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26 abril 2009

Episódio II

Senhoras e senhores, prezado público de dois ou três leitores, pontualmente apresento o Episódio II da história que comecei a postar no último domingo e que ainda não tem título. Espero que gostem.
EPISÓDIO II
- Sim, esta é a pergunta! Quanto de sacrifício estará ele disposto a empenhar para ser o que o destino lhe reserva? O problema recai sempre sobre a mesma ordem de banalidade! Ora, meu Deus, como é difícil fazer com que algo tão simples possa se tornar compreensível, uma simples realidade? – esbravejava o impaciente sábio espanando tudo o que o cercava com suas pesadas vestes.
O conselho olhava aquele plano lá embaixo onde apenas um personagem reescreveria a história de muitos outros a partir de sua própria história. Era o que se esperava dele. Eram seis integrantes daquela confraria esquisita que por aqui se poderia pensar como um conselho de sábios, de físicos quânticos, de loucos, ou de maçons, talvez. E havia entre eles um escriba sem direito a voto ou opinião. Seu trabalho era apenas escrever e anotar o que os, digamos, sábios descreviam. Ele não sabia nada além do que lhe mandavam escrever, ou seja, tudo o que todos os outros individualmente diziam, em todas as línguas que resolviam falar. Mas não tinha nem poder de voto, veto ou opinião. Ele apenas escrevia e se metia onde jamais era chamado.
- Olhem, olhem lá! – e recomeçavam as observações atentas da vida comum daquele homem para quem voltavam suas expectativas de tornar a humanidade, através dele, mais, digamos, bem... quer dizer... não sei. E o escriba retomava os apontamentos onde sempre acabava por interceder ora por um, ora por outro dos personagens daquela trama emaranhada de um universo banal. E o texto final do escriba nunca estava a contento dos planos superiores – ora piegas, ora piedoso, ora sensacionalista, ora humano, demasiadamente humano, diziam. Mas ao escriba só cabia narrar o que via e apontar o que apontavam os sábios. Mas eles não se importavam com o estilo dele, pois afinal não era sequer um sábio! Era apenas um escriba. Que lhe sobrasse então o estilo.
- Adiante! Vejamos o que faz de si o tal humano. Humanos... demasiadamente humanos!
Naquele momento aquele homem estava diante de si mesmo, interpelado pela própria história de vida. Era difícil ver aquele menino, que habitava aquele homem, em seu esforço de liberdade. Os meninos não parecem saber exatamente o que é ser livre, por mais que tenham sido adestrados a andar soltos pelas ruas e pela vida. Andar solto, como um cão sem dono, é o destino histórico de todos os meninos - e como parecem livres e felizes os cães sem donos. Talvez para ele não fosse assim, sensível que era. Talvez precisasse um tempo mais longo no colo materno; um tempo a mais, antes que fosse porta a fora cumprir seu papel. Agora estava novamente ali, tendo que ser livre de novo. O útero da mãe gigante já não comportava todos os filhos e, insensível, esperava impaciente que muitos fossem embora pela concordância da demissão voluntária. Aos poucos, assim como na vida, os filhos mais novos empurram os mais velhos para lá.
Uma vez mais, diante da porta da rua. O coração tremia de expectativa – ficara tempo demais no colo desta vez. O medo era apenas um hábito de tantas memórias que foram sendo adquiridas por empréstimo às vidas e experiências que não eram exatamente as suas. O coração tremia de vontade de liberdade, a mesma liberdade que não conseguira entender da primeira vez. A liberdade que não viera junto com a separação, da segunda vez. A mente atarantada não se deixava denunciar pelo semblante calmo, tranqüilo e sóbrio. Era já um homem quando ensaiou deixar de ser menino.
- Não há na vida o que seja passível de compreensão sem as medidas de comparação! – esbravejou outro dos seis sábios, como se ouvir fosse somente possível ao esbravejar. Liberdade é igual a quê? Como é ser livre? Perguntava ele enquanto os demais franziam o cenho na tentativa de dialogar com tão complexa reflexão.
- Ser livre não é o mesmo que ser sozinho – disse um deles, parecendo ter dúvidas sobre o que acabara de afirmar – Vamos observar!
Aquele homem também tinha dúvidas sobre as mesmas questões – liberdade e solidão. Talvez os humanos, mesmo demasiadamente humanos, não sejam de todo desprovidos de capacidade de refletir sobre coisas abstratas. E ele começou pelas comparações, como quem vai tateando as partes para entender o todo. Abriu as portas dos armários, da alma e da vida e saiu tirando tudo o que estivera sempre lá – roupas, carinhos, desejos, medos, lembranças, ilusões, ressentimentos, saudades. O chão do quarto foi recebendo o que já não lhe cabia. Comprar roupas novas! Vestir com o novo o que o tempo fez do corpo atlético que perdera as formas, abrindo vagas para o hábito que acompanha a solidão.
- O hábito é o vício travestido de consolo! Deixara-se ficar no colo do hábito consolador depois de cada uma de suas perdas, este é o dilema. E nem foram assim tantas. Anote aí! – ordenou um dos sábios.
E foi assim que aquele homem começou a perder a feição atlética, sentado em uma mesa de bar, ouvindo as canções lamentosas e tristes que uma jovem cantora oferecia a todos os fregueses. Ele esteve lá todas as noites, até colocar no lugar de tudo o que não mais havia a ilusão da paixão pela cantora – ela que cumprimentava sorridente a todos os homens que como ele preenchiam a vida com cerveja e ilusão – “ela sorria pra mim”, disse um dia, como quem quer a confirmação mágica de uma possível paixão, onde estaria no papel principal. As músicas todas falavam de dor, amores tardios, fracassados, sofridos, despejados. Isso parecia, naquela hora, a cara mais rude da liberdade – sabor de cerveja; afagos inconstantes; amores que se dissolviam com a luz do dia. Quanto tempo se deixou ficar assim não é algo que se possa medir. O tempo que nos move os sentimentos não cabe nas medidas precisas da vida. Um dia, depois do outro; cada dia, um outro dia.
- Você está interferindo na observação! Pela milionésima vez em tantos séculos lhe pedimos: atenha-se aos fatos! Contenha seus arroubos piedosos e sua verve poética. Ele é apenas um de muitos e muitos exatamente iguais seres humanos! – esbravejou um dos seis.
- Pesquisas dessa natureza acabam por contaminar o observador. O que acham se determinarmos um lapso de tempo em que faremos o acompanhamento, em partes, da vida de vários personagens? Sugeriu um dos seis.
- Não! – implorou o escriba. É dessa forma que se tornaram loucos, esquizofrênicos ou perdidos aqueles que já nem eram assim tão humanos. O que seria de mim, pobre escrevedor da vida alheia, que nem sábio sou?
- Então, contenha-se e atenha-se a seu ofício! Adiante!
Ele seguiu tateando como um cego que de repente encontra a saída – sexo! Sim, o sexo! O que querem os meninos à porta de tornarem-se livres e felizes cães sem dono? Sexo. E definiu aí o que seria a essência da liberdade – amor sem limites! No entanto, teve o cuidado de acrescentar: com segurança e responsabilidade. E foi assim que começou a colecionar partes do que tentava compor como felicidade, gerando a pior das suas contradições – onde estaria a felicidade em relação à liberdade? Não queria pensar; talvez nem pudesse.
Uma coleção de rostos, corpos, currículos, cabelos, roupas, estilos, idades, gostos, desejos, loucuras, solidões. Uma coleção de mulheres que em suas partes não conjugavam-se em um todo. Todas espalhadas pela sua vida, como as roupas pelo chão. O sexo sob encomenda, como quem escolhe do conteúdo à embalagem. Todas selecionadas segura e responsavelmente. Como lhe era difícil ganhar as ruas como um cão sem dono. E o armário onde tudo deveria se guardar estava limpo, assim como o das roupas, mas vazio. Perdera de vista o seu talento natural para amar por inteiro, sem expectativas, por puro gozo, rompendo a ilusão banal da falta de limites ou de demasias, para apenas amar como quem transborda e se alegra com o que pode oferecer, mesmo que pouco. Não havia tempo na ciranda das mulheres infindas para se deleitar com a arte e o talento que lhes foram naturalmente oferecidos.
- Vejam isso! Vejam isso! A ele foi dado o dom e o talento para a conjunção carnal. E ele sabe disso! Mas como consegue desperdiçar a herança divina para ser assim... tão... demasiadamente humano!? O sexo é a fonte da criatividade, o poder supremo da transformação; não é um lago raso onde se molha os pés sujos de lama e se sai correndo para esconder que se esteve lá! Ora, deuses de toda a mitologia! O que fizestes vós com esta humanidade tosca?
- Espere senhor sábio, espere. Dê-lhe mais uma chance. Vamos ver o que se passa – intercedeu o escriba.
Acostumado, por dever de ofício, a enxergar a vida pelo seu aspecto lógico, vasculhou-se criteriosamente para encontrar uma referência que lhe servisse de guia. Estava no mapa o que Carl Jung mesmo dizia - aquilo que reprimimos não deixa de existir, apenas explode em outro lugar, dramaticamente. O lugar das contradições: fazer amor sem limites, mas com segurança. O conflito entre o desejo e a responsabilidade. “Mas eu sou o que sou!” – repetia para si mesmo, exaltando os defeitos que considerava não mais do que qualidades exacerbadas. Construíra-se nas duras críticas. E agora, como evadir-se?
- Foi aí que apareceu aquela cigana.
- Que cigana?!?! - perguntaram os sábios em uníssono.
- Uma mulher que vestia uma saia florida e falava de coisas que acontecem do lado de cá. Ela não parecia saber muita coisa, mas que tinha uma certa idéia, a lá isso tinha – respondeu o escriba satisfeito por ter algo a oferecer que não fosse assim tão... demasiadamente humano.
- Observemos, então – aquietaram-se os sábios para prestar atenção nos fatos que o escriba minuciosamente narrava.
Ele estava tentando manter-se em forma e prometera-se, pela milésima vez, que se empenharia em caminhadas saudáveis para compensar os excessos. E era sempre tão compensador o esforço das caminhadas à luz do dia depois das noites tortas. E de repente aquela mulher apareceu, correndo pela calçada onde ele estava sentado, em um banquinho de plástico branco, em frente a uma Kombi, tomando a água de coco que o misto de vendedor e psicanalista lhe oferecia todas vez que ele aparecia por lá. Não era exclusividade dele, é bem verdade, mas ela gostava de pensar-se merecedor de uma certa exclusividade. Mas a verdade é que a saia florida daquela mulher foi que lhe chamou a atenção.
- Ei! Quer que eu leia a sua mão? – disse ela, logo parecendo mudar de idéia e completando com outra solução – Me dê a mão e vamos por aí para ver o Sol! Mas se quiser, também posso ler sua mão - insistiu no que era verdadeiramente sua vontade. Como as mulheres tã facilmente abrem mão de suas vontades...
— Guarde seus palpites - disse um dos sábios apenas para não perder sua fala pontual, pois já estava começando a interessar-se pelo assunto - Adiante, adiante.
Ela trazia uma espécie de embornal onde guardava ouro e latão em meio a um monte de penduricalhos que ressoavam quando ela tentava achar algo que pudesse oferecer a ele. E falava, falava, falava. Saíram andando pela calçada e pelas ruas como se não estivessem exatamente ali. E ela insistiu que ele lhe desse a mão.
Não, ele não queria se expor a tal ponto. Oferecera-lhe um mapa astral completamente pronto, contara-lhe segredos indizíveis. Tudo, menos o que guardava sua mão.
- Veja se não é o que digo! Nem ao menos se deu a chance de saber se é possível construir uma história para além das linhas da própria mão! – disse um dos sábios, ao que o escriba retrucou: Calma, sábio senhor! A precipitação não é instrumento de pesquisa validada pela congregação. E seguiu sua narrativa:
Ele não abrira a mão, embora oferecesse tudo o que estava em torno de si. Dava-se sem efetivamente se dar. Seria o medo? Seria a noção ingênua da liberdade? Não sabia a resposta, mas deixava-se infiltrar lentamente por outras possibilidades, coisas ainda não totalmente conhecidas, mas coisas discretamente sonhadas. Estaria aí a essência da liberdade?
Aquela mulher parecia ter a língua molhada em pó de ouro. Ela não viu sua mão, mas deixou que ele visse um mundo de quinquilharias que trazia no embornal. Quem era ela e o que fazia ali na história da vida dele?
- Atenha-se aos fatos! – interferiu um dos sábios que perdia sempre o fio da história por seu hábito incontrolável de cochilar – não nos interessa a vida da cigana ou seja lá o que esta mulher for. Atenha-se aos fatos! - completou ele com o que ainda conseguira reter do pouco que ouvira dizer.
- Mas senhor, as mulheres desempenham papel fundamental na vida dos humanos, mesmo daqueles ...demasiadamente humanos. Por que não conhecê-la um pouco mais? Quem sabe... – não conseguiu terminar a frase, interrompido que fora pela fúria em bloco dos seis sábios.
- Atenha-se aos fatos!!!!!!

Universos paralelos

Olá, queridos e sempre pacientes leitores! Voltei de uma viagem extremamente comum, onde o universo se embaralhou e me levou para o lugar certo... sim, porque o universo nunca erra. Mas poderia ter sido mais perto - do outro lado da baía - ou mais longe, na Califórnia. Mas foi lá, em BH. Publico aí ao lado a primeira foto só para ilustrar o que digo, passagem boba das minhas inevitáveis bobagens. Mas trouxe outras coisas pra contar, que não conto agora porque tenho factuais para comentar. De passagem apenas, porque de futebol só entendo do que o Botafogo faz ou desfaz, embora até já comece a conhecer o time para além das pernas. Sei quem é o tal do Emerson, o que só faz gols contra; e o Maicosuel, aquela figura que a cada jogo vai conquistando a chance de se superar e de superar o nome bobo que lhe deu o seu Rebit lá em Cosmópolis, no Paraná, naquele ano em que os raios das chances e oportunidades andavam caindo sobre o mundo.

Ao dizer isso, construo o gancho para falar do que realmente me interessa, já que esse empate entre Botafogo e Flamengo requer o adiamento da conversa para o domingo que vem. Quero mesmo é falar do Ronaldo, o Gordo, o Traveco, o sei-lá-mais-o-quê que andou rolando na imprensa esportiva e de cadernos de fofoca dos jornalões que constroem os destinos dos agraciados pelos raios que caem no mundo. É... o Ronaldo foi um agraciado, lá em um lugar do subúrbio onde as autoridades jamais pensaram em chegar e que ainda hoje não chegam, apesar do raios que caíram por lá. É bem verdade que alguns raios são daqueles que os antigos diziam "raios que os partam", mas que não podemos negar que fazem sucesso incontestável por aí, a Xuxa, por exemplo...ai! Mas de lá desse lugar chamado Bento Ribeiro, subúrbio da Central do Brasil logo depois de Madureira e antes da estação de Marechal Hermes, veio Ronaldo, o Fenômeno. Pois é... fenômeno foi invenção da imprensa, porque ele era apenas um cara, como o Adriano. Só que Ronaldo foi ficando por lá naquele jardim confortável da fama, driblando a vida que inventaram pra ele e fazendo merda porque ninguém nesse mundo é exatamente perfeito. Pois bem, amados leitores, o Ronaldo deu um show de bola hoje na Vila Belmiro, com a camisa do Corinthians, o Flamengo dos paulistas. Marcou dois em seu melhor estilo e deixou o time com a taça na mão - vai moleque, herói da parada!!!!!! Pois é, né? Depois daquele vexame nas previsões sobre a reeleição do Lula, a imprensa só tem dado bola fora. Talvez fosse a hora de deixar de lado a pretensão de de ser pitonisa, contentando-se apenas em contar histórias. E já que nada mais há a comemorar nesta terra de São Sebastião, viva Ronaldo, o paulista!!!!!!!
Mas se quiserem mesmo falar de futebol, passem lá no blog do Veríssimo, que deve rolar alguma coisa mais tecnicamente adequada : www.hsempreoqueserditooumnostradoouno.blogspot.com.

Quero ainda saudar a presença de uma leitora que não conheço, mas que se dispos a seguir minhas bobagens e fez isso publicamente, para a alegria desta que vos escreve. É... isso mesmo! Está lá no pé da página, onde se reunem os "seguidores" do blog, com foto e tudo. O outro, ao lado dela, é o Veríssimo, a quem já agraciei com todas as honras do blog e de quem recomendo o blog aí encima. Seja bem vinda, Márcia. Espero que se alegre com minhas histórias, se nada mais de útil houver. E quanto a ser última ou primeira, na descrição que faz de si mesma, tenho algo a ofertar, da minha caixa de penduricalhos, para lhe dar as boas vindas: saiba que o universo é rotundo, e assim nunca haverá primeiros e nem últimos. Todos estamos apenas juntos, igualmente, compartilhando o mesmo lugar. Divirta-se neste blog que fala de tudo, mas que sobretudo fala de qualquer coisa. Obrigada pela sua presença.
Hanna

21 abril 2009

Um comentário que merece virar postagem

A postagem que mereceu este elegante comentário é aquela do Adriano, que abandonou o Inter de Milão. A postagem já está em arquivo. Mas leiam o texto abaixo, que remonta uma das histórias mais inusitadas do futebol para além de nossas fronteiras físicas, mas muito próxima das nossas bordas emocionais.

O texto é de Anselmo Veríssimo.

Arthur da Távola, escreveu: "Ninguém sabe aquilo que nunca sentiu..."

Como jogador de futebol, técnicamente, tenho minhas restrições ao "Imperador". Mas, como não entender essa decisão? O turbilhão de notícias macabras e pouco inteligentes não nos dá essa possibilidade. Então, vem a Hanna e mostra.

Essa decisão do Adriano deveria servir para que todos aqueles que trabalham com os fatos vinculados ao esporte se encaixem. Algo do tipo: será que não somos nós os responsáveis...? Como incomodamos as celebridades...

Eu (e quem sou eu...) prefiro a informação edificante. Aquela que traz a emoção dos mortais, da gente. O Adriano não vai mais ajudar a vender jornais com seus golaços. Parece que isso incomoda muito. Menos um craque (?) na mídia?

Talvez! Mais um ser humano que volta pra terra. Que fique bem, entre nós.

O futebol deu ao jogador o que ele precisava: o BASTANTE (o que basta). A vida, agora cobra ao homem o que ele necessita. É simples assim. A droga que ele pretende consumir, por uns poucos instantes, é a chama da infância perdida em campos de treinamentos pesados, para ser um atleta de alto rendimento; o colo da mãe e do pai, que foi trocado por infinitas horas de concentação e poltronas de aeronaves. O dinheiro? É!!! o dinheiro...E daí? Não devolve aquele tempo de colo que faltou.

"...meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado. Quando penso no futuro, não esqueço o meu passado...desilusão...". A música do Paulinho da Viola pode dar uma pincelada nas imagens turvas que esses rapazes de redação, que nunca jogaram uma bela de uma pelada num campinho de terra batida, pensam ter da vida. Se é que pensam...

Boa, Hanna! Golaço...

Obrigada, Veríssimo!

H.

20 abril 2009

Ninguém pode reinventar a própria história. Deve ser por isso que eu escrevo...

19 abril 2009

Querida meia dúzia de três ou quatro leitores, acostumados à idéia de que qualquer coisa vale a pena se a paciência não é pequena: tenho algo a oferecer. Principalmente àqueles que reclamam a volta às bobagens quando me meto a dialogar com jornalismos. Pois bem, agora é bobagem com categoria - categoria de novela, conto longo, romance, ficção. Se em nada disso o esforço se encaixar, podem colocar na conta da mentira mal contada, que disso não me importo. Vocês sabem que considero que o mais importante é contar, keep in touch. Então o destino me fez encontrar com o fio da história que lhes vou contar. Sim, a história tem fonte original e verdadeira, embora os fatos sejam completamente inventados. Qualquer semelhança com a realidade de quem quer que seja é tudo, menos má intenção, intriga, maledicência, porque vocês que me conhecem sabem que não sou dada a torpezas de espírito. Ponham também na conta dos delizes de texto. Nossa... como estou distribuindo a conta! Puro medo do fracasso! Mas como ia eu dizendo, trata-se de uma história dividida em uns tantos episódios, que vou postando a cada domingo. Já sei o que vão perguntar os amados bisbilhoteiros de plantão de final de semana: mas quem é a fonte? Antecipo-me a esclarecer: alguém que existe e que acabou de me autorizar o desague, o transbordo, a exurrada de ser ver pelos olhos alheios. Alguém que passo agora a amar, para poder contar com generosidade a sua vida que vou inventar. Amor intenso e profundo, quase eterno, como se jamais tivesse amado em todas as tolas histórias da vida. Não há laços, compromisso algum, e o amor é pura retórica. Aliás, estamos inaugurando a liberdade, a qual nenhum de nós efetivamente está acostumado. Chances de desastres é a possibilidade do efeito colateral da vontade de escrever uma boa história. Portanto, tudo certo. O resto são fantasias de quem veio ao mundo apenas para amar.... ou para fantasiar e escrever histórias, tanto faz.

Episódio UM

A notícia não era nova, mas parecia cair como uma bomba, todos os dias, na mesa de trabalho daquele homem sóbrio, sério e tão ciente das suas medidas. O mais sólido dos mundos parecia desmanchar-se no ar. Naquela tarde, ele registrou entre milhares de números o de um amigo que o trouxera para aquele lugar. Consolava-o saber que o amigo conseguira uma razoável estabilidade financeira e que a compulsória demissão voluntária não seria assim tão desastrosa.
Aquele lugar lhe fora ofertado de mãos quase beijadas, quando decidiu abdicar do sonho juvenil de ser um atleta profissional bem no momento em que o sonho já se tornava quase real. O Sol brilhava na sua vida, mas não considerava que um sonho pudesse realizar a noção plena do que entendia como realização profissional. O que era, na prática, a realização profissional ele ainda sequer podia imaginar.
Mas o que são os sonhos? De que são feitos? Para que servem? Onde me levarão? Eram questões demais para quem necessitava apenas de respostas. Naquele momento, apenas respostas. Mas de uma coisa, embora não tivesse certeza, certamente tinha medo: não poderia bancar seus próprios desejos, não daquela maneira como se apresentavam, assim tão exclusivamente seus. Era preciso, de alguma forma, devolver ao pai a felicidade que ele perdera em algum canto da vida. Dignidade e estudo - eram essas as palavras que indicavam a trilha por onde deveria seguir. E isso não tinha nada a ver com a fama e o reconhecimento público que tantas vezes imaginou ao receber alguns trocados por vencer umas partidas de futebol em pequenos clubes da cidade. O espaço do sonho era largo – fama, reconhecimento, aplausos, ser a referência. Mas ainda eram muito vivas as impressões de uma vida que lhe deixou sempre em falta. Carregava como fardo leve a imagem do pai que tanto amava. Era preciso compensá-lo da dor que era só dele, com o que pudesse oferecer em sacrifício do que fosse só seu.
Nunca se dera conta de que abdicara de algo importante ou que fosse realmente seu. Nunca se dera conta de que trocava a essência de seu ser pela fantasmagoria de apenas uma imagem ideal. Não tinha muito a oferecer, além do sonho juvenil. Depositou o sacrifício no altar da ingenuidade e tomou para si, em troca, o orgulho. Em lugar do reconhecimento, o orgulho que ele sorveu de apenas um gole, quando entrou para aquela empresa em posição de funcionário público. Era apenas um menino e já tinha a garantia de emprego, salário digno. Tudo o mais se apagou. Precisava agora estudar para completar a tarefa; e fez isso apenas para portar um título que jamais usaria. Mas cumpriu o que considerava seu dever.
E agora, tarefa quase cumprida, a história reabre e desfaz o que ele fez. A empresa fora privatizada há doze anos, mas ele não considerou que os seus projetos enquadrados estivessem aí envolvidos. Na verdade, acostumara-se à linearidade da realidade acomodada. Aprendera a trocar as emoções pelos deveres e necessidades. A figura paterna ocupava todos os espaços; ao mesmo tempo, urdia todas as contradições. Deixou de lado os sentimentos – era melhor não sentir coisa alguma do que ter um mal sentimento que ferisse a lógica dos amores consagrados. Na verdade, ele não conseguia olhar para dentro de si, confrontar-se com seus sentimentos. Talvez ainda não tivesse a noção de que amar é diferente de sofrer; ou talvez tenha acolhido em si o que considerou ter sido a desdita de seu pai.
Aos trinta anos, deixou que escrevessem com as tais mãos beijadas mais um capítulo de sua história. Mas as compensações lhe pareciam maiores que os sacrifícios desta vez – uma mulher bonita, atraente, corpo perfeito. Mal a conhecia para além dos atributos quando abrigou-a em sua casa depois de um incidente. E lá ela ficou, com seus dois filhos, por 18 anos. Casou-se sem que tivesse planejado. E planejou o resto da vida como se tivesse escolhido ser assim. Construiu uma bela casa, criou os filhos como se fossem seus, criou cães, trabalhou e cumpriu com dignidade e honradez o seu papel. Os sentimentos não pareciam ser necessários, diante de tanta responsabilidade e seriedade.
E agora, aos poucos, ele vai ficando nu, despido das roupas que lhe vestiram. A última e mais importante das peças, chapéu nobre, está prestes a cair. Hora de limpar os armários, ele diz, comprar roupas novas. Vida nova! Quanto de sacrifício ele estará disposto a empenhar desta vez?

18 abril 2009

Conversinha fiada

A insistência é uma espécie de equívoco de direção. Se é preciso insistir, é porque há resistência do que vem de lá. É como estar com o nariz encostado na parede, tentando atravessar, sem se dar conta de que a saída é para o outro lado, para o lado de lá!!!! Insistência é resíduo da teimosia. Os teimosos são conquistadores, interessantes, decididos, sabem o que querem; mas os insistentes são apenas equivocados, meio míopes, com os pés virados para as costas. Só andam para o lado errado. A insistência é prima irmã do desastre. E o pior é que apesar de primos em primeiro grau, não se dão e jamais se entenderam; se apontam mutuamente como os culpados da situação, acusam-se entre si e choram cada um para seu lado. Nem solidários são! Resíduo de teimosia é como lixo contaminado de usina nuclear: o que sobra daquela energia que ilumina tudo (a teimosia é meio assim), pode matar sem piedade (a insistência às vezes é meio assim). O universo não leva em conta a insistência, porque tudo está corretamente em seu lugar e assim seguirá sendo - nem adianta insistir. A realidade não consegue se abaixar tanto para ouvir a voz pequena da miúda e residual insistência. Mesmo que a insistência consiga imprimir alguma marca nos fatos, serão marcas irrelevantes, que se apagam facilmente, perdurando apenas no esforço inútil do insistente. A realidade é harmônica, em paz, muito melhor do que supõe nossa insistente fantasia.
É como diz o ditado: "Deus só nos castiga quando nos faz a vontade".
E a todos um final de semana de muita paz.
Hanna.

17 abril 2009

Eu estava escrevendo uma história baseada no mapa astral do personagem principal. Mas de repente o mapa sumiu. Não sei onde foi parar. A história parou. Não sei como continuar, mas pode ser que dia desses eu resolva inventar um novo enredo; completar por minha conta e risco. Histórias são assim: elas começam e depois a gente inventa o final que vamos contar pra todo mundo. As histórias inventadas são sempre melhores do que as histórias reais. Um dia eu conto, prometo.
H.

"A minha próxima vida", de Wood Allen

Na minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente. Começar morto para despachar logo esse assunto. Depois acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa. Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia. Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades. Aí viro um bebê inocente até nascer. Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto a disposição e espaço maior dia a dia, e depois - Voilà! - desapareço num orgasmo.

Bonitinho, né? A cara do Wood Allen...rsrsr. Obrigada pela colaboração, Max!