Ainda não vou contar a história, porque ainda não consegui transformá-la em texto ou em compreensão plena que possa se traduzir em linguagem. Mas o fato é que encontrei uma índia muito velha na beira do rio e ela me contou uma história. Ela tirou uma pequena esteira de uma sacola que trazia atravessada no corpo e me convidou a sentar no chão. Eu sentei e ela então me recomendou que tirasse os sapatos e deixasse o pés tocar o chão úmido da beira do rio, porque somente assim eu poderia entender o que ela tinha a me dizer. Perguntei "como?". Ela respondeu que me falaria as palavras, mas seria o rio quem me contaria a história. Tirei os sapatos, pisei no chão molhado e forcei os pés na lama até que se pusessem aconchegados pela margem do rio. Ela então começou a contar. Ela e o rio. Eu sentia a história pulsando em mim, enquanto a voz dela ia ficando cada vez mais baixa. Ela tinha gestos curtos e espaçados; não tirava os olhos do rio que passava como uma longa página de um livro sendo lentamente virada. Fiquei intrigada no início, mas depois me deixei ficar, até que ela interrompeu a narrativa e disse para eu ir embora, "de volta para o seu lugar". Ainda tentei lavar os pés no rio, mas quanto mais andava, mais tinha vontade de continuar andando. A velha índia em chamou, apontando para um lugar onde eu poderia lavar os pés e calçar os sapatos. Antes que eu fosse, ela me deu um pequeno amuleto - um sapinho verde chamado muiraquitã. Ela também me contou rapidamente sobre a proteção que o amuleto trazia e foi embora sem se despedir. Apenas se virou e seguiu adiante, pela beira do rio. Ainda estou aqui em Belém e da janela consigo ver o rio... que continua a contar a história.
Os rios contam uma história de liberdade, mas guardam nas profundezas de suas águas os momentos que parecem haver deixado para trás.
Chove aqui dentro e lá fora também... Saudades dos que me querem bem.
Hanna Chorona.
