Meus amados e imprescindíveis leitores, ontem almocei em um sebo-restaurante do centro da cidade onde encontrei uma jóia rara do pensamento humano, que pretendo compartilhar aos poucos com vocês. Sim, aos poucos, como quem saboreia um quitute dos deuses. Já passava das quatro da tarde e eu ainda não havia almoçado. Sentia um fome programada, daquelas à qual bastariam um acarajé de esquina, um pudim de leite, uma empada, um pastel de vento com caldo de cana, qualquer coisa para calar o hábito de comer, porque não era exatamente uma fome de comer. Talvez por isso tenha me atraído o restaurante-sebo — ou o sebo-restaurante, já que havia poucas mesas e muitos, muitos livros. Pedi à garçonete um filé de pescada com arroz de brócolis, enquanto já me dirigia para a degustação dos livros. O lugar chama-se Al-Farábi e fica ali pelas imediações do Beco do Telles, Rua do Commercio, por ali. Não havia mais ninguém além de mim e dos funcionários do lugar. O ambiente estava envolto numa música lamentosa na voz de Ibraim Ferrer, que falava de um amor muito amado, cujo título o gentil garçom me trouxe junto com o cardápio: "Quere me mucho". Coloquei o cardápio de lado e abri um livro. Nas primeiras páginas senti um misto de alegria e surpresa, como quem recebe uma singela deferência da providência divina a que constumamos considerar como "coincidência". Sei que muitos de vocês (na hipótese esperançosa de que sejam mesmo muitos!) já estarão esperando impacientes pela referência bibliográfica para prometerem-se verificar em alguma livraria, comprar, folhear e muitas vezes deixar pra lá sem mais abrir. Por isso, meus amados, a referência não vem ao caso; deixemo-la (argh...) para uma postagem final. Mas ofereço um dos trechos que mais me tocou, do que já li. Ao longo da leitura, prometo compartilhar com vocês outros momentos. Mas quero dizer que ao me alegrar com o que lia, passaram-me pela lembrança os rostos de todos os meus queridos amigos, amigas e leitores e o desejo mais sincero de que estivessem ali a compartilhar comigo o almoço regado a surpresa e reflexão. Então vejam:
"A coragem de que falamos não é o oposto do desespero. Muitas vezes teremos de enfrentar o desespero, como tem acontecido a todas as pessoas sensíveis nas últimas décadas. Por isso Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero.
A coragem também não é teimosia - sem dúvida teremos de criar com outras pessoas. Contudo, se não expressarmos nossas idéias originais, se não dermos ouvido ao nosso eu interior, estaremos traindo a nós mesmos e à comunidade, por não contribuir para o todo.
A principal característica dessa coragem é originar-se no centro, no interior do nosso eu, pois do contrário nos sentiremos vazios. O "vazio" interior corresponde à apatia exterior; com o correr do tempo, a apatia se transforma em covardia. Portanto, o compromisso em que nos engajamos só é autêntico quando originado no centro do nosso ser. (...)
A coragem não é uma virtude nem um valor entre os valores do indivíduo, como o amor ou a fidelidade. É o alicerce que suporta e torna reais todas as outras virtudes e valores. Sem ela, o amor empalidece e se transforma em dependência. Sem a coragem, a fidelidade é mero conformismo. (...)
A coragem é necessária para que o homem possa ser e vir a ser. Para que o eu seja é preciso afirmá-lo e comprometer-se. Essa é a diferença entre os seres humanos e o resto da natureza. (...) Os seres humanos conseguem valor e dignidade pelas múltiplas decisões que tomam diariamente. Essas decisões exigem coragem. Por isso Paul Tillich diz que a coragem é ontológica - é essencial ao nosso ser."
Espero que tenham gostado e que desejem mais. E embora possa ligeiramente parecer, vou logo avisando: não é livro de auto-ajuda! Só mais um trechinho, para dar água na boca:
"A intimidade requer coragem, porque o risco é inevitável. Não é possível saber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá, transformando-se em autorrealização, ou nos destruirá? A única coisa certa é que, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos. (...) Em nossa sociedade, é mais fácil compartilhar o corpo do que as fantasias, desejos, aspirações, temores, pois estes são assuntos privados, cuja revelação nos torna mais vulneráveis. Por estranhas razões, envergonhamo-nos de compartilhar o que realmente importa."
Uauuuu!!!!!!!!!
Beijos.
H.
"A coragem de que falamos não é o oposto do desespero. Muitas vezes teremos de enfrentar o desespero, como tem acontecido a todas as pessoas sensíveis nas últimas décadas. Por isso Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero.
A coragem também não é teimosia - sem dúvida teremos de criar com outras pessoas. Contudo, se não expressarmos nossas idéias originais, se não dermos ouvido ao nosso eu interior, estaremos traindo a nós mesmos e à comunidade, por não contribuir para o todo.
A principal característica dessa coragem é originar-se no centro, no interior do nosso eu, pois do contrário nos sentiremos vazios. O "vazio" interior corresponde à apatia exterior; com o correr do tempo, a apatia se transforma em covardia. Portanto, o compromisso em que nos engajamos só é autêntico quando originado no centro do nosso ser. (...)
A coragem não é uma virtude nem um valor entre os valores do indivíduo, como o amor ou a fidelidade. É o alicerce que suporta e torna reais todas as outras virtudes e valores. Sem ela, o amor empalidece e se transforma em dependência. Sem a coragem, a fidelidade é mero conformismo. (...)
A coragem é necessária para que o homem possa ser e vir a ser. Para que o eu seja é preciso afirmá-lo e comprometer-se. Essa é a diferença entre os seres humanos e o resto da natureza. (...) Os seres humanos conseguem valor e dignidade pelas múltiplas decisões que tomam diariamente. Essas decisões exigem coragem. Por isso Paul Tillich diz que a coragem é ontológica - é essencial ao nosso ser."
Espero que tenham gostado e que desejem mais. E embora possa ligeiramente parecer, vou logo avisando: não é livro de auto-ajuda! Só mais um trechinho, para dar água na boca:
"A intimidade requer coragem, porque o risco é inevitável. Não é possível saber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá, transformando-se em autorrealização, ou nos destruirá? A única coisa certa é que, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos. (...) Em nossa sociedade, é mais fácil compartilhar o corpo do que as fantasias, desejos, aspirações, temores, pois estes são assuntos privados, cuja revelação nos torna mais vulneráveis. Por estranhas razões, envergonhamo-nos de compartilhar o que realmente importa."
Uauuuu!!!!!!!!!
Beijos.
H.
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