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17 maio 2009

Fotos lindas de um céu tão pleno lembraram-me uma música também tão linda...
para um céu tão pleno.

Angústias do céu sobre o que é amar - EPÍLOGO

Amados leitores, chega ao último capítulo a história que ao longo dos sete episódios permaneceu sem título. Os títulos são por demais definidores, uma espécie de espelho da alma de quem escreve. Talvez por isso - pela falta de síntese, verborrágica que sou - chegamos até aqui em uma espécie de discreto silêncio. Arrisco agora uma frase título, tradução de esperanças, de afetos, de possibilidades, de impossibilidades, de histórias longas e tristes, de pequenos contos curtos e felizes: síntese do desejo. Espero que tenham gostado, para que eu me sinta no dever de aprimorar a prática que pode compensar a falta de talento.
A todos um domingo de muito amor.

H.

Angústias do céu sobre o que é amar

O escriba sentia, naquele encontro etéreo com a mulher adormecida, algo que ele imaginava aproximar-se do amor, mas que em sua ausência de conhecimentos ele entendia como compaixão - uma vontade mágica de parar o tempo e ficar ali, fosse como fosse, contanto que fosse para sempre. Os pensamentos dela chegavam a ele com a mesma facilidade com que as energias dela chegavam àquele homem, que agora ocupava quase todos os pensamentos dela.
"Por que dormes há tanto tempo?" — queria saber o escriba em diálogos etéreos que alcançavam o mais profundo do coração da mulher.
"Mas o que sabes da vida, mulher, já não lhe é suficiente para acordar e seguir adiante? Não percebes que a felicidade é feita de coisas muito simples, e acontece um pouquinho de cada vez? Não há porque se demorar no desejo de prolongamento, se o desejo é uma fantasia, e a felicidade é feita de pequenos pedacinhos."
Os pensamentos dela relutavam em respostas plenas às intervenções do escriba — ele que se valia das memórias de lições aprendidas ao longo de tantas observações, sem que lhe fosse possível ter vivido a experiência.
"Mas veja, doce cigana, a felicidade permeia tudo o que vive neste plano. Olhe em volta, no seu entorno, em todas as coisas! Liberte seu pensamento, para que você possa ver! A felicidade não é mais que apenas isso..."
"Sim, eu sei que não sei quase nada, que para se saber é preciso viver...." — justificava-se entristecido o escriba, já pensando que tudo o que tinha para dizer eram apenas frases estanques que ouvira dos sábios. Desconfiava até mesmo dos sábios, que jamais viveram o que diziam saber.
"Vou lhe contar uma história que ouvi de um dos sábios a quem servi. Não me lembro bem quanto tempo faz isso e qual era exatamente o nome dele, pois que são mesmo todos iguais. Mas a história fala de um deus adorado em seu pobre plano. A ele foi erigido um templo em um lugar que, se bem me lembro, chama-se Delfos. Era um lugar aprazível, com um longo vale estendendo-se entre as montanhas e o azul esverdeado do Golfo de Corinto - um lugar que pela beleza podia-se mesmo pensar que era sagrado. Pois bem: o deus, chamado Apolo, aconselhava o povo em comunicações que eram recebidas por sacerdotisas. A Grécia, que era onde tudo isso se dava, vivia um momento de poderosa expansão em todos os sentidos. Os deuses moviam seus ventos a uma velocidade tamanha, que nada mais era estável naquele lugar. Foi uma época de crescimento vital - mudanças políticas, psicológicas, estéticas... mas também espirituais. A antiga estabilidade e a ordem da família desmoronavam. Em breve, o indivíduo seria responsável por si mesmo. Esta nova ordem era uma imposição dos tempos, construída, eu ouso dizer, pelas decisões dos próprios viventes. De qualquer forma, eram irrecorríveis, quisessem eles ou não. A verdade é que não conseguiriam suportar tamanho caos, se não fosse a intervenção divina de Apolo. Apolo era o deus da forma, da razão, da lógica que estava ruindo junto como tudo o mais. Era também o deus da luz - não apenas da luz do Sol, mas da luz da mente, da inspiração, da cura e do bem estar."
Neste momento, a cigana adormecida que ressonava atentamente à história que o escriba lhe contava, reagiu com impaciente curiosidade.
"Não, adorável cigana. Não estou, com isso, querendo dizer que estejas doente, a carecer da cura que vem de Apolo. Muito embora já tenha ouvido muitos dos sábios referirem-se a este sentimento como uma espécie de surto. Mas deixe-me terminar a história, porque já preciso partir — pediu ele como quem espera como resposta a solicitação de que ali ficasse por mais , muito mais tempo.
"Era então Apolo o deus conselheiro, o deus da inspiração que orientava os homens em um período intenso e vital, onde se dava a formação do povo. Até hoje, lê-se nas ruínas da entrada do templo a ele dedicado: "conhece-te a ti mesmo". Este era o conselho vital que até hoje orienta a cura do espírito humano. Os gregos, então, durante a peregrinação ao templo de Apolo, para saber respostas às suas angústias, concentravam-se nos seus próprios desejos e necessidades. Dessa forma, participavam da própria realização do desejo. Todo desejo profundo já traz em si a própria realização. Quando chegavam ao templo, muitas vezes já haviam sido contemplados em suas vontades. Pensar e autocriar são inseparáveis! — disse o escriba admirando-se de sua capacidade de deduzir algo tão fundamental —Todas as nossas fantasias projetadas no futuro nos levam para este ou para aquele caminho. Aí então o conselho de Apolo torna-se óbvio!"
Neste momento, a cigana despertou, espreguiçando-se profundamente, como se houvesse dormido um século. Ao acordar, viu-se amavelmente adornada pelos braços daquele homem, que agora dormia. O rosto suave e doce, perfeitamente encaixado ao lado do rosto dela, os corpos quentes e aconchegados, como se tivesse sido sempre assim. Ela voltou a adormecer, para poder ver do alto a cena a tanto tempo desejada. Talvez por isso ela tenha dormido durante tanto tempo... apenas para aguardar que aquele homem voltasse.
— Vejam!!!! Vejam!!! Vejam!!!!! — agitaram-se os sábios, olhando eles mesmos pela janela, já que o escriba, não estando ali, atrasava todos os trabalhos, nada mais lhes restando fazer do que meter a mão na massa. Foi um alvoroço. Espantaram-se com o que viam e que era tão mais humano do normalmente descrevia-lhes o escriba. Não entendiam a cena parada, porque achavam que na vida rude dos humanos tudo era movimento. Olhavam e desolhavam atarantados! E olhavam novamente! E ficaram olhando embevecidos quando um deles se mecheu, fazendo com que um dos seios da mulher se desnudasse.
— Han??????!!!!!! — abismaram-se os seis sábios, pois que até aquele que dormia não resistia a observar por si tamanha humanidade. A mulher sentiu uma leve brisa soprar o seu corpo e aconchegou-se novamente ao corpo daquele homem, que a abraçou, desfazendo a cena antiga e construindo outra que aos sábios, que nada entendiam, parecia uma cena simples de amor.
Enquanto isso, na penumbra da noite que aliás já era dia, o escriba se foi. Ele se foi pensando na história que contara àquela cigana, ao tentar protegê-la daquilo que nem ele mesmo entendia. Talvez apenas não entendesse, assim como aquele homem, pois que certamente sabia o que era amar. Talvez apenas tivesse, como aquele homem, dificuldade de pensar sobre tão difícil assunto, já que fora adestrado por tantos milênios a pensar friamente no que via, a fazer cálculos sobre planos incalculáveis, já que a vida se constrói ao longo da sua própria estrada, à medida que caminhamos. E o escriba percebeu que não era sábio e que não lhe agradava o ofício de descrever para os sábios aquilo que se dava conta de que talvez nem eles jamais viessem a saber. Olhou para baixo e viu os próprios pés, que se alinhavam à beira de um caminho que ainda não havia. Resolveu seguir para o templo de Apolo, na esperança de que viesse a se conhecer a si mesmo ao longo do caminho. Mas antes, olhou ainda mais uma vez para a cena que deixava para trás.
Aquele homem agora dormia e a cigana, desperta, acariciava o braço e o rosto dele. Acreditava no que o escriba lhe dissera, certa de que também eram sábios os escribas. Aproveitava cada segundo daquela cena em que estava aconchegada, já que a felicidade é feita de pequenos cadinhos, se o escriba estava mesmo certo. Embevecia-se no seu cadinho, deixando-se inundar de felicidade. Olhou infinitamente para o rosto adormecido daquele homem e pode ver: ele estava também feliz, repleto de coisas que sempre foram dele, mas que talvez jamais tivesse percebido que possuía. Ela olhou seu embornal e percebeu-o mais vazio; olhou o alforje dele, que estava mais cheio. Talvez tenha estado ali apenas para dar a ele o que a ele sempre pertencera, mas que estava guardado com ela: coragem, paciência, resistência, fé, alegria e o mais brilhante de todos os enfeites que eram dele e ela apenas devolvia - o seu próprio valor. E ela amou aquele homem novo, tão ciente de que era seu o seu próprio valor. O escriba percebeu como se a ouvisse narrar para ele aqueles pesamentos que lhe ocorriam. Mas ele não quis entender, assim como a ela também não importava saber.
O sábios, ainda abismados com o que viam, comoveram-se e entenderam os sentimentos que por tantas vezes abateram o pobre escriba, a quem nem sonhavam que jamais voltariam a ver - como era difícil entender o que fazem os humanos com um sentimento tão frágil como é o amor.
Aquele homem começava a despertar, espreguiçando-se e ao mesmo tempo envolvendo-se no corpo daquela mulher.
— Mais cinco minutinhos... só mais cinco minutinhos — ela suavemente pediu. Ele devolveu os pensamentos ao chão, aconchegou-se novamente a ela e assim ficaram por um tempo que não nos é dado saber. Ficaram assim... felizes... felizes e humanos... demasiadamente humanos.
FIM



13 maio 2009

Sentem-se à mesa e façam bom proveito

Meus amados e imprescindíveis leitores, ontem almocei em um sebo-restaurante do centro da cidade onde encontrei uma jóia rara do pensamento humano, que pretendo compartilhar aos poucos com vocês. Sim, aos poucos, como quem saboreia um quitute dos deuses. Já passava das quatro da tarde e eu ainda não havia almoçado. Sentia um fome programada, daquelas à qual bastariam um acarajé de esquina, um pudim de leite, uma empada, um pastel de vento com caldo de cana, qualquer coisa para calar o hábito de comer, porque não era exatamente uma fome de comer. Talvez por isso tenha me atraído o restaurante-sebo — ou o sebo-restaurante, já que havia poucas mesas e muitos, muitos livros. Pedi à garçonete um filé de pescada com arroz de brócolis, enquanto já me dirigia para a degustação dos livros. O lugar chama-se Al-Farábi e fica ali pelas imediações do Beco do Telles, Rua do Commercio, por ali. Não havia mais ninguém além de mim e dos funcionários do lugar. O ambiente estava envolto numa música lamentosa na voz de Ibraim Ferrer, que falava de um amor muito amado, cujo título o gentil garçom me trouxe junto com o cardápio: "Quere me mucho". Coloquei o cardápio de lado e abri um livro. Nas primeiras páginas senti um misto de alegria e surpresa, como quem recebe uma singela deferência da providência divina a que constumamos considerar como "coincidência". Sei que muitos de vocês (na hipótese esperançosa de que sejam mesmo muitos!) já estarão esperando impacientes pela referência bibliográfica para prometerem-se verificar em alguma livraria, comprar, folhear e muitas vezes deixar pra lá sem mais abrir. Por isso, meus amados, a referência não vem ao caso; deixemo-la (argh...) para uma postagem final. Mas ofereço um dos trechos que mais me tocou, do que já li. Ao longo da leitura, prometo compartilhar com vocês outros momentos. Mas quero dizer que ao me alegrar com o que lia, passaram-me pela lembrança os rostos de todos os meus queridos amigos, amigas e leitores e o desejo mais sincero de que estivessem ali a compartilhar comigo o almoço regado a surpresa e reflexão. Então vejam:
"A coragem de que falamos não é o oposto do desespero. Muitas vezes teremos de enfrentar o desespero, como tem acontecido a todas as pessoas sensíveis nas últimas décadas. Por isso Kierkegaard e Nietzsche, Camus e Sartre afirmam que a coragem não é a ausência do desespero, mas a capacidade de seguir em frente, apesar do desespero.
A coragem também não é teimosia - sem dúvida teremos de criar com outras pessoas. Contudo, se não expressarmos nossas idéias originais, se não dermos ouvido ao nosso eu interior, estaremos traindo a nós mesmos e à comunidade, por não contribuir para o todo.
A principal característica dessa coragem é originar-se no centro, no interior do nosso eu, pois do contrário nos sentiremos vazios. O "vazio" interior corresponde à apatia exterior; com o correr do tempo, a apatia se transforma em covardia. Portanto, o compromisso em que nos engajamos só é autêntico quando originado no centro do nosso ser. (...)
A coragem não é uma virtude nem um valor entre os valores do indivíduo, como o amor ou a fidelidade. É o alicerce que suporta e torna reais todas as outras virtudes e valores. Sem ela, o amor empalidece e se transforma em dependência. Sem a coragem, a fidelidade é mero conformismo. (...)
A coragem é necessária para que o homem possa ser e vir a ser. Para que o eu seja é preciso afirmá-lo e comprometer-se. Essa é a diferença entre os seres humanos e o resto da natureza. (...) Os seres humanos conseguem valor e dignidade pelas múltiplas decisões que tomam diariamente. Essas decisões exigem coragem. Por isso Paul Tillich diz que a coragem é ontológica - é essencial ao nosso ser."

Espero que tenham gostado e que desejem mais. E embora possa ligeiramente parecer, vou logo avisando: não é livro de auto-ajuda!
Só mais um trechinho, para dar água na boca:

"A intimidade requer coragem, porque o risco é inevitável. Não é possível saber, logo no início, de que forma o relacionamento nos irá afetar. Crescerá, transformando-se em autorrealização, ou nos destruirá? A única coisa certa é que, se nos entregarmos totalmente, para o bem e para o mal, não sairemos ilesos. (...) Em nossa sociedade, é mais fácil compartilhar o corpo do que as fantasias, desejos, aspirações, temores, pois estes são assuntos privados, cuja revelação nos torna mais vulneráveis. Por estranhas razões, envergonhamo-nos de compartilhar o que realmente importa."

Uauuuu!!!!!!!!!
Beijos.
H.

09 maio 2009

EPISÓDIOS V E VI

Era do lado de lá da penumbra da noite, no centro do olhar da lua, que ficavam os sábios a vasculhar os dilemas da humanidade tosca de um plano menor.
Foto: Anselmo Veríssimo

Entre o sonho e a realidade existe um fino véu que por vezes também separa o sono da vigília. Ele acordou e ela permaneceu dormindo. Ele se levantou, vestiu-se, apanhou de volta todos os seus pensamentos e preparou-se para ir. Ela ficou ali, aconchegada em suas próprias fantasias, estranhamente parecendo que ela é quem deveria ir. Ainda em sonho ela o abraçou longamente. Ele não sentiu o abraço, desperto que estava. Seguiram lado a lado, separados pelo fino véu que não os deixava seguir efetivamente juntos. Ela falava das árvores lindas em uma época em que todas estavam florescendo; ele olhava para ela sem conseguir vê-la. Ele mostrou as músicas tristes que o acompanharam até ali; ela não conseguiu ouvir. Beijaram-se na despedida, mas a realidade e o sonho que o fino véu apartava não deixou que se tocassem, instalando estranha distância. Nunca mais se veriam? Ou estariam sempre ali, encontrando-se em planos diferentes quando dormissem e sonhassem?
— Não entendo, nobres sábios, porque a vida se comporta assim — indagou distraidamente o escriba, a quem nada deveria interessar saber. — Como podem os seres buscarem elementos essenciais às sua vidas e os julgarem tão superficialmente nas decisões efetivas do querer? Sempre errarão na busca da felicidade? Sempre terão o julgamento do ego a interferir em suas mais intrínsecas vontades?
Os sábios, tomados de surpresa pela competente interferência do escriba, não souberam como responder. Apelaram então para o sábio que dormia - ele que sempre deitava regras sobre o que quer que fosse, recolhendo palavras e inspiração das profundezas do seu sono.
— Responda, magnífico sábio! Vós que sois de todos nós o que mais se dedica à reflexão! — e ficaram a esperar o que dali viria, para ver ser faria algum mínimo sentido o que o escriba dizia.
— Ora, meus caros sábios. Não precisam se dar ao trabalho de pensar sobre tamanha obviedade, vós que sois contrários a tudo que pareça simplesmente... óbvio.
—Como, óbvio?!!! - perguntaram todos, inclusive o escriba, entreolhando-se como se tivessem perdido alguma parta da conversa.
— Humanos! Não sabem como são? Não sabem como se repetem de maneira monótona suas histórias? Está o homem a aprender o que não lhe foi bastante na vida: viver como os felizes cães sem dono. E à mulher, aquilo que lhe é vocação e martírio: tentar salvar os homens de seus banais destinos!
— Han????!!!! — abismaram-se todos diante de tão sucinta explanação.
— Veja, honorável escriba! Vejam todos o que se passa naquele plano inferior! — apontou o sábio que dormia, desperto como nunca dantes o haviam visto. E com isso pos-se o escriba a observar.
— Não consigo mais vê-los em interação, senhores — disse ele, apertando os olhos para refinar a observação — Já não consigo acompanhar-lhes a história. Vejo apenas a um e a outro, em suas próprias elocubrações.
Mas o escriba, em verdade, via a história daquele homem apenas pelas impressões da cigana. Perdera-o de vista ao observá-la e não queria admitir sua falha ao Conselho de honoráveis sábios. Ademais, pouca diferença faria se contasse a sua própria versão dos fatos ou se narrasse fielmente o que via. Aprendera com o tempo que não existia na história - dos humanos ou dos sábios - o que não fosse apenas versão. E continuou a narrar a saga daquele homem a quem os sábios dedicavam suas sábias observações.
— Pois bem: seguiu o homem para sua vida... hum... demasiadamente humana — prosseguiu o escriba a partir de sua própria intuição — Fora aquele homem ter com sua vida comum de demasias pautadas pela segurança e responsabilidade, da qual aquela cigana definitivamente não fazia parte e à qual ele jamais a convidaria.
— É??????!!!!!! — perguntaram em coro os seis sábios, incluindo o que dormia.
— Sim, senhores — respondeu o escriba com indisfarçável desgosto.
— E... o que... significará isso para... a cigana? — perguntou um dos sábios, tentando inutilmente dissimular o interesse pela banalidade dos fatos; ele que de todos era o que mais acreditava que sabia.
Neste momento preciso o escriba exclamou: Olhem, senhores! Alcançaram-se as mãos! Apesar do véu, alcançaram-se as mãos!
O escriba não conseguia exatamente divisar o que os movera - ele na realidade e ela no sonho — a se darem as mãos, pois que não o via plenamente e ela ainda dormia.
— Sim, certamente é isso! Ele se libertou do medo... ou terá sido empurrado para a coragem? — indagava-se na incerteza da observação, quando lembrou que precisava apenas oferecer dos fatos a sua própria versão — Finalmente chegara a decisão! Estava fora da grande empresa onde escondera-se dos próprios talentos. Sim, ele se lançou à liberdade do querer, mas teve medo e procurou a mão dela... que estava a tanto tempo ali — acrescentou o escriba com uma nota de amargura na voz.
— Vês, meu nobre sábio? — indagou com ar de sarcasmo um dos sábios ao sábio que dormia — Ainda não podemos desacreditar de todo a espécie, por mais que seja humana. Comentário que o sábio que dormia solenemente ignorou, enfurnando-se ainda mais nas pesadas vestes que ora lhe serviam de cobertor, ora de travesseiro, ora de tampões de orelhas para evitar as longas dissertações a que os demais sábios costumavam se entregar.
Mas o escriba ainda não entendia o que vira ocorrer naquele plano abaixo.
— O fino véu que separava os dois humanos parecia se expandir, deturpando-me as observações. E os dois pareciam rodar, rodar, rodar, com as mãos atadas. E quanto mais rodavam, mais pareciam se unir, sem no entanto se tocarem para além das mãos. Ela apenas sonhava e ele, acordado, dizia que estava bem, que a energia dela lhe chegava facilmente. O que seria isso, senhores sábios? — perguntou intrigado o humilde escriba?
— Nada que os zeladores de zoológico não possam explicar — ironizou num resmungo o sábio que dormia, sem que os outros sábios levassem o comentário em consideração.
— É claro, meu nobre escriba, que estamos a testemunhar um momento raro e de exceção para os seres deste plano menor. A troca pura e simples de solidariedade, de amor ao próximo como a si mesmo, de transmutação da energia que pertence ao Universo e é privilégio de todos e de qualquer um e não deve ser confinada aos egoísmos entorpecedores. Não se dão conta, os arrogantes humanos, que o que lhes dói e pesa é o amor que se recusam a dar ou que apenas dão sob condições ideiais de escambo emocional. Sim, este é um momento particular que raramente temos a honra de presenciar. E se não podes divisar corretamente o que vês, caro escriba, é porque seus olhos não estão acostumados ao que não seja apenas e tão-somente humano.
O escriba baixou os olhos e a cabeça, curvando-se perante a sabedoria daquele grande sábio. Quem era ele para contestar, embora tivesse lá sua próprias opiniões. É que a cigana adormecida sonhava, mesmo que fosse apenas um sonho, ela sonhava. O escriba apiedava-se até a última das fibras já envelhecidas de seu humilde coração. E pensava com o que restava de seus despregados botões:
"Como são felizes os humanos quando sonham... "

EPISÓDIO VI
Já se tornara quase impossível visualizar os detalhes do campo de observação a que se dedicavam os sábios. Perderam de vista o foco das pesquisas ao longo das interferências de tantas divagações. Precisavam reorganizar as idéias, reunir os fatos e elaborar uma síntese que desse conta daquela partícula importante da vida dos humanos, que nem eles ao certo sabiam o que significava. Os cinco sábios se recolheram para refletir em conjunto, reunindo-se ao sábio que dormia e que já há tempos estava imerso no processo de reflexão. Deixaram o pobre escriba à deriva de seus próprios pensamentos — ele a quem raro era dado o crédito do pensar. E ele ficou observando o seu principal interesse em todo o enredo que descrevia — a cigana que dormia. E se dispos ao complicado exercício de pensar:
"Por que será que ela não desperta? Onde será que passeia quando sonha? Será que é feliz? Talvez seja esta a única forma de amor possível entre os seres da humanidade — o amor em planos etéreos, protegido dos equívocos com que o interpretam nos planos inferiores. Sim, os humanos se perdem em equívocos e por isso geralmente sofrem. O amor que eles entendem é demasiadamente humano, tem feições à sua própria imagem e semelhança, ou até mesmo à sua simples diferença. Escolhem o amor pela textura da pele, pela altura, pela cor dos cabelos, pelo tom da voz, pela condição social, pelo contorno dos corpos, pela cor dos olhos, pelo formato dos pés, pela massa muscular, pela roupa, pelos objetos... Não é de se admirar que acabe em equívico o que já começa equivocado. Talvez seja por isso que ela dorme... para não perceber que o único amor possível no plano inferior é humano, demasiadamente humano. E segue assim oferecendo um amor adormecido a um ser desperto, vivente, humano."
Enquanto pensava, deu-se conta de que se aproximava cada vez mais daquela mulher que dormia envolta em véus de si mesma. Ele passou a mão suave dos pensamentos por sobre os cabelos que escondiam o rosto dela, sentindo seu leve ressonar. E pensou:
"Talvez tenham razão os sábios. O amor essencial independe de retorno - o tal do escambo a que os sábios se referem. Ele apenas se doa e esvazia a pressão transbordante que aflige o coração. Lembro de um sábio antigo, que ascendeu a planos altíssimos, que insistia em algo a quem ninguém dava crédito à época, mas que ele insistia em pedir para si mesmo: 'fazei, senhor, que eu procure mais amar do que ser amado; consolar do que ser consolado'. Será que é por isso que ela ainda dorme? Saberia ela, se cigana não fosse, despojar-se dos equívocos inerentes à espécie humana? Relevar, calar a voz rude da discórdia, romper as correntes das ilusões banais? Resistir? Sim... o amor no plano dos pobres humanos sustém-se na resistência. Mas quantos se dão ao esforço e acreditam que serão recompensados?
Neste momento, o escriba se deu conta de que faltavam-lhe os elementos conclusivos para consolar a si mesmo da piedade que lhe inspirava a cena que via. E deixou que lá ficasse a cigana que dormia, apartada da vida comum por um fino manto de alegria.






08 maio 2009


Obrigada a todos que estão tentando votar neste humilde blog. Já pedi providências ao Top Blog pra fazer a urna eletrônica funcionar. Não desistam!
Beijos
H.

03 maio 2009

Carla Paes Leme, visitante deste blog, deixou comentário sobre a postagem do vídeo do Chico, onde ele fala do seu processo criativo da música Futuros Amantes. Música singela que fala de amor não correspondido, que fica pairando por milênios até que alguém o venha amar e o faça cumprir sua função de amor. Não sei o que houve, mas o comentário da Carla sumiu e não consegui recuperar! Então publico o texto aqui, por respeito e afeto aos meus imprescindíveis e amados leitores.

"Essa é uma das músicas mais lindas que existem... O amor não se perde nunca... ele vai ser amável sempre... alguém vai amá-lo, vai usá-lo pra amar alguém... mesmo que se passem milênios... Essa, com certeza, é uma das músicas da minha vida! Amo!!!!!!!!!!! "

Obrigada, Carla. Volte sempre!
NÃO DEIXE O AMOR PASSAR
Carlos Drummond de Andrade

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.
Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.
Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente: O Amor.
Por isso, preste atenção nos sinais - não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: O AMOR.

Copiado de um scrap enviado pelo Márcio Rodrigues. Valeu, Márcio!

01 maio 2009

Queridos leitores, seguidores e afins, aproveito o feriado para antecipar dois espisódios da história que não tem nome e que prometi postar apenas aos domingos. Desta vez quebro a periodicidade por antecipação... antes antes do que nunca...rsrs. Tenho também a grata satisfação de comunicar que este nosso humilde blog foi indicado para concorrer ao Prêmio TOP BLOG na categoria Comunicação. Vai ter votação pública por uma espécie de urna virtual a partir do dia 5 de maio, em um selo que aparece aí à direita. Você sabem que não sou dada a esse tipo de coisa, mas por favor....VOTEM EM MIM!!!!!

Hanna, que a todos ama.



EPISÓDIO III

O escriba voltou-se para a janela de onde apurava a vida dos seres que os sábios perscrutavam para encontrar a cura para suas debilidades. Debilidades de toda ordem que os faziam, acima de tudo, tristes. Não cabia ao escriba questionar os métodos de verificação dos sábios, mas desconfiava de que algo poderia estar faltando àquele modo de teorizar sobre a vida. Um olhar novo talvez descobrisse algo novo. Mas os olhos daquele escrevedor de histórias também já não guardavam o entusiasmo das primeiras observações, quando tentava, feito foca, olhar por cima dos ombros dos sábios e entender o que pensavam, contribuindo com algo novo. Acostumado que estava a apenas observar e narrar, já não se importava em oferecer suas impressões filosóficas; contentava-se em contrabandear estilos e piedades, humanizando ainda mais o enredo dos viventes. Os sábios apropriavam-se de suas narrativas para engendrar suas reflexões, pois jamais olhavam pela janela por onde se passava a vida para não turvar suas impressões com as lamurias e doenças daqueles humanos, desmedidamente humanos.

Os sábios tinham todos a mesma feição e vestiam-se rigorosamente iguais, destoando uns dos outros apenas pelo ângulo de observação com que cada um entabulava sua análise e diagnóstico das situações. Mas às vezes até nisso se confundiam. Apenas um deles era facilmente diferenciável, porque dormia, dormia, dormia... e acordava a deitar regras sobre o que ouvira falar só de raspão. E o escriba, após tantos milênios de observação, tentava compor em si uma humanidade que também não entendia; guardava pedaços de sentimentos e de histórias que nunca se completavam ou faziam exato sentido. E naquele momento em que lutou pela inclusão daquela mulher cigana nas observações dos sábios, ele estava começando a experimentar uma das mais tormentosas experiências humanas – a paixão. Mas não sabia o que era exatamente isso e nem como se instalava; se era doença, se era loucura ou um surto que com o tempo se apagava. Não acreditava em boa parte do que os sábios diziam, mas sobre a paixão eles pareciam ter alguma razão. Ele mesmo já testemunhara casos gravíssimos que curaram-se por si mesmos e nem seqüelas deixaram, como se não tivessem existido. Costumavam dizer que seres humanos são biologicamente programados para se sentirem apaixonados durante 18 a 30 meses, tempo suficiente – ou máximo - para que um homem e uma mulher se entendam, se estimem, se suportem, copulem e produzam filhos. Como eram céticos os sábios! Mas neste caso a realidade não contrariava muito a teoria. O escriba achava até que o erro das observações estava apenas no cálculo do tempo de duração do estado de torpor. E insistia em contar o tempo das histórias dos viventes para comprovar sua tese. Mas com o tempo cansou-se disso, além de não ter a habilidade dos sábios para recolher, comparar dados e deitar regras.

Resmungava sobre isso enquanto se preparava para mais uma etapa de sua tarefa, quando o sábio que dormia acordou e pos-se a explicar:

— A ilusão romântica é responsável por essa história tola de paixão, que a química tão rapidamente explica: dopamina, feniletilamina e ocitocina! E até os zeladores de zoológicos sabem que a forma mais rápida e segura de fazer um casal procriar é colocar os dois juntos no mesmo ambiente por uma certa parcela de tempo. Um modo eficiente e desprovido dos riscos e seqüelas dessa doença enigmática que acomete esses humanos. Mas, como humanos não vivem sem demasias e sofrimentos... — disse ele enfurnando-se entre as vestes pesadas para continuara sua “reflexão introspectiva”, como costumava defender seu sono.

O escriba se deu por satisfeito, embora ainda discordasse da questão do tempo de duração dos efeitos da paixão. Mas o que lhe importava isso, se era apenas o escriba. Voltou novamente os olhos para a janela do universo de suas observações. E estava lá a cigana.

— Vamos, vamos criatura! O que espera? — exigiram os sábios que adentraram o recinto atrasados e esbaforidos como sempre. E o escriba pacientemente voltou a olhar, compilar e contar para eles aqueles lapsos de vidas.

Aquele homem e a cigana conversavam como se trocassem segredos ou informações. Falavam de todas as coisas e pareciam felizes assim.

— Hummm – resmungou o sábio que dormia, vaticinado que aquele era o início de um surto de paixão — Quem deles será o mais débil? Não acredito que desta vez a mulher será acometida em primeiro lugar, pois que é uma cigana!

— Ora, senhor sábio, aquela cigana não me parece diferente de qualquer outra mulher... penso até que...

Como “pensa”? O pensamento, aqui, não é uma questão de livre recreação; aquela coisa atormentada que os humanos deixam ficar permanentemente a deslizar no meio do que não existe – ora o passado, ora o futuro, de lá para cá, como um louco que perdeu o rumo – ressoou o sábio pondo fim a seu começo de divagação.

Mas o escriba que colecionava fragmentos de histórias alheias já estava pensando naquela cigana e seria capaz de apostar com todos os seis sábios que era ela quem iria se apaixonar. Mas desta vez não sentiu a habitual pena que o fazia quase humano, mas uma estranha sensação que lhe instigava a querer mudar a cena e evitar que aquela mulher se perdesse de amor por aquele homem. Quantas destas cenas ele já vira. Não... não queria que acontecesse com ela.

— Senhores sábios, por favor me dêem um minuto de atenção. Não podemos sacrificar uns para prover de vantagem outros.

— Do que falas, criatura?!

— Refiro-me aos aspectos da apuração de pesquisa que vossas senhorias estão elaborando. Temos que fazer cair uma folha, abanar um vento... qualquer coisa que altere o enredo que se avizinha.

— E podemos saber por que deveríamos nos imiscuir nos enredos humanos, valoroso escriba? — perguntou um dos sábios com ares de ironia e irritação.

Ele não tinha uma resposta que estivesse à altura do que pretendia evitar, porque nem mesmo sabia o que lhe fazia querer afastar a cigana daquela cena.

EPISÓDIO IV

Neste momento o sábio que dormia acordou:

— Há coisas na vida que não escolhemos, mas apenas são, meu caro escriba. E já que são, por que não olhar nos olhos do inevitável e tentar ver? O que temes é que sofra a tal mulher por um amor não correspondido. Mas amor dessa natureza é inteiro, não se divide, não se dá... até porque não tem pra quem. — disse ele, no que foi contestado em uníssono pelo demais:

— Poupe-nos das obviedades!

Amar sem ser amado pode ser uma das coisas mais tristes da vida. Pode... não quer dizer que deva sempre ser — prosseguiu o sábio que dormia — Quantos amores correspondidos passaram a vida doendo, amando, mas doendo... uma vida longa, mas doendo. Olhar nos olhos do amor sozinho é um ato de sobrevivência a que poucos se arriscam. Mas que surpresa estarrecedora. O amor sozinho é pleno, farto, transbordante. Mergulhar nesse amor é um ato da mais pura coragem. Coisas que talvez somente os loucos alcancem. Amor é coisa de loucos; amor sozinho é mais que isso. É pular o limite do já dado e mergulhar em rio profundo de águas translúcidas que vão dar em todo lugar. É espargir gotas de prata por sobre o possível, o circunstante, o que passar e o que ficar por perto. Andar por aí pleno de um amor inteiro, indiviso, é ato de rebeldia e coragem que a poucos é dado conhecer, meu nobre escriba! Aquele que anda por aí assim tão pleno, ultrapassando o sozinho do amor, ama tanto que atrai para si todo o amor do mundo; encantam, conquistam, se deixam amar e são amados. Os que amam de amor sozinho talvez não saibam como são doces seus abraços, irresistíveis seus beijos, profundos seus olhos, encantadoras suas presenças... mas apenas se não forem tristes por amar sozinhos. Amar é um ato supremo de doação... nem precisa ter troco. Só conhecemos o amor que amamos; não nos é dado sentir o amor que outros nos dão – empolgara-se o sábio que não apenas acordara, mas já se pusera de pé, com as mão levantadas em júbilo e enaltecimento de suas próprias construções retóricas.

Todos se espantaram com tamanha erudição e puseram-se a vasculhar seus pensamentos para acrescentar algo que lhes pudesse incluir na cena. Não poderia o sábio que a quase tudo sonolentamente ignora ter da vida uma idéia mais completa do que os outros que se dedicavam a esmiuçar dela cada segundo. E cada um foi acrescentando suas aspas ao texto alheio.

— A necessidade de dividir o amor e depositá-lo em outro é uma aflição de espírito, uma necessidade de esvaziamento, um desconforto, uma loucura, caro escriba – disse um dos outros sábios. O escriba, nestas circunstâncias de disputas soberanas, tornava-se discípulo, platéia, ouvidor, um quase igual; ganhava uma importância que com o tempo fora descobrindo que não tinha importância alguma.

— O amor sozinho tem como trunfo apenas a desvantagem de não depositar sua infinitude em corações outros. Se for mesmo inevitável, que pelo menos não doam os amores sozinhos. Que se bastem, que transbordem, que sorriam, que sejam felizes por serem preenchidos de tamanha graça e beleza! Os que são amados pelos que amam sozinhos são seres privilegiados. Seja como for, estarão protegidos por uma aura branda; terão seus sonos velados; estarão em preces fecundas que brotam de um vaso cheio. O pensamento amoroso tem força vital. Felizes os que são amados por amores sozinhos. Terão sobre si as asas brancas de uma felicidade que talvez jamais conheçam. Por que temer então pela sorte da tal cigana? – complementou o sábio que parecia buscar recursos outros no lugar para onde ia enquanto dormia. Tinha uma espécie de piedade a pontuar seus arroubos de sabedoria.

Todos os outros cinco sábios silenciaram diante da conclusão. Mas o pobre escriba sentia-se cada vez mais desamparado. Teriam mesmo sabedoria as palavras do sábio que dorme? Perdia-se já em seus pensamentos quando um dos sábios esbravejou, fazendo com que todos voltassem aos seus postos.

— Mas que relevância tem esse assunto para nossos propósitos? Voltemos às observações!

Pois então, senhores sábios, eles apenas conheceram-se brevemente, mas ela faz questão de lembrar que foi ela quem o encontrou, comos e estivesse mesmo a procurar. Não entendo por que diz isso. Ele apenas ri e acha tudo aquilo engraçado. Não acredita em ciganas, mas acredita em mulheres. Ela insiste que ele deve olhar o céu, a lua, as estrelas, o mar. Ele diz que já viu. Mas ela insiste e o faz reconverter o olhar. Os olhos são a janela do espírito, por onde construímos a realidade que nos cerca. Mostrou para ele umas fotografias, dizendo que as havia feito em um lugar muito longe por onde passara antes de chegar ali. Havia árvores, rios, pássaros e um céu absolutamente divino. E ela dizia: “o céu, o rio, a floresta, os pássaros... tudo fui eu quem fiz com meu olhar”. E ele apenas ria. E foi aí que começou a tentar refazer as paisagens da sua própria vida. Encantara-se com o que sempre estivera ali e do que ele nunca havia se apropriado. As cenas estão todas registradas em fotografias que ele mesmo fez. No começo, a mão pendia para a esquerda e as fotos ficavam fora de eixo – e ela brincava com isso. Depois foi-se aprimorando e ele começou a ver tudo com outros olhos. Ela parecia encantada; encantada pelo amor que tinha, dentro daquele mundo de coisas que carregava em si e que oferecia sem reservas e em demasia. Ele apenas aceitava, sem demonstrar o que faria com isso. E foi como diz o sábio: até um zelador de zoológico saberia. Acabaram por se amar, como se amam os humanos... demasiadamente humanos.

Nesta hora, o escriba baixou os olhos e a cabeça pendeu em uma espécie de tristeza e dor. Estava já inoculado pela impressão de paixão que recolhera ao longo de suas longas histórias.

— Preocupa-nos, caro escriba, que tenha deixado de lado o personagem foco de nossas observações para atentar para a tal cigana... — disse um dos sábios, em um tom de voz incomumente moderado, como se entendesse e se apiedasse do pobre escriba, ao que retrucou o outro que dormia:

— Para que buscarmos tantos elementos para entender os homens se já dedicamos a eles uma parte monumental de nossa atenção? Estamos atravessados pela hegemonia do universo masculino. E essa hegemonia é que os fez assim! Cães sem dono que não conseguem ser felizes. Quiseram lhes dar a hegemonia no mundo, ou apenas certificá-los de que esta lhes pertencia por direito e herança divina. O que sabem os deuses que habitam as fantasias humanas sobre os destinos que o mundo real lhes reserva?! – esbravejou de uma forma que não lhe era muito peculiar.

Sofrem hoje seus meninos, as dores de ver seu reinado destruído. E culpam disso as mulheres. Que sabemos nós das demasias dos tempos, das águas que correm pelos rios, das dores que nos desafiam a ser nós mesmos? Mas o fato é que os lugares se deslocaram, e a ruína dos sentidos arraigados começou a se apresentar. E então os homens hoje se interpelam: o que sou eu diante de ti, que sempre fui por ti o que de melhor tivestes? O que sou eu diante de mim que diante de mim nunca precisei perguntar? Que lugares são esses tão ermos e tão estranhos onde estamos agora diante um do outro e onde efetivamente somos? Quem é você e quem sou eu diante da vida que seguiu seu curso e nos trouxe até aqui? Não somos mais o que éramos e não sabemos mais o que ser. Por que ainda não sabemos como ser diante do novo que ainda não nos ensinou a viver. Estrada nova, diante de memória longa onde tudo era dado e conhecido, sem mistérios, sem temor, por mais que sofrido. Agora, é uma espécie de nada onde tudo se iguala. Mas o que fazer da memória retida, onde eu era maior que tu? O que fazer do todo aprendido, onde esperavas por mim? E eu agora que já não sei como chegar a ti? Que destino cruel o que nos ensina a viver! Que destino cruel o que nos desatina para deixar viver. E o que fazemos nós, os que tivemos a facilidade de errar, errar sem ter que aprender? A vida é rude no seu sentido perene. Não apenas para os que estão acostumados à sua regalia, mas também para aqueles que viveram de suas migalhas. O lugar do conforto é apenas o lugar conhecido, não quer dizer que seja bom. Mas tudo muda na vida. Sobrevivem os que sabem amar.

— Honorável sábio, se me permite a indagação, do que falas? — perguntou ironicamente um dos sábios.

— De eterna supremacia dos homens sobre as mulheres, senhor, e do desconforto que sentem diante de mulheres que são donas da própria história, acostumados que estão com seus pseudopoderes – resumiu o escriba, fazendo uma defesa frágil daquela mulher que ele era obrigado a observar e que lhe perturbava os sentidos.

— Mas vamos adiante, já que não podemos interferir — retrucou o escriba enchendo-se de inexistente coragem para continuar a olhar .

— Sim, você pode colapsar outras possibilidades, novas realidades — explicava ela na tentativa de convencê-lo da verdade que, no fundo, ela tanto temia. Sim, você pode decidir o que será. O que será? A intimidade com as perguntas não a protegia do medo das respostas. E ele, semblante suave, parecia saber e guardar o segredo, com um sorriso que indicava que a resposta estava bem ali e era de uma simplicidade tola. Mas ela não conseguia ver; precisava das bruxarias de um xamã para antes poder descrer de suas próprias ilusões. Era uma cigana, mas era também uma mulher. Era esforço inútil tentar transformar-se no que quer que fosse para ser recebida e amada.

— Ao universo não importa como você pensa que a felicidade é; ao universo basta apenas saber que você quer ser feliz! – esbravejou um dos sábios, sendo interrompido por aquele que dormia – Contenha-se, contenha-se! Deixe o escriba prosseguir.

Ela então começou a se mesclar à serenidade dele, aconchegando-se a uma intimidade que se foi desenhando no ar. O pensamento serenou, já não era preciso se inventar. O botões que fechavam as cercas foram cedendo às mãos suaves e firmes que ele estendeu para conduzi-la. As mãos que ela tanto pedira e que eles não pretendia ofertar. O calor da proximidade dos corpos formou uma fina aura de atração e desejo. Era impossível não se entregar. Como a anfitriã de um castelo, ela se curvou ligeiramente e fez as honras da casa, saudando a nobreza do visitante. Ele caminhou seguro e ela o seguiu sorrindo, mesclando o seu ser ao ser que ele era, corpos ardentes e espíritos apacentados. A pele perfumada de sedução adornou a cena com as cores vivas dos afagos, dos beijos e carícias em movimentos intensos, como os de um artista ávido para compor a tela. Ela estava cansada de portar a si mesma e se deixou reinventar.

— Ah, meu prestimoso escriba, neste momento, o universo responde ao desejo de felicidade, plenitude e paz com um fugaz momento de comunhão — acrescentou o sábio que dormia, deixando-se envolver pela narrativa de um pobre escriba que não tinha voto, nem voz e nem vez, mas a quem restara o direito à liberdade de estilo. E concluiu:

— E disso, meu caro, até os zeladores de zoológico sabem!!!