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26 setembro 2009

Eu sei, mas não devia
 Marina Colasanti


EU SEI QUE A GENTE SE ACOSTUMA. MAS NÃO DEVIA


A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti
nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.


Esta postagem, assim como a do Affonso Romano de Santana, foi extraída do site Releituras, de Arnaldo Nogueira Junior. Vale a pena passar por lá — www.releituras.com. Lá, certamente, encontram-se os melhores textos dos melhores autores.



25 setembro 2009

Sobretudo, qualquer coisa também é cultura

Sempre achei muito pobres as letras de músicas em inglês, mesmo aquelas que fizeram ou fazem grande sucesso. E aí sempre me pergunto se a forma de sentir é diferente entre os povos, ou se apenas a forma de referir os sentimentos é que difere de cultura para cultura. Mas isso sempre foi apenas uma curiosidade à qual nunca dediquei grande atenção. No entanto, entre todas as música maravilhosas, independetemente do que dizem, uma sempre me chamou a atenção pelo estilo da letra: My Way. Vou postar um vídeo com a voz de Frank Sinatra, com a letra em inglês.  Sinatra morreu aos 83 anos, de um ataque cardíaco em Los Angeles, Califórnia, no dia 14 de maio de 1998.  Descendente de italianos, Sinatra teve seu nome diversas vezes ligado à máfia e conta a lenda que a música MyWay, que ele cantava divinamente, foi feita para responder a estes comentários. Depois da morte de Sinatra, a filha dele, Tina, revelou que o pai era ligado aos chefões de Chicago para esquemas de eleição do presidente Kennedy. Alguns de seus..., digamos..., pensamentos: "Sou a favor de tudo que ajuda a atravessar a noite — seja uma oração, tranquilizante ou uma garrafa de Jack Daniels." "Só se vive uma vez e, do jeito que eu vivo, uma vez é suficiente". Então tá O que não invalida a beleza da música e o diferencial da letra.  Vejam a letra original no vídeo e, abaixo, a tradução livre, também sujeita a correções generosas. Quem sabe alguém se interessa pelo tema e resolve aquela minha curiosidade, brindando os leitores deste humilde blog com uma explicação relevante... redundante, relaxante, retumbante, requebrante...whatever! Porque afinal hoje é sexta!




DO MEU JEITO

E agora que o fim está perto
E tenho que encarar a cortina se fechando
Meu amigo, vou expor minha história
A história da qual tenho certeza

Eu vivi a vida plenamente
Viajei por toda e qualquer autoestrada
E mais, muito mais do que isso
Eu vivi do meu jeito

Arrependimentos, eu tenho uns poucos
Tão poucos que nem vale a pena mencionar
Eu fiz o que eu tinha que fazer
Vi tudo por dentro, sem excessão

Eu planejei o curso de cada caminho
Cada passo com cuidado, em cada desvio
E mais, muito mais que isso
Eu vivi do meu jeito

Sim, houve dias,
E você sabe disso,
Quando eu quis mais do que podia agarrar
Mas apesar disso,
Quando eu duvidava
Eu mastigava e cuspia a dúvida
Enfrentei tudo, e me mantive firme
E fiz isso do meu jeito

Eu amei, ri e chorei
Tenho meus débitos, minha cota de derrotas
Mas agora que as lágrimas estão secando
Acho tudo até engraçado
Pensar que fiz tudo isso
E devo dizer, sem qualquer vergonha:
Oh, não, não eu,
Eu  fiz tudo do meu jeito

Pois o que é um homem? O que ele tem?
Se não tiver a si mesmo,
Então ele não tem nada.
Dizer as coisas
Que ele realmente sente
E não palavras de quem está de joelhos
As marcas mostram, eu levei porrada
  Mas fiz tudo do meu jeito,
Sim, este foi o meu caminho.


24 setembro 2009

Aqui estou...

Alimento meus sentidos com o que percebo
Alimento a minha boca com o que anseio
Alimento a minha alma com o que acredito
Alimento a minha vida com o que sinto
Alimento a minha história com o que escrevo
Alimento o meu futuro com o que faço
Alimento o meu caminho com o que ando
Alimento a minha esperança com a vontade
Alimento a minha vontade com o desejo
Alimento o meu desejo com o que amo
Alimento o que amo com a minha paz
Alimento a minha paz com a certeza
Alimento a minha certeza com a humildade
Alimento a minha humildade com a fé
Alimento a minha fé com o amor.
Alimento o que sou com o que eu sou.



22 setembro 2009

Não... ainda não...

Primamos pela repetição, mas não aprendemos a lição. O homem é o único animal que teima em construir sua casa ao pé de uma montanha, cujo vulcão já destruiu certa vez a cidade inteira. Esta foto é da cidade de Pompéia, localizada em volta do vulcão Vesúvio, na Itália. No ano 79 d.C., o Vesúvio cobriu de cinzas e lavas um raio de 25 quilômetros, matando entre 20 e 30 mil pessoas que habitavam Pompéia. Durante séculos a cidade ficou sepultada sob 20 metros de crosta petrificada das lavas do vulcão. Em 1738, quando começaram as escavações na região, arqueólogos encontram uma cidade preservada e corpos petrificados em posições que documentavam o horror da tragédia. Atualmente, cerca de 700 mil pessoas habitam o sopé da montanha. Cientistas dizem que o Vesúvuio ainda não está completamente extinto e que poderá voltar a entrar em erupção com uma força destruidora ainda maior, podendo atingir a cidade de Nápoles com seus 2 milhões de habitantes. Até os animais sabem que não devem permanecer em áreas de risco. E ainda dizem que os inteligentes somos nós.

Alguém poderia me explicar por que estou escrevendo sobre isto? Que coisa esquisita.
Mas já que está, fica... Eu, hein... Desculpem.

Notícia velha

Agora a notícia já está velha e carece de exatidão. Mas para não desperdiçar o esforço da fotógrafa aqui, que acabou pegando um resfriado, publico as fotos do caminhão entalado na passarela do Aterro do Flamengo, ontem, dia 21, por volta das 5 da tarde. E como notícia velha não merece título, posto aqui uma espécie de moral da história, pode ser? Então tá: uma do bem e outra do mal, para não parecer moralista.

A falta de limites pode impedir o progresso da caminhada e levar a um ponto final, ao invés da chegada. (hummm... braba essa, né?)
A falta de limites pode te levar ao inesperado.. como um dia chuvoso diante das flores do lindíssimo Aterro do Flamengo (blé... ficou terrível!)
Mas vamos às fotos e aos fatos!




Perceberam pelo enquadramento das fotos que o esforço para fazê-las foi e-nor-me, né não? Então...Tudo pra não deixar faltar um mimo. O que eu não faço por vocês...
Amor, como de sempre.
Hanna

Em tempo: cada qual com o seu caminhão; cada um entala onde melhor lhe convier. Eu, sinceramente, prefiro o Aterro do Flamengo.
Vida que segue, caminhões que empacam...rsrs
H.

21 setembro 2009

Uma (quase) notícia

Acabei de chegar de uma curtíssima viagem, e abri as portas do blog com a urgência de quem tem algo importante a dizer... ou a ouvir. Nem uma coisa, e nem outra. Não havia nada de especial de parte a parte, pelo menos nada explicitamente visível e declarado. Pensei em algo que pudesse justificar a pressa e aproveitar a deixa, mas... nada. Súbito, lembrei que havia fotografado um caminhão que ficara entalado na passarela do Aterro do Flamengo! Ainda agorinha, quando voltava da viagem! Notícia fresquinha.  Ah, como não?! Notícia em primeira mão! Sorte estar com a máquina naquele momento chuvoso e engarrafado pelo acidente. Encharquei-me toda no esforço de contorcionismo, meio corpo do lado de fora da janela do carro para pegar o melhor ângulo e o detalhe que não deixasse dúvidas quanto ao fato. Aborreci alguns motoristas por ter provocado a colaboração de alguns outros, que generosamente fizeram uma espécie de barreira para me dar tempo de registrar a cena, aumentando inevitavelmente a confusão no local. Taí! Não trouxe histórias desta vez, mas... vá lá... era pelo menos uma notícia. Cadê a máquina? Procurei na bolsa, na mala, na sala, em todos os lugares previsíveis... e nada. A máquina! Onde deixei a máquina?! No táxi, com certeza... A sorte é que era táxi de empresa e tive como falar com o motorista antes que outro passageiro entrasse. Estava lá. A máquina e o furo de notícia que traria para vocês. Mas, pensando bem, o que importa uma notícia? Melhor uma história, uma sugestão. Então tá: quando passarem pelo Aterro do Flamengo, não deixem de prestar atenção às árvores floridas e nas folhagens verdinhas que estão se exibindo na Primavera. Um espetáculo lindíssimo e energizante. Imperdível. Vai ver que foi por isso que o motorista entalou bem ali o caminhão. Abençoado sejam os engarrafamentos que nos permitem tão bela contemplação.  Nunca se irritem com um engarrafamento diante de uma bela paisagem. Agradeçam a Deus os que moram nesta cidade e em outras tantas tão belas por este mundão a fora.  E para que a postagem não fique assim tão xoxa,  sem notícia e sem inspiração, vai aí uma musiquinha para alentar os corações resistentes, as almas insistentes, as angústias insolentes e as questões insolventes. Ah... e as bobagens renitentes, também...rsrs.
Grande Zeca! Grande Almir!


19 setembro 2009

Quando nasci, um anjo torto me disse pra torcer pro Vasco!

Pois é. Mas acabei virando mesmo Botafoguense. E não me peçam pra explicar essa história de novo! Mas o carinho pelo Vasco se manteve e gosto quando o time de São Januário faz bonito contra os outros times, com exceção do Fogão, claro. Então, por essa porção cruzmaltina que ainda resta em mim, a postagem é uma homenagem a meus queridos leitores vascaínos que se extraviaram de vez lá  pra terra do nosso grande Obama. O Vascão fez bonito e aos poucos vai se impondo na Série A. Não que tenha sido um banho pra cima do Guarani — um a zero não é muita coisa —, mas não é nada, não é nada, o bacalhau está na liderança da Segundona. Não dá pra falar muita coisa, porque vocês sabem que não entendo chongas do assunto. Em todas as minhas diversas encarnações no Jornalismo, nunca trabalhei na editoria de Esportes. O que foi ótimo, porque evitou que o futebol deixasse de ser para mim uma diversão. Sem contar que adoro ser esclarecida dos grandes lances por aqueles que entendem do riscado. Mas vou postar uma homenagem, especialmente para o De Abreu e sua galera. Grande Dirceu!
O hino do Vasco na voz do imortal Tim Maia, em ritmo só dele, com frases hilárias de suas tiradas geniais e imagens históricas do Vascão.
Espero que gostem!
Vamos lá, rapeize!


Reedições oportunas e belas

A MOÇA DO SONHO
(Chico Buarque e Edu Lobo)

Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz

Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz

Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu


Há de haver um lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida, não

Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar

Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais