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29 janeiro 2010

Hã?!!!!

 O filho do síndico, que se acha o dono do playground

Parece piada pronta, montagem, mas é verdade. Encontrei lá no blog do Sirelli, o Andei Pensando, que vocês podem acessar da minha lista de recomendações ali ao lado.  O texto da postagem dele merece ser lido; tem credibilidade. Publiquei lá um comentário, para aplacar a vontade de falar dessa história. Aliás, achei lá outras coisa dignas de se recomendar: o blog do Andrei Bastos, que está fazendo uma petição pelo fim da dívida externa do Haiti — "O povo do Haiti não deveria ter que pagar uma dívida feita por ditadores não eleitos do passado, enquanto eles tentam se recuperar do terremoto", defende o Andrei. Acho mais que justo. Se quiserem aderir, o link para a petição está lá no blog dele e no pé desta postagem. Achei também  um outro blog que vai levantar polêmica, já pelo nome — HTP, de Homem é Tudo Palhaço. Me abstenho de comentários...rsrs. Também aderi ao Visão Suburbana — cultura e crítica na veia — e ao Mais pra Opa que pra Oba, musical pelo que andei vendo. Tudo da melhor qualidade! Confiram.

http://www.avaaz.org/po/haiti_cancel_the_debt_7/98.php?CLICK_TF_TRACK.

Coluna do Otelo

OLHEM BEM PARA ESTE HOMEM, QUE NÃO ESTÁ NOS JORNAIS

"Sob a égide de Lula, o Brasil se transformou em um país mais próspero, mais igualitário e mais saudável".  Estas foram as palavras com que o ex-secretário geral das Nações Unidas, Kofi Annan, saudou o presidente da República do Brasil, ao agraciá-lo, por intermédio do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com o Prêmio Estadista Global, o primeiro desta categoria. O discurso de Lula, que foi lido por Celso Amorim, começava com a frase emblemática, que resume as demandas e o credo do Fórum Social Mundial: "Outro mundo é possível". Vejamos agora como vão tratar o assunto os colunistas de plantão,  que ora reclamam quando Lula vai a Davos; ora reclamam quando ele não vai; metem o malho quando ele não vai ao Fórum Social Mundial, e o esculacham quando vai. Vá entender... Mas um coisa é fato: se os participantes do Fórum Social Mundial não entenderem que, ao estilo de Lula, eles conseguiram invadir os salões nobres da conferência de Davos e não pararem de acender fogueiras de ocasião na imprensa quando Lula vai lá, então perdemos de vez o foco de sinceridade na letra central do título do encontro paralelo.
Voltando ao tema
"Uma casa só é forte quando é de todos", afirmou Lula, que disse também que "o Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair dela, graças a essa mesma política". E afirmou ainda, do alto de suas vassouras de trabalho, e não apenas da bancada de presidente que ocupa, que é preciso "estabelecer regulações claras para evitar riscos absurdos que nos levem a outra crise". O otimismo e a capacidade de liderança, do presidente do Brasil foram elogiados por Kofi Annan: "Seu caminho de uma infância de pobreza até se tornar um estadista respeitado no mundo todo é destacável e deve inspirar a todos, porque, além disso, fez isso com sua luta contra as desigualdades de seu país e do mundo", afirmou Annan. "Sob a égide de Lula, o Brasil se transformou em um país mais próspero, mais igualitário e mais saudável". A imprensa brasileira deveria considerar isso um fato altamente relevante e dar a este expressivo mérito — que é do país! — o merecido destaque. E me pergunto: por que diabos a pressão alta do Lula mereceu mais destaque na primeira página do Globo e a honraria ficou diluída no texto? Por que raios um título que admite que o Brasil saiu da crise tem que realçar que, apesar disso, a indústria saiu mais fraca nas exportações? Por que, me digam, ao relatar as atividades do presidente que levaram à estafa e pressão alta, iluminam-se as viagens, com um pequeno e malicioso detalhe que o leitor geralmente "reconhece" sem perceber? Vamos à integra do texto, sob o título Dupla Jornada do Presidente, na primeira página da edição de hoje:
"Em 2009, foram 83 dias viajando pelo Brasil e 91 dias no exterior (três meses), visitando 31 países". 
Os parênteses que informam que 91 dias são o mesmo que três meses (desnecessariamente, na minha humilde avaliação, até porque  três meses não perfazem 91 dias nem por um cacete)  mostram a astúcia do apontamento do texto. Reação provável do leitor: "Nossa, três meses "visitando" 31 países! Uma vergonha!Igualzinho a todos os outros!. "Visitando", meus caríssimos visitantes, é o mesmo que passear, né não? Ou vocês estão em missão oficial quando "visitam"o Sobretudo? A diferença está em que as "visitas" puseram o Brasil no alto do pódium. Lula afirmou, ainda, que é preciso mudar de modelo, e é preciso fazer isso rápido. "Não sou apocalíptico, pelo contrário, sou otimista, mais que nunca nosso destino está em nossas mãos", disse, defendendo que "é o momento de reinventar o mundo e as instituições. O mundo perdeu a capacidade de criar e sonhar, e devemos recuperá-la". Mas não é isso que toda a gente  lê, vê e ouve na imprensa. A imprensa está apenas constipada? Ou seria preciso reinventá-la também?
Otelo Coelho
(com sutis interferências da assistente que acredita em liberdade de expressão, ao que Otelo salta um metro do chão: "será que ela estaria confundindo liberdade de expressão com liberdade de imprensa?)

Reflexos tardios

A vida é rude.
Há que se ter habilidade para passar entre os espinhos 
Habilidade também cochila, tem suas falhas
Não seria mesmo melhor se rasgar?

Dores não passam; adormecem.
Minutos de alívio com tempo contado entre as contrações
Não se nasce sem antes um  parto
Ainda assim é preciso nascer.

Um dia passa.
O útero do universo tem duas saídas iguais
Por uma delas se nasce aqui; enquanto pela outra se morre lá
Ainda assim, é melhor resistir.

A vida é rude.
Me deixo rasgar.
A vida é rude.
Me deixo nascer.
A vida é rude.
E é melhor resistir.

Cicatrizes são memórias dos equívocos
Luta contra espinhos inevitáveis
Dar à luz sem dor de parto
Ver nascer por um dos lados
Do outro lado, nem ver.
H.

27 janeiro 2010

Coisas mínimas de Hanna

CARNAVAL
No meio da multidão
foi-se perdendo o amor que senti
Era promessa de ouro dos tolos,
era igualzinho a ti.
Passou no meio de um bloco,
e agora vejo que nem percebi.
****

 COMO OS ANIMAIS 

Não sabia como era; fiz como fazem os animais
Ensinei antes de tudo, desde os primeiros passos,
o que é a liberdade. 
Seguiram cada um seus caminhos
E eu nem sabia que liberdade era assim
De repente me encontro com suas presenças
que me convidam a alegrias que jamais conheci.
Ave Tati, ave Leo, ave Du, ave Rafael e quem mais vier,
porque a casa é grande!

UMA LÁGRIMA 
Quanto tempo levamos  para saber de nós?
Quantos espelhos, até nos encontrarmos?
De repente, uma lágrima vem
Sem que se queira chorar
Traça um caminho, um desvio, uma rota
desenha no contorno do rosto
e da estrada que nos leva até lá
Seja lá onde esse lá for
O tempo é uma ilusão.



****
Barquinhos, cestinhas, bobagens;
costuras , curvinhas, retalhos;
desenhos, rabiscos, lembranças;
coisinhas de Hanna...
Amor. 


26 janeiro 2010

Coluna do Otelo: saudades do Henfil


Otelo é um coelho sabido que adora livros, mas não gosta de jornais. Para que não pensem que esta posição faz dele um antidemocrata, ele lê uma noticiazinha aqui, uma coluninha ali, mas sempre de jornais velhos. Notícia quente, para ele, pode queimar os neurônios da razão e da independência crítica. Otelo também não escreve; ele só pensa. Não é por covardia, mas por instinto de sobrevivência. É que ele considera sempre todos os riscos, do alto de suas orelhonas de coelho. Sua intuição intelectual diz que o mundo é dividido entre petiscos da cadeia alimentar e predadores. Ele acha que as duas posições são desumanas e não sabe qual delas é a pior. Por isso, evita o desconforto de se expor e vir a ser presa fácil de predadores vorazes e sem escrúpulos — o “sem escrúpulos” é por conta da assistente dele, que não pensa, somente escreve, mas fica indignada com o que lê.


Otelo vem de uma estirpe nobre, embora com ela não guarde parentesco algum. Coisas deste mundo animal, explica ele. Era ainda criança, quando se meteu com um grupo denominado Alto da Caatinga. Era uma época difícil, onde a porrada comia solta em quem pensasse em voz alta — escrever nos jornais então, nem pensar! Mas a liberdade era concedida aos animais, o que, de certa forma, preocupava Otelo quanto à sua reputação futura. Achava que a turma do porrete não incomodava seus iguais. Otelo morria de pavor de ser considerado um igual; igual àquela turma de predadores, torturadores, castradores... vixi! Por isto resolveu não falar, nem escrever. Hoje, em tempos de paz na Zona Sul do Sul Maravilha, com os traficantes se mudando com suas malas, cuias, sacolés, trouxinhas e armamento pesado para os subúrbios e baixada fluminense, lá onde o povo só não fala porque não tem voz, Otelo resolveu arriscar, embora ainda o preocupe as interferências da assistente-digitadora, que pode eventualmente metê-lo em alguma encrenca.
Pois bem: é de lá que vem Otelo. Aprendeu a devorar livros com o Bode Orelana, intelectual que acreditava no proletariado e lutava pela democratização das instituições sociais e políticas. Era o ídolo de Otelo, apesar de suas contradições! Mesmo quando a coisa apertava e Orelana medrava, cooperando com “as formas conservadoras de organização sociopolítica”, ele acabava encarnando uma espécie de autocrítica e esculachava os intelectuais da época, que se dividiam entre o vigor revolucionário, a covardia e a neurose. Otelo não entendia as contradições de Orelana e achava que eram apenas disfarce, para enganar os predadores da liberdade e da cultura. Nesta época, Otelo consumia apenas capim e, vez em quando, uma cenoura. Mas veio de lá sua sabidez.

Ao relembrar o passado, do alto de suas orelhas, Otelo se comoveu e resolveu usar o primeiro crédito da liberdade de imprensa que acha que terá. Ele entende de liberdade de imprensa como poucos, porque aprendeu a duras penas o que isso não é; sabe dos riscos e acha que jornalistas com liberdade de imprensa acabam todos como acabou Frei Caneca: no calabouço, escrevendo enciclopédias. É nesta hora que ele lembra das estratégias de fuga do Bode Orelana: Calma, gente! Não me confundam; eu sou apenas um pobre e pacato intelectual; não sou jornalista!



Mesmo assim, com este rasgo de pavor a predadores que às vezes o acovarda, Otelo resolveu fazer desta primeira postagem de sua coluna uma homenagem à turma do cangaço Alto da Caatinga, e seu imortal criador, Henfil.
Otelo Coelho
(interferência indevida 1: com auxílio luxuoso da assistente, uma fofa..)

Interferência indevida 2:  no quadrinho, entre Orelana e os cactos, aparecem umas orelhinhas e uns olhões assustados que a história não registra, mas  garanto que era Otelo...rsrsrs.




25 janeiro 2010

Chamada de primeira

Neste domingo, três novas postagens: (1) O presente musical do blog Hollywoodland para o Sobretudo; (2) "Estamos em guerra", crítica de imprensa; (3) "Aquela cigana", continuação da crônica de Buenos Aires, encontro com personagens. Teríamos também a estréia da Coluna do Otelo, com a postagem  "Coelho escaldado", mas a assistente dele não deu conta da tarefa. Também ficamos devendo o artigo prometido "O que seria das revistas, se não fossem as bobagens?", do Bloco de Hannotações. Fica pra depois.  Na sequência, daqui para baixo, o que foi possível postar por hoje. Espero que gostem da nova edição desta Hanna de Domingo! E se puderem, comentem, que eu fico contentem...rsrs.

24 janeiro 2010

Aquela cigana


Continuação da postagem A Cigana, de 13/01/2010 (arquivo)...


Eu não sabia como chamá-la; aliás, sequer sabia seu nome. Estávamos agora naquela constrangedora situação; constrangedora para mim, certamente; talvez não para ela, que demonstrava uma segurança e tranquilidade que eu desconhecia. Desta vez, nossos olhos estavam no mesmo nível; cara a cara. Ela, elegantemente distraída, como se aquele encontro fosse natural. Eu, vestida para jogging, descompromissada, suada e em viagem de férias. Como poderia encarar uma personagem que saiu sofrida de meu último capítulo, acusando-me de ter-lhe impedido de viver o que acreditava ser o grande amor de sua vida? Eu sentia um misto de pena e de culpa que não pareciam ter para ela a menor importância.  Displicentemente, ela manipulava os saquinhos de adoçante e os copinhos de água e suco de laranja como quem arranja as peças de um inquestionável xeque mate em tabuleiro de xadrez. Foram apenas alguns segundos de silêncio, antes que eu me desse conta de que não sabia o que dizer. Ela interrompeu o desconforto com uma conversa banal de quem, vivendo no lugar, indica a um viajante algum lugar de interesse turístico:
— Você vai gostar de Caminito — afirmou sem ao menos perguntar se eu já havia ido lá — Vai gostar mais do que qualquer um que já tenha ido lá como turista. Você vai se emocionar; vai conseguir ver com os olhos da alma. É um lugar pobre, meio sujo, caro em comparação com os lugares mais sofisticados de Palermo, por exemplo. Mas é impregnado de arte, de poesia, de amor de porto, que leva e traz e leva de novo e instala a dor da espera vã.
Disse a palavra "vã" com um gesto discretamente teatral, complementado pela pequena xícara de café que tocou-lhe os lábios, comandada pela firmeza do gesto das mão de unhas médias, pintadas de esmalte vermelho. Tive a impressão de ter percebido um leve toque de tristeza,q ue se apagou antes que eu pudesse me certificar.
— Deve ser bonito. É difícil chegar lá? Fica muito distante? — perguntei, com alívio, por finalmente termos iniciado uma conversa.
— Caminito é quase um beco; uma rua que foi transformada em rua-museu em 1959. Fica no bairro La Boca da cidade de Buenos Aires. É perto do estádio do Boca Juniors, La Bombonera. — ela disse isso com um leve sorriso, que a xícara de café rapidamente escondeu. Pensei que a referência a futebol fosse a deixa para retomarmos a verdadeira conversa que nos mantinha ali; porque, quanto a nós, nada distinguia o interesse por detalhes desta natureza. Mas ela seguiu com as referências ao lugar.
— Lá você pode ver de obras de arte de grande importância:, a artistas de rua que fazem um trabalho encantador:  O Retorno de pesca, de Benito Quinquela Martín, por exemplo; tecelões como Luis Perlotti, entre outros. Sábados e domingos, das dez da manhã às sete da noite, várias barracas vendem artesanato e souvenirs da região de La Boca. São caros e  excessivamente industrializados.  Mas acho que você vai gostar mesmo é dos casais dançando tango, com roupas caractarísticas, gestos dramáticos, ao som de Francisco Canaro, Carlos de Sarli,  Juan D'Arienzo, Piazzola... e tantos outros que falam de paixão, de amor, de sofrimento e... — neste momento, um pássaro pousou na janela baixa ao lado da mesa onde estávamos e ela interrompeu a dissertação que poderia conduzir a conversa à minha principal curiosidade.
A garçonete, ao ver que admirávamos a tranquilidade do recém chegado, apressou-se a explicar:
Las aves proceden de allí, jardín, el Botánico. Ellos ven a comer migajas de las mesas. Son mui bellas — a simpática interrupção da garçonete nos devolveu ao vácuo de silêncio e me fez perceber que o constrangimento era apenas meu. Ela parecia ter-se deixado envolver pela presença do passarinho, que levou seu olhar a se perder na direção do Botânico. A elegância dela vinha da tranquilidade. Senti um certo alívio da culpa que me foi impingida pelo choro dela, misturado ao riso, no último capítulo. Tudo já deveria ter passado; ou talvez não tivesse mesmo passado de um história.
— Está vivendo aqui há quanto tempo? — perguntei como quem se interpõem na porta antes que se feche.
 — Não muito tempo. Mas o bastante para saber onde ficam todas as coisas aqui. — disse com um sorriso que me dava a certeza de ser mesmo a tal cigana. As perguntas borbulhavam na minha mente; tinha vontade de saber detalhes de tudo o que havia passado desde o fim da história.
— Você... trabalha aqui? — perguntei como quem é empurrada porta a dentro.
— Não exatamente aqui; eu trabalho em muitos lugares; viajo muito. É o meu trabalho: coletar dados da vida em sua performance, digamos...
— Não me diga que é...
— Jornalista? Não, jornalista não — ela disse sorrindo, tornando o caminho mais fácil para a minha incontrolável vontade de esquadrinhar uma provável outra história.
— Sou pesquisadora em Ciências Humanas...— ela disse sem arrogância. Talvez gostasse mais de se dizer cigana.
— Como assim? — não contive o espanto. Afinal, ela era...
— Lembra do jornalista? — perguntou, logo emendando — aliás...escriba.
— Claro! Claro! — como eu poderia esquecer de uma de minhas mais caras personagens. O escriba, que ficava olhando a realidade e a vida dos humanos para relatar aos sábios, que depois deitavam regras sobre como são as coisas da vida. Mas se bem me lembro, ele estava a ponto de se apaixonar por ela, quando foi embora e deixou os sábios com suas "sabedorias". Ela parecia ter ouvido meus pensamentos:
— Ficamos muito amigos. Ele me ensinou tudo o que sabia, em teoria; em troca, ofereci a ele o que eu sabia por experiência de vida, digamos, humana.
— Demasiadamente humana... — completei a frase, provocando o riso que veio espontaneamente, nos fazendo lacrimejar.
— E ele, onde está? — perguntei como quem vai aos poucos invadindo a casa.
— Juntou-se à Associação dos Jornalistas sem Fronteiras e saiu pelo mundo, feito um cigano, contando para todo mundo com a vida realmente é. Jornalista independente. Está feliz assim, eu creio.
— Os sábios... — fui aos poucos me aproximando daquele universo onde a vida pulsava como se pudesse se tornar realidade.
— Os sábios se dispersaram. Sem um escriba, como mediador, nunca mais conseguiram entender nada do que pensavam. Sairam a "deitar regras", como você dizia. Mas como a realidade não se encaixava na teoria, dispersaram. Alguns estão dando aulas; outros, fazendo palestras; alguns escreveram livros e vivem de vendê-los para os alunos dos que dão aulas; outros, nem uma coisa e nem outra, mas se viram como podem, agenciando palestras para os que adoram falar. Apenas um deles permaneceu no Olimpo e continua tentando entender como tudo funciona: aquele que dormia, lembra? Ele fficou lá por uma certa preguiça que lhe era característica, mas também porque toda vez que dorme, sonha que está recebendo um Nobel — ela disse isso sem esboçar qualquer expressão de deboche ou humor. Como se fosse mesmo apenas constatação.
— É para ele que você trabalha? — perguntei, sem conseguir esconder uma certa decepção.
— Não. Eu trabalho para governos, que têm que fazer alguma coisa pelo povo, mas não sabem exatamente o que e nem como. Eu os ajudo a descobrirem "o que", porque a melhor coisa que a sua história me deu foi a vida cigana, de onde tiro toda a experiência que hoje é meu trabalho. Conheço bem esta realidade humana... demasiadamente humana. — ela disse a frase com um certo travo de tristeza, que eu preferi não questionar, e continuou — Estou tentado aprender a outra parte, o "como". Mas como diz meu amigo jornalista, ou escriba, se preferir, uma coisa puxa a outra e quando a gente dá por si, já sabe como fazer. Acredito muito na sabedoria dele, porque é um homem bom.
Não havia muito mais como evitar a pergunta que me torturava. Falei como quem se joga contra uma porta fechada, bem na hora em que alguém resolve abri-la:
— E aquele homem? — perguntei de um fôlego.
— Que homem? — ela perguntou sem demonstrar qualquer perturbação, parecendo sincera.
— Aquele homem, demasiadamente humano...
— Desculpe-me, mas aquele homem não existe.
— Como não?! — reagi com uma ênfase indisfarçável  E ela pausadamente respondeu:
— "Aquele homem", o "demasiadamente humano", não existe. Ele foi uma invenção da sua criatividade.
Não conseguia entender o que ela estava dizendo; onde queria chegar. Ou seria eu que não estava entendendo o enredo da história? Não, impossível! A história, quem inventou....
— Acho que deve estar havendo algum equívoco. Eu conheço a história...
— Claro que conhece; foi inventada por você.
— Mas você esbravejou comigo, obrigando-me a fazer mais um capítulo para dar conta da sua indignação por ter-se apaixonado por ele. Você chorou!
Ela não parecia impactada pelas minhas dúvidas e pela ênfase que eu colocava nas afirmações. Olhou calmamente o discreto relógio de pulso; virou-se para a janela e encerrou a conversa delicadamente:
— Preciso ir; e você vai acabar perdendo sua visita ao Botánico — disse sorrindo gentilmente, enquanto depositava, sobre a mesa, duas notas de cinco pesos e algumas moedas para pagar a conta. O desconforto pela elegância com que ela se portava novamente me constrangeu. Não perguntaria mais nada. No entanto, ela parecia perceber que eu não ficaria bem , se me faltasse uma resposta.
— Quem esbravejou e chorou não fui eu; foi você — e tirou da bolsa um papel dobrado de uma forma interessante, entregando-o a mim.
— Fique com isso. É um bilhete que o escriba me entregou certa vez, logo depois do final da história. Eu li, mas não entendi o que teria a ver comigo. Disse isso a ele, tentando entender o que queria dizer. Ele respondeu que se não servisse para mim, que eu o guardasse. Um dia serviria para alguém. Quem sabe pode servir para você? — disse, apertando o papel na minha mão. Nos despedimos sem muitas palavras.
— A entrada do Botánico é ali. Não deixe de visistar o Jardim Japonês; é lindo. E vá a Caminito. Poderá inspirar-se para novas histórias. Ah, aqui também aprendi a dançar tango; em termos de emoção, é muito parecido com as danças ciganas. Vou indo. Qualquer dia, quem sabe, nos encontramos outra vez. Fique com Deus.
— Vá com Deus... — respondi já sem qualquer intenção de fazer perguntas e obter respostas. Atravessei a rua em ligeira corrida, como quem foge de um pensamento. Não olhei para trás, temendo que a cigana tivesse desaparecido completamente e que nunca houvesse estado realmente ali. Depois me dei conta de que sequer havia perguntado como ela se chamava. Olhei o papel com aquela dobradura especial e tive vontade de não abrir; não naquele momento. Segui pela alameda principal do Botánico, pensando em Caminito e suas poesias da beira do cais.

Continua (e termina) na próxima postagem. Aguardem!


Beijos de Hanna, direto de La boca.











Presente musical de um jornalista de cinema

Pois é, pessoal! Pensam que todo mundo é que nem uns e outros que adoram o Sobretudo, mas não postam nem um comentariozinho banal? Pois Hanna acaba de ganhar um auxílio luxuosíssimo para as postagens musicais. Matheus Feitoza, jornalista dedicado a cinema, entre outras temáticas jornalísticas para garantia da sobrevivência, fez uma seleção bacana de hits dos anos 70, que acho que vocês vão amar. É o que está rolando, neste momento, no iPod Sobretudo, qualquer coisa. O blog do Matheus está na relação de blogs que leio e recomendo; chama-se Hollywoodland e comenta todos ( eu disse "todos") os filmes que a indústria cinematográfica do planeta consegue produzir. Não vá ao cinema sem ele! Hollywoodland, valeu!
Beijos, Matheus!
H.

É a guerra — basta saber de que lado estamos

O título desta postagem anuncia o panorama da guerra político-eleitoral que já está em curso neste tenro início de 2010. Sim, estamos em guerra! Nós, os jornalistas,  dentro de um mesmo território imaginário chamado imprensa.  E o que é pior: a maioria nem sabe extamente de que lado está. O artigo do Alberto Dines, postado logo abaixo, mostra de que lado pode estar um jornalista que acredita que uma imprensa decente é possível e necessária. Dines não nasceu ontem nas lides das redações e sabe do que está falando, na prática. Pode até parecer que ele está fazendo a defesa intransigente de uma posição político-partidária — o tal do jornalismo chapa-branca — , mas basta um mínimo de bom senso para se perceber que ele não está tergiversando ou plantando fatos com as sementes da retórica. Preocupam-me  os leitores desavisados,  que "consomem" as notícias que lhes jogam à porta todas as manhãs, e aqueles que param nas bancas de jornais para ler apenas a primeira página dos diversos jornais. Em geral, eles estão distantes de qualquer discussão que envolva a credibilidade dos jornais que leem. E nem percebem que fundamentam a maioria das suas opiniões em muitos deles: sobre futebol; sobre economia, comportamento, saúde e, principalmente, política. Ops! Política não, desculpem: eleições! Jornais não ensinam política a ninguém. Não esqueçam que estamos já na cobertura de guerra das campanhas eleitorais e, como reza a lenda,  jornalismo deve ser isento e imparcial. Pergunta que não quer calar: colunista é jornalista? Coluna é  da ordem da imprensa? Para mim, se sai no jornal falando da vida em sua performance, jornalismo é. E deve cumprir o que promete ao respeitável público.  O respeitável e desavisado público que tende a encarar como "pegadinha" o desmascaramento de um velho jornalista que construiu sua "credibilidade" colando etiquetas morais aqui e acolá: "isto é uma vergonha!", lembram disso? Boris Casoy mostrou de que lado da bancada da realidade social ele está; e certamente não é ao lado daqueles garis de quem tripudiou no horário nobre do Jornal da Band, na passagem de ano. Para quem não sabe do que se trata — e muitos não sabem — aí está o link para o flagra de Casoy: (veja aqui a reportagem). Foi em off, dizem alguns; ele não sabia que estavam ouvindo, dizem outros. Pior para ele, que foi desmascarado em flagrante delito! Lembram do  ex-ministro Rubens Ricúpero, que também acabou com a própria "reputação" em off?  Vejam aqui  a memória completa da história que derrubou um ministro e prestem atenção aos comentários de Casoy sobre o incidente, a partir dos 4 minutos. Caros amigos, não se trata de uma matéria velha sobre o Casoy, mas uma  necessária insistência sobre um assunto que está sempre em pauta, mas que sempre acaba "caindo", ou indo para a "gaveta", de onde nunca sai. No máximo, morre na edição.  A quem interessar possa, a retranca dela é "hipocrisia". A hipocrisia tem-se tornado uma doença crônica, que vem provocando uma lenta metástase na imprensa brasileira. E em nome de que? Da legitimação de uma falácia que se costuma dizer que é sinônimo de democracia e de estado de direito, mas que se tem mostrado apenas uma poderosa arma de manutenção de interesses empresariais e políticos, que atuam em off, nos bastidores, e que apenas raramente "vazam" para a sociedade. Não se pode separar a empresa de comunicação, que é da mesma ordem das empresas que fabricam máquinas de lavar roupas, do seu produto, que é a imprensa. Alguns coleguinhas ingênuos vão sacar suas armas e dizer que o produto das Organizações Globo, por exemplo, não é imprensa, mas jornal. E onde estaria a imprensa, então? São os jornalistas? Quais? Quando? Onde? Como? Nem precisam responder, porque todos sabemos qual é a resposta. Confunde-se a instância simbólica que habita o altruísmo dos verdadeiros jornalistas, com (1) frases-clichês urdidas por um discurso que as empresas de comunicação afagam e reforçam diuturnamente e que (2) a maioria dos coleguinhas legitima por vaidade e, por último e mais grave (3) a sociedade assume mesmo sem conseguir muitas vezes entender. O que estou dizendo não é novidade para jornalista algum! Então, por que o alinhamento com a hipocrisia? Tenho cá uma meia dúzia de histórias que exemplificam bem o território onde já está se dando a batalha; histórias, acompanhadas de seus "recibos", digamos assim, e que podem ajudar a definir melhor o lado em que um jornalista na verdadeira acepção do termo deverá estar. E vejam bem:  este "lado" não tem relação alguma com preferência político-partidária. O que os "coleguinhas" não percebem é que, ao empunharem as armas para defender o equívoco, ajudam a fortalecer a doença que vem corroendo o que os mais jovens nem bem chegaram a ver — o embrião de uma verdadeira imprensa.  A metástase provocada pelo interesse de um sistema iminentemente empresarial resultou no monopólio da comunicação no Brasil, obrigando à literal "amputação" de órgãos de imprensa que poderiam oferecer à sociedade uma efetiva pluralidade de opinião e saudável disputa pela informação qualificada e mais precisa. É uma pena que para alguns jornalistas isso não tenha significado muito mais do que a perda de seus empregos. E que, para outros, tenha significado a hegemonia da opinião. É destes que estamos falando. E vamos colocar as vírgulas em seus devidos lugares: Arnaldo Jabor nunca foi jornalista! O que ele está fazendo em suas "colunas" nos veículos do monopólio de comunicação do pais é proselitismo político-partidário, eleitoreiro. Isso é uma vergonha, na honesta acepção do uso da palavra. No entanto, o que é mais grave, é o fato de muitos jornalistas se deixarem inebriar pelo canto destas sereias. Na próxima postagem, detalhes da tal coluna do Jabor que está causando um embaralhamento e bateção de cabeças em setores de representação de classe dos jornalistas.
Um afago aos colegas jornalistas-músicos, de quem sempre se cobrou uma definição de pautas: salve mestre Paulinho da Viola, quando diz que "quando penso no futuro, não esqueço do passado...". Lembrem disso, senão danço eu, dança você, dança o futuro, dançamos todos...
Até mais...