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28 março 2009

Pensamento mágico e desejo real

A noite estava calma, com uma brisa leve que vez ou outra trazia o cheiro do mar. Ele parecia seguro de sua posição naquele emaranhado de pensamentos, que ela oferecia em desconcerto, em uma fina aflição do não saber... não saber o que estava, ela mesma, desenhando no universo com seu desejo.
- Sim, você pode colapsar outras possibilidades, novas realidades - explicava ela na tentativa de convencê-lo da verdade que, no fundo, ela tanto temia. Sim, você pode decidir o que será. O que será? A intimidade com as perguntas não a protegia do medo das respostas. E ele, semblante suave, parecia saber e guardar o segredo, com um sorriso que indicava que a resposta estava bem ali. Mas ela não conseguia ver; precisava das bruxarias de um xamã para antes poder crer. Era um esforço inútil, debater-se buscando parâmetros antigos para enquadrar o novo. Então se deixou ficar, sem esforços para desenhar um si-mesma melhor do que na verdade era; para se transformar no que quer que fosse para ser recebida e amada. Estava cansada. Ao depor as armas e romper as amarras, ela simplesmente sorriu. Aí então começou a ver: ao universo não importa como você pensa que a felicidade é; ao universo basta apenas saber que você quer ser feliz. Ela começou a se mesclar à serenidade dele, aconchegando-se a uma intimidade que se foi desenhando no ar. Ao fundo, um som dizia "minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro...". À frente, o mar; lá longe, a janela para um outro lugar. O pensamento serenou... já não era preciso se inventar. O botões que fechavam as cercas foram cedendo às mãos suaves e firmes que ele estendeu para conduzi-la. O calor da proximidade dos corpos formou uma fina aura de atração e desejo. Era impossível não se entregar. Como a anfitriã de um castelo, ela se curvou ligeiramente e fez as honras da casa, saudando a nobreza do visitante: pode entrar. As portas e janelas se dissolveram, deixando apenas um campo largo, imensa relva orvalhada de suor. Ele caminhou seguro, incluindo-a em si-mesmo, como quem chama: vem pro mar. Ela o seguiu sorrindo, mesclando o seu ser ao ser que ele era, corpos ardentes e espíritos apacentados. A pele perfumada de sedução adornou a cena com as cores vivas dos afagos, dos beijos e carícias em movimentos intensos, como os de um artista ávido para compor a tela. Ela estava cansada de portar a si mesma e se deixou reinventar. Ele a refez delicadamente aos poucos - pés, pernas, o ventre das energias criativas... se demorou ali, para que não faltassem detalhes. As mãos esculpiam o corpo novo, como quem alisa o barro que se transformará em jarro. E ele amava, embevecido, as partes que aos poucos iam surgindo, ganhando forma e vibrando - os quadris, os seios, o colo, o rosto, os cabelos. Quando a arte se completa, o artista percebe a verdadeira dimensão da separação e sofre - tenta resgatar a si mesmo, a sua parte, e trazê-la a todo custo de volta. E na sofreguidão do resgate, acaba ofertando mais de si, cada vez mais de si. Neste momento, o universo responde ao desejo de felicidade, plenitude e paz com um fugaz momento de comunhão.

25 março 2009

Em construção

Há uma ponte. Sempre há uma ponte, porque a vida é feita de travessias. O desejo inaugura o trajeto e o habita de circunstâncias, entre as quais o medo. Se as pontes fossem traços rabiscados no chão, passaríamos sem nos dar conta do percurso. Mas uma ponte supõe a ligação ao que está distante, ao lado de lá, ao outro, ao que não estamos habituados a habitar. Uma ponte inaugura possibilidades, constrói ilusões, desilusões e até realidades. Uma ponte pode ser o caminho desejado, mas nunca dantes percorrido; pode ser o começo de um novo estar no mundo, um novo lugar. Uma ponte pode ser apenas uma ponte. Daí o abismo, primo-irmão do medo. As pontes inauguram possibilidades... e as possibilidades não estão rentes ao chão...
Foto: Anselmo Veríssimo

Eu preciso dizer...

É apenas parecido.. não é igual.

O que nos atrai do outro lado do abismo é o que nos encoraja para a travessia. Enamoramento, encantamento, enlevo...
e la nave vá.

24 março 2009

Pensamentos inspirados


Acordei com um trecho de música ecoando no pensamento: "... pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz...". Não sei de onde veio e o que pretendia informar. Música antiga, que há muito não ouvia. Costumo pensar que existe um canal que às vezes sintoniza a fonte do universo e deixa antever determinadas coisas que nos chegam como mensagens cifradas. Passo pelo menos a metade do dia tentando entender, depois vai passando, até que um dia volta e do meio do nada eu descubro, como se fosse um eureka! ou um bingo! sei lá. O mistério não está na frase que brota, mas no que a faz brotar, o começo da conversa que entabulamos em algum lugar no espaço do estar dormindo. E só trazem um restinho de lembrança os cursiosos e os teimosos, que insistem em saber como foi que Deus fez isso. Não estou postando a história só para ilustrar o blog, mas para ver entre meus sempre amados leitores qual deles, mais esotérico, poderá me dar a pista do que acontece do lado de lá. A curiosidade é um dilema, na vida de um geminiano!

Mas nem tudo é ocultismo e mistério se o ascendente é aquário...rssr. Dia claro, pensamento alinhado com as possibilidades reais, conectei-me à fonte de inspiração concreta que vem acolhendo meus melhores pensamentos e instigando meus sonhos e devaneios - devaneios... fonte perene das humildes letras com que teço os textos que ofereço aqui, qual camelô das ruas tentando convencer a freguesia de que a mercadoria é boa. Não abra sua janela para universos sem paisagens - recomendei em um gesto de inspiração espontânea que nem eu sei de onde partiu. E fiquei eu mesma a tentar investigar se na minha casa de onze janelas havia alguma que por ventura daria para lugar nenhum. Não deu tempo de checar todas, porque o edifício é alto e se espalha para todo lugar. Tinha que seguir. O dia já reclamava um mínimo de bom senso e razão! Apressei-me e fui embora, contando as horas para um dia que promete chegar. No meio do caminho, abri a janela para ver a paisagem do aterro passar.

23 março 2009

Finalmente, segunda-feira

Piadinha de segunda-feira: a produção da crença
São marcos o que a humanidade arranjou para se dar sempre uma nova chance de recomeçar. O primeiro dia do ano... o primeiro ano ímpar... ano bissexto...o primeiro ano do novo século, do novo milênio. E por que não uma nova segunda-feira? Já que são apenas convenções, porque não inventar mais e nos dar mais chances a cada dia de fazer tudo diferente do que já provou ser projeto furado? Talvez por nossa leniência e preguiça, desperdiçamos a segunda-feira agregando a ela o discurso simbólico do trabalho. Mas a mim, que amo o trabalho, a segunda-feira só faz bem. Vem com cara de casa nova, onde a gente entra na sala vazia e começa a pensar como vai ser o lugar que vamos habitar — encher de nós mesmos e nossas tantas circunstâncias e circunstantes. Pois bem. Entrei na sala vazia, com as caixas entupidas de coisas que venho trazendo de outras casas e que às vezes transbordam nos sábados e domingos. Empacoto tudo em tambores de chumbo forte, como se césio 147 fosse — verde luminoso, pó de pirlimpimpim, mas mortal como a peste! E assim como acontece com nossas usinas nucleares, todo lixo passível de contaminação fica sem ter onde enterrar. Pego as tintas e pincéis com que ando enfeitando a realidade e faço nos tambores umas flores improvisadas , com jeito de arte moderníssima — pétalas de esquecimento, raízes de perdão, gravetos de alegria, sementes de amor, uma ou outra lágrima de orvalho aqui e ali. E ao final da tarefa enjoada, batuco neles um reagge para exorcizar. Everything is gonna be all right... E sigo em frente na nova segunda-feira, onde tudo está por começar e a se fazer. Abro a janela da sala vazia e deixo o sol entrar — primeiro habitante de uma vida que acaba de nascer. E se chover, não tem problema: daqui a sete dias começo tudo outra vez.
E aos meus amados, uma semana de muita paz!

22 março 2009

Encantos do acaso, da chuva e do mar

Chovia. O tempo ainda guardava um resto do dia de sol que fizera antes, mas chovia discretamente... quase sem molhar, mas chovia. Distraída, ela não percebeu a chuva quando abriu a janela para a esperança de um dia novo. Viu apenas um céu nublado, de um cinza todo por igual. Mas o que importava? O mar não se importava com os humores do céu e estava sempre lá. Somente ao chegar à rua, percebeu que chovia. E ela ali, vestida para um dia de sol, decidiu continuar. A ingenuidade tola, que por vezes se crê coragem, instigou um gesto de transgressão quase tão discreto quanto aquele tempo sem sol: caminhar à beira do mar e da chuva. O céu inteiro parecia estar de olhos fechados, mas as ondas lambiam a areia sem se importar. Por que ela se importaria? Seguiu apenas assim, olhando a paisagem nova que se oferecia - as gaivotas, que ela tanto invejava, estavam lá, suaves, navegando sem ter porque chegar; as espumas do mar se dissolviam na areia da certeza de que tudo é um eterno refazer; as ondas se dobravam em tubos de esmeralda cristalina, repetindo incansável que o que sabemos e o que somos são a arte que nos distingue, mesmo contra a nossa vontade. Um céu de olhos fechados, deixando que a vida seguisse à revelia, para gáldio da serenidade. E ela seguia se misturando aos elementos - a areia molhada sob os pés; o vento manso nos cabelos, o som do mar calando a voz do pensamento... Ao fundo, lá no fim do horizonte, o céu escondia as montanhas, deixando entrever apenas a silhueta cinza da cordilheira que separa o aqui do lá. E lá já nada havia que os olhos pudessem alcançar - uma cidade inteira que se apagou, porque os olhos do céu naquele dia não quiseram se abrir. Somente havia o aqui, por onde ela passava e se incluía. Os laços finos do biquini, que balançavam com o seu andar, alertaram-na para o que talvez jamais tivesse notado - um quadril de linhas suaves e ainda firmes; os seios que, por terem cumprindo repetidamente a missão, tiveram da natureza a recompensa de se manterem quase intactos. E ela se acreditou bonita sem que ninguém precisasse dizer. Talvez já não fosse a mesma; talvez já nem fosse... Se distraiu de si e se encontrou sem querer; surpreendeu-se de ver-se assim tão outra. Uma frase inesperada ressoou na percepção lúcida daquele dia sem sol; uma frase de um mestre ancestral que talvez nem tenha se dado conta de que passara por ali e da mensagem que lhe competia entregar: "Tudo que amo deixo livre. Se for meu, um dia volta; se não voltar é porque nunca foi meu". E ela se deixou ficar livre, em gesto de profundo amor por si mesma. Abriu a porta da gaiola onde ficava seu ser passarinho e o instigou a voar. No céu, as gaivotas rodopiavam sobre sua cabeça... e ela já não tinha mais por que as invejar. Agora ela sabia que a Felicidade é muito mais do que o Desejo... e que o Universo é muito generoso para apenas nos realizar a vontade. Deixou-se ir, assim tranquila, flertando com o acaso e deixando cair ao mar, distraída, tudo o que guardava em uma caixa antiga que sempre carregou, mas nunca conseguiu fechar. Se um dia ela volta ou se jamais vai voltar, não importa. Tudo o que amamos, devemos libertar.

21 março 2009


Desejo
(Glauber Rocha)

Queria você profundamente aberta
Num beijapaixonado sem memória e futuro

Queria
prazer desintegrado no infinitamor de nossos corpos desconhecidos

Queria um rio negro
como branco
contando a Vytoria
De uma tragycomedia morta

Queria o maramoroso
De tua pele viva
E a poesia da madrugada

"As coincidências são elegâncias da providência divina."