos que moram lá na terra que Barak Obama terá que reinventar. Está na hora de ir embora. Foi um prazer poder matar o final do dia de trabalho para conversar com vocês. É... pode ser influência do meu amigo do Luz na Galeria e seu estilo De Massi... Mas antes assim! Já pensou se a influência fosse do Renato Machado? Cruzes!

23 novembro 2008

Da simples e irreprimível vontade de escrever


Por que escrevemos, se escrevemos sempre para um alguém hipotético? As hipóteses são fantasias do real; se pretendem espelho do inexistente para desafiar a realidade que, pelo simples fato de existir, é por natureza tosca, fosca, sem o brilho que apenas a imaginação pode conferir aos pensamentos, fantasias e até à própria realidade.
Mas a pergunta ainda ronda: por que escrevemos, se escrevemos para interlocuções hipotéticas? Com quem falamos, se ainda loucos não nos acreditamos? Para uma multidão fantasma... ou para um fantasma na multidão? Para quem falam os loucos que não se dão conta dos circunstantes? Para quem falam os que insistem em falar? Por que falam? Para que serve o que falam? Não sei. Dia desses, alguém passou por aqui e me ouviu falar sobre as samaumeiras -árvores centenárias que guardam lendas neste pedaço da Amazônia. Ela ouviu atenta e ficou feliz pelo que soube, e muito, muito tempo depois disse assim: "amei esse post no seu blog, acho muito importante esse sentimento de preservar a cultura brasileira, que é tão rica, e semeá-la para todos aqueles que quiserem ler. Estou levantando dados sobre lendas de árvores indígenas e este post caiu como uma luva". E hoje, um amigo perguntou onde eu andava, porque as únicas coordenadas que indicavam meu paradeiro eram as do blog: "em que cidade você está?" E fiquei pensando: para quem falam os loucos e os que escrevem? Talvez para a certeza de que são lembrados, talvez para uma vaidade extremada que os faz pensar que são amados; talvez por que às vezes são úteis, ou apenas porque são livres... e loucos. Então, para quem interessar possa, estou em Belém do Grão Pará, às vésperas de voltar para o Rio de Janeiro. E como presente para a pesquisadora das árvores, que eu não conheço, a gravura de uma samaumeira agassiz, feita sobre a foto de um viajante francês no final do século XVIII. E a todos, inclusive aos inexistentes e hipotéticos, como sempre, amor.
H.

Águas de um rio chamado desejo de voltar

E esse rio largo, longo...
Aonde vai?

Sai daqui do Norte e se derrama em direção ao Sul.
Pra onde vai esse rio?

Onde vai parar? Onde vai dar?
O que deseja encontrar?

Nada demais...
Apenas o mar.

Se eu entrasse nesse rio,
Com certeza chegava lá.

Foto: Durval de Souza

21 novembro 2008

Anjos, anjos... e uma pena que voou.

Eu vi. Alguém faz as asas dos anjos, antes que eles cheguem para usar. As penas alvas são coladas uma a uma, e depois que estão todas arrumadinhas são postas a secar. Demoram dois meses para ficar direitinho e não soltar quando os anjos apressados saem esvoaçando vida a fora. As menorezinhas, que ficam bem abaixo do fim de cada lado, são fininhas, tenras, suaves e sempre acabam se soltando, rindo e indo embora com o vento. Elas são feitas de fantasia. Por onde passam desafiam os sonhos e a imaginação - criam enredo, fazem história, enlaçam os inexistentes possíveis e os impossíveis desaforados. Desaforo... essa palavra vem do latim e quer dizer lugar onde se tratam de interesses públicos - fórum! Mas as penas leves só são penas perdidas; não são penas impostas e nem perdição. São penas das asas dos anjos não têm fórum, não habitam os templos e tribunais. Elas apenas riem com as cócegas do vento e a fé dos tolos. Os anjos que perdem as asas são desprovidos de foro, não têm onde defender o que por si é desprovido de culpa - indefensáveis, desaforados os anjos. Mas eu sei... eu vi aquelas mãos enrugadas e finas a tecer as asas, as estender ao sol e insistentemente avisar aos anjos: tem que deixar dois meses a secar.

19 novembro 2008

14 novembro 2008

09 novembro 2008

Poemeu...

O amor é um rio manso que inventa seus caminhos mesmo contra a vontade da terra.
Joseti Marques

22 outubro 2008

Não posso acreditar!!!!

Noooossa!!! Fui conferir a estatística deste modesto e humilde blog que tem sido relegado à última das minhas prioridades e vi que meus amados leitores continuam acreditando que vou manter um mínimo de periodicidade. Desde que postei o último texto até agora, duzentas e duas pessoas acessaram a página. Pode ser apenas uma pessoa, como podem ser 202; podem ser apenas duas, podem ser apenas 3,4,5,9,10. A minha carência é que elabora em torno da questão de quantos e quem. Mas somando tudo e temperando com a minha tendência ao otimismo, eu me sinto afagada, amada, acarinhada, aconchegada, xexelenta (seria com x?), antipática, metida e nojenta... mas querida, muito querida...e se bobear, extremamente amada.
Seja apenas um, como sejam apenas alguns, e ainda muitos, a todos e todas o meu amor. Aliás, como de sempre.

Nao...infelizmente, não

Acho que, em ato falho, produzi uma certa ambiguidade no texto que postei logo abaixo. Pessoas queridas - do Rio e de New Jersey, na verdade apenas duas - acharam que eu tinha decidido voltar pro Rio de Janeiro. Então esclareço: nunca saí do meu Rio de Janeiro. Vou para onde for por circunstâncias as mais diversas, mas pro Rio eu volto sempre, sem sombra de dúvidas. Mas só volto na hora certa, trabalho encerrado, tarefa cumprida. Ainda não acabou, mas estou me apressando. Só que, depois, me espera o Acre, aonde vou com a mesma paixão que me trouxe ao Pará. Sou extremada nas minhas paixões. Mas por enquanto, de eterna, só mesmo a paixão pelo Rio de Janeiro e aquelas figurinhas carimbadas e lindas que ilustram a minha vida. Aos demais, meus beijos, afeto e carinho, porque a todos amo. Como de sempre.

16 outubro 2008

O problema é que estou morrendo de saudades!!!!!

Pois é.... Para quem anda sentindo falta de minhas bobagens, devo dizer que morro de saudades de tudo e de todos - das coisa mais banais às mais insignificantes. Dá pra ver que o nível de exigência está abaixo de zero, né? Mas é fato: morro de saudades daquele sol que sai à francesa e deixa um frio do cacete no ar; daquela praia que aquece e venta, que manda embora no fim da tarde, mas que te atura se quiseres ficar, se tiveres tomado cerveja demais... A concordância do verbo é apenas uma charme de quem se sente abraçado por outro lugar. Sempre me soou mal o "tu vai" do carioca. Mas agora também me soa estranho o "você vai", diante do "tu fostes" do paraense. Como a gente daqui fala bonito... e eles, na verdade, só falam certo. Mas são observações que apenas denunciam minha indecisão entre o rio e o mar - e que rio... mas que mar. É o ônus de ter nascido sob o signo de gêmeos. Valei-me o ascendente em aquário! Mas tristeza me perdoe... estou de malas prontas - como naquela música que ouvi em um amanhecer longíquo, vindo de uma rua do centro da cidade, entrando por uma janela velha de um tempo que já passou. Até porque, agora, estou a caminho do Rio... do meu Rio de Janeiro.