O escriba sentia, naquele encontro etéreo com a mulher adormecida, algo que ele imaginava aproximar-se do amor, mas que em sua ausência de conhecimentos ele entendia como compaixão - uma vontade mágica de parar o tempo e ficar ali, fosse como fosse, contanto que fosse para sempre. Os pensamentos dela chegavam a ele com a mesma facilidade com que as energias dela chegavam àquele homem, que agora ocupava quase todos os pensamentos dela.
"Por que dormes há tanto tempo?" — queria saber o escriba em diálogos etéreos que alcançavam o mais profundo do coração da mulher.
"Mas o que sabes da vida, mulher, já não lhe é suficiente para acordar e seguir adiante? Não percebes que a felicidade é feita de coisas muito simples, e acontece um pouquinho de cada vez? Não há porque se demorar no desejo de prolongamento, se o desejo é uma fantasia, e a felicidade é feita de pequenos pedacinhos."
Os pensamentos dela relutavam em respostas plenas às intervenções do escriba — ele que se valia das memórias de lições aprendidas ao longo de tantas observações, sem que lhe fosse possível ter vivido a experiência.
"Mas veja, doce cigana, a felicidade permeia tudo o que vive neste plano. Olhe em volta, no seu entorno, em todas as coisas! Liberte seu pensamento, para que você possa ver! A felicidade não é mais que apenas isso..."
"Sim, eu sei que não sei quase nada, que para se saber é preciso viver...." — justificava-se entristecido o escriba, já pensando que tudo o que tinha para dizer eram apenas frases estanques que ouvira dos sábios. Desconfiava até mesmo dos sábios, que jamais viveram o que diziam saber.
"Vou lhe contar uma história que ouvi de um dos sábios a quem servi. Não me lembro bem quanto tempo faz isso e qual era exatamente o nome dele, pois que são mesmo todos iguais. Mas a história fala de um deus adorado em seu pobre plano. A ele foi erigido um templo em um lugar que, se bem me lembro, chama-se Delfos. Era um lugar aprazível, com um longo vale estendendo-se entre as montanhas e o azul esverdeado do Golfo de Corinto - um lugar que pela beleza podia-se mesmo pensar que era sagrado. Pois bem: o deus, chamado Apolo, aconselhava o povo em comunicações que eram recebidas por sacerdotisas. A Grécia, que era onde tudo isso se dava, vivia um momento de poderosa expansão em todos os sentidos. Os deuses moviam seus ventos a uma velocidade tamanha, que nada mais era estável naquele lugar. Foi uma época de crescimento vital - mudanças políticas, psicológicas, estéticas... mas também espirituais. A antiga estabilidade e a ordem da família desmoronavam. Em breve, o indivíduo seria responsável por si mesmo. Esta nova ordem era uma imposição dos tempos, construída, eu ouso dizer, pelas decisões dos próprios viventes. De qualquer forma, eram irrecorríveis, quisessem eles ou não. A verdade é que não conseguiriam suportar tamanho caos, se não fosse a intervenção divina de Apolo. Apolo era o deus da forma, da razão, da lógica que estava ruindo junto como tudo o mais. Era também o deus da luz - não apenas da luz do Sol, mas da luz da mente, da inspiração, da cura e do bem estar."
Neste momento, a cigana adormecida que ressonava atentamente à história que o escriba lhe contava, reagiu com impaciente curiosidade.
"Não, adorável cigana. Não estou, com isso, querendo dizer que estejas doente, a carecer da cura que vem de Apolo. Muito embora já tenha ouvido muitos dos sábios referirem-se a este sentimento como uma espécie de surto. Mas deixe-me terminar a história, porque já preciso partir — pediu ele como quem espera como resposta a solicitação de que ali ficasse por mais , muito mais tempo.
"Era então Apolo o deus conselheiro, o deus da inspiração que orientava os homens em um período intenso e vital, onde se dava a formação do povo. Até hoje, lê-se nas ruínas da entrada do templo a ele dedicado: "conhece-te a ti mesmo". Este era o conselho vital que até hoje orienta a cura do espírito humano. Os gregos, então, durante a peregrinação ao templo de Apolo, para saber respostas às suas angústias, concentravam-se nos seus próprios desejos e necessidades. Dessa forma, participavam da própria realização do desejo. Todo desejo profundo já traz em si a própria realização. Quando chegavam ao templo, muitas vezes já haviam sido contemplados em suas vontades. Pensar e autocriar são inseparáveis! — disse o escriba admirando-se de sua capacidade de deduzir algo tão fundamental —Todas as nossas fantasias projetadas no futuro nos levam para este ou para aquele caminho. Aí então o conselho de Apolo torna-se óbvio!"
Neste momento, a cigana despertou, espreguiçando-se profundamente, como se houvesse dormido um século. Ao acordar, viu-se amavelmente adornada pelos braços daquele homem, que agora dormia. O rosto suave e doce, perfeitamente encaixado ao lado do rosto dela, os corpos quentes e aconchegados, como se tivesse sido sempre assim. Ela voltou a adormecer, para poder ver do alto a cena a tanto tempo desejada. Talvez por isso ela tenha dormido durante tanto tempo... apenas para aguardar que aquele homem voltasse.
— Vejam!!!! Vejam!!! Vejam!!!!! — agitaram-se os sábios, olhando eles mesmos pela janela, já que o escriba, não estando ali, atrasava todos os trabalhos, nada mais lhes restando fazer do que meter a mão na massa. Foi um alvoroço. Espantaram-se com o que viam e que era tão mais humano do normalmente descrevia-lhes o escriba. Não entendiam a cena parada, porque achavam que na vida rude dos humanos tudo era movimento. Olhavam e desolhavam atarantados! E olhavam novamente! E ficaram olhando embevecidos quando um deles se mecheu, fazendo com que um dos seios da mulher se desnudasse.
— Han??????!!!!!! — abismaram-se os seis sábios, pois que até aquele que dormia não resistia a observar por si tamanha humanidade. A mulher sentiu uma leve brisa soprar o seu corpo e aconchegou-se novamente ao corpo daquele homem, que a abraçou, desfazendo a cena antiga e construindo outra que aos sábios, que nada entendiam, parecia uma cena simples de amor.
Enquanto isso, na penumbra da noite que aliás já era dia, o escriba se foi. Ele se foi pensando na história que contara àquela cigana, ao tentar protegê-la daquilo que nem ele mesmo entendia. Talvez apenas não entendesse, assim como aquele homem, pois que certamente sabia o que era amar. Talvez apenas tivesse, como aquele homem, dificuldade de pensar sobre tão difícil assunto, já que fora adestrado por tantos milênios a pensar friamente no que via, a fazer cálculos sobre planos incalculáveis, já que a vida se constrói ao longo da sua própria estrada, à medida que caminhamos. E o escriba percebeu que não era sábio e que não lhe agradava o ofício de descrever para os sábios aquilo que se dava conta de que talvez nem eles jamais viessem a saber. Olhou para baixo e viu os próprios pés, que se alinhavam à beira de um caminho que ainda não havia. Resolveu seguir para o templo de Apolo, na esperança de que viesse a se conhecer a si mesmo ao longo do caminho. Mas antes, olhou ainda mais uma vez para a cena que deixava para trás.
Aquele homem agora dormia e a cigana, desperta, acariciava o braço e o rosto dele. Acreditava no que o escriba lhe dissera, certa de que também eram sábios os escribas. Aproveitava cada segundo daquela cena em que estava aconchegada, já que a felicidade é feita de pequenos cadinhos, se o escriba estava mesmo certo. Embevecia-se no seu cadinho, deixando-se inundar de felicidade. Olhou infinitamente para o rosto adormecido daquele homem e pode ver: ele estava também feliz, repleto de coisas que sempre foram dele, mas que talvez jamais tivesse percebido que possuía. Ela olhou seu embornal e percebeu-o mais vazio; olhou o alforje dele, que estava mais cheio. Talvez tenha estado ali apenas para dar a ele o que a ele sempre pertencera, mas que estava guardado com ela: coragem, paciência, resistência, fé, alegria e o mais brilhante de todos os enfeites que eram dele e ela apenas devolvia - o seu próprio valor. E ela amou aquele homem novo, tão ciente de que era seu o seu próprio valor. O escriba percebeu como se a ouvisse narrar para ele aqueles pesamentos que lhe ocorriam. Mas ele não quis entender, assim como a ela também não importava saber.
O sábios, ainda abismados com o que viam, comoveram-se e entenderam os sentimentos que por tantas vezes abateram o pobre escriba, a quem nem sonhavam que jamais voltariam a ver - como era difícil entender o que fazem os humanos com um sentimento tão frágil como é o amor.
Aquele homem começava a despertar, espreguiçando-se e ao mesmo tempo envolvendo-se no corpo daquela mulher.
— Mais cinco minutinhos... só mais cinco minutinhos — ela suavemente pediu. Ele devolveu os pensamentos ao chão, aconchegou-se novamente a ela e assim ficaram por um tempo que não nos é dado saber. Ficaram assim... felizes... felizes e humanos... demasiadamente humanos.
FIM