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31 julho 2008

Como não tinha visto antes?

Era tarde de inverno, mas não fazia frio como nos dias de antes de hoje. Segui pelas ruas de Ipanema cumprindo deveres, fazendo da última sessão de análise uma espécie de plataforma de salto e vôo. Sentia fome, porque o tempo parecia escasso para cumprir tantas obrigações. Parei em uma lanchonete na esquina da Barão da Torre com Vinícius (de Moraes), onde toda poesia aflora. Fiquei ali sozinha, em uma mesa onde qualquer um pode aportar. Não era de restaurante onde mulheres sozinhas poderiam se sentar com uma taxa menor de preconceito. Sentei e fiquei ali, tomando um chope na tarde morna e serena. Deixei-me ficar — abri os sentidos e me deixei sentir, sem querer saber. Era cio de um Rio que perde a mulher que o ama sem que jamais a tenha verdadeiramente amado. Os amores padecem dessas provocações: se perdem em tentação quando vêem esvairem-se seus amores eternos e jamais correspondidos, mesmo que nunca a eles tenha dado atenção. Injustiça cometo ao comparar esse Rio a amores quaisquer. O Rio me amou além da conta ao se me oferecer em paisagem. E agora que vou embora, sinto no ar esse assédio de puro cio — perfumes antes inacessíveis, cores antes empalidecidas pelo descaso do olhar, gentes que passam pelas calçadas portando suas estranhezas, um calor úmido que vem do mar. Ah, meu Rio, por que não te amei mais e antes? Por que não te devorei qual Caetano a Leonardo de Caprio, segundo canta Djavan? Por que nunca levei adiante a vontade de te tocar em um instrumento? E eu agora dessa lanchonete casual descubro que o que tens de melhor são tuas esquinas. Mas quem haveria de querer? Entram velhinhas perfumadas, borracheiros, jovens ligeiros, gente que quer apenas comprar pão, garotas que querem sorvete e riem na expectativa do encontro de amor. Eu estou aqui.. pensando que mal te amei como deveria, como merecerias, como eu queria. Meu Rio. Agora banho-me nas águas da tua saudade; inspiro fundo o teu hálito para reter-te em mim; olho com avidez teus espaços, teus buracos, teus vãos. Olho como quem pede e implora o gozo último de uma paixão displicente, decente, descontente, inocente, de quem não sabe ainda o que é o amor.
Rio de Janeiro, como gosto de você.

Três coisas dessa vida

1. Um garoto muito pequeno entra na lanchonete. Ele está sozinho. Todos olham e pensam que ele vai perdir esmolas. Mas ele compra algo e sai. Era apenas um garoto negro.

2. Na mesa em frente, um casal de chineses conversa animadamente. Que universo restrito longe da multidão que lhes é comum, penso eu. Mas o que sei eu de universos e de restrições? Do outro lado da rua, um curso vestibular deixa ver pelas paredes de vidro os funcionários treinados para instruir os jovens a saber como construir limites precisos. E isso tem funcionado a séculos!

3. A tarde estava tão morna que quase podia nos tocar a pele; o cheiro do mar entrava por nossas narinas invadindo todo o corpo. Era uma espécie de volúpia urbana, ou de urbanidade voluptuosa.

Aforismos de rua

Personagens diversos desfilam diante da porta da padaria; somente quem está dentro pode ver.

Como é bom olhar a vida em sua completa entropia, sem a arrogância tola dos recortes.

Os carros passam, a vida passa.. e nós também passamos. Ainda bem!

Eu vou embora porque a vida chama.

26 julho 2008

Vou roubar os anéis de Saturno

O nome dos dias da semana, em português, têm origem na liturgia católica, diferentemente da maioria das outras línguas, que batizaram os dias em homenagem a deuses pagãos. O sábado, para os povos pagãos, era dedicado a Saturno. Em inglês escreve-se saturday - dia de Saturno.
Saturno equivale ao deus grego Cronos e matou o pai, Urano, com uma foice dada pela mãe, tomando o poder entre os deuses. Ele era um dos titãs, filho do Céu e da Terra, mas foi expulso do Olimpo pelo próprio filho, Júpiter, indo refugiar-se no Lácio. Lá ele ensinou aos homens a agricultura e fez reinar a paz e a abundância. Conta a lenda que lá ele também se casou constituindo uma nova família e se tornando um deus do bem. Os romanos atribuem a Saturno a origem de Roma e a criação de divindades como Hércules e Rômulo.
Para agradar a Saturno e continuar gozando de sua proteção, os romanos faziam uma espécie de feriadão uma vez por ano, por volta do solstício de inverno, quando aconteciam as festas chamadas saturnais, que duravam uma semana. Todos participavam em alegria e solidariedade para relembrar a época em que os homens viviam em paz, sem distinções sociais. Inúmeros banquetes eram servidos e os escravos, momentaneamente livres, eram servidos pelos senhores e podiam falar deles o que quisessem. Se é fato o que conta a lenda, a liberdade de expressão já gozava de prestígio junto aos deuses, mesmo que apenas por um período sabático.
E é claro que as festas acabavam sempre em grandes orgias. Sob o Império, a festa acabou, mas o sábado ficou como o dia consagrado a Saturno.
E a todos, os meus votos de um sábado de festa, alegria, liberdade, inclusive a de expressão, igualdade e abundância. Mas cuidado para não resvalar para a orgia. Se beber, não vá de biga....rssss.
Alegria, alegria, alegria!

23 julho 2008

Sabe aquela lua cheia, rodeada de estrelas,
radiante no meio do céu? Pois é linda, não é?

22 julho 2008

"Muitas pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas. Ame-as, mesmo assim. Se você tem sucesso em suas boas realizações, ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos. Tenha sucesso, mesmo assim. O bem que você faz será esquecido amanhã. Faça o bem, mesmo assim. A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável. Seja honesto, mesmo assim. Aquilo que você levou anos para construir, pode ser destruído de um dia para o outro. Construa, mesmo assim. Os pobres têm verdadeiramente necessidade de ajuda, mas alguns deles podem atacá-lo se você os ajudar. Ajude-os, mesmo assim. Se você der ao mundo e aos outros o melhor de si mesmo, você corre o risco de se machucar. Dê o que você tem de melhor, mesmo assim."
Madre Teresa de Calcutá

21 julho 2008

Finalmente, segunda-feira

Piadinha de segunda-feira: a produção da crença

São marcos — porque não poderiam ser marcelos...rsss — o que a humanidade arranjou para se dar sempre uma nova chance de recomeçar. O primeiro dia do ano... o primeiro ano ímpar... ano bissexto...o primeiro ano do novo século, do novo milênio. E por que não uma nova segunda-feira? Já que são apenas convenções, porque não inventar mais e nos dar mais chances a cada dia de fazer tudo diferente do que já provou ser projeto furado? Talvez por nossa leniência e preguiça, desperdiçamos a segunda-feira agregando a ela o discurso simbólico do trabalho. Mas a mim, que amo o trabalho, a segunda-feira só faz bem. Vem com cara de casa nova, onde a gente entra na sala vazia e começa a pensar como vai ser o lugar que vamos habitar — encher de nós mesmos e nossas tantas circunstâncias e circunstantes. Pois bem. Entrei na sala vazia, com as caixas entupidas de coisas que venho trazendo de outras casas e que às vezes transbordam nos sábados e domingos. Empacoto tudo em tambores de chumbo forte como se césio 147 fosse — verde luminoso, pó de pirlimpimpim, mas mortal como a peste! E igual acontece com nossas usinas nucleares, todo lixo passível de contaminação fica sem ter onde enterrar. Pego as tintas e pincéis com que ando enfeitando a realidade e faço nos tambores umas flores improvisadas , com jeito de arte moderníssima — pétalas de esquecimento, raízes de perdão, gravetos de alegria, sementes de amor, uma ou outra lágrima de orvalho aqui e ali. E ao final da tarefa enjoada, batuco neles um reagge para exorcizar. Everything is gonna be alright... E sigo em frente na nova segunda-feira onde tudo está por começar e a se fazer. Abro a janela da sala vazia e deixo o sol entrar — primeiro habitante de uma vida que acaba de nascer. E se chover, não tem problema: daqui a sete dias começo tudo outra vez.
E aos meus amados, uma semana de muita paz!