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14 fevereiro 2010

Não entendi o enredo deste samba, amor...

ENREDOS DA FOLIA

Fantasias, fantasias, fantasias
Como vestem certas almas de alegria
Fantasias, fantasias, fantasias
Se desmancham de uma noite para o dia.
H.
 (Para um querido amigo do Clube do Samba, o bloco que vem me buscar em casa)

A vida em blocos

Carnaval nunca foi minha predileção. Gosto de festa sem data marcada e fantasia fora de contexto, daquelas que a gente usa, sem perceber que  usamos e que apenas quem está de fora consegue ver... e rir. Se me fosse dado o direito de sinceramente escolher a fantasia real, me vestiria, pasmem, de palhaça! Não que eu tenha talento — vocação e talento são coisas diferentes. Ser palhaço depende de prática, treinamento, vivência, autoconhecimento. Palhaços sem talento somos todos nesta vida, quando nos levamos demais a sério; quando, apesar dos pesares, ainda insistimos e em ser felizes aos tropeções, passando aturdido sem ver o que é o essencial; atravessando o enredo de todo samba, amor — esta é a parte mais engraçada da arte-vida dos palhaços, já dizia Chaplin: a tentativa de se pôr novamente de pé e recuperar a dignidade, sem rasgar a fantasia. Palhaços por vocação, mesmo sem talento,  insistem em alegrar a quem quer que seja, e sofrem da dor que conseguem curar apenas nos outros.  Porque palhaços são espíritos nobres, fantasiados de seres humanos, mas incumbidos de uma missão delicadíssima e especial, o que não lhes  confere qualquer salvo conduto nesta vida. Palhaços são elite em uma humanidade tosca que não sabe amar e que não consegue se emocionar por nada que não seja si mesmo.  Palhaço é coisa séria. Eu amo sinceramente os palhaços — aqueles que riem de si mesmos; que sabem que seus escudos são pura fantasia; que fazem graça do que não se poderia rir; que resistem, apesar da vida.  E para quem não entendeu, insisto em meu sincero amor aos palhaços, categoria que exige, de quem a ela se canditada,  atributos como desprendimento, equilíbrio, sensibilidade, alegria, bondade, coragem altruísta, humildade e fé. Ser palhaço não é pra qualquer um. Não basta vestir a  fantasia, nem encaixar a carapuça...Ops! quer dizer... o chapéu.

Hanna, a aprendiz de palhaça.


EM TEMPO (do alto de meu nariz vermelho de aprendiz): Também são palhaças, por vocação, as pessoas que abrem mão da festa só para fazer companhia a quem precisa aprender quais são as coisas que nos fazem verdadeiramente sorrir. Por falta de talento, talvez - para certas coisas, não basta ter vocação - acabam trocando a graça  e a festa por uma ressaca sem precedentes. E aí não tem jeito....só morrendo de rir!!! Os palhaços podem até perder o rebolado, mas nunca abrem mão da graça que Deus lhes deu. 
Respeitável público, e com vocêêêêêêssssssssssss......
Hanna, a metida a saber de coisas que ninguém vê... 
....rsrs.....


Mas voltando aos inevitáveis blocos: comecei o carnaval muito antes, logo depois do  Natal e Ano Novo,  no Saco do Noel, um bloco pós-natalino e pré-carnavalesco, que se orgulha de ser o maior bloco de Vila Isabel. Conta a lenda que cerca de três mil pessoas defilam no tal do Saco. Fui lá conferir, conduzida por um de seus fundadores e diretor de alguma coisa que jamais consegui entender do que se tratava. Mas Hanna sempre leva tudo muito a sério. Chegando na concentração, tratou de deixar o diretor à vontade para cumprir sua missão. Enquanto isso... bloco para que te quero...rsrs. Já era sabido que o famoso Cacique de Ramos estaria honrando o Saco do Noel com sua marcante presença. Mas Hanna não imaginava o quão marcante esta presença seria. Tinha bandeirão, fogos e galera paramentada com traje guerreiro, bem no meio do Saco do Noel. Para os que não sabem, o Cacique de Ramos é um dos mais famosos blocos de carnaval do Rio, depois do Bola Preta, claro. Não sei muito sobre eles, mas tive o imaginário carnavalesco povoado desde infância pelas história de valentia dos Caciques.  Eram para mim verdadeiros guerreiros. E Hanna tem uma queda especial por esta categoria de seres humanos...rsrs. Pois bem: estava eu lá, toda acompanhada, quando vi a primeira manifestação dos Caciques, que traziam nas camisas a garantia de que eram realmente uma tribo, adornados pelos tradicionais cocares. Soltaram fogos, e o meu coração  disparou. De repente, uma imensa bandeira começa a tomar conta da pista, como em dia de Botafogo vitorioso no Maraca. Não resisti. Caí na folia do bloco convidado, com se tivesse nascido lá. Mas como vocês sabem, Hanna prima pela lealdade. Minha consciência logo apontou: você está no Saco do Noel, como convidada de um de seus oito fundadores! Pensava o que fazer para conter o enredo deste samba, amor, quando  voltei na passarela, disposta a  retornar ao que me levou a este carnaval extemporâneo e bom. Atravessei por baixo do bandeirão e dei de cara, do outro lado, com um corpo  quase feito à mão, fantasiado com aquelas roupas esquisitas do Saco de Noel. Vazei para fora da bandeira e qual não foi minha supresa: agarrado no pavilhão caciquence, aquela figura linda, simpática,  ainda mais depois que engordou uns quilinhos após o emagrecimento forçado pela prática do triatlon —Hanna sempre admirou a beleza da obra divina encarnada em gente. Ele sambava sorridente, agarrado àquela bandeira. Custei a entender o lance.
— Me desculpe, mas  não resisti. O Cacique... —  falei, gritando para me fazer ouvir no meio da batucada de uma bateria que aliás é nota 10! E antes que eu contasse como aquele bloco habitava meu imaginário, um sorriso largo e lindo se abriu feito lona de circo para me dizer  em meio aos volteios de carnaval:  —  Sem problemas! Eu também adoro o Cacique! Vamos desfilar nele? Eu arranjo as fantasias! — Tudo acertado. Pura alegria.  E saímos a esbanjar a felicidade que nos transborda, independentemente de qualquer coisa, de qualquer bloco, de qualquer das bobagens de Hanna.  Traição perdoada no ato do flagrante! 
Sábado de Bola Preta. Como a fama faz tudo ficar sem graça, né não? Mas a sorte recuperou o lance e fomos parar em Paquetá, num bloquinho humilde, mas bonzinho, com direito a muitos tchibuns... e cliques fantásticos.  Tudo de bom! O daqui a pouco a Deus pertence, como sempre! Humm... acho que vou fazer um tchibum de novo na cama... ainda é cedo, amor.... Prometo que não vou passar o carnaval no Sobretudo... Estava só dando umas acertadinhas...rsrs. 
H. 

13 fevereiro 2010

Aláááá, meu bom Alá...

Se beber, não volte de bicicleta... e não vá perder os sapatos!
Dentro ou fora do Carnaval,
sincero amor de Hanna
a todos os palhaços!!!!!!

12 fevereiro 2010

Poemeu — reedição

DA VIDA E SEU ETERNO DEIXAR PARA LÁ

Estou de saída,
arrumando uma pequena mala.
Tão pequena que não suporta mais que o essencial,
o importante, o fundamental.
Três pequenas coisas...
Coisas apenas minhas.
Que as não cobicem o próximo,
que não as contestem os ricos,
que não as admirem os pobres,
mas que as entendam as almas nobres.
Ao sair, fecho a porta
do lugar onde todo o resto está meticulosamente ordenado,
arquivado por ordem de desimportância,
por data, por autor, por assunto, por absoluto cansaço.
A chave que tranca a porta não há,
para que eu exercite a cada instante a decisão de não voltar.
Na estação, o trem que faz surgir a estrada necessária,
à medida que ela precisar existir.
Nas janelas, todas as paisagens que meu olhar construir.
Diante de mim, o percurso.
Perto de mim, todas as saídas.
Dentro de mim, a vida.
O resto é apenas tristeza passageira
pelo equívoco de um outro olhar.
Adeus.
 H.

Quantificando coisas da vida

Hanna tem muitas coisas das quais não se aproveita, porque não é uma aproveitadora. Hanna tem flores que não colhe para que não morram; tem mares que iluminam seu olhar e também não os colhe, para que não se turvem; tem o céu que é pleno e adorna seus cabelos, mas não o toca para não afugentar suas nuvens. Hanna tem árvores exuberantes que a fazem se emocionar, nas quais sequer pensa em tocar. Tem um amor que se pretende eterno —  trata-o como as flores, o mar, o céu, deixando-o onde está. Às vezes Hanna entende que ele é apenas uma árvore antiga, que se faz de amor na ânsia de se renovar. Recebe seus presentes que insistem em corporificar sua distante presença, fazendo de contas que nem está lá.  Deixa que fique onde está.  Não o colhe, para que não se desvaneça como o algodão doce da ilusão de amar. Hanna sabe que o amor é o fluido mágico de um universo encantador  que a todos une — que não se vê, não se traduz e que geralmente se rompe ao se tentar tocar. Há que se ter muita grandeza, quando se pretende amar. Hanna é pequena; de grande, somente seus sonhos, que não a deixam acordar.

EXPLICITUDES: este texto é para alguém concreto, que Hanna acha que por mais que queira, jamais vai conseguir esquecer. Fica como agradecimento pelo amor que conserva em potes de ilusão, e pela poesia e música que compartilho com todos vocês, na intenção de dizer que o amor (parece) que existe. E quanto mais distante dele nos mantivermos, olhando apenas de longe, mais ele pode durar. Assim como... picolé no isopor de gelo seco...rsrs. Poético, não? Vieram juntas: a poesia e a música; ambas maravilhosas. Tudo a propósito do Dalai Lama...rsrsr.
O coração de Hanna, comovido, agradece, fazendo o que pede a poesia... Aparecendo...  apenas para dizer: "não basta ter fé; é preciso confiar".
PS.: Aproveitem o Carnaval... da melhor maneira possível.
H.
Ausência 
(Vinícius de Moraes)
Eu deixarei que morra em mim o desejo
de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa
de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque
em meu ser está tudo terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados.
                        

11 fevereiro 2010

Alma suburbana - Madureira

 O subúrbio tem alma, história, poesia, fama, enredo, paixão, amor. Por que será que o poder público não vê? Só pra chatear... Arlindo Cruz.

07 fevereiro 2010

Episódio final da história da cigana - encontro com personagens

Os dias transcorriam como deveriam ser — felizes e calmos. Há muito não tinha dias tão habitados por tantas pessoas amáveis e queridas durante o tempo todo. Talvez por isso tenha deixado de lado o papel dobrado que a cigana me dera, havia quase uma semana. Resistia a saber que poderia estar ali o legítimo fim da história que já havia acabado tantas vezes. Às vezes esquecia completamente o episódio, aquela história, suas personagens inventadas. Contava as vezes em que me lembrava, apenas para certificar-me de que aos poucos estava esquecendo. Mas o fato é que lembrava. Estava um dia agradável, quando resolvi romper o lacre da ilusão que inventou todo o enredo de uma história banal, sem talento — non sense que ganhou autonomia e seguiu em frente, à revelia do próprio autor. A decisão de desfazer aquela intrigante dobradura surgiu repentinamente, agarrada à vontade inegável de que a história não tivesse terminado da forma real como terminou. Olhava uma revista de turismo, enquanto pensava. Apenas olhava, sem me deter nas informações, quando encontrei a forma simbólica de pôr um ponto final naquela história sem fim. Jorge Luis Borges. O escritor argentino costumava frequentar um botequim restaurante chamado El Preferido, autêntico bodegón espanhol, em Palermo Soho. Lugar ideal para enterrar os restos imortais de um história. Já não faziam mais diferença, mas também não paravam de transitar os personagens inquietos e decididos a não interromper uma trajetória sem saída. O restaurante tem duas entradas— uma pela Guatemala, 4801, e outra pela Jorge Luis Borges, 2108. Uma construção antiga, de 1885, que em 1952 virou armazém e depósito de bebidas. A casa de Borges ficava em frente àquela casa rosada, embricada entre as duas ruas. Entrando pela Guatemala, era como se estivéssemos em um armazém de secos e molhados. Pela rua que homenageava o frequentador ilustre, chegávamos ao bodegón, com mesas altas e banquetas que certamente não deixam os fregueses ficar para além do almoço. Uma ceveza e no más! parecia que diziam os bancos altos. Nem mais uma cerveja. Não conseguia imaginar Borges naqueles bancos por mais de uma cerveza.
Borges sentaba en una silla de ali— explicou rindo o garçon, diante da minha constatação. Tentei olhar a cadeira que ele apontava, mas o bancão não me permitia alcançar o lugar nem com o olhar.Distraía-me com aquele passado alheio; com aqueles vidros imensos de conservas coloridas e com a demora do garçom em resolver trazer uma cerveja Quilmes, aquela da garrafa imensa que se via gente bebendo no gargalo nas ruas perto da feira de Santelmo.
Aqui está. Tiene un buen apetito — serviu o sonolento garçon que logo desapareceu. 
Já quase me esquecia do que fora fazer ali, quando uma mulher se espantou com um gato que dormia em uma espécie de janela de sótão, redonda, que ficava a um palmo do chão e deixava entrar a luz forte do dia quente e do vento que trazia folhas para dentro das frestas. O garçon surgiu lentamente e arrastou o gato para debaixo do braço. O bicho nem reagiu, mas voltou para a clarabóia assim que o garçom o pôs no chão. A mulher nem viu e continuou seu almoço em paz. Finalmente o bancão começava a me expulsar do lugar. Era o tempo exato de um almoço e uma cerveja. Paguei a conta, olhei as curiosidades do lugar, que não eram muitas, e saí. Andei por muitas ruas, lembrando e esquecendo do papel que guardava no bolso da saia de linho colorida. A mesma saia que usava quando atravessei o rio Guamá para ver a floresta. A mesma saia que usava quando comecei esta história. As árvores eram linda e exuberantes, apesar do calor e do vento quente. Aproveitei a sombra de uma delas e me dispus a ler o que havia naquele papel que um escriba imaginário inventou. Meu coração disparou numa estranha ansiedade; esperança sabe-se lá de quê.
Toda vez que Deus se referia à casa, como por exemplo "a casa de Israel", "a casa de Davi" ou "arruma a tua casa", e várias outras passagens bíblicas, estava se referindo à casa espiritual. No meu humilde entender, a casa simboliza você mesma. E o fato de ser linda, talvez esteja relacionado às suas intenções, ao seu coração, mas a dúvida de ser sua casa ou não, penso que você precisa prestar mais atenção a você mesma, ao seu coração, em vez de mostrá-lo a pessoas que você nem conhece. As casas vazias pelo caminho são as pessoas que aparentemente estão bem à sua volta, sorrindo, brincando, mas na realidade estão com um imenso vazio dentro de si. Mas as janelas estavam abertas. Elas estão receptivas. A Bíblia diz: "...de tudo guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida eterna. Continue andando... vamos ver os acontecimentos...”
Pensei em amassar o papel e deixá-lo cair das mãos, mas não consegui.Tentei dobrá-lo da forma original, mas não consegui. O vento veio e se encarregou de fazer o que eu não quis. Soprou para longe o papel e eu senti um alívio esotérico, quase uma alegria. Teria sido uma comunicação da inteligência do Grande Universo? Melhor pensar que sim. Ajeitei a bolsa e me preparei para atravessar a rua, quando outra rajada de vento ameaçou levantar-me a saia. Baixei as mãos em gesto automático e um papel me veio bater ao peito. Qual não foi o susto quando vi que era o mesmo papel. E o vento estranhamente parou... ou eu não me dei conta de que ele já havia soprado o quanto lhe bastasse. Li novamente, tentando decifrar um possível código, uma mensagem, sei lá.
Una moneda, señora; una limosna, por favor — a mão suja e enrugada do homem que pedia esmolas surgiu sob meus olhos, que estavam abaixados e fixos no papel em uma de minhas mãos. Levantei a cabeça e o homem repetiu com um sorriso ameno, como se me reconhecesse:
Una limosna... cosa qualquer — olhei o papel na minha mão e para a mão dele, ainda estendida na minha direção. Entreguei o papel, que ele recebeu e guardou, como se dinheiro fosse.
Gracias, querida... sigue tu camino — e se foi. Fiquei ainda por alguns instantes tentando decifrar o que agora pressentia como uma mensagem... ou apenas a lembrança de uma mensagem.
"Continue andando... vamos ver os acontecimentos", a frase ecoou como um sussurro em meu pensamento. Atravessei a rua e fui embora a pé pela Jorge Luis Borges, pensando em como contar uma história que não quer ter fim. 

FIM


 
...ou não...
Hanna

06 fevereiro 2010

A ilusão da imortalidade — mais um golpe rude

Como todos sabem, jamais uso este espaço para dar más notícias. Uma notícia ruim é aquela que ocorre por força das circunstâncias, contrariando o bom senso e, às vezes, até mesmo a honradez. Não vou me estender muito, para não poluir o Sobretudo com a tristeza dos fatos evitáveis, mas que se impõem por descuido da realidade. Faço isto apenas como registro de um protesto que não chegou a tempo. A Associação Brasileira de Imprensa está novamente sob o risco dos oportunismos dos quais pretendíamos livrá-la como aquele movimento chamado "A ABI que nós queremos". Entenda-se pelo "nós", os jornalistas.  Naquele abril de 2004, acreditávamos nós, os jornalistas, termos afastado de vez a vitaliciedade de seus presidentes e conselheiros, trazendo a Casa de volta à tradição de respeito aos princípios  republicanos e democráticos. Não foi preciso muito tempo para ver que  alguns de nós acalentava uma ilusão romântica. Cumprimos nosso papel até o último segundo do mandato que nos foi confiado; outros companheiros deixaram-se abater pelo personalismo e autoritarismo do presidente que elegemos e desertaram. A reforma que promovemos no Estatuto da ABI , para garantir a integridade da instituição considerada um dos pilares mais representativos e respeitados da vida democrática do país,  dava-nos o alento de saber que outras eleições viriam para corrigir o engano, afastando do comando da entidade alguém que , por duas vezes, teria a oportunidade de dar sua contribuição à Casa, mas que, lamentavelmente, optou por fazê-lo da forma mais rude e autoritária jamais vista na história da ABI. Estávamos mais uma vez enganados. No último dia 2, um golpe traz de volta o fantasma moribundo e estropiado do continuísmo. Um golpe, porque forjado na calada de um conselho subalterno. Não houve uma convocatória para a Assembleia-Geral, o que deveria ocorrer de forma ampla, explicitando a justificativa para o que se pretendia "reformar" no estatuto. Esta não era a ABI que nós queríamos. O que vai acontecer é o que a história já mostrou: os jornalistas se afastarão, como já havia acontecido mesmo antes que Maurício Azêdo assumisse o segundo mandato em uma eleição marcada pela ausência, ao contrário do que caracterizou a primeira. A Associação Brasileira de Imprensa, com este golpe consumado no dia 2 de fevereiro de 2010, transforma-se em um mausoléo da vaidade e do autoritarismo. Sim, um mausoléo, que tem-se  prestado apenas ao autoelogio, à doentia reverência à memória dos mortos, e à legitimação da opinião dos grandes jornais, quando usam as declarações do seu representante, porta-voz da entidade, para impingir suas vontades ao poder público. Leiam os fatos,  nesta comunicação do jornalista Lima de Amorim:

Meus amigos e amigas:   
Comunico que renunciei ao posto de conselheiro suplente da ABI, em protesto contra a revogação do artigo 44 do Estatuto Social, que vedava a eleição do presidente da entidade e de seus principais auxiliares para mais de um mandato.  Discordei também da forma como a questão foi previamente encaminhada - restrita ao colegiado e  com empenho direto da presidência e da secretaria geral, partes interessadas. A história de vários povos e instituições demonstra como são nocivas as ditaduras ou a reeleição ad aeternum de dirigentes com mandatos eletivos. São duas faces de uma mesma moeda.  Sem o artigo 44 do Estatuto Social, revogado por maioria de votos na última assembleia-geral extraordinária do Conselho Deliberativo, a ABI, desde já, corre o risco de brevemente ser comandada por presidentes personalistas, manipuladores, continuístas e autoritários.  
 Segue abaixo a mensagem que enviei ao presidente Maurício Azedo sobre minha renúncia
Obrigado pela atenção e abraço
Lima de Amorim 

A CARTA

Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 2010
Ilmo. Sr. Maurício Azedo 
Presidente da Associação Brasileira de Imprensa   
Nesta

Caro Maurício: Comunico, a partir de hoje, minha renúncia como membro suplente do Conselho Deliberativo desta entidade, por discordar da decisão aprovada na assembleia-geral extraordinária deste colegiado, no dia 2/2/2010, que revogou o artigo 44 do Estatuto Social da ABI. Reiterando o que já disse de viva voz durante a Assembleia, discordo frontalmente da supressão do referido artigo, por considerar que a possibilidade de reeleição ad aeternum dos dirigentes pode comprometer o futuro da instituição, além de ferir os princípios democráticos pelos quais a ABI sempre lutou. Respeito as opiniões contrárias, mas entendo que o propósito original do artigo 44, limitando a reeleição para apenas um mandato, era importante. Além de estimular a renovação de quadros representativos, esse dispositivo era uma barreira contra a eventual ambição de dirigentes personalistas, manipuladores, continuístas e autoritários. A reeleição de dirigentes executivos por número indefinido de mandatos costuma causar graves danos, como a história de muitos povos e instituições já demonstrou, em várias épocas e contextos. Solicito que meu pleito seja comunicado ao conjunto do Conselho Deliberativo, bem como as razões da presente renúncia. Cordialmente,
Lima de Amorim

30 janeiro 2010

Bloco de hannotações - vício em imprensa


* A imprensa teve e tem tantos vícios que fica até difícil enumerar. Um deles, simpático por sinal, era freqüentar os botecos das esquinas, tradicionais pés sujos — lá onde se reúnem as fontes das notícias da vida. Hoje, os coleguinhas estão mais afeitos a fontes que dão outro tipo de notícia — fontes limpas, bem vestidas, engomadas e que preferem um 12 anos. Mas vamos aos vícios mais fáceis de se recuperar: os de linguagem! Deu no Terra notícias: “Cabañas passa por cirurgia, mas bala segue alojada”. Caramba: como alguma coisa que está “alojada” pode “seguir”? Ou bem segue, ou bem se aloja. Diguissonão, criatura!

* Pode parecer implicância... e vai ver até que é. Mas será que houve alguma reforma na maneira de se escrever para jornais e ninguém avisou aos pobres professores de redação jornalística, que continuam batendo nas mesmas teclas? Está lá, no lead de uma coluna de política de um jornal de hoje. Dois períodos: um de uma linha e meia; o outro, de 11 linhas. Até aí, pode-se até considerar que é uma questão de liberdade de estilo, porque desta liberdade quase ninguém reclama em jornais. Mas um período de 11 linhas com três (isso mesmo, 3!) orações intercaladas? Depois de ler três vezes para tentar entender o raciocínio do texto, resolvi dar uma pausa na playlist que tocava Robert Cray, achando que o blues estava ocupando toda a minha atenção. Li de novo. Humm... facissonão,  menino!

* A Fafá de Belém deve estar pagando um jabá monumental para ser citada em quase todos os telejornais — locais e de rede! Se a pauta tratar de algum assunto que envolva dificuldade, não dá outra: os queridos tascam lá: "não é tarefa fácil...". Leiam a frase em voz alta para ver no que dá. Não é o que eu digo? Os professores de redação telejornalística continuam ensinando que os "cacófatos" (êita!) são horríveis e estragam um bom texto de TV. Será que isto caiu com a reforma e ninguém avisou? Será que liberaram também o uso de  "havia dado", "tapa nela"... Expliquissoaí, tchurma!
Alegrem-se! Hoje ainda é sábado! Amanhã a gente descansa.
Beijos, muitos mesmo.
H.

Peraí! Peraí!!! Acabei de dar uma passada lá no Gordo Falante (link ali nos meus recomendados) e está im-per-dí-vel!  Hilário! Gordo Falante é blog do Utahy Caetano, jornalista que traz no DNA ter começado no JB, quando JB havia... Ele já lançou dois livros, que eu não comprei, não li e só vou recomendar quando ele me der um exemplar autografado — parece até jabá, pra conseguir uma boca livre...rsrsr. Grande Utahy! Passem lá e divirtam-se. O Gordo é bom.