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11 fevereiro 2010

Alma suburbana - Madureira

 O subúrbio tem alma, história, poesia, fama, enredo, paixão, amor. Por que será que o poder público não vê? Só pra chatear... Arlindo Cruz.

07 fevereiro 2010

Episódio final da história da cigana - encontro com personagens

Os dias transcorriam como deveriam ser — felizes e calmos. Há muito não tinha dias tão habitados por tantas pessoas amáveis e queridas durante o tempo todo. Talvez por isso tenha deixado de lado o papel dobrado que a cigana me dera, havia quase uma semana. Resistia a saber que poderia estar ali o legítimo fim da história que já havia acabado tantas vezes. Às vezes esquecia completamente o episódio, aquela história, suas personagens inventadas. Contava as vezes em que me lembrava, apenas para certificar-me de que aos poucos estava esquecendo. Mas o fato é que lembrava. Estava um dia agradável, quando resolvi romper o lacre da ilusão que inventou todo o enredo de uma história banal, sem talento — non sense que ganhou autonomia e seguiu em frente, à revelia do próprio autor. A decisão de desfazer aquela intrigante dobradura surgiu repentinamente, agarrada à vontade inegável de que a história não tivesse terminado da forma real como terminou. Olhava uma revista de turismo, enquanto pensava. Apenas olhava, sem me deter nas informações, quando encontrei a forma simbólica de pôr um ponto final naquela história sem fim. Jorge Luis Borges. O escritor argentino costumava frequentar um botequim restaurante chamado El Preferido, autêntico bodegón espanhol, em Palermo Soho. Lugar ideal para enterrar os restos imortais de um história. Já não faziam mais diferença, mas também não paravam de transitar os personagens inquietos e decididos a não interromper uma trajetória sem saída. O restaurante tem duas entradas— uma pela Guatemala, 4801, e outra pela Jorge Luis Borges, 2108. Uma construção antiga, de 1885, que em 1952 virou armazém e depósito de bebidas. A casa de Borges ficava em frente àquela casa rosada, embricada entre as duas ruas. Entrando pela Guatemala, era como se estivéssemos em um armazém de secos e molhados. Pela rua que homenageava o frequentador ilustre, chegávamos ao bodegón, com mesas altas e banquetas que certamente não deixam os fregueses ficar para além do almoço. Uma ceveza e no más! parecia que diziam os bancos altos. Nem mais uma cerveja. Não conseguia imaginar Borges naqueles bancos por mais de uma cerveza.
Borges sentaba en una silla de ali— explicou rindo o garçon, diante da minha constatação. Tentei olhar a cadeira que ele apontava, mas o bancão não me permitia alcançar o lugar nem com o olhar.Distraía-me com aquele passado alheio; com aqueles vidros imensos de conservas coloridas e com a demora do garçom em resolver trazer uma cerveja Quilmes, aquela da garrafa imensa que se via gente bebendo no gargalo nas ruas perto da feira de Santelmo.
Aqui está. Tiene un buen apetito — serviu o sonolento garçon que logo desapareceu. 
Já quase me esquecia do que fora fazer ali, quando uma mulher se espantou com um gato que dormia em uma espécie de janela de sótão, redonda, que ficava a um palmo do chão e deixava entrar a luz forte do dia quente e do vento que trazia folhas para dentro das frestas. O garçon surgiu lentamente e arrastou o gato para debaixo do braço. O bicho nem reagiu, mas voltou para a clarabóia assim que o garçom o pôs no chão. A mulher nem viu e continuou seu almoço em paz. Finalmente o bancão começava a me expulsar do lugar. Era o tempo exato de um almoço e uma cerveja. Paguei a conta, olhei as curiosidades do lugar, que não eram muitas, e saí. Andei por muitas ruas, lembrando e esquecendo do papel que guardava no bolso da saia de linho colorida. A mesma saia que usava quando atravessei o rio Guamá para ver a floresta. A mesma saia que usava quando comecei esta história. As árvores eram linda e exuberantes, apesar do calor e do vento quente. Aproveitei a sombra de uma delas e me dispus a ler o que havia naquele papel que um escriba imaginário inventou. Meu coração disparou numa estranha ansiedade; esperança sabe-se lá de quê.
Toda vez que Deus se referia à casa, como por exemplo "a casa de Israel", "a casa de Davi" ou "arruma a tua casa", e várias outras passagens bíblicas, estava se referindo à casa espiritual. No meu humilde entender, a casa simboliza você mesma. E o fato de ser linda, talvez esteja relacionado às suas intenções, ao seu coração, mas a dúvida de ser sua casa ou não, penso que você precisa prestar mais atenção a você mesma, ao seu coração, em vez de mostrá-lo a pessoas que você nem conhece. As casas vazias pelo caminho são as pessoas que aparentemente estão bem à sua volta, sorrindo, brincando, mas na realidade estão com um imenso vazio dentro de si. Mas as janelas estavam abertas. Elas estão receptivas. A Bíblia diz: "...de tudo guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida eterna. Continue andando... vamos ver os acontecimentos...”
Pensei em amassar o papel e deixá-lo cair das mãos, mas não consegui.Tentei dobrá-lo da forma original, mas não consegui. O vento veio e se encarregou de fazer o que eu não quis. Soprou para longe o papel e eu senti um alívio esotérico, quase uma alegria. Teria sido uma comunicação da inteligência do Grande Universo? Melhor pensar que sim. Ajeitei a bolsa e me preparei para atravessar a rua, quando outra rajada de vento ameaçou levantar-me a saia. Baixei as mãos em gesto automático e um papel me veio bater ao peito. Qual não foi o susto quando vi que era o mesmo papel. E o vento estranhamente parou... ou eu não me dei conta de que ele já havia soprado o quanto lhe bastasse. Li novamente, tentando decifrar um possível código, uma mensagem, sei lá.
Una moneda, señora; una limosna, por favor — a mão suja e enrugada do homem que pedia esmolas surgiu sob meus olhos, que estavam abaixados e fixos no papel em uma de minhas mãos. Levantei a cabeça e o homem repetiu com um sorriso ameno, como se me reconhecesse:
Una limosna... cosa qualquer — olhei o papel na minha mão e para a mão dele, ainda estendida na minha direção. Entreguei o papel, que ele recebeu e guardou, como se dinheiro fosse.
Gracias, querida... sigue tu camino — e se foi. Fiquei ainda por alguns instantes tentando decifrar o que agora pressentia como uma mensagem... ou apenas a lembrança de uma mensagem.
"Continue andando... vamos ver os acontecimentos", a frase ecoou como um sussurro em meu pensamento. Atravessei a rua e fui embora a pé pela Jorge Luis Borges, pensando em como contar uma história que não quer ter fim. 

FIM


 
...ou não...
Hanna

06 fevereiro 2010

A ilusão da imortalidade — mais um golpe rude

Como todos sabem, jamais uso este espaço para dar más notícias. Uma notícia ruim é aquela que ocorre por força das circunstâncias, contrariando o bom senso e, às vezes, até mesmo a honradez. Não vou me estender muito, para não poluir o Sobretudo com a tristeza dos fatos evitáveis, mas que se impõem por descuido da realidade. Faço isto apenas como registro de um protesto que não chegou a tempo. A Associação Brasileira de Imprensa está novamente sob o risco dos oportunismos dos quais pretendíamos livrá-la como aquele movimento chamado "A ABI que nós queremos". Entenda-se pelo "nós", os jornalistas.  Naquele abril de 2004, acreditávamos nós, os jornalistas, termos afastado de vez a vitaliciedade de seus presidentes e conselheiros, trazendo a Casa de volta à tradição de respeito aos princípios  republicanos e democráticos. Não foi preciso muito tempo para ver que  alguns de nós acalentava uma ilusão romântica. Cumprimos nosso papel até o último segundo do mandato que nos foi confiado; outros companheiros deixaram-se abater pelo personalismo e autoritarismo do presidente que elegemos e desertaram. A reforma que promovemos no Estatuto da ABI , para garantir a integridade da instituição considerada um dos pilares mais representativos e respeitados da vida democrática do país,  dava-nos o alento de saber que outras eleições viriam para corrigir o engano, afastando do comando da entidade alguém que , por duas vezes, teria a oportunidade de dar sua contribuição à Casa, mas que, lamentavelmente, optou por fazê-lo da forma mais rude e autoritária jamais vista na história da ABI. Estávamos mais uma vez enganados. No último dia 2, um golpe traz de volta o fantasma moribundo e estropiado do continuísmo. Um golpe, porque forjado na calada de um conselho subalterno. Não houve uma convocatória para a Assembleia-Geral, o que deveria ocorrer de forma ampla, explicitando a justificativa para o que se pretendia "reformar" no estatuto. Esta não era a ABI que nós queríamos. O que vai acontecer é o que a história já mostrou: os jornalistas se afastarão, como já havia acontecido mesmo antes que Maurício Azêdo assumisse o segundo mandato em uma eleição marcada pela ausência, ao contrário do que caracterizou a primeira. A Associação Brasileira de Imprensa, com este golpe consumado no dia 2 de fevereiro de 2010, transforma-se em um mausoléo da vaidade e do autoritarismo. Sim, um mausoléo, que tem-se  prestado apenas ao autoelogio, à doentia reverência à memória dos mortos, e à legitimação da opinião dos grandes jornais, quando usam as declarações do seu representante, porta-voz da entidade, para impingir suas vontades ao poder público. Leiam os fatos,  nesta comunicação do jornalista Lima de Amorim:

Meus amigos e amigas:   
Comunico que renunciei ao posto de conselheiro suplente da ABI, em protesto contra a revogação do artigo 44 do Estatuto Social, que vedava a eleição do presidente da entidade e de seus principais auxiliares para mais de um mandato.  Discordei também da forma como a questão foi previamente encaminhada - restrita ao colegiado e  com empenho direto da presidência e da secretaria geral, partes interessadas. A história de vários povos e instituições demonstra como são nocivas as ditaduras ou a reeleição ad aeternum de dirigentes com mandatos eletivos. São duas faces de uma mesma moeda.  Sem o artigo 44 do Estatuto Social, revogado por maioria de votos na última assembleia-geral extraordinária do Conselho Deliberativo, a ABI, desde já, corre o risco de brevemente ser comandada por presidentes personalistas, manipuladores, continuístas e autoritários.  
 Segue abaixo a mensagem que enviei ao presidente Maurício Azedo sobre minha renúncia
Obrigado pela atenção e abraço
Lima de Amorim 

A CARTA

Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 2010
Ilmo. Sr. Maurício Azedo 
Presidente da Associação Brasileira de Imprensa   
Nesta

Caro Maurício: Comunico, a partir de hoje, minha renúncia como membro suplente do Conselho Deliberativo desta entidade, por discordar da decisão aprovada na assembleia-geral extraordinária deste colegiado, no dia 2/2/2010, que revogou o artigo 44 do Estatuto Social da ABI. Reiterando o que já disse de viva voz durante a Assembleia, discordo frontalmente da supressão do referido artigo, por considerar que a possibilidade de reeleição ad aeternum dos dirigentes pode comprometer o futuro da instituição, além de ferir os princípios democráticos pelos quais a ABI sempre lutou. Respeito as opiniões contrárias, mas entendo que o propósito original do artigo 44, limitando a reeleição para apenas um mandato, era importante. Além de estimular a renovação de quadros representativos, esse dispositivo era uma barreira contra a eventual ambição de dirigentes personalistas, manipuladores, continuístas e autoritários. A reeleição de dirigentes executivos por número indefinido de mandatos costuma causar graves danos, como a história de muitos povos e instituições já demonstrou, em várias épocas e contextos. Solicito que meu pleito seja comunicado ao conjunto do Conselho Deliberativo, bem como as razões da presente renúncia. Cordialmente,
Lima de Amorim

30 janeiro 2010

Bloco de hannotações - vício em imprensa


* A imprensa teve e tem tantos vícios que fica até difícil enumerar. Um deles, simpático por sinal, era freqüentar os botecos das esquinas, tradicionais pés sujos — lá onde se reúnem as fontes das notícias da vida. Hoje, os coleguinhas estão mais afeitos a fontes que dão outro tipo de notícia — fontes limpas, bem vestidas, engomadas e que preferem um 12 anos. Mas vamos aos vícios mais fáceis de se recuperar: os de linguagem! Deu no Terra notícias: “Cabañas passa por cirurgia, mas bala segue alojada”. Caramba: como alguma coisa que está “alojada” pode “seguir”? Ou bem segue, ou bem se aloja. Diguissonão, criatura!

* Pode parecer implicância... e vai ver até que é. Mas será que houve alguma reforma na maneira de se escrever para jornais e ninguém avisou aos pobres professores de redação jornalística, que continuam batendo nas mesmas teclas? Está lá, no lead de uma coluna de política de um jornal de hoje. Dois períodos: um de uma linha e meia; o outro, de 11 linhas. Até aí, pode-se até considerar que é uma questão de liberdade de estilo, porque desta liberdade quase ninguém reclama em jornais. Mas um período de 11 linhas com três (isso mesmo, 3!) orações intercaladas? Depois de ler três vezes para tentar entender o raciocínio do texto, resolvi dar uma pausa na playlist que tocava Robert Cray, achando que o blues estava ocupando toda a minha atenção. Li de novo. Humm... facissonão,  menino!

* A Fafá de Belém deve estar pagando um jabá monumental para ser citada em quase todos os telejornais — locais e de rede! Se a pauta tratar de algum assunto que envolva dificuldade, não dá outra: os queridos tascam lá: "não é tarefa fácil...". Leiam a frase em voz alta para ver no que dá. Não é o que eu digo? Os professores de redação telejornalística continuam ensinando que os "cacófatos" (êita!) são horríveis e estragam um bom texto de TV. Será que isto caiu com a reforma e ninguém avisou? Será que liberaram também o uso de  "havia dado", "tapa nela"... Expliquissoaí, tchurma!
Alegrem-se! Hoje ainda é sábado! Amanhã a gente descansa.
Beijos, muitos mesmo.
H.

Peraí! Peraí!!! Acabei de dar uma passada lá no Gordo Falante (link ali nos meus recomendados) e está im-per-dí-vel!  Hilário! Gordo Falante é blog do Utahy Caetano, jornalista que traz no DNA ter começado no JB, quando JB havia... Ele já lançou dois livros, que eu não comprei, não li e só vou recomendar quando ele me der um exemplar autografado — parece até jabá, pra conseguir uma boca livre...rsrsr. Grande Utahy! Passem lá e divirtam-se. O Gordo é bom.

29 janeiro 2010

Hã?!!!!

 O filho do síndico, que se acha o dono do playground

Parece piada pronta, montagem, mas é verdade. Encontrei lá no blog do Sirelli, o Andei Pensando, que vocês podem acessar da minha lista de recomendações ali ao lado.  O texto da postagem dele merece ser lido; tem credibilidade. Publiquei lá um comentário, para aplacar a vontade de falar dessa história. Aliás, achei lá outras coisa dignas de se recomendar: o blog do Andrei Bastos, que está fazendo uma petição pelo fim da dívida externa do Haiti — "O povo do Haiti não deveria ter que pagar uma dívida feita por ditadores não eleitos do passado, enquanto eles tentam se recuperar do terremoto", defende o Andrei. Acho mais que justo. Se quiserem aderir, o link para a petição está lá no blog dele e no pé desta postagem. Achei também  um outro blog que vai levantar polêmica, já pelo nome — HTP, de Homem é Tudo Palhaço. Me abstenho de comentários...rsrs. Também aderi ao Visão Suburbana — cultura e crítica na veia — e ao Mais pra Opa que pra Oba, musical pelo que andei vendo. Tudo da melhor qualidade! Confiram.

http://www.avaaz.org/po/haiti_cancel_the_debt_7/98.php?CLICK_TF_TRACK.

Coluna do Otelo

OLHEM BEM PARA ESTE HOMEM, QUE NÃO ESTÁ NOS JORNAIS

"Sob a égide de Lula, o Brasil se transformou em um país mais próspero, mais igualitário e mais saudável".  Estas foram as palavras com que o ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, saudou o presidente da República do Brasil, ao agraciá-lo, por intermédio do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com o Prêmio Estadista Global, o primeiro desta categoria. O discurso de Lula, que foi lido por Celso Amorim, começava com a frase emblemática, que resume as demandas e o credo do Fórum Social Mundial: "Outro mundo é possível". Vejamos agora como vão tratar o assunto os colunistas de plantão,  que ora reclamam quando Lula vai a Davos; ora reclamam quando ele não vai; metem o malho quando ele não vai ao Fórum Social Mundial, e o esculacham quando vai. Vá entender... Mas um coisa é fato: se os participantes do Fórum Social Mundial não entenderem que, ao estilo de Lula, eles conseguiram invadir os salões nobres da conferência de Davos e não pararem de acender fogueiras de ocasião na imprensa quando Lula vai lá, então perdemos de vez o foco de sinceridade na letra central do título do encontro paralelo.
Voltando ao tema
"Uma casa só é forte quando é de todos", afirmou Lula, que disse também que "o Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair dela, graças a essa mesma política". E afirmou ainda, do alto de suas vassouras de trabalho, e não apenas da bancada de presidente que ocupa, que é preciso "estabelecer regulações claras para evitar riscos absurdos que nos levem a outra crise". O otimismo e a capacidade de liderança, do presidente do Brasil foram elogiados por Kofi Annan: "Seu caminho de uma infância de pobreza até se tornar um estadista respeitado no mundo todo é destacável e deve inspirar a todos, porque, além disso, fez isso com sua luta contra as desigualdades de seu país e do mundo", afirmou Annan. "Sob a égide de Lula, o Brasil se transformou em um país mais próspero, mais igualitário e mais saudável". A imprensa brasileira deveria considerar isso um fato altamente relevante e dar a este expressivo mérito — que é do país! — o merecido destaque. E me pergunto: por que diabos a pressão alta do Lula mereceu mais destaque na primeira página do Globo e a honraria ficou diluída no texto? Por que raios um título que admite que o Brasil saiu da crise tem que realçar que, apesar disso, a indústria saiu mais fraca nas exportações? Por que, me digam, ao relatar as atividades do presidente que levaram à estafa e pressão alta, iluminam-se as viagens, com um pequeno e malicioso detalhe que o leitor geralmente "reconhece" sem perceber? Vamos à integra do texto, sob o título Dupla Jornada do Presidente, na primeira página da edição de hoje:
"Em 2009, foram 83 dias viajando pelo Brasil e 91 dias no exterior (três meses), visitando 31 países". 
Os parênteses que informam que 91 dias são o mesmo que três meses (desnecessariamente, na minha humilde avaliação, até porque  três meses não perfazem 91 dias nem por um cacete)  mostram a astúcia do apontamento do texto. Reação provável do leitor: "Nossa, três meses "visitando" 31 países! Uma vergonha!Igualzinho a todos os outros!. "Visitando", meus caríssimos visitantes, é o mesmo que passear, né não? Ou vocês estão em missão oficial quando "visitam"o Sobretudo? A diferença está em que as "visitas" puseram o Brasil no alto do pódium. Lula afirmou, ainda, que é preciso mudar de modelo, e é preciso fazer isso rápido. "Não sou apocalíptico, pelo contrário, sou otimista, mais que nunca nosso destino está em nossas mãos", disse, defendendo que "é o momento de reinventar o mundo e as instituições. O mundo perdeu a capacidade de criar e sonhar, e devemos recuperá-la". Mas não é isso que toda a gente  lê, vê e ouve na imprensa. A imprensa está apenas constipada? Ou seria preciso reinventá-la também?
Otelo Coelho
(com sutis interferências da assistente que acredita em liberdade de expressão, ao que Otelo salta um metro do chão: "será que ela estaria confundindo liberdade de expressão com liberdade de imprensa?)

Reflexos tardios

A vida é rude.
Há que se ter habilidade para passar entre os espinhos 
Habilidade também cochila, tem suas falhas
Não seria mesmo melhor se rasgar?

Dores não passam; adormecem.
Minutos de alívio com tempo contado entre as contrações
Não se nasce sem antes um  parto
Ainda assim é preciso nascer.

Um dia passa.
O útero do universo tem duas saídas iguais
Por uma delas se nasce aqui; enquanto pela outra se morre lá
Ainda assim, é melhor resistir.

A vida é rude.
Me deixo rasgar.
A vida é rude.
Me deixo nascer.
A vida é rude.
E é melhor resistir.

Cicatrizes são memórias dos equívocos
Luta contra espinhos inevitáveis
Dar à luz sem dor de parto
Ver nascer por um dos lados
Do outro lado, nem ver.
H.

27 janeiro 2010

Coisas mínimas de Hanna

CARNAVAL
No meio da multidão
foi-se perdendo o amor que senti
Era promessa de ouro dos tolos,
era igualzinho a ti.
Passou no meio de um bloco,
e agora vejo que nem percebi.
****

 COMO OS ANIMAIS 

Não sabia como era; fiz como fazem os animais
Ensinei antes de tudo, desde os primeiros passos,
o que é a liberdade. 
Seguiram cada um seus caminhos
E eu nem sabia que liberdade era assim
De repente me encontro com suas presenças
que me convidam a alegrias que jamais conheci.
Ave Tati, ave Leo, ave Du, ave Rafael e quem mais vier,
porque a casa é grande!

UMA LÁGRIMA 
Quanto tempo levamos  para saber de nós?
Quantos espelhos, até nos encontrarmos?
De repente, uma lágrima vem
Sem que se queira chorar
Traça um caminho, um desvio, uma rota
desenha no contorno do rosto
e da estrada que nos leva até lá
Seja lá onde esse lá for
O tempo é uma ilusão.



****
Barquinhos, cestinhas, bobagens;
costuras , curvinhas, retalhos;
desenhos, rabiscos, lembranças;
coisinhas de Hanna...
Amor. 


26 janeiro 2010

Coluna do Otelo: saudades do Henfil


Otelo é um coelho sabido que adora livros, mas não gosta de jornais. Para que não pensem que esta posição faz dele um antidemocrata, ele lê uma noticiazinha aqui, uma coluninha ali, mas sempre de jornais velhos. Notícia quente, para ele, pode queimar os neurônios da razão e da independência crítica. Otelo também não escreve; ele só pensa. Não é por covardia, mas por instinto de sobrevivência. É que ele considera sempre todos os riscos, do alto de suas orelhonas de coelho. Sua intuição intelectual diz que o mundo é dividido entre petiscos da cadeia alimentar e predadores. Ele acha que as duas posições são desumanas e não sabe qual delas é a pior. Por isso, evita o desconforto de se expor e vir a ser presa fácil de predadores vorazes e sem escrúpulos — o “sem escrúpulos” é por conta da assistente dele, que não pensa, somente escreve, mas fica indignada com o que lê.


Otelo vem de uma estirpe nobre, embora com ela não guarde parentesco algum. Coisas deste mundo animal, explica ele. Era ainda criança, quando se meteu com um grupo denominado Alto da Caatinga. Era uma época difícil, onde a porrada comia solta em quem pensasse em voz alta — escrever nos jornais então, nem pensar! Mas a liberdade era concedida aos animais, o que, de certa forma, preocupava Otelo quanto à sua reputação futura. Achava que a turma do porrete não incomodava seus iguais. Otelo morria de pavor de ser considerado um igual; igual àquela turma de predadores, torturadores, castradores... vixi! Por isto resolveu não falar, nem escrever. Hoje, em tempos de paz na Zona Sul do Sul Maravilha, com os traficantes se mudando com suas malas, cuias, sacolés, trouxinhas e armamento pesado para os subúrbios e baixada fluminense, lá onde o povo só não fala porque não tem voz, Otelo resolveu arriscar, embora ainda o preocupe as interferências da assistente-digitadora, que pode eventualmente metê-lo em alguma encrenca.
Pois bem: é de lá que vem Otelo. Aprendeu a devorar livros com o Bode Orelana, intelectual que acreditava no proletariado e lutava pela democratização das instituições sociais e políticas. Era o ídolo de Otelo, apesar de suas contradições! Mesmo quando a coisa apertava e Orelana medrava, cooperando com “as formas conservadoras de organização sociopolítica”, ele acabava encarnando uma espécie de autocrítica e esculachava os intelectuais da época, que se dividiam entre o vigor revolucionário, a covardia e a neurose. Otelo não entendia as contradições de Orelana e achava que eram apenas disfarce, para enganar os predadores da liberdade e da cultura. Nesta época, Otelo consumia apenas capim e, vez em quando, uma cenoura. Mas veio de lá sua sabidez.

Ao relembrar o passado, do alto de suas orelhas, Otelo se comoveu e resolveu usar o primeiro crédito da liberdade de imprensa que acha que terá. Ele entende de liberdade de imprensa como poucos, porque aprendeu a duras penas o que isso não é; sabe dos riscos e acha que jornalistas com liberdade de imprensa acabam todos como acabou Frei Caneca: no calabouço, escrevendo enciclopédias. É nesta hora que ele lembra das estratégias de fuga do Bode Orelana: Calma, gente! Não me confundam; eu sou apenas um pobre e pacato intelectual; não sou jornalista!



Mesmo assim, com este rasgo de pavor a predadores que às vezes o acovarda, Otelo resolveu fazer desta primeira postagem de sua coluna uma homenagem à turma do cangaço Alto da Caatinga, e seu imortal criador, Henfil.
Otelo Coelho
(interferência indevida 1: com auxílio luxuoso da assistente, uma fofa..)

Interferência indevida 2:  no quadrinho, entre Orelana e os cactos, aparecem umas orelhinhas e uns olhões assustados que a história não registra, mas  garanto que era Otelo...rsrsrs.