Sobretudo, coisas relevantes.
E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem
de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante.
Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
"Temos uma escolha. Fugir em pânico ante a iminência do desmoronamento das nossas estruturas; acovardar-nos com a perda dos portos conhecidos; ficar paralisados, inertes e apáticos. Fazendo isso, estamos abrindo mão da oportunidade de participar da formação do futuro. Estamos negando a característica mais distintiva do ser humano — influenciar a evolução por meio do reconhecimento consciente —, capitulando frente à força destrutiva e cega da história, desistindo de moldar uma sociedade futura mais justa e humana. (...) Somos chamados a realizar algo novo, a enfrentar a terra de ninguém, a penetrar na floresta onde não há trilhas feitas pelo homem, e da qual ninguém jamais voltou que possa nos servir de guia. Os existencialistas chamam a isso a angústia do nada. Viver no futuro significa um salto para o desconhecido, e isso exige coragem, uma coragem sem precedentes imediatos e compreendida por poucos."
Isso me lembra outra coisa... Nureyev e Nietzsche, aquele louco...rsrsrs. Taí pra vocês, neste fim de semana iluminado e cheio de bicicletas
Eu só poderia acreditar num deus que soubesse dançar. E quando vi meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene.
Era o espírito da gravidade, ele é que faz cair as coisas. Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem! Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim mesmo a correr. Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo, agora vejo abaixo de mim mesmo. Agora um deus dança em mim.
Assim falava Zaratustra.
Trecho de "Assim Falava Zaratustra", de Nietzsche.
Vejam que lindo texto, enviado pelo Márcio Rodrigues. Valeu!
"A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana dos quais só os diferentes são capazes. Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois". Arthur da Távola
Nossa! Não sei porque tanta reação à pobre da mentira. Não existe verdade na história; tudo não passa de versão e malentendidos, certo? Então, pra que esquentar? E que história é essa de bisbilhotar o que não é da conta de quem não vai mesmo pagar? Fiquem frios... Estou pesquisando umas mentiras a respeito da tal da verdade também. Mas até agora não encontrei coisa alguma que tenha graça e faça rir, como somente as mentiras sabem fazer. Sei não, mas acho que estou achando que as mentiras são mais atraentes do que a verdade. Será? E se for? Hummm...
"Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te." F. Nietszche
"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo". Clarice Lispector
***** "Assim como uma gota de veneno compromete um balde inteiro, também a mentira, por menor que seja, estraga toda a nossa vida". Mahatma Gandhi
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"Uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir".
Winston Churchill
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O dom da fala foi concedido aos homens não para que eles enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros.
Santo Agostinho
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"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer."
Mário Quintana
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"Não me importa a mentira, mas odeio a imprecisão".
Súbito me encantou A moça em contraluz Arrisquei perguntar: quem és? Mas fraquejou a voz Sem jeito eu lhe pegava as mãos Como quem desatasse um nó Soprei seu rosto sem pensar E o rosto se desfez em pó
Por encanto voltou Cantando a meia voz Súbito perguntei: quem és? Mas oscilou a luz Fugia devagar de mim E quando a segurei, gemeu O seu vestido se partiu E o rosto já não era o seu
Há de haver um lugar Um confuso casarão Onde os sonhos serão reais E a vida, não
Por ali reinaria meu bem Com seus risos, seus ais, sua tez E uma cama onde à noite Sonhasse comigo Talvez
Um lugar deve existir Uma espécie de bazar Onde os sonhos extraviados Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés E relógios que rodam pra trás Se eu pudesse encontrar, meu amor Não voltava Jamais (Chico Buarque e Edu Lobo)
Ainda não vou contar a história, porque ainda não consegui transformá-la em texto ou em compreensão plena que possa se traduzir em linguagem. Mas o fato é que encontrei uma índia muito velha na beira do rio e ela me contou uma história. Ela tirou uma pequena esteira de uma sacola que trazia atravessada no corpo e me convidou a sentar no chão. Eu sentei e ela então me recomendou que tirasse os sapatos e deixasse o pés tocar o chão úmido da beira do rio, porque somente assim eu poderia entender o que ela tinha a me dizer. Perguntei "como?". Ela respondeu que me falaria as palavras, mas seria o rio quem me contaria a história. Tirei os sapatos, pisei no chão molhado e forcei os pés na lama até que se pusessem aconchegados pela margem do rio. Ela então começou a contar. Ela e o rio. Eu sentia a história pulsando em mim, enquanto a voz dela ia ficando cada vez mais baixa. Ela tinha gestos curtos e espaçados; não tirava os olhos do rio que passava como uma longa página de um livro sendo lentamente virada. Fiquei intrigada no início, mas depois me deixei ficar, até que ela interrompeu a narrativa e disse para eu ir embora, "de volta para o seu lugar". Ainda tentei lavar os pés no rio, mas quanto mais andava, mais tinha vontade de continuar andando. A velha índia em chamou, apontando para um lugar onde eu poderia lavar os pés e calçar os sapatos. Antes que eu fosse, ela me deu um pequeno amuleto - um sapinho verde chamado muiraquitã. Ela também me contou rapidamente sobre a proteção que o amuleto trazia e foi embora sem se despedir. Apenas se virou e seguiu adiante, pela beira do rio. Ainda estou aqui em Belém e da janela consigo ver o rio... que continua a contar a história.
Os rios contam uma história de liberdade, mas guardam nas profundezas de suas águas os momentos que parecem haver deixado para trás.
Chove aqui dentro e lá fora também... Saudades dos que me querem bem.
"Todos lançamos, em torno de nós, forças criativas ou destrutivas, agradáveis ou desagradáveis ao círculo pessoal em que nos movimentamos. A árvore alcança-nos com a matéria sutil das próprias emanações. A aranha respira no centro das próprias teias. A abelha pode viajar intensivamente, mas não descansa a não ser nos compartimentos da própria colmeia. Assim também o homem vive no seio das criações mentais a que dá origem. Nossos pensamentos são paredes em que nos enclausuramos ou asas com que progredimos na ascese. Como pensas, viverás. Nossa vida íntima — nosso lugar. A fim de que não perturbemos as leis do Universo, a Natureza somente nos concede as bênçãos da vida, de conformidade com as nossas concepções. Recolhe-te e enxergarás o limite de tudo o que te cerca. Expande-te e encontrarás o infinito de tudo o que existe. Para que nos elevemos, com todos os elementos de nossa órbita, não conhecemos outro recurso além da oração, que pede luz, amor e verdade. A prece, traduzindo aspiração ardente de subida espiritual, através do conhecimento e da virtude, é força que ilumina o ideal e santifica o trabalho. Narram os Atos que, havendo os apóstolos orado, tremeu o lugar em que se encontravam e ficaram cheios do Espírito Santo: iluminou-se-lhes as mentes congregadas em propósitos superiores e a energia santificadora felicitou-lhes o espírito. Não ouvides, pois, que o culto à prece é marcha decisiva. A oração renovar-te-á para a obra do Senhor, dia a dia, sem que tu mesmo possas perceber." A todos, uma semana iluminada e de muita paz.
Escrevi o título, mas confesso que ainda não sei exatamente o que a frase pretende dizer. Não é novidade para vocês o fato de eu acreditar que o texto é autônomo, dono das próprias palavras. Quantas vezes relemos, tempos depois, as coisas que escrevemose descobrimos nelas sentidos outros que nem imaginávamos ao escrever. Pois estou esperando que se manifeste o título e me diga alguma coisa que possa ser compartilhada com vocês, meus distintos e amados visitantes, constantes ou não. Reinaugurações e repetecos... Já ouvi dizer que tudo na vida tende a tornar-se habitual e rotineiro por economia de procedimentos. O cérebro também age por esta lógica e nos oferece a resposta pronta para situações catalogadas como semelhantes. E às vezes os fatos são completamente desemelhantes, exigindo uma nova reflexão e atitude a que raramente nos damos ao cuidado de entabular. Vivemos monotonamente por comparação e padrões estabelecidos pelas mais diversas fontes - a mídia é uma das mais fortes delas e contribui pesadamente para atitudes repetitivas que muitas vezes nem fazem sentido. Mas aí também já é um pouquinho demais, né? Tem que ser meio perturbado pra viver pelos padrões midiáticos. Fecha parêntese...rsrsr. Vivemos, por sutil preguiça de viver, repetindo os mesmos padrões de vida, comportamento, decisões, indecisões. O repeteco nos protege do medo de errar, e aí erramos por inércia. Mas vejam: cada dia é tão completamente novo, que não chega a fazer sentido nos comportarmos exatamente igual ao dia que passou, cultivando dores velhas, cansaços de coisas não feitas, remorsos de coisas feitas, culpas, arrepedimentos, ressentimentos. Re-sentimento = sentimento repetido = repeteco! Sim, porque a alegria e a felicidade são coisas que tendemos a esquecer muito depressa. A elas damos um peso tão menor, que não chegam a fazer diferença na balança dos nossos dias, das nossas vidas. Isso é o resultado do repeteco. Somos tão pouco criativos e repetitivos; tão sem coragem. Acreditamos mais no fim do que no começo, e quando acreditamos no começo, imediatamente começamos a ter medo do fim. Esse repeteco é o que nos faz tão tristes e sem grandes esperanças. E aí a Ambev dá um banho! É mais fácil comprar a alegria em latinha ou garrafa do que produzi-la com o próprio fôlego, com o próprio coração. Nem sei exatamente por que o texto foi dar nisso... Talvez seja porque a alegria do coração é quente, e a da Ambev, estupidamente gelada...rsrsrs. Quanto a reinaugurar, não sei muito sobre isso também, mas vou tentar descobrir. Se eu conseguir, juro que compartilho com vocês. Já pensaram? Fazer de cada dia uma novidade, desabituar-se dos repetecos, esquivar-se das mesmas esquinas, dos mesmos caminhos, dos mesmos botecos... Humm.. acho que estou sendo repetitiva. Melhor parar com este assunto. Então vai aí um presentinho para os blogueiros contumazes. Uma cena fantástica protagonizada por Jack Nicholson e que me foi enviada hoje por um amigo do www.luznagaleria.blogspot.com. É do filme As Bruxas de Eastwick. Fabulosa e digna de nota é também a interpretação de... acho que é Pavaroti... de Nessun Dorma, ária do último ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. Segue a letra, só para aguçar a vontade de saber mais e ouvir com atenção.
Lembram daquela história em episódios que contei pra vocês? Aquela a que dei o título no final: "Angústias do céu sobre o que é amar". Se não lembram, recuperem nas postagens mais antigas que vão entender o que vou contar agora. Pois bem: uma das personagens "viventes" e reais veio reclamar do final da história, final este que eu sequer escrevi!!!! Imaginem a Dona Flor estapeando o Jorge Amado pela morte do Vadinho! Pois foi mais ou menos isso. A "cigana", de quem protejo a identidade só porque sou generosa e me empenho por ter alma nobre, entrou esbravejando que eu arruinei o que poderia ser o grande amor da vida dela. — Eu???? Mas como???? Logo eu que vivo tentando convencer o mundo de que o amor é a solução. — Sim, sua tonta!!! Sim!!! O amor é a solução, você diz. O amor pode curar tudo, você diz. As pessoas devem rever suas decisões, você diz. Porra!!!!! Você fala demais!!!! Quando ela disse isso, eu até refleti. Sempre achei que falo demais e que isso é um problema. Fiquei calada naquela hora, mas perguntei tentando me corrigir e não falar muito: — Mas o que foi que eu fiz? — Escreveu uma história idiota, tentando ensinar aos "demasiadamente humanos" como se pode ser... livre!...Feliz!... — E isso é ruim? — Não... não é ruim não. Mas dava para pensar um pouco em mim? — Como assim? — perguntei sem querer falar demais. — Pense em mim, que fiquei a história toda desejando "aquele homem". — Peraí... dá um tempo. Aquilo era só uma história que terminou com vocês dois abraçados, dormindo. Quer melhor que isso? — Não, sua lesa! Essa parte foi real, mas a vida real continua. — Sim, mas o que eu tenho a ver com isso? Eu só escrevi uma história que já estava me agoniando, porque prometi postar a cada domingo. E você sabe que odeio dead lines. — Mas a vida seguiu adiante, e eu... Aí percebi a tristeza dela e nem precisou que terminasse a frase. — Lamento... não tinha a intenção de... — As pessoas boazinhas nunca têm a intenção de... — Aí você já está enchendo o meu saco, sabia? Vocês me autorizaram a tentar escrever a merda da história. — Ele autorizou! Você nem me perguntou! Quando vi, já estava lá com a minha alma exposta! — Eu sinto muito!!! Muito mesmo!!! —Não! Quem sente sou eeeeeeeu!!!! — ela berrou, prolongando o "e" do eu. — Pooooorrrrraaaa!!!! Será que você não consegue entender que "aquele homem" não te ama, caraaaaaaaaaalhoooooo!!!!!!! Um silêncio súbito tomou conta do ambiente por dois segundos, antes que nós duas caíssemos em uma risada incontida. Chorei de tanto rir... ela riu de tanto chorar. Acho que a história, no final das contas, acaba aqui. Boa noite para todos. H.
É melhor morrer de vergonha do que de medo, de constrangimento. É melhor corar de audácia, do que de indecisão. Quantas vezes passamos a vida a ruminar a dúvida de que poderíamos ter sido mais felizes se tivéssemos tido a coragem de assumir atitudes das quais eventualmente poderíamos nos envergonhar e arrepender? Quantas vezes tomamos decisões das quais só nós não víamos que um dia nos arrependeríamos? Amor e medo andam lado a lado desafiando um ao outro. Amor é a resposta e o medo é a questão. Não sei da vida mais do que vivi; não sei do amor mais do que amei. Não tenho perguntas. Não sei fingir, não sei ocultar, não sei adiar o que me antecede. E ao amor, deixo a liberdade de ser enquanto quiser, até que um dia se apague — porque tudo um dia fenece. Felizes os que se rendem ao amor sem ao menos perguntar por que. Quem sabe a esses será dada a graça do amor sem fim. Contemplem-se, caros amigos, com a plenitude de se permitirem amar. A todos, muita paz. Hanna.
Deus é muito mais generoso do que supõe a nossa tola vontade. Portanto, abro mão do irreal... mas continuo querendo o impossível!!!!!!! Beijos possíveis e reais a meus diletos leitores. Hanna Banana
18 maio 2009
Se o desejo é que torna o irreal possível, eu quero o irreal e também o impossível!!!!!!!!!!!!!!!!! Será que isso é pedir muito???????
17 maio 2009
Fotos lindas de um céu tão pleno lembraram-me uma música também tão linda... para um céu tão pleno.
Amados leitores, chega ao último capítulo a história que ao longo dos sete episódios permaneceu sem título. Os títulos são por demais definidores, uma espécie de espelho da alma de quem escreve. Talvez por isso - pela falta de síntese, verborrágica que sou - chegamos até aqui em uma espécie de discreto silêncio. Arrisco agora uma frase título, tradução de esperanças, de afetos, de possibilidades, de impossibilidades, de histórias longas e tristes, de pequenos contos curtos e felizes: síntese do desejo. Espero que tenham gostado, para que eu me sinta no dever de aprimorar a prática que pode compensar a falta de talento. A todos um domingo de muito amor. H.
Angústias do céu sobre o que é amar
O escriba sentia, naquele encontro etéreo com a mulher adormecida, algo que ele imaginava aproximar-se do amor, mas que em sua ausência de conhecimentos ele entendia como compaixão - uma vontade mágica de parar o tempo e ficar ali, fosse como fosse, contanto que fosse para sempre. Os pensamentos dela chegavam a ele com a mesma facilidade com que as energias dela chegavam àquele homem, que agora ocupava quase todos os pensamentos dela. "Por que dormes há tanto tempo?" — queria saber o escriba em diálogos etéreos que alcançavam o mais profundo do coração da mulher. "Mas o que sabes da vida, mulher, já não lhe é suficiente para acordar e seguir adiante? Não percebes que a felicidade é feita de coisas muito simples, e acontece um pouquinho de cada vez? Não há porque se demorar no desejo de prolongamento, se o desejo é uma fantasia, e a felicidade é feita de pequenos pedacinhos." Os pensamentos dela relutavam em respostas plenas às intervenções do escriba — ele que se valia das memórias de lições aprendidas ao longo de tantas observações, sem que lhe fosse possível ter vivido a experiência. "Mas veja, doce cigana, a felicidade permeia tudo o que vive neste plano. Olhe em volta, no seu entorno, em todas as coisas! Liberte seu pensamento, para que você possa ver! A felicidade não é mais que apenas isso..." "Sim, eu sei que não sei quase nada, que para se saber é preciso viver...." — justificava-se entristecido o escriba, já pensando que tudo o que tinha para dizer eram apenas frases estanques que ouvira dos sábios. Desconfiava até mesmo dos sábios, que jamais viveram o que diziam saber. "Vou lhe contar uma história que ouvi de um dos sábios a quem servi. Não me lembro bem quanto tempo faz isso e qual era exatamente o nome dele, pois que são mesmo todos iguais. Mas a história fala de um deus adorado em seu pobre plano. A ele foi erigido um templo em um lugar que, se bem me lembro, chama-se Delfos. Era um lugar aprazível, com um longo vale estendendo-se entre as montanhas e o azul esverdeado do Golfo de Corinto - um lugar que pela beleza podia-se mesmo pensar que era sagrado. Pois bem: o deus, chamado Apolo, aconselhava o povo em comunicações que eram recebidas por sacerdotisas. A Grécia, que era onde tudo isso se dava, vivia um momento de poderosa expansão em todos os sentidos. Os deuses moviam seus ventos a uma velocidade tamanha, que nada mais era estável naquele lugar. Foi uma época de crescimento vital - mudanças políticas, psicológicas, estéticas... mas também espirituais. A antiga estabilidade e a ordem da família desmoronavam. Em breve, o indivíduo seria responsável por si mesmo. Esta nova ordem era uma imposição dos tempos, construída, eu ouso dizer, pelas decisões dos próprios viventes. De qualquer forma, eram irrecorríveis, quisessem eles ou não. A verdade é que não conseguiriam suportar tamanho caos, se não fosse a intervenção divina de Apolo. Apolo era o deus da forma, da razão, da lógica que estava ruindo junto como tudo o mais. Era também o deus da luz - não apenas da luz do Sol, mas da luz da mente, da inspiração, da cura e do bem estar." Neste momento, a cigana adormecida que ressonava atentamente à história que o escriba lhe contava, reagiu com impaciente curiosidade. "Não, adorável cigana. Não estou, com isso, querendo dizer que estejas doente, a carecer da cura que vem de Apolo. Muito embora já tenha ouvido muitos dos sábios referirem-se a este sentimento como uma espécie de surto. Mas deixe-me terminar a história, porque já preciso partir — pediu ele como quem espera como resposta a solicitação de que ali ficasse por mais , muito mais tempo. "Era então Apolo o deus conselheiro, o deus da inspiração que orientava os homens em um período intenso e vital, onde se dava a formação do povo. Até hoje, lê-se nas ruínas da entrada do templo a ele dedicado: "conhece-te a ti mesmo". Este era o conselho vital que até hoje orienta a cura do espírito humano. Os gregos, então, durante a peregrinação ao templo de Apolo, para saber respostas às suas angústias, concentravam-se nos seus próprios desejos e necessidades. Dessa forma, participavam da própria realização do desejo. Todo desejo profundo já traz em si a própria realização. Quando chegavam ao templo, muitas vezes já haviam sido contemplados em suas vontades. Pensar e autocriar são inseparáveis! — disse o escriba admirando-se de sua capacidade de deduzir algo tão fundamental —Todas as nossas fantasias projetadas no futuro nos levam para este ou para aquele caminho. Aí então o conselho de Apolo torna-se óbvio!" Neste momento, a cigana despertou, espreguiçando-se profundamente, como se houvesse dormido um século. Ao acordar, viu-se amavelmente adornada pelos braços daquele homem, que agora dormia. O rosto suave e doce, perfeitamente encaixado ao lado do rosto dela, os corpos quentes e aconchegados, como se tivesse sido sempre assim. Ela voltou a adormecer, para poder ver do alto a cena a tanto tempo desejada. Talvez por isso ela tenha dormido durante tanto tempo... apenas para aguardar que aquele homem voltasse. — Vejam!!!! Vejam!!! Vejam!!!!! — agitaram-se os sábios, olhando eles mesmos pela janela, já que o escriba, não estando ali, atrasava todos os trabalhos, nada mais lhes restando fazer do que meter a mão na massa. Foi um alvoroço. Espantaram-se com o que viam e que era tão mais humano do normalmente descrevia-lhes o escriba. Não entendiam a cena parada, porque achavam que na vida rude dos humanos tudo era movimento. Olhavam e desolhavam atarantados! E olhavam novamente! E ficaram olhando embevecidos quando um deles se mecheu, fazendo com que um dos seios da mulher se desnudasse. — Han??????!!!!!! — abismaram-se os seis sábios, pois que até aquele que dormia não resistia a observar por si tamanha humanidade. A mulher sentiu uma leve brisa soprar o seu corpo e aconchegou-se novamente ao corpo daquele homem, que a abraçou, desfazendo a cena antiga e construindo outra que aos sábios, que nada entendiam, parecia uma cena simples de amor. Enquanto isso, na penumbra da noite que aliás já era dia, o escriba se foi. Ele se foi pensando na história que contara àquela cigana, ao tentar protegê-la daquilo que nem ele mesmo entendia. Talvez apenas não entendesse, assim como aquele homem, pois que certamente sabia o que era amar. Talvez apenas tivesse, como aquele homem, dificuldade de pensar sobre tão difícil assunto, já que fora adestrado por tantos milênios a pensar friamente no que via, a fazer cálculos sobre planos incalculáveis, já que a vida se constrói ao longo da sua própria estrada, à medida que caminhamos. E o escriba percebeu que não era sábio e que não lhe agradava o ofício de descrever para os sábios aquilo que se dava conta de que talvez nem eles jamais viessem a saber. Olhou para baixo e viu os próprios pés, que se alinhavam à beira de um caminho que ainda não havia. Resolveu seguir para o templo de Apolo, na esperança de que viesse a se conhecer a si mesmo ao longo do caminho. Mas antes, olhou ainda mais uma vez para a cena que deixava para trás. Aquele homem agora dormia e a cigana, desperta, acariciava o braço e o rosto dele. Acreditava no que o escriba lhe dissera, certa de que também eram sábios os escribas. Aproveitava cada segundo daquela cena em que estava aconchegada, já que a felicidade é feita de pequenos cadinhos, se o escriba estava mesmo certo. Embevecia-se no seu cadinho, deixando-se inundar de felicidade. Olhou infinitamente para o rosto adormecido daquele homem e pode ver: ele estava também feliz, repleto de coisas que sempre foram dele, mas que talvez jamais tivesse percebido que possuía. Ela olhou seu embornal e percebeu-o mais vazio; olhou o alforje dele, que estava mais cheio. Talvez tenha estado ali apenas para dar a ele o que a ele sempre pertencera, mas que estava guardado com ela: coragem, paciência, resistência, fé, alegria e o mais brilhante de todos os enfeites que eram dele e ela apenas devolvia - o seu próprio valor. E ela amou aquele homem novo, tão ciente de que era seu o seu próprio valor. O escriba percebeu como se a ouvisse narrar para ele aqueles pesamentos que lhe ocorriam. Mas ele não quis entender, assim como a ela também não importava saber. O sábios, ainda abismados com o que viam, comoveram-se e entenderam os sentimentos que por tantas vezes abateram o pobre escriba, a quem nem sonhavam que jamais voltariam a ver - como era difícil entender o que fazem os humanos com um sentimento tão frágil como é o amor. Aquele homem começava a despertar, espreguiçando-se e ao mesmo tempo envolvendo-se no corpo daquela mulher. — Mais cinco minutinhos... só mais cinco minutinhos — ela suavemente pediu. Ele devolveu os pensamentos ao chão, aconchegou-se novamente a ela e assim ficaram por um tempo que não nos é dado saber. Ficaram assim... felizes... felizes e humanos... demasiadamente humanos.
Meus amados e imprescindíveis leitores, ontem almocei em um sebo-restaurante do centro da cidade onde encontrei uma jóia rara do pensamento humano, que pretendo compartilhar aos poucos com vocês. Sim, aos poucos, como quem saboreia um quitute dos deuses. Já passava das quatro da tarde e eu ainda não havia almoçado. Sentia um fome programada, daquelas à qual bastariam um acarajé de esquina, um pudim de leite, uma empada, um pastel de vento com caldo de cana, qualquer coisa para calar o hábito de comer, porque não era exatamente uma fome de comer. Talvez por isso tenha me atraído o restaurante-sebo — ou o sebo-restaurante, já que havia poucas mesas e muitos, muitos livros. Pedi à garçonete um filé de pescada com arroz de brócolis, enquanto já me dirigia para a degustação dos livros. O lugar chama-se Al-Farábi e fica ali pelas imediações do Beco do Telles, Rua do Commercio, por ali. Não havia mais ninguém além de mim e dos funcionários do lugar. O ambiente estava envolto numa música lamentosa na voz de Ibraim Ferrer, que falava de um amor muito amado, cujo título o gentil garçom me trouxe junto com o cardápio: "Quere me mucho". Coloquei o cardápio de lado e abri um livro. Nas primeiras páginas senti um misto de alegria e surpresa, como quem recebe uma singela deferência da providência divina a que constumamos considerar como "coincidência". Sei que muitos de vocês (na hipótese esperançosa de que sejam mesmo muitos!) já estarão esperando impacientes pela referência bibliográfica para prometerem-se verificar em alguma livraria, comprar, folhear e muitas vezes deixar pra lá sem mais abrir. Por isso, meus amados, a referência não vem ao caso; deixemo-la (argh...) para uma postagem final. Mas ofereço um dos trechos que mais me tocou, do que já li. Ao longo da leitura, prometo compartilhar com vocês outros momentos. Mas quero dizer que ao me alegrar com o que lia, passaram-me pela lembrança os rostos de todos os meus queridos amigos, amigas e leitores e o desejo mais sincero de que estivessem ali a compartilhar comigo o almoço regado a surpresa e reflexão. Então vejam: "A coragem de que falamos não é o oposto do desespero. Muitas vezes teremos de enfrentar o desespero, como tem acontecido a todas as pessoas sensíveis nas últimas décadas. Por isso Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero. A coragem também não é teimosia - sem dúvida teremos de criar com outras pessoas. Contudo, se não expressarmos nossas idéias originais, se não dermos ouvido ao nosso eu interior, estaremos traindo a nós mesmos e à comunidade, por não contribuir para o todo. A principal característica dessa coragem é originar-se no centro, no interior do nosso eu, pois do contrário nos sentiremos vazios. O "vazio" interior corresponde à apatia exterior; com o correr do tempo, a apatia se transforma em covardia. Portanto, o compromisso em que nos engajamos só é autêntico quando originado no centro do nosso ser. (...) A coragem não é uma virtude nem um valor entre os valores do indivíduo, como o amor ou a fidelidade. É o alicerce que suporta e torna reais todas as outras virtudes e valores. Sem ela, o amor empalidece e se transforma em dependência. Sem a coragem, a fidelidade é mero conformismo. (...) A coragem é necessária para que o homem possa ser e vir a ser. Para que o eu seja é preciso afirmá-lo e comprometer-se. Essa é a diferença entre os seres humanos e o resto da natureza. (...) Os seres humanos conseguem valor e dignidade pelas múltiplas decisões que tomam diariamente. Essas decisões exigem coragem. Por isso Paul Tillich diz que a coragem é ontológica - é essencial ao nosso ser."
Espero que tenham gostado e que desejem mais. E embora possa ligeiramente parecer, vou logo avisando: não é livro de auto-ajuda! Só mais um trechinho, para dar água na boca: "A intimidade requer coragem, porque o risco é inevitável. Não é possível saber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá, transformando-se em autorrealização, ou nos destruirá? A única coisa certa é que, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos. (...) Em nossa sociedade, é mais fácil compartilhar o corpo do que as fantasias, desejos, aspirações, temores, pois estes são assuntos privados, cuja revelação nos torna mais vulneráveis. Por estranhas razões, envergonhamo-nos de compartilhar o que realmente importa."
Era do lado de lá da penumbra da noite, no centro do olhar da lua, que ficavam os sábios a vasculhar os dilemas da humanidade tosca de um plano menor. Foto: Anselmo Veríssimo
Entre o sonho e a realidade existe um fino véu que por vezes também separa o sono da vigília. Ele acordou e ela permaneceu dormindo. Ele se levantou, vestiu-se, apanhou de volta todos os seus pensamentos e preparou-se para ir. Ela ficou ali, aconchegada em suas próprias fantasias, estranhamente parecendo que ela é quem deveria ir. Ainda em sonho ela o abraçou longamente. Ele não sentiu o abraço, desperto que estava. Seguiram lado a lado, separados pelo fino véu que não os deixava seguir efetivamente juntos. Ela falava das árvores lindas em uma época em que todas estavam florescendo; ele olhava para ela sem conseguir vê-la. Ele mostrou as músicas tristes que o acompanharam até ali; ela não conseguiu ouvir. Beijaram-se na despedida, mas a realidade e o sonho que o fino véu apartava não deixou que se tocassem, instalando estranha distância. Nunca mais se veriam? Ou estariam sempre ali, encontrando-se em planos diferentes quando dormissem e sonhassem? — Não entendo, nobres sábios, porque a vida se comporta assim — indagou distraidamente o escriba, a quem nada deveria interessar saber. — Como podem os seres buscarem elementos essenciais às sua vidas e os julgarem tão superficialmente nas decisões efetivas do querer? Sempre errarão na busca da felicidade? Sempre terão o julgamento do ego a interferir em suas mais intrínsecas vontades? Os sábios, tomados de surpresa pela competente interferência do escriba, não souberam como responder. Apelaram então para o sábio que dormia - ele que sempre deitava regras sobre o que quer que fosse, recolhendo palavras e inspiração das profundezas do seu sono. — Responda, magnífico sábio! Vós que sois de todos nós o que mais se dedica à reflexão! — e ficaram a esperar o que dali viria, para ver ser faria algum mínimo sentido o que o escriba dizia. — Ora, meus caros sábios. Não precisam se dar ao trabalho de pensar sobre tamanha obviedade, vós que sois contrários a tudo que pareça simplesmente... óbvio. —Como, óbvio?!!! - perguntaram todos, inclusive o escriba, entreolhando-se como se tivessem perdido alguma parta da conversa. — Humanos! Não sabem como são? Não sabem como se repetem de maneira monótona suas histórias? Está o homem a aprender o que não lhe foi bastante na vida: viver como os felizes cães sem dono. E à mulher, aquilo que lhe é vocação e martírio: tentar salvar os homens de seus banais destinos! — Han????!!!! — abismaram-se todos diante de tão sucinta explanação. — Veja, honorável escriba! Vejam todos o que se passa naquele plano inferior! — apontou o sábio que dormia, desperto como nunca dantes o haviam visto. E com isso pos-se o escriba a observar. — Não consigo mais vê-los em interação, senhores — disse ele, apertando os olhos para refinar a observação — Já não consigo acompanhar-lhes a história. Vejo apenas a um e a outro, em suas próprias elocubrações. Mas o escriba, em verdade, via a história daquele homem apenas pelas impressões da cigana. Perdera-o de vista ao observá-la e não queria admitir sua falha ao Conselho de honoráveis sábios. Ademais, pouca diferença faria se contasse a sua própria versão dos fatos ou se narrasse fielmente o que via. Aprendera com o tempo que não existia na história - dos humanos ou dos sábios - o que não fosse apenas versão. E continuou a narrar a saga daquele homem a quem os sábios dedicavam suas sábias observações. — Pois bem: seguiu o homem para sua vida... hum... demasiadamente humana — prosseguiu o escriba a partir de sua própria intuição — Fora aquele homem ter com sua vida comum de demasias pautadas pela segurança e responsabilidade, da qual aquela cigana definitivamente não fazia parte e à qual ele jamais a convidaria. — É??????!!!!!! — perguntaram em coro os seis sábios, incluindo o que dormia. — Sim, senhores — respondeu o escriba com indisfarçável desgosto. — E... o que... significará isso para... a cigana? — perguntou um dos sábios, tentando inutilmente dissimular o interesse pela banalidade dos fatos; ele que de todos era o que mais acreditava que sabia. Neste momento preciso o escriba exclamou: Olhem, senhores! Alcançaram-se as mãos! Apesar do véu, alcançaram-se as mãos! O escriba não conseguia exatamente divisar o que os movera - ele na realidade e ela no sonho — a se darem as mãos, pois que não o via plenamente e ela ainda dormia. — Sim, certamente é isso! Ele se libertou do medo... ou terá sido empurrado para a coragem? — indagava-se na incerteza da observação, quando lembrou que precisava apenas oferecer dos fatos a sua própria versão — Finalmente chegara a decisão! Estava fora da grande empresa onde escondera-se dos próprios talentos. Sim, ele se lançou à liberdade do querer, mas teve medo e procurou a mão dela... que estava a tanto tempo ali — acrescentou o escriba com uma nota de amargura na voz. — Vês, meu nobre sábio? — indagou com ar de sarcasmo um dos sábios ao sábio que dormia — Ainda não podemos desacreditar de todo a espécie, por mais que seja humana. Comentário que o sábio que dormia solenemente ignorou, enfurnando-se ainda mais nas pesadas vestes que ora lhe serviam de cobertor, ora de travesseiro, ora de tampões de orelhas para evitar as longas dissertações a que os demais sábios costumavam se entregar. Mas o escriba ainda não entendia o que vira ocorrer naquele plano abaixo. — O fino véu que separava os dois humanos parecia se expandir, deturpando-me as observações. E os dois pareciam rodar, rodar, rodar, com as mãos atadas. E quanto mais rodavam, mais pareciam se unir, sem no entanto se tocarem para além das mãos. Ela apenas sonhava e ele, acordado, dizia que estava bem, que a energia dela lhe chegava facilmente. O que seria isso, senhores sábios? — perguntou intrigado o humilde escriba? — Nada que os zeladores de zoológico não possam explicar — ironizou num resmungo o sábio que dormia, sem que os outros sábios levassem o comentário em consideração. — É claro, meu nobre escriba, que estamos a testemunhar um momento raro e de exceção para os seres deste plano menor. A troca pura e simples de solidariedade, de amor ao próximo como a si mesmo, de transmutação da energia que pertence ao Universo e é privilégio de todos e de qualquer um e não deve ser confinada aos egoísmos entorpecedores. Não se dão conta, os arrogantes humanos, que o que lhes dói e pesa é o amor que se recusam a dar ou que apenas dão sob condições ideiais de escambo emocional. Sim, este é um momento particular que raramente temos a honra de presenciar. E se não podes divisar corretamente o que vês, caro escriba, é porque seus olhos não estão acostumados ao que não seja apenas e tão-somente humano. O escriba baixou os olhos e a cabeça, curvando-se perante a sabedoria daquele grande sábio. Quem era ele para contestar, embora tivesse lá sua próprias opiniões. É que a cigana adormecida sonhava, mesmo que fosse apenas um sonho, ela sonhava. O escriba apiedava-se até a última das fibras já envelhecidas de seu humilde coração. E pensava com o que restava de seus despregados botões: "Como são felizes os humanos quando sonham... "
EPISÓDIO VI
Já se tornara quase impossível visualizar os detalhes do campo de observação a que se dedicavam os sábios. Perderam de vista o foco das pesquisas ao longo das interferências de tantas divagações. Precisavam reorganizar as idéias, reunir os fatos e elaborar uma síntese que desse conta daquela partícula importante da vida dos humanos, que nem eles ao certo sabiam o que significava. Os cinco sábios se recolheram para refletir em conjunto, reunindo-se ao sábio que dormia e que já há tempos estava imerso no processo de reflexão. Deixaram o pobre escriba à deriva de seus próprios pensamentos — ele a quem raro era dado o crédito do pensar. E ele ficou observando o seu principal interesse em todo o enredo que descrevia — a cigana que dormia. E se dispos ao complicado exercício de pensar: "Por que será que ela não desperta? Onde será que passeia quando sonha? Será que é feliz? Talvez seja esta a única forma de amor possível entre os seres da humanidade — o amor em planos etéreos, protegido dos equívocos com que o interpretam nos planos inferiores. Sim, os humanos se perdem em equívocos e por isso geralmente sofrem. O amor que eles entendem é demasiadamente humano, tem feições à sua própria imagem e semelhança, ou até mesmo à sua simples diferença. Escolhem o amor pela textura da pele, pela altura, pela cor dos cabelos, pelo tom da voz, pela condição social, pelo contorno dos corpos, pela cor dos olhos, pelo formato dos pés, pela massa muscular, pela roupa, pelos objetos... Não é de se admirar que acabe em equívico o que já começa equivocado. Talvez seja por isso que ela dorme... para não perceber que o único amor possível no plano inferior é humano, demasiadamente humano. E segue assim oferecendo um amor adormecido a um ser desperto, vivente, humano." Enquanto pensava, deu-se conta de que se aproximava cada vez mais daquela mulher que dormia envolta em véus de si mesma. Ele passou a mão suave dos pensamentos por sobre os cabelos que escondiam o rosto dela, sentindo seu leve ressonar. E pensou: "Talvez tenham razão os sábios. O amor essencial independe de retorno - o tal do escambo a que os sábios se referem. Ele apenas se doa e esvazia a pressão transbordante que aflige o coração. Lembro de um sábio antigo, que ascendeu a planos altíssimos, que insistia em algo a quem ninguém dava crédito à época, mas que ele insistia em pedir para si mesmo: 'fazei, senhor, que eu procure mais amar do que ser amado; consolar do que ser consolado'. Será que é por isso que ela ainda dorme? Saberia ela, se cigana não fosse, despojar-se dos equívocos inerentes à espécie humana? Relevar, calar a voz rude da discórdia, romper as correntes das ilusões banais? Resistir? Sim... o amor no plano dos pobres humanos sustém-se na resistência. Mas quantos se dão ao esforço e acreditam que serão recompensados? Neste momento, o escriba se deu conta de que faltavam-lhe os elementos conclusivos para consolar a si mesmo da piedade que lhe inspirava a cena que via. E deixou que lá ficasse a cigana que dormia, apartada da vida comum por um fino manto de alegria.
08 maio 2009
Obrigada a todos que estão tentando votar neste humilde blog. Já pedi providências ao Top Blog pra fazer a urna eletrônica funcionar. Não desistam! Beijos
H.
03 maio 2009
Carla Paes Leme, visitante deste blog, deixou comentário sobre a postagem do vídeo do Chico, onde ele fala do seu processo criativo da música Futuros Amantes. Música singela que fala de amor não correspondido, que fica pairando por milênios até que alguém o venha amar e o faça cumprir sua função de amor. Não sei o que houve, mas o comentário da Carla sumiu e não consegui recuperar! Então publico o texto aqui, por respeito e afeto aos meus imprescindíveis e amados leitores.
"Essa é uma das músicas mais lindas que existem... O amor não se perde nunca... ele vai ser amável sempre... alguém vai amá-lo, vai usá-lo pra amar alguém... mesmo que se passem milênios... Essa, com certeza, é uma das músicas da minha vida! Amo!!!!!!!!!!! "
Obrigada, Carla. Volte sempre!
NÃO DEIXE O AMOR PASSAR
Carlos Drummond de Andrade
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida. Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu. Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês. Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor. Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.
Copiado de um scrap enviado pelo Márcio Rodrigues. Valeu, Márcio!
01 maio 2009
Queridos leitores, seguidores e afins, aproveito o feriado para antecipar dois espisódios da história que não tem nome e que prometi postar apenas aos domingos. Desta vez quebro a periodicidade por antecipação... antes antes do que nunca...rsrs. Tenho também a grata satisfação de comunicar que este nosso humilde blog foi indicado para concorrer ao Prêmio TOP BLOG na categoria Comunicação. Vai ter votação pública por uma espécie de urna virtual a partir do dia 5 de maio, em um selo que aparece aí à direita. Você sabem que não sou dada a esse tipo de coisa, mas por favor....VOTEM EM MIM!!!!!
Hanna, que a todos ama.
EPISÓDIO III
O escriba voltou-se para a janela de onde apurava a vida dos seres que os sábios perscrutavam para encontrar a cura para suas debilidades. Debilidades de toda ordem que os faziam, acima de tudo, tristes. Não cabia ao escriba questionar os métodos de verificação dos sábios, mas desconfiava de que algo poderia estar faltando àquele modo de teorizar sobre a vida. Um olhar novo talvez descobrisse algo novo. Mas os olhos daquele escrevedor de histórias também já não guardavam o entusiasmo das primeiras observações, quando tentava, feito foca, olhar por cima dos ombros dos sábios e entender o que pensavam, contribuindo com algo novo. Acostumado que estava a apenas observar e narrar, já não se importava em oferecer suas impressões filosóficas; contentava-se em contrabandear estilos e piedades, humanizando ainda mais o enredo dos viventes. Os sábios apropriavam-se de suas narrativas para engendrar suas reflexões, pois jamais olhavam pela janela por onde se passava a vida para não turvar suas impressões com as lamurias e doenças daqueles humanos, desmedidamente humanos.
Os sábios tinham todos a mesma feição e vestiam-se rigorosamente iguais, destoando uns dos outros apenas pelo ângulo de observação com que cada um entabulava sua análise e diagnóstico das situações. Mas às vezes até nisso se confundiam. Apenas um deles era facilmente diferenciável, porque dormia, dormia, dormia... e acordava a deitar regras sobre o que ouvira falar só de raspão. E o escriba, após tantos milênios de observação, tentava compor em si uma humanidade que também não entendia; guardava pedaços de sentimentos e de histórias que nunca se completavam ou faziam exato sentido. E naquele momento em que lutou pela inclusão daquela mulher cigana nas observações dos sábios, ele estava começando a experimentar uma das mais tormentosas experiências humanas – a paixão. Mas não sabia o que era exatamente isso e nem como se instalava; se era doença, se era loucura ou um surto que com o tempo se apagava. Não acreditava em boa parte do que os sábios diziam, mas sobre a paixão eles pareciam ter alguma razão. Ele mesmo já testemunhara casos gravíssimos que curaram-se por si mesmos e nem seqüelas deixaram, como se não tivessem existido. Costumavam dizer que seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses, tempo suficiente – ou máximo - para que um homem e uma mulher se entendam, se estimem, se suportem, copulem e produzam filhos. Como eram céticos os sábios! Mas neste caso a realidade não contrariava muito a teoria. O escriba achava até que o erro das observações estava apenas no cálculo do tempo de duração do estado de torpor. E insistia em contar o tempo das histórias dos viventes para comprovar sua tese. Mas com o tempo cansou-se disso, além de não ter a habilidade dos sábios para recolher, comparar dados e deitar regras.
Resmungava sobre isso enquanto se preparava para mais uma etapa de sua tarefa, quando o sábio que dormia acordou e pos-se a explicar:
— A ilusão romântica é responsável por essa história tola de paixão, que a química tão rapidamente explica: dopamina, feniletilamina e ocitocina! E até os zeladores de zoológicos sabem que a forma mais rápida e segura de fazer um casal procriar é colocar os dois juntos no mesmo ambiente por uma certa parcela de tempo. Um modo eficiente e desprovido dos riscos e seqüelas dessa doença enigmática que acomete esses humanos. Mas, como humanos não vivem sem demasias e sofrimentos... — disse ele enfurnando-se entre as vestes pesadas para continuara sua “reflexão introspectiva”, como costumava defender seu sono.
O escriba se deu por satisfeito, embora ainda discordasse da questão do tempo de duração dos efeitos da paixão. Mas o que lhe importava isso, se era apenas o escriba. Voltou novamente os olhos para a janela do universo de suas observações. E estava lá a cigana.
— Vamos, vamos criatura! O que espera? — exigiram os sábios que adentraram o recinto atrasados e esbaforidos como sempre. E o escriba pacientemente voltou a olhar, compilar e contar para eles aqueles lapsos de vidas.
Aquele homem e a cigana conversavam como se trocassem segredos ou informações. Falavam de todas as coisas e pareciam felizes assim.
— Hummm – resmungou o sábio que dormia, vaticinado que aquele era o início de um surto de paixão — Quem deles será o mais débil? Não acredito que desta vez a mulher será acometida em primeiro lugar, pois que é uma cigana!
— Ora, senhor sábio, aquela cigana não me parece diferente de qualquer outra mulher... penso até que...
—Como “pensa”? O pensamento, aqui, não é uma questão de livre recreação; aquela coisa atormentada que os humanos deixam ficar permanentemente a deslizar no meio do que não existe – ora o passado, ora o futuro, de lá para cá, como um louco que perdeu o rumo – ressoou o sábio pondo fim a seu começo de divagação.
Mas o escriba que colecionava fragmentos de histórias alheias já estava pensando naquela cigana e seria capaz de apostar com todos os seis sábios que era ela quem iria se apaixonar. Mas desta vez não sentiu a habitual pena que o fazia quase humano, mas uma estranha sensação que lhe instigava a querer mudar a cena e evitar que aquela mulher se perdesse de amor por aquele homem. Quantas destas cenas ele já vira. Não... não queria que acontecesse com ela.
— Senhores sábios, por favor me dêem um minuto de atenção. Não podemos sacrificar uns para prover de vantagem outros.
— Do que falas, criatura?!
— Refiro-me aos aspectos da apuração de pesquisa que vossas senhorias estão elaborando. Temos que fazer cair uma folha, abanar um vento... qualquer coisa que altere o enredo que se avizinha.
— E podemos saber por que deveríamos nos imiscuir nos enredos humanos, valoroso escriba? — perguntou um dos sábios com ares de ironia e irritação.
Ele não tinha uma resposta que estivesse à altura do que pretendia evitar, porque nem mesmo sabia o que lhe fazia querer afastar a cigana daquela cena.
EPISÓDIO IV
Neste momento o sábio que dormia acordou:
— Há coisas na vida que não escolhemos, mas apenas são, meu caro escriba. E já que são, por que não olhar nos olhos do inevitável e tentar ver? O que temes é que sofra a tal mulher por um amor não correspondido. Mas amor dessa natureza é inteiro, não se divide, não se dá... até porque não tem pra quem. — disse ele, no que foi contestado em uníssono pelo demais:
— Poupe-nos das obviedades!
— Amar sem ser amado pode ser uma das coisas mais tristes da vida. Pode... não quer dizer que deva sempre ser — prosseguiu o sábio que dormia — Quantos amores correspondidos passaram a vida doendo, amando, mas doendo... uma vida longa, mas doendo. Olhar nos olhos do amor sozinho é um ato de sobrevivência a que poucos se arriscam. Mas que surpresa estarrecedora. O amor sozinho é pleno, farto, transbordante. Mergulhar nesse amor é um ato da mais pura coragem. Coisas que talvez somente os loucos alcancem. Amor é coisa de loucos; amor sozinho é mais que isso. É pular o limite do já dado e mergulhar em rio profundo de águas translúcidas que vão dar em todo lugar. É espargir gotas de prata por sobre o possível, o circunstante, o que passar e o que ficar por perto. Andar por aí pleno de um amor inteiro, indiviso, é ato de rebeldia e coragem que a poucos é dado conhecer, meu nobre escriba! Aquele que anda por aí assim tão pleno, ultrapassando o sozinho do amor, ama tanto que atrai para si todo o amor do mundo; encantam, conquistam, se deixam amar e são amados. Os que amam de amor sozinho talvez não saibam como são doces seus abraços, irresistíveis seus beijos, profundos seus olhos, encantadoras suas presenças... mas apenas se não forem tristes por amar sozinhos. Amar é um ato supremo de doação... nem precisa ter troco. Só conhecemos o amor que amamos; não nos é dado sentir o amor que outros nos dão – empolgara-se o sábio que não apenas acordara, mas já se pusera de pé, com as mão levantadas em júbilo e enaltecimento de suas próprias construções retóricas.
Todos se espantaram com tamanha erudição e puseram-se a vasculhar seus pensamentos para acrescentar algo que lhes pudesse incluir na cena. Não poderia o sábio que a quase tudo sonolentamente ignora ter da vida uma idéia mais completa do que os outros que se dedicavam a esmiuçar dela cada segundo. E cada um foi acrescentando suas aspas ao texto alheio.
— A necessidade de dividir o amor e depositá-lo em outro é uma aflição de espírito, uma necessidade de esvaziamento, um desconforto, uma loucura, caro escriba – disse um dos outros sábios. O escriba, nestas circunstâncias de disputas soberanas, tornava-se discípulo, platéia, ouvidor, um quase igual; ganhava uma importância que com o tempo fora descobrindo que não tinha importância alguma.
— O amor sozinho tem como trunfo apenas a desvantagem de não depositar sua infinitude em corações outros. Se for mesmo inevitável, que pelo menos não doam os amores sozinhos. Que se bastem, que transbordem, que sorriam, que sejam felizes por serem preenchidos de tamanha graça e beleza! Os que são amados pelos que amam sozinhos são seres privilegiados. Seja como for, estarão protegidos por uma aura branda; terão seus sonos velados; estarão em preces fecundas que brotam de um vaso cheio. O pensamento amoroso tem força vital. Felizes os que são amados por amores sozinhos. Terão sobre si as asas brancas de uma felicidade que talvez jamais conheçam. Por que temer então pela sorte da tal cigana? – complementou o sábio que parecia buscar recursos outros no lugar para onde ia enquanto dormia. Tinha uma espécie de piedade a pontuar seus arroubos de sabedoria.
Todos os outros cinco sábios silenciaram diante da conclusão. Mas o pobre escriba sentia-se cada vez mais desamparado. Teriam mesmo sabedoria as palavras do sábio que dorme? Perdia-se já em seus pensamentos quando um dos sábios esbravejou, fazendo com que todos voltassem aos seus postos.
— Mas que relevância tem esse assunto para nossos propósitos? Voltemos às observações!
Pois então, senhores sábios, eles apenas conheceram-se brevemente, mas ela faz questão de lembrar que foi ela quem o encontrou, comos e estivesse mesmo a procurar. Não entendo por que diz isso. Ele apenas ri e acha tudo aquilo engraçado. Não acredita em ciganas, mas acredita em mulheres. Ela insiste que ele deve olhar o céu, a lua, as estrelas, o mar. Ele diz que já viu. Mas ela insiste e o faz reconverter o olhar. Os olhos são a janela do espírito, por onde construímos a realidade que nos cerca. Mostrou para ele umas fotografias, dizendo que as havia feito em um lugar muito longe por onde passara antes de chegar ali. Havia árvores, rios, pássaros e um céu absolutamente divino. E ela dizia: “o céu, o rio, a floresta, os pássaros... tudo fui eu quem fiz com meu olhar”. E ele apenas ria. E foi aí que começou a tentar refazer as paisagens da sua própria vida. Encantara-se com o que sempre estivera ali e do que ele nunca havia se apropriado. As cenas estão todas registradas em fotografias que ele mesmo fez. No começo, a mão pendia para a esquerda e as fotos ficavam fora de eixo – e ela brincava com isso. Depois foi-se aprimorando e ele começou a ver tudo com outros olhos. Ela parecia encantada; encantada pelo amor que tinha, dentro daquele mundo de coisas que carregava em si e que oferecia sem reservas e em demasia. Ele apenas aceitava, sem demonstrar o que faria com isso. E foi como diz o sábio: até um zelador de zoológico saberia. Acabaram por se amar, como se amam os humanos... demasiadamente humanos.
Nesta hora, o escriba baixou os olhos e a cabeça pendeu em uma espécie de tristeza e dor. Estava já inoculado pela impressão de paixão que recolhera ao longo de suas longas histórias.
— Preocupa-nos, caro escriba, que tenha deixado de lado o personagem foco de nossas observações para atentar para a tal cigana... — disse um dos sábios, em um tom de voz incomumente moderado, como se entendesse e se apiedasse do pobre escriba, ao que retrucou o outro que dormia:
— Para que buscarmos tantos elementos para entender os homens se já dedicamos a eles uma parte monumental de nossa atenção? Estamos atravessados pela hegemonia do universo masculino. E essa hegemonia é que os fez assim! Cães sem dono que não conseguem ser felizes. Quiseram lhes dar a hegemonia no mundo, ou apenas certificá-los de que esta lhes pertencia por direito e herança divina. O que sabem os deuses que habitam as fantasias humanas sobre os destinos que o mundo real lhes reserva?! – esbravejou de uma forma que não lhe era muito peculiar.
—Sofrem hoje seus meninos, as dores de ver seu reinado destruído. E culpam disso as mulheres. Que sabemos nós das demasias dos tempos, das águas que correm pelos rios, das dores que nos desafiam a ser nós mesmos? Mas o fato é que os lugares se deslocaram, e a ruína dos sentidos arraigados começou a se apresentar. E então os homens hoje se interpelam: o que sou eu diante de ti, que sempre fui por ti o que de melhor tivestes? O que sou eu diante de mim que diante de mim nunca precisei perguntar? Que lugares são esses tão ermos e tão estranhos onde estamos agora diante um do outro e onde efetivamente somos? Quem é você e quem sou eu diante da vida que seguiu seu curso e nos trouxe até aqui?Não somos mais o que éramos e não sabemos mais o que ser. Por que ainda não sabemos como ser diante do novo que ainda não nos ensinou a viver. Estrada nova, diante de memória longa onde tudo era dado e conhecido, sem mistérios, sem temor, por mais que sofrido. Agora, é uma espécie de nada onde tudo se iguala. Mas o que fazer da memória retida, onde eu era maior que tu? O que fazer do todo aprendido, onde esperavas por mim? E eu agora que já não sei como chegar a ti? Que destino cruel o que nos ensina a viver! Que destino cruel o que nos desatina para deixar viver. E o que fazemos nós, os que tivemos a facilidade de errar, errar sem ter que aprender? A vida é rude no seu sentido perene. Não apenas para os que estão acostumados à sua regalia, mas também para aqueles que viveram de suas migalhas. O lugar do conforto é apenas o lugar conhecido, não quer dizer que seja bom. Mas tudo muda na vida. Sobrevivem os que sabem amar.
— Honorável sábio, se me permite a indagação, do que falas? — perguntou ironicamente um dos sábios.
— De eterna supremacia dos homens sobre as mulheres, senhor, e do desconforto que sentem diante de mulheres que são donas da própria história, acostumados que estão com seus pseudopoderes – resumiu o escriba, fazendo uma defesa frágil daquela mulher que ele era obrigado a observar e que lhe perturbava os sentidos.
— Mas vamos adiante, já que não podemos interferir — retrucou o escriba enchendo-se de inexistente coragem para continuar a olhar .
— Sim, você pode colapsar outras possibilidades, novas realidades — explicava ela na tentativa de convencê-lo da verdade que, no fundo, ela tanto temia. Sim, você pode decidir o que será. O que será? A intimidade com as perguntas não a protegia do medo das respostas. E ele, semblante suave, parecia saber e guardar o segredo, com um sorriso que indicava que a resposta estava bem ali e era de uma simplicidade tola. Mas ela não conseguia ver; precisava das bruxarias de um xamã para antes poder descrer de suas próprias ilusões. Era uma cigana, mas era também uma mulher. Era esforço inútil tentar transformar-se no que quer que fosse para ser recebida e amada.
— Ao universo não importa como você pensa que a felicidade é; ao universo basta apenas saber que você quer ser feliz! – esbravejou um dos sábios, sendo interrompido por aquele que dormia – Contenha-se, contenha-se! Deixe o escriba prosseguir.
Ela então começou a se mesclar à serenidade dele, aconchegando-se a uma intimidade que se foi desenhando no ar. O pensamento serenou, já não era preciso se inventar. O botões que fechavam as cercas foram cedendo às mãos suaves e firmes que ele estendeu para conduzi-la. As mãos que ela tanto pedira e que eles não pretendia ofertar. O calor da proximidade dos corpos formou uma fina aura de atração e desejo. Era impossível não se entregar. Como a anfitriã de um castelo, ela se curvou ligeiramente e fez as honras da casa, saudando a nobreza do visitante. Ele caminhou seguro e ela o seguiu sorrindo, mesclando o seu ser ao ser que ele era, corpos ardentes e espíritos apacentados. A pele perfumada de sedução adornou a cena com as cores vivas dos afagos, dos beijos e carícias em movimentos intensos, como os de um artista ávido para compor a tela. Ela estava cansada de portar a si mesma e se deixou reinventar.
— Ah, meu prestimoso escriba, neste momento, o universo responde ao desejo de felicidade, plenitude e paz com um fugaz momento de comunhão — acrescentou o sábio que dormia, deixando-se envolver pela narrativa de um pobre escriba que não tinha voto, nem voz e nem vez, mas a quem restara o direito à liberdade de estilo. E concluiu:
— E disso, meu caro, até os zeladores de zoológico sabem!!!
28 abril 2009
E neste momento, o universo inteiro sorri para um céu repleto de possibilidades!!! Os anjos espreguiçam suas asas e dizem: até que enfim... Amém!
Senhoras e senhores, prezado público de dois ou três leitores, pontualmente apresento o Episódio II da história que comecei a postar no último domingo e que ainda não tem título. Espero que gostem.
EPISÓDIO II
- Sim, esta é a pergunta! Quanto de sacrifício estará ele disposto a empenhar para ser o que o destino lhe reserva? O problema recai sempre sobre a mesma ordem de banalidade! Ora, meu Deus, como é difícil fazer com que algo tão simples possa se tornar compreensível, uma simples realidade? – esbravejava o impaciente sábio espanando tudo o que o cercava com suas pesadas vestes. O conselho olhava aquele plano lá embaixo onde apenas um personagem reescreveria a história de muitos outros a partir de sua própria história. Era o que se esperava dele. Eram seis integrantes daquela confraria esquisita que por aqui se poderia pensar como um conselho de sábios, de físicos quânticos, de loucos, ou de maçons, talvez. E havia entre eles um escriba sem direito a voto ou opinião. Seu trabalho era apenas escrever e anotar o que os, digamos, sábios descreviam. Ele não sabia nada além do que lhe mandavam escrever, ou seja, tudo o que todos os outros individualmente diziam, em todas as línguas que resolviam falar. Mas não tinha nem poder de voto, veto ou opinião. Ele apenas escrevia e se metia onde jamais era chamado. - Olhem, olhem lá! – e recomeçavam as observações atentas da vida comum daquele homem para quem voltavam suas expectativas de tornar a humanidade, através dele, mais, digamos, bem... quer dizer... não sei. E o escriba retomava os apontamentos onde sempre acabava por interceder ora por um, ora por outro dos personagens daquela trama emaranhada de um universo banal. E o texto final do escriba nunca estava a contento dos planos superiores – ora piegas, ora piedoso, ora sensacionalista, ora humano, demasiadamente humano, diziam. Mas ao escriba só cabia narrar o que via e apontar o que apontavam os sábios. Mas eles não se importavam com o estilo dele, pois afinal não era sequer um sábio! Era apenas um escriba. Que lhe sobrasse então o estilo. - Adiante! Vejamos o que faz de si o tal humano. Humanos... demasiadamente humanos! Naquele momento aquele homem estava diante de si mesmo, interpelado pela própria história de vida. Era difícil ver aquele menino, que habitava aquele homem, em seu esforço de liberdade. Os meninos não parecem saber exatamente o que é ser livre, por mais que tenham sido adestrados a andar soltos pelas ruas e pela vida. Andar solto, como um cão sem dono, é o destino histórico de todos os meninos - e como parecem livres e felizes os cães sem donos. Talvez para ele não fosse assim, sensível que era. Talvez precisasse um tempo mais longo no colo materno; um tempo a mais, antes que fosse porta a fora cumprir seu papel. Agora estava novamente ali, tendo que ser livre de novo. O útero da mãe gigante já não comportava todos os filhos e, insensível, esperava impaciente que muitos fossem embora pela concordância da demissão voluntária. Aos poucos, assim como na vida, os filhos mais novos empurram os mais velhos para lá. Uma vez mais, diante da porta da rua. O coração tremia de expectativa – ficara tempo demais no colo desta vez. O medo era apenas um hábito de tantas memórias que foram sendo adquiridas por empréstimo às vidas e experiências que não eram exatamente as suas. O coração tremia de vontade de liberdade, a mesma liberdade que não conseguira entender da primeira vez. A liberdade que não viera junto com a separação, da segunda vez. A mente atarantada não se deixava denunciar pelo semblante calmo, tranqüilo e sóbrio. Era já um homem quando ensaiou deixar de ser menino. - Não há na vida o que seja passível de compreensão sem as medidas de comparação! – esbravejou outro dos seis sábios, como se ouvir fosse somente possível ao esbravejar. Liberdade é igual a quê? Como é ser livre? Perguntava ele enquanto os demais franziam o cenho na tentativa de dialogar com tão complexa reflexão. - Ser livre não é o mesmo que ser sozinho – disse um deles, parecendo ter dúvidas sobre o que acabara de afirmar – Vamos observar! Aquele homem também tinha dúvidas sobre as mesmas questões – liberdade e solidão. Talvez os humanos, mesmo demasiadamente humanos, não sejam de todo desprovidos de capacidade de refletir sobre coisas abstratas. E ele começou pelas comparações, como quem vai tateando as partes para entender o todo. Abriu as portas dos armários, da alma e da vida e saiu tirando tudo o que estivera sempre lá – roupas, carinhos, desejos, medos, lembranças, ilusões, ressentimentos, saudades. O chão do quarto foi recebendo o que já não lhe cabia. Comprar roupas novas! Vestir com o novo o que o tempo fez do corpo atlético que perdera as formas, abrindo vagas para o hábito que acompanha a solidão. - O hábito é o vício travestido de consolo! Deixara-se ficar no colo do hábito consolador depois de cada uma de suas perdas, este é o dilema. E nem foram assim tantas. Anote aí! – ordenou um dos sábios. E foi assim que aquele homem começou a perder a feição atlética, sentado em uma mesa de bar, ouvindo as canções lamentosas e tristes que uma jovem cantora oferecia a todos os fregueses. Ele esteve lá todas as noites, até colocar no lugar de tudo o que não mais havia a ilusão da paixão pela cantora – ela que cumprimentava sorridente a todos os homens que como ele preenchiam a vida com cerveja e ilusão – “ela sorria pra mim”, disse um dia, como quem quer a confirmação mágica de uma possível paixão, onde estaria no papel principal. As músicas todas falavam de dor, amores tardios, fracassados, sofridos, despejados. Isso parecia, naquela hora, a cara mais rude da liberdade – sabor de cerveja; afagos inconstantes; amores que se dissolviam com a luz do dia. Quanto tempo se deixou ficar assim não é algo que se possa medir. O tempo que nos move os sentimentos não cabe nas medidas precisas da vida. Um dia, depois do outro; cada dia, um outro dia. - Você está interferindo na observação! Pela milionésima vez em tantos séculos lhe pedimos: atenha-se aos fatos! Contenha seus arroubos piedosos e sua verve poética. Ele é apenas um de muitos e muitos exatamente iguais seres humanos! – esbravejou um dos seis. - Pesquisas dessa natureza acabam por contaminar o observador. O que acham se determinarmos um lapso de tempo em que faremos o acompanhamento, em partes, da vida de vários personagens? Sugeriu um dos seis. - Não! – implorou o escriba. É dessa forma que se tornaram loucos, esquizofrênicos ou perdidos aqueles que já nem eram assim tão humanos. O que seria de mim, pobre escrevedor da vida alheia, que nem sábio sou? - Então, contenha-se e atenha-se a seu ofício! Adiante! Ele seguiu tateando como um cego que de repente encontra a saída – sexo! Sim, o sexo! O que querem os meninos à porta de tornarem-se livres e felizes cães sem dono? Sexo. E definiu aí o que seria a essência da liberdade – amor sem limites! No entanto, teve o cuidado de acrescentar: com segurança e responsabilidade. E foi assim que começou a colecionar partes do que tentava compor como felicidade, gerando a pior das suas contradições – onde estaria a felicidade em relação à liberdade? Não queria pensar; talvez nem pudesse. Uma coleção de rostos, corpos, currículos, cabelos, roupas, estilos, idades, gostos, desejos, loucuras, solidões. Uma coleção de mulheres que em suas partes não conjugavam-se em um todo. Todas espalhadas pela sua vida, como as roupas pelo chão. O sexo sob encomenda, como quem escolhe do conteúdo à embalagem. Todas selecionadas segura e responsavelmente. Como lhe era difícil ganhar as ruas como um cão sem dono. E o armário onde tudo deveria se guardar estava limpo, assim como o das roupas, mas vazio. Perdera de vista o seu talento natural para amar por inteiro, sem expectativas, por puro gozo, rompendo a ilusão banal da falta de limites ou de demasias, para apenas amar como quem transborda e se alegra com o que pode oferecer, mesmo que pouco. Não havia tempo na ciranda das mulheres infindas para se deleitar com a arte e o talento que lhes foram naturalmente oferecidos. - Vejam isso! Vejam isso! A ele foi dado o dom e o talento para a conjunção carnal. E ele sabe disso! Mas como consegue desperdiçar a herança divina para ser assim... tão... demasiadamente humano!? O sexo é a fonte da criatividade, o poder supremo da transformação; não é um lago raso onde se molha os pés sujos de lama e se sai correndo para esconder que se esteve lá! Ora, deuses de toda a mitologia! O que fizestes vós com esta humanidade tosca? - Espere senhor sábio, espere. Dê-lhe mais uma chance. Vamos ver o que se passa – intercedeu o escriba. Acostumado, por dever de ofício, a enxergar a vida pelo seu aspecto lógico, vasculhou-se criteriosamente para encontrar uma referência que lhe servisse de guia. Estava no mapa o que Carl Jung mesmo dizia - aquilo que reprimimos não deixa de existir, apenas explode em outro lugar, dramaticamente. O lugar das contradições: fazer amor sem limites, mas com segurança. O conflito entre o desejo e a responsabilidade. “Mas eu sou o que sou!” – repetia para si mesmo, exaltando os defeitos que considerava não mais do que qualidades exacerbadas. Construíra-se nas duras críticas. E agora, como evadir-se? - Foi aí que apareceu aquela cigana. - Que cigana?!?! - perguntaram os sábios em uníssono. - Uma mulher que vestia uma saia florida e falava de coisas que acontecem do lado de cá. Ela não parecia saber muita coisa, mas que tinha uma certa idéia, a lá isso tinha – respondeu o escriba satisfeito por ter algo a oferecer que não fosse assim tão... demasiadamente humano. - Observemos, então – aquietaram-se os sábios para prestar atenção nos fatos que o escriba minuciosamente narrava. Ele estava tentando manter-se em forma e prometera-se, pela milésima vez, que se empenharia em caminhadas saudáveis para compensar os excessos. E era sempre tão compensador o esforço das caminhadas à luz do dia depois das noites tortas. E de repente aquela mulher apareceu, correndo pela calçada onde ele estava sentado, em um banquinho de plástico branco, em frente a uma Kombi, tomando a água de coco que o misto de vendedor e psicanalista lhe oferecia todas vez que ele aparecia por lá. Não era exclusividade dele, é bem verdade, mas ela gostava de pensar-se merecedor de uma certa exclusividade. Mas a verdade é que a saia florida daquela mulher foi que lhe chamou a atenção. - Ei! Quer que eu leia a sua mão? – disse ela, logo parecendo mudar de idéia e completando com outra solução – Me dê a mão e vamos por aí para ver o Sol! Mas se quiser, também posso ler sua mão - insistiu no que era verdadeiramente sua vontade. Como as mulheres tã facilmente abrem mão de suas vontades... — Guarde seus palpites - disse um dos sábios apenas para não perder sua fala pontual, pois já estava começando a interessar-se pelo assunto - Adiante, adiante. Ela trazia uma espécie de embornal onde guardava ouro e latão em meio a um monte de penduricalhos que ressoavam quando ela tentava achar algo que pudesse oferecer a ele. E falava, falava, falava. Saíram andando pela calçada e pelas ruas como se não estivessem exatamente ali. E ela insistiu que ele lhe desse a mão. Não, ele não queria se expor a tal ponto. Oferecera-lhe um mapa astral completamente pronto, contara-lhe segredos indizíveis. Tudo, menos o que guardava sua mão. - Veja se não é o que digo! Nem ao menos se deu a chance de saber se é possível construir uma história para além das linhas da própria mão! – disse um dos sábios, ao que o escriba retrucou: Calma, sábio senhor! A precipitação não é instrumento de pesquisa validada pela congregação. E seguiu sua narrativa: Ele não abrira a mão, embora oferecesse tudo o que estava em torno de si. Dava-se sem efetivamente se dar. Seria o medo? Seria a noção ingênua da liberdade? Não sabia a resposta, mas deixava-se infiltrar lentamente por outras possibilidades, coisas ainda não totalmente conhecidas, mas coisas discretamente sonhadas. Estaria aí a essência da liberdade? Aquela mulher parecia ter a língua molhada em pó de ouro. Ela não viu sua mão, mas deixou que ele visse um mundo de quinquilharias que trazia no embornal. Quem era ela e o que fazia ali na história da vida dele? - Atenha-se aos fatos! – interferiu um dos sábios que perdia sempre o fio da história por seu hábito incontrolável de cochilar – não nos interessa a vida da cigana ou seja lá o que esta mulher for. Atenha-se aos fatos! - completou ele com o que ainda conseguira reter do pouco que ouvira dizer. - Mas senhor, as mulheres desempenham papel fundamental na vida dos humanos, mesmo daqueles ...demasiadamente humanos. Por que não conhecê-la um pouco mais? Quem sabe... – não conseguiu terminar a frase, interrompido que fora pela fúria em bloco dos seis sábios. - Atenha-se aos fatos!!!!!!