Foto: Anselmo Veríssimo
Entre o sonho e a realidade existe um fino véu que por vezes também separa o sono da vigília. Ele acordou e ela permaneceu dormindo. Ele se levantou, vestiu-se, apanhou de volta todos os seus pensamentos e preparou-se para ir. Ela ficou ali, aconchegada em suas próprias fantasias, estranhamente parecendo que ela é quem deveria ir. Ainda em sonho ela o abraçou longamente. Ele não sentiu o abraço, desperto que estava. Seguiram lado a lado, separados pelo fino véu que não os deixava seguir efetivamente juntos. Ela falava das árvores lindas em uma época em que todas estavam florescendo; ele olhava para ela sem conseguir vê-la. Ele mostrou as músicas tristes que o acompanharam até ali; ela não conseguiu ouvir. Beijaram-se na despedida, mas a realidade e o sonho que o fino véu apartava não deixou que se tocassem, instalando estranha distância. Nunca mais se veriam? Ou estariam sempre ali, encontrando-se em planos diferentes quando dormissem e sonhassem?
— Não entendo, nobres sábios, porque a vida se comporta assim — indagou distraidamente o escriba, a quem nada deveria interessar saber. — Como podem os seres buscarem elementos essenciais às sua vidas e os julgarem tão superficialmente nas decisões efetivas do querer? Sempre errarão na busca da felicidade? Sempre terão o julgamento do ego a interferir em suas mais intrínsecas vontades?
Os sábios, tomados de surpresa pela competente interferência do escriba, não souberam como responder. Apelaram então para o sábio que dormia - ele que sempre deitava regras sobre o que quer que fosse, recolhendo palavras e inspiração das profundezas do seu sono.
— Responda, magnífico sábio! Vós que sois de todos nós o que mais se dedica à reflexão! — e ficaram a esperar o que dali viria, para ver ser faria algum mínimo sentido o que o escriba dizia.
— Ora, meus caros sábios. Não precisam se dar ao trabalho de pensar sobre tamanha obviedade, vós que sois contrários a tudo que pareça simplesmente... óbvio.
—Como, óbvio?!!! - perguntaram todos, inclusive o escriba, entreolhando-se como se tivessem perdido alguma parta da conversa.
— Humanos! Não sabem como são? Não sabem como se repetem de maneira monótona suas histórias? Está o homem a aprender o que não lhe foi bastante na vida: viver como os felizes cães sem dono. E à mulher, aquilo que lhe é vocação e martírio: tentar salvar os homens de seus banais destinos!
— Han????!!!! — abismaram-se todos diante de tão sucinta explanação.
— Veja, honorável escriba! Vejam todos o que se passa naquele plano inferior! — apontou o sábio que dormia, desperto como nunca dantes o haviam visto. E com isso pos-se o escriba a observar.
— Não consigo mais vê-los em interação, senhores — disse ele, apertando os olhos para refinar a observação — Já não consigo acompanhar-lhes a história. Vejo apenas a um e a outro, em suas próprias elocubrações.
Mas o escriba, em verdade, via a história daquele homem apenas pelas impressões da cigana. Perdera-o de vista ao observá-la e não queria admitir sua falha ao Conselho de honoráveis sábios. Ademais, pouca diferença faria se contasse a sua própria versão dos fatos ou se narrasse fielmente o que via. Aprendera com o tempo que não existia na história - dos humanos ou dos sábios - o que não fosse apenas versão. E continuou a narrar a saga daquele homem a quem os sábios dedicavam suas sábias observações.
— Pois bem: seguiu o homem para sua vida... hum... demasiadamente humana — prosseguiu o escriba a partir de sua própria intuição — Fora aquele homem ter com sua vida comum de demasias pautadas pela segurança e responsabilidade, da qual aquela cigana definitivamente não fazia parte e à qual ele jamais a convidaria.
— É??????!!!!!! — perguntaram em coro os seis sábios, incluindo o que dormia.
— Sim, senhores — respondeu o escriba com indisfarçável desgosto.
— E... o que... significará isso para... a cigana? — perguntou um dos sábios, tentando inutilmente dissimular o interesse pela banalidade dos fatos; ele que de todos era o que mais acreditava que sabia.
Neste momento preciso o escriba exclamou: Olhem, senhores! Alcançaram-se as mãos! Apesar do véu, alcançaram-se as mãos!
O escriba não conseguia exatamente divisar o que os movera - ele na realidade e ela no sonho — a se darem as mãos, pois que não o via plenamente e ela ainda dormia.
— Sim, certamente é isso! Ele se libertou do medo... ou terá sido empurrado para a coragem? — indagava-se na incerteza da observação, quando lembrou que precisava apenas oferecer dos fatos a sua própria versão — Finalmente chegara a decisão! Estava fora da grande empresa onde escondera-se dos próprios talentos. Sim, ele se lançou à liberdade do querer, mas teve medo e procurou a mão dela... que estava a tanto tempo ali — acrescentou o escriba com uma nota de amargura na voz.
— Vês, meu nobre sábio? — indagou com ar de sarcasmo um dos sábios ao sábio que dormia — Ainda não podemos desacreditar de todo a espécie, por mais que seja humana. Comentário que o sábio que dormia solenemente ignorou, enfurnando-se ainda mais nas pesadas vestes que ora lhe serviam de cobertor, ora de travesseiro, ora de tampões de orelhas para evitar as longas dissertações a que os demais sábios costumavam se entregar.
Mas o escriba ainda não entendia o que vira ocorrer naquele plano abaixo.
— O fino véu que separava os dois humanos parecia se expandir, deturpando-me as observações. E os dois pareciam rodar, rodar, rodar, com as mãos atadas. E quanto mais rodavam, mais pareciam se unir, sem no entanto se tocarem para além das mãos. Ela apenas sonhava e ele, acordado, dizia que estava bem, que a energia dela lhe chegava facilmente. O que seria isso, senhores sábios? — perguntou intrigado o humilde escriba?
— Nada que os zeladores de zoológico não possam explicar — ironizou num resmungo o sábio que dormia, sem que os outros sábios levassem o comentário em consideração.
— É claro, meu nobre escriba, que estamos a testemunhar um momento raro e de exceção para os seres deste plano menor. A troca pura e simples de solidariedade, de amor ao próximo como a si mesmo, de transmutação da energia que pertence ao Universo e é privilégio de todos e de qualquer um e não deve ser confinada aos egoísmos entorpecedores. Não se dão conta, os arrogantes humanos, que o que lhes dói e pesa é o amor que se recusam a dar ou que apenas dão sob condições ideiais de escambo emocional. Sim, este é um momento particular que raramente temos a honra de presenciar. E se não podes divisar corretamente o que vês, caro escriba, é porque seus olhos não estão acostumados ao que não seja apenas e tão-somente humano.
O escriba baixou os olhos e a cabeça, curvando-se perante a sabedoria daquele grande sábio. Quem era ele para contestar, embora tivesse lá sua próprias opiniões. É que a cigana adormecida sonhava, mesmo que fosse apenas um sonho, ela sonhava. O escriba apiedava-se até a última das fibras já envelhecidas de seu humilde coração. E pensava com o que restava de seus despregados botões:
"Como são felizes os humanos quando sonham... "
— Não entendo, nobres sábios, porque a vida se comporta assim — indagou distraidamente o escriba, a quem nada deveria interessar saber. — Como podem os seres buscarem elementos essenciais às sua vidas e os julgarem tão superficialmente nas decisões efetivas do querer? Sempre errarão na busca da felicidade? Sempre terão o julgamento do ego a interferir em suas mais intrínsecas vontades?
Os sábios, tomados de surpresa pela competente interferência do escriba, não souberam como responder. Apelaram então para o sábio que dormia - ele que sempre deitava regras sobre o que quer que fosse, recolhendo palavras e inspiração das profundezas do seu sono.
— Responda, magnífico sábio! Vós que sois de todos nós o que mais se dedica à reflexão! — e ficaram a esperar o que dali viria, para ver ser faria algum mínimo sentido o que o escriba dizia.
— Ora, meus caros sábios. Não precisam se dar ao trabalho de pensar sobre tamanha obviedade, vós que sois contrários a tudo que pareça simplesmente... óbvio.
—Como, óbvio?!!! - perguntaram todos, inclusive o escriba, entreolhando-se como se tivessem perdido alguma parta da conversa.
— Humanos! Não sabem como são? Não sabem como se repetem de maneira monótona suas histórias? Está o homem a aprender o que não lhe foi bastante na vida: viver como os felizes cães sem dono. E à mulher, aquilo que lhe é vocação e martírio: tentar salvar os homens de seus banais destinos!
— Han????!!!! — abismaram-se todos diante de tão sucinta explanação.
— Veja, honorável escriba! Vejam todos o que se passa naquele plano inferior! — apontou o sábio que dormia, desperto como nunca dantes o haviam visto. E com isso pos-se o escriba a observar.
— Não consigo mais vê-los em interação, senhores — disse ele, apertando os olhos para refinar a observação — Já não consigo acompanhar-lhes a história. Vejo apenas a um e a outro, em suas próprias elocubrações.
Mas o escriba, em verdade, via a história daquele homem apenas pelas impressões da cigana. Perdera-o de vista ao observá-la e não queria admitir sua falha ao Conselho de honoráveis sábios. Ademais, pouca diferença faria se contasse a sua própria versão dos fatos ou se narrasse fielmente o que via. Aprendera com o tempo que não existia na história - dos humanos ou dos sábios - o que não fosse apenas versão. E continuou a narrar a saga daquele homem a quem os sábios dedicavam suas sábias observações.
— Pois bem: seguiu o homem para sua vida... hum... demasiadamente humana — prosseguiu o escriba a partir de sua própria intuição — Fora aquele homem ter com sua vida comum de demasias pautadas pela segurança e responsabilidade, da qual aquela cigana definitivamente não fazia parte e à qual ele jamais a convidaria.
— É??????!!!!!! — perguntaram em coro os seis sábios, incluindo o que dormia.
— Sim, senhores — respondeu o escriba com indisfarçável desgosto.
— E... o que... significará isso para... a cigana? — perguntou um dos sábios, tentando inutilmente dissimular o interesse pela banalidade dos fatos; ele que de todos era o que mais acreditava que sabia.
Neste momento preciso o escriba exclamou: Olhem, senhores! Alcançaram-se as mãos! Apesar do véu, alcançaram-se as mãos!
O escriba não conseguia exatamente divisar o que os movera - ele na realidade e ela no sonho — a se darem as mãos, pois que não o via plenamente e ela ainda dormia.
— Sim, certamente é isso! Ele se libertou do medo... ou terá sido empurrado para a coragem? — indagava-se na incerteza da observação, quando lembrou que precisava apenas oferecer dos fatos a sua própria versão — Finalmente chegara a decisão! Estava fora da grande empresa onde escondera-se dos próprios talentos. Sim, ele se lançou à liberdade do querer, mas teve medo e procurou a mão dela... que estava a tanto tempo ali — acrescentou o escriba com uma nota de amargura na voz.
— Vês, meu nobre sábio? — indagou com ar de sarcasmo um dos sábios ao sábio que dormia — Ainda não podemos desacreditar de todo a espécie, por mais que seja humana. Comentário que o sábio que dormia solenemente ignorou, enfurnando-se ainda mais nas pesadas vestes que ora lhe serviam de cobertor, ora de travesseiro, ora de tampões de orelhas para evitar as longas dissertações a que os demais sábios costumavam se entregar.
Mas o escriba ainda não entendia o que vira ocorrer naquele plano abaixo.
— O fino véu que separava os dois humanos parecia se expandir, deturpando-me as observações. E os dois pareciam rodar, rodar, rodar, com as mãos atadas. E quanto mais rodavam, mais pareciam se unir, sem no entanto se tocarem para além das mãos. Ela apenas sonhava e ele, acordado, dizia que estava bem, que a energia dela lhe chegava facilmente. O que seria isso, senhores sábios? — perguntou intrigado o humilde escriba?
— Nada que os zeladores de zoológico não possam explicar — ironizou num resmungo o sábio que dormia, sem que os outros sábios levassem o comentário em consideração.
— É claro, meu nobre escriba, que estamos a testemunhar um momento raro e de exceção para os seres deste plano menor. A troca pura e simples de solidariedade, de amor ao próximo como a si mesmo, de transmutação da energia que pertence ao Universo e é privilégio de todos e de qualquer um e não deve ser confinada aos egoísmos entorpecedores. Não se dão conta, os arrogantes humanos, que o que lhes dói e pesa é o amor que se recusam a dar ou que apenas dão sob condições ideiais de escambo emocional. Sim, este é um momento particular que raramente temos a honra de presenciar. E se não podes divisar corretamente o que vês, caro escriba, é porque seus olhos não estão acostumados ao que não seja apenas e tão-somente humano.
O escriba baixou os olhos e a cabeça, curvando-se perante a sabedoria daquele grande sábio. Quem era ele para contestar, embora tivesse lá sua próprias opiniões. É que a cigana adormecida sonhava, mesmo que fosse apenas um sonho, ela sonhava. O escriba apiedava-se até a última das fibras já envelhecidas de seu humilde coração. E pensava com o que restava de seus despregados botões:
"Como são felizes os humanos quando sonham... "
EPISÓDIO VI
Já se tornara quase impossível visualizar os detalhes do campo de observação a que se dedicavam os sábios. Perderam de vista o foco das pesquisas ao longo das interferências de tantas divagações. Precisavam reorganizar as idéias, reunir os fatos e elaborar uma síntese que desse conta daquela partícula importante da vida dos humanos, que nem eles ao certo sabiam o que significava. Os cinco sábios se recolheram para refletir em conjunto, reunindo-se ao sábio que dormia e que já há tempos estava imerso no processo de reflexão. Deixaram o pobre escriba à deriva de seus próprios pensamentos — ele a quem raro era dado o crédito do pensar. E ele ficou observando o seu principal interesse em todo o enredo que descrevia — a cigana que dormia. E se dispos ao complicado exercício de pensar:
"Por que será que ela não desperta? Onde será que passeia quando sonha? Será que é feliz? Talvez seja esta a única forma de amor possível entre os seres da humanidade — o amor em planos etéreos, protegido dos equívocos com que o interpretam nos planos inferiores. Sim, os humanos se perdem em equívocos e por isso geralmente sofrem. O amor que eles entendem é demasiadamente humano, tem feições à sua própria imagem e semelhança, ou até mesmo à sua simples diferença. Escolhem o amor pela textura da pele, pela altura, pela cor dos cabelos, pelo tom da voz, pela condição social, pelo contorno dos corpos, pela cor dos olhos, pelo formato dos pés, pela massa muscular, pela roupa, pelos objetos... Não é de se admirar que acabe em equívico o que já começa equivocado. Talvez seja por isso que ela dorme... para não perceber que o único amor possível no plano inferior é humano, demasiadamente humano. E segue assim oferecendo um amor adormecido a um ser desperto, vivente, humano."
Enquanto pensava, deu-se conta de que se aproximava cada vez mais daquela mulher que dormia envolta em véus de si mesma. Ele passou a mão suave dos pensamentos por sobre os cabelos que escondiam o rosto dela, sentindo seu leve ressonar. E pensou:
"Talvez tenham razão os sábios. O amor essencial independe de retorno - o tal do escambo a que os sábios se referem. Ele apenas se doa e esvazia a pressão transbordante que aflige o coração. Lembro de um sábio antigo, que ascendeu a planos altíssimos, que insistia em algo a quem ninguém dava crédito à época, mas que ele insistia em pedir para si mesmo: 'fazei, senhor, que eu procure mais amar do que ser amado; consolar do que ser consolado'. Será que é por isso que ela ainda dorme? Saberia ela, se cigana não fosse, despojar-se dos equívocos inerentes à espécie humana? Relevar, calar a voz rude da discórdia, romper as correntes das ilusões banais? Resistir? Sim... o amor no plano dos pobres humanos sustém-se na resistência. Mas quantos se dão ao esforço e acreditam que serão recompensados?
Neste momento, o escriba se deu conta de que faltavam-lhe os elementos conclusivos para consolar a si mesmo da piedade que lhe inspirava a cena que via. E deixou que lá ficasse a cigana que dormia, apartada da vida comum por um fino manto de alegria.
"Por que será que ela não desperta? Onde será que passeia quando sonha? Será que é feliz? Talvez seja esta a única forma de amor possível entre os seres da humanidade — o amor em planos etéreos, protegido dos equívocos com que o interpretam nos planos inferiores. Sim, os humanos se perdem em equívocos e por isso geralmente sofrem. O amor que eles entendem é demasiadamente humano, tem feições à sua própria imagem e semelhança, ou até mesmo à sua simples diferença. Escolhem o amor pela textura da pele, pela altura, pela cor dos cabelos, pelo tom da voz, pela condição social, pelo contorno dos corpos, pela cor dos olhos, pelo formato dos pés, pela massa muscular, pela roupa, pelos objetos... Não é de se admirar que acabe em equívico o que já começa equivocado. Talvez seja por isso que ela dorme... para não perceber que o único amor possível no plano inferior é humano, demasiadamente humano. E segue assim oferecendo um amor adormecido a um ser desperto, vivente, humano."
Enquanto pensava, deu-se conta de que se aproximava cada vez mais daquela mulher que dormia envolta em véus de si mesma. Ele passou a mão suave dos pensamentos por sobre os cabelos que escondiam o rosto dela, sentindo seu leve ressonar. E pensou:
"Talvez tenham razão os sábios. O amor essencial independe de retorno - o tal do escambo a que os sábios se referem. Ele apenas se doa e esvazia a pressão transbordante que aflige o coração. Lembro de um sábio antigo, que ascendeu a planos altíssimos, que insistia em algo a quem ninguém dava crédito à época, mas que ele insistia em pedir para si mesmo: 'fazei, senhor, que eu procure mais amar do que ser amado; consolar do que ser consolado'. Será que é por isso que ela ainda dorme? Saberia ela, se cigana não fosse, despojar-se dos equívocos inerentes à espécie humana? Relevar, calar a voz rude da discórdia, romper as correntes das ilusões banais? Resistir? Sim... o amor no plano dos pobres humanos sustém-se na resistência. Mas quantos se dão ao esforço e acreditam que serão recompensados?
Neste momento, o escriba se deu conta de que faltavam-lhe os elementos conclusivos para consolar a si mesmo da piedade que lhe inspirava a cena que via. E deixou que lá ficasse a cigana que dormia, apartada da vida comum por um fino manto de alegria.
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