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21 setembro 2008

O problema é que...

"Diz uma história que em certa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da platéia e o riso era tão bom, tão profundo e natural que se tornou terapêutico.
Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal artista que possuía o dom de eliminar angústias.
Um dia, porém, um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o doutor.
O médico, então, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de todas as dores da alma, de iluminação de todos os cantos escuros do nosso jeito perdido de ser.
O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou: "não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço".
Como professor vejo que, às vezes, sou esse palhaço, alguém que trabalhou para construir os outros e não vê resultado muito claro daquilo que faz.
Tenho a impressão que ensino no vazio (e sei que não estou só nesse sentimento) porque depois de formados, meus ex-alunos parecem que se acostumam rapidamente com aquele mundo de iniqüidades que combatíamos juntos.
Parece que quando meus meninos(as) caem no mercado de trabalho, a única coisa que importa é quanto cada um vai lucrar, não interessando quem vai pagar essa conta e nem se alguém vai ser lesado nesse processo.
Aprenderam rindo, mas não querem passar o riso à frente e nem se comovem com o choro alheio.
Digo isso, até em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades.
Os que passam os outros para trás são heróis e os que protestam são otários, idiotas ou excluídos, é uma total inversão dos valores.
Vejo que alguns professores partilham das mesmas idéias e as defendem em sala de aula e na sala de professores e se vangloriam disso.
Essa idéia vem me assustando cada vez mais, desde que repreendi, numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho, no episódio da guerra das cervejas e quase todos disseram que o cantor estava certo, tontos foram os que confiaram nele.
"O importante professor é que o cara embolsou milhões", disse-me um; outro: "daqui a pouco ninguém lembra mais, no Brasil é assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, só que um pouco mais rico", todos se entreolharam e riram, só eu, bobo que sou, fiquei sem graça.
O pior é quando a gente se dá conta que no Brasil é assim mesmo, o que vale é a lei de Gérson: "O importante é levar vantagem em tudo". ( Lei de Gerson...dá para rir...)
A pergunta é: "É possível, pela lógica, que todo mundo ganhe? Para alguém ganhar é óbvio que alguém tem de perder."
Lógico é guardar o troco recebido a mais no caixa do supermercado; é enrolar a aula fingindo que a matéria está sendo dada; é fingir que a apostila está aberta na matéria dada, mas usá-la como apoio enquanto se joga forca, batalha naval ou jogo da velha; é cortar a fila do cinema ou da entrada do show; é dizer que leu o livro, quando ficou só no resumo ou na conversa com quem leu; é marcar só o gabarito na prova em branco, copiado do vizinho, alegando que fez as contas de cabeça; é comprar na feira uma dúzia de quinze laranjas; é bater num carro parado e sair rápido antes que alguém perceba; é brigar para baixar o preço mínimo das refeições nos restaurantes universitários, para sobrar mais dinheiro para a cerveja da tarde; é arrancar as páginas ou escrever nos livros das bibliotecas públicas; é arrancar placas de trânsito e colocá-las de enfeite no quarto; é trocar o voto por empregos, cargos, pares de sapato ou cestas básicas; é fraudar propaganda política mostrando realizações que nunca foram feitas .
É a lógica da perpetuação da burrice. Quando um país perde, todo mundo perde. E não adianta pensar que logo bateremos no fundo do poço, porque o poço não tem fundo.
Parafraseando Schopenhauer: "Não há nada tão desgraçado na vida da gente que ainda não possa ficar pior".
Se os desonestos brasileiros voassem, nós nunca veríamos o sol. Felizmente há os descontentes, os lutadores, os sonhadores, os que querem manter o sol aceso, brilhando e no alto.
A luz é e sempre foi a metáfora da inteligência. No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o caráter.

Que nas escolas seja tão importante ensinar Literatura, Matemática ou História quanto decência, senso de coletividade, coleguismo e respeito por si e pelos outros.
Acho que o mundo (e, sobretudo, o Brasil) precisa mais de gente honesta do que de literatos, historiadores ou matemáticos.
Ou o Brasil encontra e defende esses valores e abomina Zecas, Gérsons, Dirceus, Dudas e todos os marqueteiros que chamam desonestidades flagrantes de espertezas técnicas, ou o Brasil passa de país do futuro para país do só furo.
De um Presidente da República espera-se mais do que choro e condecoração a garis honestos, espera-se honestidade em forma de trabalho e transparência.
De professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se que mereçam o salário que ganham (pouco ou muito) agindo como quem é honesto.
A honestidade não precisa de propaganda e de homenagens, precisa de exemplos.
Quem plantar joio, jamais colherá trigo.
Quando reflexões assim são feitas cada um de nós se sente o palhaço perdido no palco das ilusões.
A gente se sente vendendo o que não pode viver, não porque não mereça, mas porque não há ambiente para isso.
Quando seria de se esperar uma vaia coletiva pelo tombo, pelo golpe dado na decência, na coerência, na credibilidade, no senso de respeito, vemos a população em coro delirante gritando "bis" e, como todos sabemos, um bis não se despreza.
Então, uma pirueta, duas piruetas, bravo ! bravo !
E vamos todos rindo e afinando o coro do "se eu livrar a minha cara o resto que se dane".
Enquanto isso o Brasil de irmã Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho, de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros heróis anônimos que diminuíram a dor desse país com a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até a porta, vira-se e diz: "Esse é o problema... eu sou o palhaço".
(O autor não assinou)

17 setembro 2008

Grande sertão: veredas

"De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa."
Riobaldo Tatarana

E de saudades por vezes morro, como se de presença nunca tivesse vivido. E como saudade se muita mata, desfio o bordado que de vida fiz para restar apenas o que de presença vale a pena no meio do novelo de ausência infinda tecido.
Hanna, brincando com Guimarães (que audácia!)

03 setembro 2008

A grande samaumeira dos índios Ticunas

Samaumeira é o nome desta grande árvore que fotografei apenas por encantamento. Se conhecesse a história, talvez tivesse feito fotos melhores... ou me perdido por lá. A grande samaumeira dos índios ticunas é parte de uma lenda belíssima que fala de resistência e imortalidade. Para os índios, as árvores desepenhavam papel fundamental no universo. Os galhos fortes da gigantesca samaumeira, por exemplo, sustentavam o céu com todos os seus astros . A lenda sobre essa árvore soberba pode ser lida numa obra de 1985, escrita pelos próprios ticunas e publicada pelo Museu Nacional (RJ) . O livro, chamado Nosso Povo, narra a lenda que conta como apareceu o dia e a história do coração da samaumeira. Quase ninguém com quem falei aqui em Belém sabia sequer o nome da árvore, que dirá a história mítica e linda que ela guarda. Alguns ainda disseram: " é uma árvore centenária que todo mundo diz que tem coração". Como fomos aprender tanto sobre minotauros e medéias e não conhecíamos o coração da samaumeira que sustenta o firmamento e que ainda hoje nos contempla em sua altivez, no meio de uma floresta que o mundo inteiro conhece? Precisamos descobrir o Brasil, antes que os aventureiros lancem mão. E faço a minha pequena parte, postando o resultado da pesquisa para saber que árvore maravilhosa era aquela.

Lendas desconhecidas de uma terra chamada Brasil

Como apareceu o dia. Naquele tempo era sempre noite. Os galhos da samaumeira cobriam o mundo, escurecendo tudo. Os irmãos Yoi e Ipi tentaram abrir um buraco na copa da árvore, jogando-lhe caroços de araratucupi, mas sem resultado. Chamaram o pica-pau, que tentou cortar o tronco com o bico, mas não conseguiu. Resolveram então tirar o machado da cutia. Ipi colou penas em todo o corpo e ficou deitado de boca aberta no caminho da cutia. A cutia estranhou a figura que encontrou no caminho e começou a fazer-lhe perguntas. Como Ipi não respondesse, ameaçou urinar na boca dele, cortar-lhe a língua, até que ele respondeu, dizendo que podia arrancá-la. Ela se aproximou e Ipi arrancou-lhe a paleta, a perna de trás, que era o seu machado. A cutia perseguiu Ipi mancando e gritou-lhe que, quando fizesse roça, não dissesse o nome dela, e que ela iria cobrar-lhe o roubo, furtando nas roças que fizesse. É o que a cutia faz até hoje. A cutia não pode mais plantar. Só cutia pequena ainda tem o machado. De posse do machado, Ipi começou a cortar a árvore. Mas o corte se tornava a fechar. Yoi então tentou cortar e, onde ele batia, o corte se mantinha aberto. Quando se cansou, entregou o machado a Ipi, que continuou a cortar, mas agora o corte não se fechava mais. Apesar de o tronco estar bem fino, a árvore não caía. Olhando para cima, viram que era uma preguiça que a segurava. O quatipuru, convidado para subir e tirar a mão da perguiça do galho, foi até a metade e desceu, com medo da altura. O quatipuru pequeno aceitou subir com formigas de fogo para jogar nos olhos da preguiça. Ele subiu e conseguiu atingir os olhos da preguiça. Deu então um pulo para trás e caiu, machucando o rabo no machado. Por isso o quatipuruzinho tem o rabo dobrado nas costas. A samaumeira caiu, e daí por diante se pôde ver o sol, o céu, as estrelas. Como recompensa, Yoi e Ipoi deram sua irmã para casar com o quatipuruzinho.
O coração da samaumeira. Depois de algum tempo, Ipi foi até a árvore derrubada para ver se já tinha apodrecido. Mas ela estava viva e tinha começado a brotar de novo. Ipi ouviu batidas de coração e resolveu tirá-lo. E começou a cortar com o machado. Ipi e Yoi disputavam o machado, cada qual querendo a tarefa de tirar o coração da samaumeira. Finalmente um golpe de Yoi fez o coração pular fora. Um calango o engoliu e ele ficou parado na garganta. Ipi encostou um tição na garganta do calango e o coração pulou fora. Mas uma grande borboleta azul engoliu o coração. Ipi queimou a asa da borboleta com o mesmo tição e ela vomitou. Por isso as borboletas azuis de hoje têm manchas na asa. O coração caiu num buraco muito apertado. Yoi então mandou a cotia roer o coração pelo lado direito, trazer o caroço e plantar no terreiro. Passado algum tempo, daí nasceu a árvore de umari.
O mito da grande samaumeira e o de seu coração também estão divulgados em O Livro das Árvores (Benjamin Constant: OGPTB, 1997), um volume escrito e ilustrado pelos professores indígenas ticunas, que trata da importância das árvores na vida e cultura de seu povo. Entre as suas muitas ilustrações, há um desenho da árvore Tchaparane, que produzia terçados. Ela ficava em Cujaru, um lugar perto do rio Jacurapá, e as pessoas iam até lá e esperavam que caíssem no chão.
Fonte: http://www.geocities.com/RainForest/Jungle/6885/mitos/m08arvor.htm

Sobre os ticunas
Os Ticunas constituem, hoje, a maior nação indígena do Brasil com mais de 32 mil pessoas. Eles são encontrados também na Colômbia e no Peru. No Brasil, estão localizados no estado do Amazonas, ao longo do rio Solimões, em terras dos municípios de Benjamin Constant, Tabatinga, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Fonte Boa, Anamã e Beruri. Os Ticunas falam uma língua considerada isolada, que não mantém semelhança com nenhuma outra língua indígena. Sua característica principal é o uso de diferentes alturas na voz, peculiaridade que a classifica como uma língua tonal. Os Ticuna estão organizados em clãs, ou "nações", agrupados em metades, que regulam os casamentos. Membros de uma metade devem casar-se com pessoas da metade oposta, e seus filhos herdam o clã do pai. Numa das metades agrupam-se os clãs com nomes de aves: mutum, maguari, arara, japó etc. Na outra metade estão os clãs que possuem nomes de plantas e de animais, como o buriti, jenipapo, avaí, onça, saúva.
O texto completo sobre os índios ticuna pode ser visto no site http://www.rosanevolpatto.trd.br/ticuna1.htm

01 setembro 2008

Amazônia paraense por uma carioca renitente

Margem do rio Guamá. Do outro lado fica a cidade de Belém. O Guamá é navegável numa extensão aproximada de 160km e apresenta larguras superiores a 1km. De alguns pontos, temos a impressão de estar navegando no mar, com ondas leves e uma maré que empurra o barco para os lados. Por este rio trafega grande volume de comboios transportando seixe, areia e brita para Belém. Na margem oposta à da cidade, alguns restaurantes rústicos servem peixes maravilhosos com conhecida (e cara no Rio de Janeiro) cerveja Cerpa, que é produzida na região. A travessia do Guamá é feita pelos chamados popopó, pequenas embarcações de madeira com um motor central que sugeriu o apelido dos barcos pelo barulho que faz. A floresta ao longo do Rio reproduz as características do solo amazônico, com um tapete denso de folhas mortas e encharcadas pelas águas que o rio traz na maré alta e pelas chuvas freqüentes. A sensação que se tem ao pisar naquele solo é indescritível - primeiro, o medo de se ferir com algo que possa estar por baixo daquele tapepe fofo; depois, o frescor da água fria envolvendo-nos os pés a cada passo. A natureza é muito esotérica....O Guamá é um dos rios da região amazônica que apresentam o fenômeno da Pororoca - o encontro das águas do rio com as águas do mar. As águas altas (cheias) ocorrem de março a agosto e as mínimas, quando o rio fica mais baixo, em dezembro. Espero ver esse encontro da águas um dia. Dizem que é extasiante... deve ser. Vai aí o mapa e mais algumas fotos para deleite dos meus poucos mas amados leitores. A árvore da foto tem raízes gigantescas que se dobram umas sobre as outras formando abrigos que parecem cavernas de pedras. Os galhos altos hospedam lindas bromélias, que prometo mostrar na fotos que vou postar amanhã. Também não consegui descobrir o nome da árvore. Mas amanhã, quem sabe... Pelo menos o coqueirinho ali eu sei o que é... é açaizeiro... Mas essa é fácil,né?

31 agosto 2008

Oiê!!!!!!!

Olá, pessoal!
Depois de longo e necessário silêncio, volto ao blog só pra dizer que estou em sublime encantamento. Atravessei aquele rio em um barco rústico e pisei com os pés descalços no chão molhado da floresta - a parte paraense da floresta amazônica. Fiz centenas de fotos, que ainda estou tirando da máquina para divulgar aqui e compartilhar com vocês. Mas acreditem: a sensação é de plena comunhão com o universo - folhas mortas estofam o chão; ao pisar, a água que o rio trouxe emerge mansa, fresca e limpa a te abraçar os pés. No começo, um certo medo de que algo estranho possa te ferir; depois, a certeza do aconchego e a mágica sensação de que você faz parte de tudo aquilo. O rio, as árvores, as folhas, o vento, os pássaros, o som da floresta, as árvores gigantescas e eu éramos uma coisa só. Por pouco não sou abduzida e fico por lá....rsssss. Mas voltei.
Aguardem as fotos que prometo postar amanhã.
Saudades de todos e de tudo.
Como de sempre, amor.

07 agosto 2008

A floresta é logo ali... e o Caribe é pra lá


Um rio largo e longo diante de mim, instigando-me a mergulhar, navegar, atravessar. Diante de mim, um rio que atravessa o mundo... só não vai lá. Ninguém foge do destino, esse trem que nos transporta. E viva Alceu Valença em sua graça e nordestina sabedoria.

31 julho 2008

Como não tinha visto antes?

Era tarde de inverno, mas não fazia frio como nos dias de antes de hoje. Segui pelas ruas de Ipanema cumprindo deveres, fazendo da última sessão de análise uma espécie de plataforma de salto e vôo. Sentia fome, porque o tempo parecia escasso para cumprir tantas obrigações. Parei em uma lanchonete na esquina da Barão da Torre com Vinícius (de Moraes), onde toda poesia aflora. Fiquei ali sozinha, em uma mesa onde qualquer um pode aportar. Não era de restaurante onde mulheres sozinhas poderiam se sentar com uma taxa menor de preconceito. Sentei e fiquei ali, tomando um chope na tarde morna e serena. Deixei-me ficar — abri os sentidos e me deixei sentir, sem querer saber. Era cio de um Rio que perde a mulher que o ama sem que jamais a tenha verdadeiramente amado. Os amores padecem dessas provocações: se perdem em tentação quando vêem esvairem-se seus amores eternos e jamais correspondidos, mesmo que nunca a eles tenha dado atenção. Injustiça cometo ao comparar esse Rio a amores quaisquer. O Rio me amou além da conta ao se me oferecer em paisagem. E agora que vou embora, sinto no ar esse assédio de puro cio — perfumes antes inacessíveis, cores antes empalidecidas pelo descaso do olhar, gentes que passam pelas calçadas portando suas estranhezas, um calor úmido que vem do mar. Ah, meu Rio, por que não te amei mais e antes? Por que não te devorei qual Caetano a Leonardo de Caprio, segundo canta Djavan? Por que nunca levei adiante a vontade de te tocar em um instrumento? E eu agora dessa lanchonete casual descubro que o que tens de melhor são tuas esquinas. Mas quem haveria de querer? Entram velhinhas perfumadas, borracheiros, jovens ligeiros, gente que quer apenas comprar pão, garotas que querem sorvete e riem na expectativa do encontro de amor. Eu estou aqui.. pensando que mal te amei como deveria, como merecerias, como eu queria. Meu Rio. Agora banho-me nas águas da tua saudade; inspiro fundo o teu hálito para reter-te em mim; olho com avidez teus espaços, teus buracos, teus vãos. Olho como quem pede e implora o gozo último de uma paixão displicente, decente, descontente, inocente, de quem não sabe ainda o que é o amor.
Rio de Janeiro, como gosto de você.

Três coisas dessa vida

1. Um garoto muito pequeno entra na lanchonete. Ele está sozinho. Todos olham e pensam que ele vai perdir esmolas. Mas ele compra algo e sai. Era apenas um garoto negro.

2. Na mesa em frente, um casal de chineses conversa animadamente. Que universo restrito longe da multidão que lhes é comum, penso eu. Mas o que sei eu de universos e de restrições? Do outro lado da rua, um curso vestibular deixa ver pelas paredes de vidro os funcionários treinados para instruir os jovens a saber como construir limites precisos. E isso tem funcionado a séculos!

3. A tarde estava tão morna que quase podia nos tocar a pele; o cheiro do mar entrava por nossas narinas invadindo todo o corpo. Era uma espécie de volúpia urbana, ou de urbanidade voluptuosa.

Aforismos de rua

Personagens diversos desfilam diante da porta da padaria; somente quem está dentro pode ver.

Como é bom olhar a vida em sua completa entropia, sem a arrogância tola dos recortes.

Os carros passam, a vida passa.. e nós também passamos. Ainda bem!

Eu vou embora porque a vida chama.

26 julho 2008

Vou roubar os anéis de Saturno

O nome dos dias da semana, em português, têm origem na liturgia católica, diferentemente da maioria das outras línguas, que batizaram os dias em homenagem a deuses pagãos. O sábado, para os povos pagãos, era dedicado a Saturno. Em inglês escreve-se saturday - dia de Saturno.
Saturno equivale ao deus grego Cronos e matou o pai, Urano, com uma foice dada pela mãe, tomando o poder entre os deuses. Ele era um dos titãs, filho do Céu e da Terra, mas foi expulso do Olimpo pelo próprio filho, Júpiter, indo refugiar-se no Lácio. Lá ele ensinou aos homens a agricultura e fez reinar a paz e a abundância. Conta a lenda que lá ele também se casou constituindo uma nova família e se tornando um deus do bem. Os romanos atribuem a Saturno a origem de Roma e a criação de divindades como Hércules e Rômulo.
Para agradar a Saturno e continuar gozando de sua proteção, os romanos faziam uma espécie de feriadão uma vez por ano, por volta do solstício de inverno, quando aconteciam as festas chamadas saturnais, que duravam uma semana. Todos participavam em alegria e solidariedade para relembrar a época em que os homens viviam em paz, sem distinções sociais. Inúmeros banquetes eram servidos e os escravos, momentaneamente livres, eram servidos pelos senhores e podiam falar deles o que quisessem. Se é fato o que conta a lenda, a liberdade de expressão já gozava de prestígio junto aos deuses, mesmo que apenas por um período sabático.
E é claro que as festas acabavam sempre em grandes orgias. Sob o Império, a festa acabou, mas o sábado ficou como o dia consagrado a Saturno.
E a todos, os meus votos de um sábado de festa, alegria, liberdade, inclusive a de expressão, igualdade e abundância. Mas cuidado para não resvalar para a orgia. Se beber, não vá de biga....rssss.
Alegria, alegria, alegria!

23 julho 2008

Sabe aquela lua cheia, rodeada de estrelas,
radiante no meio do céu? Pois é linda, não é?

22 julho 2008

"Muitas pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas. Ame-as, mesmo assim. Se você tem sucesso em suas boas realizações, ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos. Tenha sucesso, mesmo assim. O bem que você faz será esquecido amanhã. Faça o bem, mesmo assim. A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável. Seja honesto, mesmo assim. Aquilo que você levou anos para construir, pode ser destruído de um dia para o outro. Construa, mesmo assim. Os pobres têm verdadeiramente necessidade de ajuda, mas alguns deles podem atacá-lo se você os ajudar. Ajude-os, mesmo assim. Se você der ao mundo e aos outros o melhor de si mesmo, você corre o risco de se machucar. Dê o que você tem de melhor, mesmo assim."
Madre Teresa de Calcutá

21 julho 2008

Finalmente, segunda-feira

Piadinha de segunda-feira: a produção da crença

São marcos — porque não poderiam ser marcelos...rsss — o que a humanidade arranjou para se dar sempre uma nova chance de recomeçar. O primeiro dia do ano... o primeiro ano ímpar... ano bissexto...o primeiro ano do novo século, do novo milênio. E por que não uma nova segunda-feira? Já que são apenas convenções, porque não inventar mais e nos dar mais chances a cada dia de fazer tudo diferente do que já provou ser projeto furado? Talvez por nossa leniência e preguiça, desperdiçamos a segunda-feira agregando a ela o discurso simbólico do trabalho. Mas a mim, que amo o trabalho, a segunda-feira só faz bem. Vem com cara de casa nova, onde a gente entra na sala vazia e começa a pensar como vai ser o lugar que vamos habitar — encher de nós mesmos e nossas tantas circunstâncias e circunstantes. Pois bem. Entrei na sala vazia, com as caixas entupidas de coisas que venho trazendo de outras casas e que às vezes transbordam nos sábados e domingos. Empacoto tudo em tambores de chumbo forte como se césio 147 fosse — verde luminoso, pó de pirlimpimpim, mas mortal como a peste! E igual acontece com nossas usinas nucleares, todo lixo passível de contaminação fica sem ter onde enterrar. Pego as tintas e pincéis com que ando enfeitando a realidade e faço nos tambores umas flores improvisadas , com jeito de arte moderníssima — pétalas de esquecimento, raízes de perdão, gravetos de alegria, sementes de amor, uma ou outra lágrima de orvalho aqui e ali. E ao final da tarefa enjoada, batuco neles um reagge para exorcizar. Everything is gonna be alright... E sigo em frente na nova segunda-feira onde tudo está por começar e a se fazer. Abro a janela da sala vazia e deixo o sol entrar — primeiro habitante de uma vida que acaba de nascer. E se chover, não tem problema: daqui a sete dias começo tudo outra vez.
E aos meus amados, uma semana de muita paz!

19 julho 2008

Geraldo Azevedo e Alceu...

"A vida é cigana... é pedra de gelo ao sol..."

Como eu gosto de Alceu Valença...

Um infortúnio na vida me despojou de todos os cds que eu tinha de Alceu e que eu amava tanto e ainda amo. Por ironia do destino, o infortúnio de outro me trouxe os cds de Alceu de volta. Não são meus; apenas os guardo e ouço e aproveito e gosto. Como a vida é lúdica, não?
"Na segunda manhã que te perdi, era tarde demais pra ser sozinho. Cruzei ruas, estradas e caminhos, como um carro corendo em contra-mão; pelo canto da boca um sussurro; fiz um canto demente... absurdo... Solidão..."
Não. É apropriação indébita. Não posso ficar com esses cds. E agora? Como faço? Pirateio e os devolvo? É... pode ser.

Mudando de conversa

Imagem: Tarsila do Amaral - Floresta
Queridos e inestimáveis leitores (mesmo que apenas uns dois ou três), em breve terei coisas novas pra contar... se tempo me sobrar, obviamente. Deixo as franjas do mar de Copacabana pelo calor úmido e o som quente da floresta amazônica. De lá espero salvar as matas que nunca vi, porque sem idealismo o meu papo não rola; sem alguma paixão fico sem palavras. E faço preferência por paixões nobres, daquelas que não se conquistam facilmente e não se deixam levar para a cama na primeira noite - pela democratização das oportunidades, pelos pobres, crianças, passarinhos, justiça, igualdade, poesia, canção. Isso... assim mesmo sem que se façam sentidos aprendidos em um mundo de truncamentos estáveis e noções de sanidades suspeitas. Tiro o barco do mar e levo para o rio...longe do meu Rio... porque é preciso navegar. Onde vai dar, não sei. Mas já pressinto uma bela paisagem, um calor aconchegante, um chão bom de se pisar. E só Deus sabe o que vou construir ali. Mas um dia vou saber... e aí não tenham dúvidas de que conto em primeira mão para vocês.
Amor de sempre... mas agora com a velha mania de sentir saudade,
Hanna.

17 julho 2008

Adeus...vou morrer de saudades

“Nosso amor terminou, terminou... perdeu o fio. Eu me sinto tão triste, cansado, estou vazio.... ".
É Alceu Valença quem diz, do alto de sua maravilhosa canção, absurda voz e divina criatividade.
“Se teu amor foi hipocrisia, adeus Brasília... vou pra outra cidade”.
Morre-se de tantas saudades todo o tempo. E também de hipocrisia. Deixamos tanta coisa para trás ao fazermos nossas opções. Mas há algumas coisas que nos cobram o dever da sinceridade -para ser hipócrita é preciso ter talento - e que nos arrastam para o que não conseguimos deixar totalmente. E para lá voltamos sempre que somos chamados. Desejo involuntário, perdição.
Fico pensando naquela história triste que atribuem a São Francisco de Assis e que diz que é melhor dar do que receber; amar do que ser amado; perdoar... perdoar.
São coisas dos deuses, dos espíritos elevados, de seres que não sabem o que é chorar e não imaginam o que é querer...
Tarde estranha, meio fria e quente ao mesmo tempo...linda, curta... Quase todos os CDs.
E la nave vá, ao som de Alceu e John Lee Hooker, numa profusão de lágrimas que insistem em fazer um mar por onde é preciso navegar.
"Terminou, terminou, terminou...
Perdeu o cio”.

15 julho 2008

Sabe aquela lua atraente, cheia, rodeada de estrelas, quase uma pincelada no céu da noite? Pois é...

09 julho 2008

Aforismos de internet:
"É fazendo merda que se aduba a vida!"
Voilá!

07 julho 2008

Quanto mar... quanto mar

Foto: José Carlos Harduin
Desta vez roubei um barco de um pescador de sonhos que parou ao meu lado e eu convidei pra dançar. Ele aceitou, tomou-me nos braços e rodopiou, entregando-se à vertigem que eu já trazia em mim. Saímos em valsa pelo mundo afora, passeamos por um vilarejo romântico ao Sul da Itália; por uma aldeia encantadora debruçada em frente ao mar... marinas suaves depositadas sobre as águas que o sol delicadamente coloria. Havia um mundo para andar, e ficamos sem saber exatamente como ir. Entramos na igrejinha de São Pedro e pedimos o barco, o rumo, a vela, o vento, o prumo, com a certeza apenas de que já estávamos a navegar. Ele me disse que eu estava no alto e eu disse que queria descer. Pedi que me ensinasse o caminho de volta; que mostrasse onde estava a escada que me traria de novo para perto do mar. Ele ficou ali parado, acariciando meus cabelos, olhando as águas que já haviam diluído a cor do sol, trasmutando-se langidamente em um fino véu de luar. E ele ficou assim tão quieto, espreitando a certeza que nenhuma resposta podia dar. Fiquei lá onde estava apenas eu, sem saber sequer onde era esse lá . E o vento foi balançando de leve o barco, as velas, a vida, o mar... e tudo o mais foi-se indo embora, suavemente embora... como quem solta as mãos, deixa deslizar os braços, afasta mansamente os corpos, porque a música cessou e não há mais o que dançar. Adiante, mais além, lá bem longe, o mar... apenas o mar.

02 julho 2008

Queridos e amados leitores amigos...

Não desistam de mim!!! Não tenho postado nada, porque o tempo anda escasso. Mas logo, logo estarei de volta ao maravilhoso exercício do ócio criativo.
Afeto, saudades e o amor de sempre,
Hanna

28 junho 2008

O que será...o que terá...?

O que terá sido feito daquele cara maluco que espraguejava contra o mundo e vociferava palavrões enquanto rolava ladeira abaixo? Às vezes tenho vontade de saber... não sei por que, mas às vezes tenho vontade de saber.

22 junho 2008

Renato Russo e Legião Urbana duas postagens abaixo

ATENÇÃO PESSOAL!!!!!!!

Para ver todas as postagens que editei sobre Renato Russo e Legião Urbana, vá ao arquivo lá no alto à esquerda. É que as postagens são grandes e não couberam na mesma página... e depois acabaram indo todas direto para o arquivo. Mas tá bacana, vale a pena visitar. Deixem recados, comentários, qualquer coisa. Sobretudo, se gostarem.

Neruda para todos


Obrigada pela contribuição, Max Ferreira!

Porque já é quase segunda

Amigos queridos, saudosos amigos, amigos desconhecidos e demais amigos não incluídos nestas rubricas,
Já é quase segunda e nada de a inspiração sugerir uns versinhos toscos, uma rimas bobas, sequer uma frases de efeito... mesmo que apenas de efeito colateral. Então, melhor não insistir. Fico devendo ao Dirceu, de New Jersey, que mandou essa na sexta-feira: "O que houve? Está com preguiça? Eu visito o blog e só tem lá umas musiquinhas, nada de texto...". Mas quero brindá-los a todos - e ao Dirceu em especial - com algo bom, recheado de informações relevantes, possibilidades de refletir sobre coisas que não estão agregadas ao nosso acervo de banalidades cotidianas. Dediquei algumas poucas e boas horas a pesquisar sobre uma das melhores bandas brasileiras de todos os tempos - Legião Urbana. O resultado do esforço está neste humilde blog que fala de um tudo, sobretudo de qualquer coisa. Sei que vão gostar, principalmente pelas entrevistas concedidas pelo genial Renato Russo a jornalistas assim não tão geniais, mas que sabiam ouvir o entrevistado - coisa rara nos jornalistas de hoje e o que também nunca foi o forte de Jô Soares, a quem Renato Russo fala da dependência química que torturou sua vida, enquanto a vida nele resistia. Em um dos links, uma raridade que vale a pena ser visitada - ou "revisitada", pelos jovens acima de 50.
Fiquem com o Legião e tenham uma semana iluminada!
Como de sempre, amor.

Clique para ver todas as letras e músicas do Legião

É preciso amar...como se não houvesse amanhã

Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira

Clique aqui e veja uma raridade!

Quem roubou nossa coragem?

É cafona.. mas é bonita...

Que país é este?

Renato Russo - entrevista na MTV

Entrevista no Jô Soares

Ele queria era falar com o presidente para ajudar toda essa gente que só faz sofrer...

Feche a porta... pode ser alguém que você quer

Disciplina é liberdade... há tempos tive um sonho

13 junho 2008

A rosa e o vento

Assim como o vento...
ele carregava uma rosa debaixo do braço, como quem tem a certeza de que um dia vai encontrar quem mereça recebê-la;
sorria com bondade mansa, deixando ver um cavaleiro tímido escondido atrás dos dentes perfeitos e do corpo forte;
ele escrevia o próprio nome repetidas vezes, adornando cada letra com fogo ardente, como quem quer se convencer de que é possível deixar de ser;
olhava o mundo do alto, com a seriedade e distanciamento de uma esfinge indecisa entre o segredo e o deciframento;
ele mantinha os olhos baixos, braços estendidos ao longo do corpo, mãos abertas, firmes, prontas a resgatar o menino que ainda estava lá.
ele... assim como o vento.



"Não se mede o valor das coisas pelo tempo que duraram, mas pela intensidade com que foram vividas."
Fernando Pessoa