Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
16 outubro 2008
O problema é que estou morrendo de saudades!!!!!
Pois é.... Para quem anda sentindo falta de minhas bobagens, devo dizer que morro de saudades de tudo e de todos - das coisa mais banais às mais insignificantes. Dá pra ver que o nível de exigência está abaixo de zero, né? Mas é fato: morro de saudades daquele sol que sai à francesa e deixa um frio do cacete no ar; daquela praia que aquece e venta, que manda embora no fim da tarde, mas que te atura se quiseres ficar, se tiveres tomado cerveja demais... A concordância do verbo é apenas uma charme de quem se sente abraçado por outro lugar. Sempre me soou mal o "tu vai" do carioca. Mas agora também me soa estranho o "você vai", diante do "tu fostes" do paraense. Como a gente daqui fala bonito... e eles, na verdade, só falam certo. Mas são observações que apenas denunciam minha indecisão entre o rio e o mar - e que rio... mas que mar. É o ônus de ter nascido sob o signo de gêmeos. Valei-me o ascendente em aquário! Mas tristeza me perdoe... estou de malas prontas - como naquela música que ouvi em um amanhecer longíquo, vindo de uma rua do centro da cidade, entrando por uma janela velha de um tempo que já passou. Até porque, agora, estou a caminho do Rio... do meu Rio de Janeiro.
21 setembro 2008
O problema é que...
"Diz uma história que em certa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da platéia e o riso era tão bom, tão profundo e natural que se tornou terapêutico.Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal artista que possuía o dom de eliminar angústias.
Um dia, porém, um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o doutor.
O médico, então, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de todas as dores da alma, de iluminação de todos os cantos escuros do nosso jeito perdido de ser.
O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou: "não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço".
Como professor vejo que, às vezes, sou esse palhaço, alguém que trabalhou para construir os outros e não vê resultado muito claro daquilo que faz.
Tenho a impressão que ensino no vazio (e sei que não estou só nesse sentimento) porque depois de formados, meus ex-alunos parecem que se acostumam rapidamente com aquele mundo de iniqüidades que combatíamos juntos.
Parece que quando meus meninos(as) caem no mercado de trabalho, a única coisa que importa é quanto cada um vai lucrar, não interessando quem vai pagar essa conta e nem se alguém vai ser lesado nesse processo.
Aprenderam rindo, mas não querem passar o riso à frente e nem se comovem com o choro alheio.
Digo isso, até em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades.
Os que passam os outros para trás são heróis e os que protestam são otários, idiotas ou excluídos, é uma total inversão dos valores.
Vejo que alguns professores partilham das mesmas idéias e as defendem em sala de aula e na sala de professores e se vangloriam disso.
Essa idéia vem me assustando cada vez mais, desde que repreendi, numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho, no episódio da guerra das cervejas e quase todos disseram que o cantor estava certo, tontos foram os que confiaram nele.
"O importante professor é que o cara embolsou milhões", disse-me um; outro: "daqui a pouco ninguém lembra mais, no Brasil é assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, só que um pouco mais rico", todos se entreolharam e riram, só eu, bobo que sou, fiquei sem graça.
O pior é quando a gente se dá conta que no Brasil é assim mesmo, o que vale é a lei de Gérson: "O importante é levar vantagem em tudo". ( Lei de Gerson...dá para rir...)
A pergunta é: "É possível, pela lógica, que todo mundo ganhe? Para alguém ganhar é óbvio que alguém tem de perder."
Lógico é guardar o troco recebido a mais no caixa do supermercado; é enrolar a aula fingindo que a matéria está sendo dada; é fingir que a apostila está aberta na matéria dada, mas usá-la como apoio enquanto se joga forca, batalha naval ou jogo da velha; é cortar a fila do cinema ou da entrada do show; é dizer que leu o livro, quando ficou só no resumo ou na conversa com quem leu; é marcar só o gabarito na prova em branco, copiado do vizinho, alegando que fez as contas de cabeça; é comprar na feira uma dúzia de quinze laranjas; é bater num carro parado e sair rápido antes que alguém perceba; é brigar para baixar o preço mínimo das refeições nos restaurantes universitários, para sobrar mais dinheiro para a cerveja da tarde; é arrancar as páginas ou escrever nos livros das bibliotecas públicas; é arrancar placas de trânsito e colocá-las de enfeite no quarto; é trocar o voto por empregos, cargos, pares de sapato ou cestas básicas; é fraudar propaganda política mostrando realizações que nunca foram feitas .
É a lógica da perpetuação da burrice. Quando um país perde, todo mundo perde. E não adianta pensar que logo bateremos no fundo do poço, porque o poço não tem fundo.
Parafraseando Schopenhauer: "Não há nada tão desgraçado na vida da gente que ainda não possa ficar pior".
Se os desonestos brasileiros voassem, nós nunca veríamos o sol. Felizmente há os descontentes, os lutadores, os sonhadores, os que querem manter o sol aceso, brilhando e no alto.
A luz é e sempre foi a metáfora da inteligência. No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o caráter.
Que nas escolas seja tão importante ensinar Literatura, Matemática ou História quanto decência, senso de coletividade, coleguismo e respeito por si e pelos outros.
Acho que o mundo (e, sobretudo, o Brasil) precisa mais de gente honesta do que de literatos, historiadores ou matemáticos.
Ou o Brasil encontra e defende esses valores e abomina Zecas, Gérsons, Dirceus, Dudas e todos os marqueteiros que chamam desonestidades flagrantes de espertezas técnicas, ou o Brasil passa de país do futuro para país do só furo.
De um Presidente da República espera-se mais do que choro e condecoração a garis honestos, espera-se honestidade em forma de trabalho e transparência.
De professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se que mereçam o salário que ganham (pouco ou muito) agindo como quem é honesto.
A honestidade não precisa de propaganda e de homenagens, precisa de exemplos.
Quem plantar joio, jamais colherá trigo.
Quando reflexões assim são feitas cada um de nós se sente o palhaço perdido no palco das ilusões.
A gente se sente vendendo o que não pode viver, não porque não mereça, mas porque não há ambiente para isso.
Quando seria de se esperar uma vaia coletiva pelo tombo, pelo golpe dado na decência, na coerência, na credibilidade, no senso de respeito, vemos a população em coro delirante gritando "bis" e, como todos sabemos, um bis não se despreza.
Então, uma pirueta, duas piruetas, bravo ! bravo !
E vamos todos rindo e afinando o coro do "se eu livrar a minha cara o resto que se dane".
Enquanto isso o Brasil de irmã Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho, de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros heróis anônimos que diminuíram a dor desse país com a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até a porta, vira-se e diz: "Esse é o problema... eu sou o palhaço".
(O autor não assinou)
17 setembro 2008
Grande sertão: veredas
"De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa."
Riobaldo Tatarana
E de saudades por vezes morro, como se de presença nunca tivesse vivido. E como saudade se muita mata, desfio o bordado que de vida fiz para restar apenas o que de presença vale a pena no meio do novelo de ausência infinda tecido.
Hanna, brincando com Guimarães (que audácia!)
Riobaldo Tatarana
E de saudades por vezes morro, como se de presença nunca tivesse vivido. E como saudade se muita mata, desfio o bordado que de vida fiz para restar apenas o que de presença vale a pena no meio do novelo de ausência infinda tecido.
Hanna, brincando com Guimarães (que audácia!)
03 setembro 2008
A grande samaumeira dos índios Ticunas
Lendas desconhecidas de uma terra chamada Brasil
O coração da samaumeira. Depois de algum tempo, Ipi foi até a árvore derrubada para ver se já tinha apodrecido. Mas ela estava viva e tinha começado a brotar de novo. Ipi ouviu batidas de coração e resolveu tirá-lo. E começou a cortar com o machado. Ipi e Yoi disputavam o machado, cada qual querendo a tarefa de tirar o coração da samaumeira. Finalmente um golpe de Yoi fez o coração pular fora. Um calango o engoliu e ele ficou parado na garganta. Ipi encostou um tição na garganta do calango e o coração pulou fora. Mas uma grande borboleta azul engoliu o coração. Ipi queimou a asa da borboleta com o mesmo tição e ela vomitou. Por isso as borboletas azuis de hoje têm manchas na asa. O coração caiu num buraco muito apertado. Yoi então mandou a cotia roer o coração pelo lado direito, trazer o caroço e plantar no terreiro. Passado algum tempo, daí nasceu a árvore de umari.
O mito da grande samaumeira e o de seu coração também estão divulgados em O Livro das Árvores (Benjamin Constant: OGPTB, 1997), um volume escrito e ilustrado pelos professores indígenas ticunas, que trata da importância das árvores na vida e cultura de seu povo. Entre as suas muitas ilustrações, há um desenho da árvore Tchaparane, que produzia terçados. Ela ficava em Cujaru, um lugar perto do rio Jacurapá, e as pessoas iam até lá e esperavam que caíssem no chão.
Fonte: http://www.geocities.com/RainForest/Jungle/6885/mitos/m08arvor.htm
Sobre os ticunas
Os Ticunas constituem, hoje, a maior nação indígena do Brasil com mais de 32 mil pessoas. Eles são encontrados também na Colômbia e no Peru. No Brasil, estão localizados no estado do Amazonas, ao longo do rio Solimões, em terras dos municípios de Benjamin Constant, Tabatinga, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá, Fonte Boa, Anamã e Beruri. Os Ticunas falam uma língua considerada isolada, que não mantém semelhança com nenhuma outra língua indígena. Sua característica principal é o uso de diferentes alturas na voz, peculiaridade que a classifica como uma língua tonal. Os Ticuna estão organizados em clãs, ou "nações", agrupados em metades, que regulam os casamentos. Membros de uma metade devem casar-se com pessoas da metade oposta, e seus filhos herdam o clã do pai. Numa das metades agrupam-se os clãs com nomes de aves: mutum, maguari, arara, japó etc. Na outra metade estão os clãs que possuem nomes de plantas e de animais, como o buriti, jenipapo, avaí, onça, saúva.
01 setembro 2008
Amazônia paraense por uma carioca renitente
erveja Cerpa, que é produzida na região. A travessia do Guamá é feita pelos chamados popopó, pequenas embarcações de madeira com um motor central que sugeriu o apelido dos barcos pelo barulho que faz. A floresta ao longo do Rio reproduz as características do solo amazônico, com um tapete denso de folhas mortas e encharcadas pelas águas que o rio traz na maré alta e pelas chuvas freqüentes. A sensação que se tem ao pisar naquele solo é indescritível - primeiro, o medo de se ferir com algo que possa estar por baixo daquele tapepe fofo; depois, o frescor da água fria envolvendo-nos os pés a cada passo. A 31 agosto 2008
Oiê!!!!!!!
Olá, pessoal!
Depois de longo e necessário silêncio, volto ao blog só pra dizer que estou em sublime encantamento. Atravessei aquele rio em um barco rústico e pisei com os pés descalços no chão molhado da floresta - a parte paraense da floresta amazônica. Fiz centenas de fotos, que ainda estou tirando da máquina para divulgar aqui e compartilhar com vocês. Mas acreditem: a sensação é de plena comunhão com o universo - folhas mortas estofam o chão; ao pisar, a água que o rio trouxe emerge mansa, fresca e limpa a te abraçar os pés. No começo, um certo medo de que algo estranho possa te ferir; depois, a certeza do aconchego e a mágica sensação de que você faz parte de tudo aquilo. O rio, as árvores, as folhas, o vento, os pássaros, o som da floresta, as árvores gigantescas e eu éramos uma coisa só. Por pouco não sou abduzida e fico por lá....rsssss. Mas voltei.
Aguardem as fotos que prometo postar amanhã.
Saudades de todos e de tudo.
Como de sempre, amor.
Depois de longo e necessário silêncio, volto ao blog só pra dizer que estou em sublime encantamento. Atravessei aquele rio em um barco rústico e pisei com os pés descalços no chão molhado da floresta - a parte paraense da floresta amazônica. Fiz centenas de fotos, que ainda estou tirando da máquina para divulgar aqui e compartilhar com vocês. Mas acreditem: a sensação é de plena comunhão com o universo - folhas mortas estofam o chão; ao pisar, a água que o rio trouxe emerge mansa, fresca e limpa a te abraçar os pés. No começo, um certo medo de que algo estranho possa te ferir; depois, a certeza do aconchego e a mágica sensação de que você faz parte de tudo aquilo. O rio, as árvores, as folhas, o vento, os pássaros, o som da floresta, as árvores gigantescas e eu éramos uma coisa só. Por pouco não sou abduzida e fico por lá....rsssss. Mas voltei.
Aguardem as fotos que prometo postar amanhã.
Saudades de todos e de tudo.
Como de sempre, amor.
07 agosto 2008
A floresta é logo ali... e o Caribe é pra lá
31 julho 2008
Como não tinha visto antes?
Era tarde de inverno, mas não fazia frio como nos dias de antes de hoje. Segui pelas ruas de Ipanema cumprindo deveres, fazendo da última sessão de análise uma espécie de plataforma de salto e vôo. Sentia fome, porque o tempo parecia escasso para cumprir tantas obrigações. Parei em uma lanchonete na esquina da Barão da Torre com Vinícius (de Moraes), onde toda poesia aflora. Fiquei ali sozinha, em uma mesa onde qualquer um pode aportar. Não era de restaurante onde mulheres sozinhas poderiam se sentar com uma taxa menor de preconceito. Sentei e fiquei ali, tomando um chope na tarde morna e serena. Deixei-me ficar — abri os sentidos e me deixei sentir, sem querer saber. Era cio de um Rio que perde a mulher que o ama sem que jamais a tenha verdadeiramente amado. Os amores padecem dessas provocações: se perdem em tentação quando vêem esvairem-se seus amores eternos e jamais correspondidos, mesmo que nunca a eles tenha dado atenção. Injustiça cometo ao comparar esse Rio a amores quaisquer. O Rio me amou além da conta ao se me oferecer em paisagem. E agora que vou embora, sinto no ar esse assédio de puro cio — perfumes antes inacessíveis, cores antes empalidecidas pelo descaso do olhar, gentes que passam pelas calçadas portando suas estranhezas, um calor úmido que vem do mar. Ah, meu Rio, por que não te amei mais e antes? Por que não te devorei qual Caetano a Leonardo de Caprio, segundo canta Djavan? Por que nunca levei adiante a vontade de te tocar em um instrumento? E eu agora dessa lanchonete casual descubro que o que tens de melhor são tuas esquinas. Mas quem haveria de querer? Entram velhinhas perfumadas, borracheiros, jovens ligeiros, gente que quer apenas comprar pão, garotas que querem sorvete e riem na expectativa do encontro de amor. Eu estou aqui.. pensando que mal te amei como deveria, como merecerias, como eu queria. Meu Rio. Agora banho-me nas águas da tua saudade; inspiro fundo o teu hálito para reter-te em mim; olho com avidez teus espaços, teus buracos, teus vãos. Olho como quem pede e implora o gozo último de uma paixão displicente, decente, descontente, inocente, de quem não sabe ainda o que é o amor.Rio de Janeiro, como gosto de você.
Três coisas dessa vida
1. Um garoto muito pequeno entra na lanchonete. Ele está sozinho. Todos olham e pensam que ele vai perdir esmolas. Mas ele compra algo e sai. Era apenas um garoto negro.
2. Na mesa em frente, um casal de chineses conversa animadamente. Que universo restrito longe da multidão que lhes é comum, penso eu. Mas o que sei eu de universos e de restrições? Do outro lado da rua, um curso vestibular deixa ver pelas paredes de vidro os funcionários treinados para instruir os jovens a saber como construir limites precisos. E isso tem funcionado a séculos!
3. A tarde estava tão morna que quase podia nos tocar a pele; o cheiro do mar entrava por nossas narinas invadindo todo o corpo. Era uma espécie de volúpia urbana, ou de urbanidade voluptuosa.
2. Na mesa em frente, um casal de chineses conversa animadamente. Que universo restrito longe da multidão que lhes é comum, penso eu. Mas o que sei eu de universos e de restrições? Do outro lado da rua, um curso vestibular deixa ver pelas paredes de vidro os funcionários treinados para instruir os jovens a saber como construir limites precisos. E isso tem funcionado a séculos!
3. A tarde estava tão morna que quase podia nos tocar a pele; o cheiro do mar entrava por nossas narinas invadindo todo o corpo. Era uma espécie de volúpia urbana, ou de urbanidade voluptuosa.
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