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21 março 2009

Contos e desencontros da vida

E de repente as lágrimas começaram a vir, uma a uma, à superfície dos olhos. Não era previsto, não estava nos planos daquela mulher. E ela contava cada gota que caía, no desejo ingênuo de comparar com os rios que já tiveram aqueles olhos como nascente. Na conta do pensamento mágico, era simples assim. Alguns poucos desejos, algumas parcas alegrias, um quase romance, uma paisagem não concluída convertidos em poucas lágrimas, que ela contava no afã de se certificar de que eram mesmo tão poucas. A dimensão da dor era equivalente à dimensão do desejo, que ela mensurava por aquele fio d'água que insistente corria pelo seu rosto. Ela tentava racionalmente recolher as fantasias, para se convencer de que havia sido mesmo quase nada. Cabia tudo em uma pequena caixa: sonhos, desejos, alegrias, afagos não concebidos...
Não, não eram assim tão poucas as ilusões. Quando tentava incluir as lágrimas, a caixa não fechava. O que seria o destino? O que premedita o acaso? Haveria um plano? Quem comanda a razão? Quem inventou a distância? De onde vêm os sonhos? O que seria a vida se aquela caixa se fechasse...ou se estivesse vazia? Era da natureza daquela mulher encurralar a dor pela astúcia da razão. Não queria ter respostas; a ela bastavam as perguntas. Tinha um certo gosto pelo segredo. Talvez tivesse sido isso que infiltrou seu coração - o segredo e a tradição, estampados em um mapa que não desvendava o lugar, indicando apenas onde estava o céu. Ou teriam sido aquelas longas conversas que atravessavam a madrugada e invadiam o território dos sonhos? Impossível saber - o fato é que as tintas da vontade de paixão já haviam alterado a paisagem, preenchendo de sentido o espaço entre as montanhas lá no fim do mar. Não importava mais saber... Bastavam, como sempre, as perguntas. O tempo se encarregaria de acomodar todas as coisas. A paisagem e o mundo haveriam de voltar ao seu antigo lugar. O sol que iluminava o lado de lá das montanhas era apenas uma miragem de seu olhos verdes, imaturos. O som da voz que nunca ouviu se apagaria aos poucos. Os risos, os carinhos, a alegria e o desejo que nunca se realizaram voltariam a esperar. Não... não havia nada real sobre o que chorar. Ela se levantou e saiu, deixando para trás a caixa que ficou aberta para a possibilidade de o acaso se decidir a entornar.

Há coisas na vida que valem a pena mesmo não tendo acontecido...ou talvez valham apenas por isso


Quando temos sensibilidade para verdadeiramente ver o trabalho delicado que Deus fez sobre o universo, nós estamos nos encontrando com Ele. E desse encontro a gente nunca volta o mesmo, para o mesmo lugar. Trazemos um pouco de divindade nos olhos e colorimos nossa vida com outras tintas, mudando de lugar. E se compartilhamos o que vimos, descrevendo em fotos, palavras e êxtase, estamos oferecendo um pouco de Deus para o outro. E se o outro aceita... Deus sorri, porque valeu a pena o esforço para a realização do trabalho. Que o dia de todos seja pleno de consciência cósmica, permitindo que se emocionem de alegria por Ele nos ter incluído na paisagem.
Pôr do Sol em São Francisco
Foto: Anselmo Veríssimo

23 fevereiro 2009

Contos em cantos da vida

De dentro de uma gaiola, como quem revela um segredo, ela ensinava a três pequenos pássaros a liberdade de voar. Era exercício diuturno, que não encerrava nem mesmo quando a noite chegava e todos se recolhiam na escuridão. Era nesse momento de silêncio do mundo que ela diligentemente preparava o que haveria de dizer quando o dia voltasse e trouxesse de novo as três promessas de voo alto. Quando o sol começava a ensaiar seus primeiros raios, ela já estava desperta, pronta a recomeçar, embora nem sempre de onde havia parado. As lições teóricas falavam de liberdade, do que havia para além do que os olhos enxergavam e o pensamento podia ver. As palavras fortes se uniam em elos densos, formando um discurso que flertava com a contradição - ora coragem; ora receio... mas nunca medo. E era simples assim: a prática ia se intrometendo a cada espaço de silêncio necessário à decantação das longas dissertações. O que viria a seguir não se deixava saber. Não havia como perceber, de dentro daquela gaiola, como aquele imenso texto, tecido ao longo de tantos dias, poderia significar à luz do dia. Não havia tempo e nem espaço para a questão - o tempo urgia, na vida curta, o cumprimento de toda a lição. O hábito que faz o monge também disfarça o real do ser. E por repetição incansável, ela se tornou ciente de que aquilo era a trama de um dever - dever ser, devir, de servir, de se ver... O fato é que assim foi - vida seguindo, tempo voando e a teoria da liberdade aprendida se manifestando em prática tão forte como a contradição dos elos da corrente - corrente que aprisiona, corrente do pensamento, corrente de um rio que com persistência e força rompe os laços e cria seus próprios caminhos. Uma cena: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Essa uma das primeiras lições, tirada de Brecht, para dizer às águas que deviam transbordar. E ela brandia palavras consagradas na memória:
— Nenhum país, nenhuma vida precisa de heróis; os que acreditam que precisam não os merecem! Porque não há na vida heróis que antes não tenham sido mártires!
"You can surrender
Without a prayer
But never really pray
Without surrender
You can fight
Without ever winning
But never ever win
Without a fight".
E as palavras iam assim construindo a realidade... realidade à revelia.
Um dia, não se pode saber ao certo quanto tempo havia decorrido, as grades que conformavam a gaiola se dissolveram com a luz do dia que chegava. Não havia como evitar o dia, reter a luz do sol com as margens opressoras de um longo rio; não havia mais a divisão entre o lá dentro e o lá fora... os opostos não apenas se atraem, como passam a vida a justificarem-se mutuamente, a prover de sentido suas existências, driblando quaisquer outras possibilidades, instaurando o controle e o domínio. O fato é que não havia mais grades... e nem teorias que explicassem a irrecorrível liberdade que avultava sobre todas as coisas. E para espanto e constatação, aqueles três pequenos pássaros voavam! Apenas voavam, como se fosse mesmo de suas naturezas; como se sempre tivesse sido assim. E ela ficou ali, olhando, tentando classificar, categorizar, controlar, entender, explicar... Não fazia um único movimento, porque não apenas se foram as grades, como também já não havia chão. O que fazer? Para onde ir? Como andar, quando chão já não há? E ela ficou ali, maravilhada tentando aprender o que era, na prática, aquilo que só sabia ensinar.

14 fevereiro 2009


"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas; elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos."

Clarice Lispector

30 janeiro 2009

Coisas do Centro da cidade. Veja as imagens por satélite. Faça um passeio virtual pelo Centro. Se quiser, pode ir a outros lugares também.


Exibir mapa ampliado
Os videozinhos são bobos, mas vale a pena dar uma olhada. Mas voltando às coisas do Centro...

"Si sobrá, nóis vende".

Becos, becos, becos.... todos com saídas.

Rua do Comércio, Rua da Alfândega, Rua do Ouvidor... Uma história do passado cotidiano por onde hoje passamos em cortejo de efêmera realidade.

Rua da Assembléia.
Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhantes e passava todos os dias por lá.

Avenida Senhor dos Passos... para caber tantos passos, de tantos passantes, com seus pensamentos passados. Avenida quase larga, mas velai Senhor, para que se alargue seus espaços. Velai, Senhor, pelos passos dos que por ali passam, sem ciência e sem compasso que lhes confirme que nessa vida tudo passa.

Muita água anda rolando por debaixo desta ponte que me liga ao universo. Sorte que não sei nadar, portanto não me arrisco ao que me ensinaram sobre afogamento. E mesmo assim, as águas continuam rolando.

Nossa Senhora dos Homens é o nome de uma igrejinha linda na Rua da Alfândega. A rua que ganhou este nome teve origem em um caminho que ia da orla marítima até a Lagoa da Sentinela, nas proximidades do que hoje é a Praça da República. A rua teve diversos nomes ao longo do tempo, até se chamar da Alfândega, como é hoje. A história é interessante e pode ser consultada em sites que falam da cidade. Mas voltando à igrejinha dedicada à proteção dos homens, confesso que imaginava que haveria neste mundo quem zelasse pelos homens além das dedicadas mães. E haveria de ser ainda uma senhora, talvez avó - aquelas que vieram ao mundo para dar aos homens liberdade e condescendência. E na igreja, uma dessa avós, certamente progressista, foi consagrada santa. Eram avós, com certeza não eram mães. Porque as mães, sei de cátedra, ensinam tudo o que aprenderam - cerceamento e restrição. E a consciência do dever materno, ponto máximo do sacrifício da cultura judaico-cristã que a mídia venera para vender fornos de microndas, diz que as avós estragam os filhos. Mesmo assim elas seguem amando incondicionalmente esses futuros homens, esperando que sejam melhores do que o resultado que a vida produz. Às vezes perdem, às vezes ganham - a avó do Betinho, por exemplo, deve estar sorrindo no céu. Mas a gravidade que aprisiona as mulheres fez com que a condescendência parecesse demasia e desobediência. E assim, conta a realidade da lenda, ficou perdida a liberdade que as avós guardavam nas cestas de costuras - sim, porque liberdade é algo assim banal, que se guarda em qualquer lugar junto a objetos de fiação. Mas voltando ao tema, aprisionados seguem os homens que a senhora da igreja ainda proteje. Acorrentadas seguem as mães, que não conseguem conjugar o amor que sentem pelos filhos com a redenção que os liberta da culpa de terem nascido. Valei-nos Senhora dos homens, porque eles são os nossos filhos!
Mas, perguntinha incômoda que não quer calar: e as meninas, mulheres que não têm igrejas que as consagrem para se apegar, essas que são as mães de todos os homens. Somos o centro da vida? Ou somos escravas subalternas sem redenção? Decidam vocês.
Com o mesmo amor de sempre,
Hanna

25 janeiro 2009

Traduzir-se

"Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
-que é uma questão
de vida ou morte-
será arte?"

Ferreira Gullar

19 janeiro 2009

Encontro marcado

Emmanuel
O problema da ansiedade

Ante as dificuldades do cotidiano, exerçamos a paciência, não apenas em auxílio aos outros, mas igualmente a favor de nós mesmos. Desejamos referir-nos, sobretudo, ao sofrimento inútil da tensão mental que nos inclina à enfermidade e nos aniquila valiosas oportunidades de serviço.
No passado e no presente, instrutores do espírito e médicos do corpo combatem a ansiedade como sendo dos piores corrosivos da alma. De nossa parte, é justo colaboremos com eles, a benefício próprio, imunizando-nos contra essa nuvem da imaginação que nos atormenta sem proveito, ameaçando-nos a organização emotiva. Aceitemos a hora difícil como a paz do aluno honesto que deu o melhor de si, no estudo da lição, de modo a comparecer diante da prova evidenciando consciência tranquila.
Se nosso caminho tem as marcas do dever cumprido, a inquietação visita-nos a casa íntima na condição de malfeitor decidido a subvertê-la ou dilapidá-la; e assim como é forçoso defender a atmosfera do lar contra a invasão de agentes destrutivos, é indispensável policiar o âmbito de nossos pensamentos, assegurando-lhes a serenidade necessária. Tensão à face de possíveis acontecimentos lamentáveis é facilitar-lhes a eclosão, de vez que a idéia voltada para o mal é contribuição para que o mal aconteça; e tensão à frente de sucessos menos felizes é dificultar a ação regenerativa do bem, necessário ao reajuste das energias que desatres ou erros hajam desperdiçado.
Analisemos desapaixonadamente os prejuízos que as nossas preocupações causam aos outros e a nós mesmos, e evitemos semelhante desgaste empregando em trabalho nobilitante os minutos ou as horas que, muita vez, inadvertidamente, reservamos à aflição vazia. Lembremo-nos de que as Leis Divinas, através de processos de ação visível e invisível da Natureza, a todos nos tratam em bases de equilíbrio, entregando-nos a elas, entre as necessidades de aperfeiçoamento e os desafios do progresso, com a lógica de quem sabe que tensão não substitui esforço construtivo, ante os problemas naturais do caminho. E façamos isso, não paenas por amor aos que nos cercam, mas também a fim de proteger-nos contra a hora da ansiedade que nasce e cresce de nossa invigilância para asfixiar-nos a alma ou arrasar-nos o tempo sem qualquer razão de ser.
Texto de Emmanuel, psicografado por Francisco Cândido Xavier

15 janeiro 2009

A vida como ela pode ser...

Amados, estou feliz. Assim, desse jeito sem exclamacoes.
Com o teclado desconfigurado, tambem sem os acentos que a reforma ortografica recente nao aboliu, sem cedilha, sem tils, sem os meus preciosos e angustiados tremas, sem os hifens que ligavam coisas nao pertinentes... Mas tenho certeza de que mesmo assim voces vao me entender, porque sao generosos, de espirito elevado e julgamento leniente. Pelo que agradeco e me sinto acarinhada. Mas o que me traz aqui e nada mais do que a vontade de falar com cada um dos que passaram por esse blog, assiduamente ou nao. As vezes (ponham crase nesse As, porque das crases nao abro mao)apesar da intensidade da vida e dos afazeres com que Deus nos brindou, temos necessidade de ofertar carinho, de nos aproximar em afeto e nos aconchegar simplesmente no ombro de alguem que conosco compartilha a viagem da vida. Nao precisamos estar juntos, mas que nos cumprimentemos ao passar uns pelos outros; que nos reconhecamos no esforco da caminhada. E isso o que nos faz amigos e, as vezes, dependendo da permanencia e intensidade, nos faz amores. E assim segue a vida, sem porto que seja seguro, porque nao ha parada eterna. Nao ha parada, simplesmente. Entao, quero agradecer a todos os viajantes da vida que encontrei ate hoje e por tudo o que compartilharam comigo de suas proprias bagagens. Nao ha mal.. porque nao ha mal que nao venha para bem. Entao, as oportunidades de compatilhar a jornada, com todos e qualquer um, sao apenas as oportunidades de avancar no caminho. E que todos os que de certa forma construiram a estrada por onde hoje passo sejam abencoados pelas bem aventurancas divinas. Mais ainda aqueles que o fizeram com amor.
Com o carinho de sempre,
Hanna