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15 março 2010

Tentando poesias

CANTEIROS

Ah, como me encanto com teu canto livre
Como me enlevo quando dizes o que dizes
Ah, se amar é vento, ventania, suspiro
Como quer-te apenas porque existes?

Não, não penses que me pesas em palavras
Quero ouvir, mesmo que mudo, o teu cantar
Se o amor é timbre e em tudo ecoa como sussurro ao vento
Por que não desejar ao menos um só momento
Como uma gema tua vida adornar?

O encanto é mera distração de almas cansadas
Não descreve o instante breve uma só palavra
Querer o indizível é pura audácia, irmã do espanto
Agonia insone de quem sabe as notas, mas não o canto.

Como apagar o texto não escrito?
Como anular o verbo ainda não dito?
Como, por Deus bendito, impedir o pranto?
Como, por todos os anjos, mesmo que aflitos?
Como deixar morrer o não nascido?
Como abortar ao mundo os acalantos?
Como, se ainda nem ao menos existo?

Hanna

14 março 2010

Para o que mais seria?

"Ninguém escreve para si, a não ser que seja um monstro de orgulho. A gente escreve para ser amado, para atrair, para encantar." A frase é de Machado de Assis e a encontrei em um blog chamado A palavra é meu domínio sobre o mundo. Estava buscando saber quem é Laio, além de marido de Jocasta e pai de Édipo, segundo a mitologia grega, e fui parar lá. Não cheguei a saber quem é Laio, o quadragésimo visitante que se registrou hoje como seguidor das bobagens de Hanna neste Sobretudo que vos fala sobre qualquer coisa. Com a frase de Machado de Assis, brindo a presença de Laio e saúdo feliz a sua adesão. Não tenho a pretensão machadiana de encantar, atrair e ser amada, mas tampouco escrevo só para mim. Se de tudo puder oferecer alguma distração ou pensamento útil, já me terá sido suficiente a recompensa pela tarefa empreendida. Seja bem-vindo, Laio. O Sobretudo agradece e espera que goste destas modestas postagens, onde ao menos o carinho e o amor de Hanna são sempre garantidos.
Um beijo!
H.

Sobre as crianças adormecidas em todos nós

"Quando olhamos para uma criança, vemos que o sentido da plenitude, de animação intrínseca, de alegria de ser não resulta de alguma coisa. Há valor em ser apenas o que se é: não decorre do que alguém faz ou deixa de fazer. Está dentro de nós desde o princípio, quando éramos crianças, mas vai devagar se perdendo." Este texto é de um escritor e terapeuta famoso, chamado A. H. Alamaas. Estava como citação nas últimas páginas de um outro livro que hoje acabei de ler. Pensei logo em postar, como contribuição ao deleite de vocês, amados amigos. Quase ao mesmo tempo, lembrei de uma criança que também se chama Hanna, e que me parecia encarnar o mais puro ser "ela mesma", pelas descrições que dela se faziam. Acho que este nome é uma espécie de esconderijo, onde a infância se protege do mundo e fica para sempre rondando nossas adultices. Esta é para você, Hanninha! Que a educação e a cultura não a façam perder-se de si!

Bom domingo!
Porque domingo é coisa de criança!
E se tiver avós no meio, aí então é pra lá de bom...
Amor,
Hanna


13 março 2010

Postagenzinha à toa, pra distrair

Fernando Pessoa

A Montanha Por Achar
A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade

12 março 2010

Dizem que foi Einstein quem escreveu

ENQUANTO HOUVER AMIZADE

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.

Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
****
Bom fim de semana
Com amor,
Hanna

Emaranhamentos e desembaraços

Somos o que somos quando estamos distraídos de nós mesmos. É preciso sensibilidade aguçada para se perceber a sutileza dos detalhes. Se prestarmos atenção, poderemos ter acesso ao ser que se definitivamente é. E é aí que reside a essência do que poderemos vir a amar. É preciso não perder de vista este instante fugaz e revelador, para que não se ame a roupa pelo usuário — a armadura, pelo cavaleiro; a lingerie, pela dama. Todo este cuidado poderá tornar mais fácil encontrar a equação da felicidade, embora não haja garantias. Da mesma forma que a roupa veste o usuário, mas não se confunde com ele, a felicidade veste o amor, mas não são necessariamente um par constante, ou a mesma coisa. Mas ao menos evita-se o risco de se amar gato por lebre * — sapatos, estilos, casacos, sainhas, chapéus, maquiagem, escovas marroquinas, ternos, prestígio, paletós, esmaltes, perfumes, carros, posição, pastas de couro, laptops, mochilas, batons, pela pessoa que se forja dentro de cada um dos modelos de gente que o mundo pinta, oferece e vende. Aprendemos e repetimos sempre que a primeira impressão é a que fica, mas será esta primeira impressão assim tão reveladora? Será mesmo possível ver, por baixo de tantos "panos", quem se verdadeiramente é? Não sei, não. Mas acho que quando nos distraímos de todos estes "nós", acabamos revelando quem somos nós. Por isso é preciso prestar atenção. O resto é conversa para o botequim, ou quiosque, para os que preferem.
A todos, muitos beijos, porque os tenho de sobra!
H.

* Mil perdões aos adoráveis gatos pela infeliz utilização de sua imagem, fruto de um cultura que nos diz que as lebres têm mais valor. Vivemos em uma sociedade que estimula os equívocos, quando se trata de valores. O problema, na verdade, seria amar os gatos e buscá-los na imagem de lebres e vice-versa. Nada contra as diversas espécies, incluindo aí a espécie humana...rsrs.
Hanna, baiana

09 março 2010

Re-tratos

Hoje viajei para longe. Na ida, passeei sobre as nuvens. Bolotas de nuvens... carneirinhos de algodão. Abaixo, bem abaixo, as cidades — a concretude, a realidade e seus edifícios altos. Dormi no caminho, sonhei. Achei o rumo da certeza e acordei. Guardei o mapa no bolso e segui. Pisei no chão de terra vermelha e me vi só. Andei, andei, andei naquele des-lugar. As árvores do cerrado também dão flor. Quantas vezes fui ali e não percebi que as árvores do cerrado dão frutos que se esborracham no chão da cidade e ninguém parece notar. O que estava eu fazendo ali, nem eu parecia notar. O dia foi-se tingindo de açafrão. Voltei por sobre nuvens que já não estavam lá. Dormi e o mapa da certeza escorregou da minha mão. Se perdeu, se esborrachou na concretude dos edifícios altos da ilusão. Não sei, já não sei. Acho que apenas sonhei um sonho que parecia ser bom. Mas já não lembro... não sei.
Hanna
"... eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água..."
(J. Cortázar)

07 março 2010

Morro da Conceição — que ladeira é essa...

A cidade do Rio de Janeiro guarda coisas que jamais poderíamos sonhar que fossem tão boas. Hoje passei o dia subindo e descendo as ladeiras do Morro da Conceição, ali no coração da Praça Mauá. Lá pela terceira ou quarta ladeira, eu já estava perguntando a todo mundo se havia ali alguma casa para vender ou alugar. Conversei com muita gente, que repetia um discurso que parecia combinado: "Ih, moça... aqui é difícil. Quem mora aqui não sai, e quando sai já tem gente esperando... difícil...". Mas a insistência acabou fazendo surgir um certo princípio de amizade e algumas informações foram sendo aos poucos liberadas: "aquela casa branca, ali na Rua da Bola, com uma pixação na frente, está vazia... acho que o dono pode querer vender, ou alugar...".
Algumas ruas adiante, fiquei sabendo a história controvertida das casas que pertencem à Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, "todas sem documentação regular", mas que já estão com aluguéis inflacionados pelas notícias de que a Prefeitura tem um projeto de revitalização da Praça Mauá.
— Quer um conselho — sugeriu a simpática moradora — volte sempre aqui, vá fazendo amizade; de repente, quem sabe?
Trocamos telefones, nos desejamos boa sorte. E lá fui eu subindo a ladeira para, lá do alto, poder olhar o céu, na ilusão de estar chegando cada vez mais perto.


04 março 2010

Insights quânticos (editado)

Oi, pessoas! Bom dia!
Não preciso dizer que estou dedicada a bisbilhotar a existência de nós mesmos dentro desta sopa quântica que é o universo, né não? Pois bem: ando pensando em contar para vocês o que tenho descoberto e que nos afeta diretamente, mas acho que ainda não estou pronta para falar disso de uma maneira compreensível — sabe como é... aquela longa encarnação de jornalista, que descobre coisas complicadas e arranja um jeito de contar de maneira fácil para todo mundo. É, o mundo tem destes mistérios: tornar difícil, para tornar inacessível e delimitar poderes. (Íxi! Gostei dessa! Mandei bem!). Mas então, como eu ia dizendo, tenho cá umas quantices para compartilhar com vocês, mas ainda não é exatamente a história completa. É apenas um dos chamados "insights" que ocorrem quando a gente se dedica a entender certas coisas, digamos, esotéricas. É apenas uma imagem, sobre a qual convido vocês a se debruçarem e encontrar o sentido. Certa vez, em uma postagem, propus que me ajudassem a decifrar um sonho e recebi uma longa interpretação de um(a) visitante anônima(o). Recentemente, até usei um trecho para encerrar uma história que falava de reencontro com personagens, tal a importância que aquela contribuição teve para mim. Então, vou apenas tentar traduzir em palavras o insight que me ocorreu esta manhã, esperando que vocês se sintam à vontade para dar suas visões sobre o assunto.

Acordei muito cedo, para ter tempo de me dedicar a coisas que acho importantes, mas que normalmente o dia-a-dia não permite e nem comporta e que a mais ninguém parece importar. Era apenas uma leitura, que tratava de nosso mais profundo ser, dos sentimentos perfeitos que nascem conosco e como os vamos construindo/alterando/desprezando/deturpando/preferindo etc. ao longo da existência. Obviamente que dentre todos os sentimentos ali analisados, o amor coupava lugar primordial. Quando leio, constumo tentar comparar o que estou lendo com os fatos da vida real. E foi aí que ocorreu o insight, sobre relacionamentos que duram muito, mas "acabam" e, estranhamente, "permanecem" transmutados em sentimentos de mágoa, rancor, e aquele mundo de coisas tristes que todos conhecemos tão bem e que vocês sabem que eu não gosto de ficar descrevendo. A imagem que me veio foi a seguinte:
Um casal de pé, um de frente para o outro, com os pés invertidos, virados para trás. Sempre que tentavam se aproximar mais "intimamente", no sentido mais existencial da compreensão do "ser", eles caminhavam na direção oposta. Os pés invertidos os afastavam cada vez mais. A solução para isso me pareceu simples: bastava que virassem de costas um para o outro e andassem como se estivessem caminhando para a frente, cada um para seu próprio caminho. Quem sabe então o desejo se libertasse dos pré-concebidos que a as aparências impõem. Iriam, naturalmente, acabar se aproximando tanto que talvez até promovessem uma espécie de simbiose, ou atravessamento, sei lá (eu e meus exageros...). Mas me ocorreu o seguinte, sobre a realidade daqueles dois seres imaginários: nenhum dos dois queria perder o outro das vistas (vejam: eu não disse "de vista", mas das vistas...não me perguntem por que e nem o que isso pode significar). A angústia certamente se instalaria se isso acontecesse; talvez a mágoa e coisas inexplicáveis também ocorreriam, pondo um no outro a causa do afastamento, do desamor, do abandono, deixando que cada um sofresse a pressão da sua própria interpretação do que "via" ao olhar para o outro. Pensei que ao final cada um acabaria seguindo em frente, se distanciando até se perderem "das vistas", abrindo cada vez mais o abismo. Mas também pensei que embora se perdessem "das vistas", jamais deixariam de se olhar ou olhar para o lugar onde havia o outro. Este é o insight que compartilho para a reflexão de vocês.


Ei!!!! Olhem o desenho da lenda brasileira do Curupira, que tinha os pés virados! Achei agora, por acaso, quando procurava imagem para ilustrar a postagem. Vejam a solução que ele arranjou para ir na direção certa para onde seu desejo apontava!
Existe uma saída, gente! Não desistam!
Aguardo a contribuição de vocês!
Beijos e o amor de Hanna!