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18 setembro 2009

O paraíso é apenas uma promessa — releituras


De dentro de uma gaiola, como quem revela um segredo, ela ensinava a três pequenos pássaros a liberdade de voar. Era exercício diuturno, que não encerrava nem mesmo quando a noite chegava e todos se recolhiam na escuridão. Era nesse momento de silêncio do mundo que ela diligentemente preparava o que haveria de dizer quando o dia voltasse e trouxesse de novo as três promessas de voo alto. Quando o sol começava a ensaiar seus primeiros raios, ela já estava desperta, pronta a recomeçar, embora nem sempre de onde havia parado. As lições teóricas falavam de liberdade, do que havia para além do que os olhos enxergavam e o pensamento podia ver. As palavras fortes se uniam em elos densos, formando um discurso que flertava com a contradição - ora coragem; ora receio... mas nunca medo. E era simples assim: a prática ia se intrometendo a cada espaço de silêncio necessário à decantação das longas dissertações. O que viria a seguir não se deixava saber. Não havia como perceber, de dentro daquela gaiola, como aquele imenso texto, tecido ao longo de tantos dias, poderia significar à luz do dia. Não havia tempo e nem espaço para a questão - o tempo urgia, na vida curta, o cumprimento de toda a lição. O hábito que faz o monge também disfarça o real do ser. E por repetição incansável, ela se tornou ciente de que aquilo era a trama de um dever - dever ser, devir, de servir, de se ver... O fato é que assim foi - vida seguindo, tempo voando e a teoria da liberdade aprendida se manifestando em prática tão forte como a contradição dos elos da corrente - corrente que aprisiona, corrente do pensamento, corrente de um rio que com persistência e força rompe os laços e cria seus próprios caminhos. Uma cena: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Essa uma das primeiras lições, tirada de Brecht, para dizer às águas que deviam transbordar. E ela brandia palavras consagradas na memória:
— Nenhum país, nenhuma vida precisa de heróis; os que acreditam que precisam não os merecem! Porque não há na vida heróis que antes não tenham sido mártires!
E as palavras iam assim construindo a realidade... realidade à revelia. Um dia, não se pode saber ao certo quanto tempo havia decorrido, as grades que conformavam a gaiola se dissolveram com a luz do dia que chegava. Não havia como evitar o dia, reter a luz do sol como as margens opressoras de um longo rio; não havia mais a divisão entre o lá dentro e o lá fora... os opostos não apenas se atraem, como passam a vida a justificarem-se mutuamente, a prover de sentido suas existências, driblando quaisquer outras possibilidades, instaurando o controle e o domínio. O fato é que não havia mais grades... e nem teorias que explicassem a irrecorrível liberdade que avultava sobre todas as coisas. E para espanto e constatação, aqueles três pequenos pássaros voavam! Apenas voavam, como se fosse mesmo de suas naturezas; como se sempre tivesse sido assim. E ela ficou ali, olhando, tentando classificar, categorizar, controlar, entender, explicar... Não fazia um único movimento, porque não apenas se foram as grades, como também já não havia chão. O que fazer? Para onde ir? Como andar, quando chão já não há? E ela ficou ali, maravilhada tentando aprender o que era, na prática, aquilo que só sabia ensinar.

17 setembro 2009

Vamos mergulhar, mergulhar, mergulhar...


Os peixes talvez sejam os únicos seres que não podem sair do seu habitat natural — a água — sob pena de perecerem. E assim a maiaoria deles segue, sem saber que existe outro mundo lá fora, cheio de outras formas de vida e de possibilidades. Não que o "lá fora" seja superior ao universo dos peixes, algo com que se deva sonhar. Não; é apenas um outro lugar, uma outra forma de vida, uma outra possibilidade. E a humanidade segue, cada um na sua limitada posição, com preguiça e sem vontade, como diz a música. Muito embora nós possamos transitar, com nossa infinita criatividade, pelos universos paralelos (vamos lá importunar os peixes; assustar os pássaros; deixar nossas pegadas na lua; tentar roubar os anéis de Saturno...) ainda temos lugares que acreditamos fechados a nós. O habitat natural dos seres humanos, apesar de toda a liberdade de ir e vir para qualquer mundo, é a sua própria limitação; suas crenças em suas limitações e em seus lugares marcados. E como os peixes, ficamos aprisionados nas impossibilidades de escolher, de decidir, de mudar, de correr, de voar, de sentir, de... enfim. Em geral, acreditamos que a morte (metafórica) nos aguarda do lado de fora do nosso ninho. E mesmo que o ninho já esteja desconfortável, resistimos e permanecemos lá, com todas as justificativas que nos garantem que lá devemos mesmo ficar. Aprendemos isso muito cedo e a lição foi repetida durante muito tempo na nossa vida. É!  Nós, os adultos, somos apenas o resultado do que a criança que fomos assimilou como verdades. E as crianças não costumam desconfiar — e nem podem! — daqueles que  lhes dizem o que elas podem ou não podem; apresentando-lhes um mundo de perigos, inibindo assim a ousadia e transformando o que deveria ser vir-a-ser em nada mais que um dever-ser. E pensem que, assim como os peixes, tendemos a repassar para nossas espécies apenas aquilo que somos ensinados a ser, numa forma de corrente. Os peixes, pela genética; nós, pelos medos; medos protetores, é certo, mas mesmo assim, medo. E os medos, não importa o que lhes justifiquem, são igualmente, apenas... medo. Quem já não se viu obrigado a não ficar brincando na rua até mais tarde "porque o homem do saco vai te pegar"?; quem já não tremeu de aflição "porque o bicho-papão..."?. Temos uma história de crenças e temores que nos inibiu a certeza de que podemos muito mais do que pensamos; de que somos muito mais do que acreditamos.  Talvez seja a memória longínqua de um dia ter sido uma espécie muito ameaçada, não sei. Amor  materno é cercado de temores... Hoje, infelizmente, somos nós a grande ameaça. Sim, talvez porque também tenhamos aprendido que devemos reagir belicosamente a tudo o que nos pareça ameaçador, mesmo que o que pareça ameaça seja apenas... simples diferença. Nos aprisionamos nas crenças que nos limitam, como se fôssemos peixes que não podem viver "do lado de fora".  Mas vejam: até os peixes, que acreditamos que não pensam (mas será que  eles, também, apenas "acreditam"?) desafiam as limitações que lhes obrigam a ficar onde estão. Já ouviram falar nos peixes voadores, não? Os peixes voadores pertencem a uma família de cerca de 40 espécies de peixes carnívoros e herbívoros da família Exocoetidae, encontrados apenas em mares de águas mornas. Ao contrário do que se possa imaginar, esses peixes  não "voam" na correta acepção do termo,  como as aves. O que eles fazem, na verdade, é ganhar impulso para dar grandes saltos, abrindo as barbatanas para planar. Eles conseguem ficar no ar por até 15 segundos, cobrindo uma distância de cerca de 180 metros; alguns conseguem o recorde de 400 metros! Estes sabem que existe um outro mundo lá fora. Mas se pudessem contar para os outros peixes, certamente seriam ridicularizados e considerados delirantes ou mentirosos. Aqui, do outro lado da história, acreditamos que eles não fazem isso em um exercício de superação de suas condições, mas que voam apenas para fugir dos predadores,  principalmente tubarões, atuns e golfinhos. Mas pensem bem: se fosse mesmo apenas isso, todos os peixes voariam, não acham? Quem sabe essa não é mais uma versão da história de homem-do-saco e do bicho-papão? "O Brasil não tem os tipos tradicionais de peixes voadores, mas as águas amazônicas abrigam uma espécie parecida: é o peixe machadinha, que faz vôos bem mais curtos, de 1,50 metro de distância", está escrito no site Mundo Estranho (!?), a fonte de onde tirei as informações sobre os peixes voadores. E aí me ocorreu uma coisa "estranha": será que, além do bicho-papão, nós também voamos mais baixo e mais curto só porque acreditamos que nossos  voos não podem ser grandes, porque...  somos brasileiros?!

Voltei!!!!!!!!!

Fiquem bem e aproveitem o dia. Façam algo novo. Ou tudo novo de novo, para quem já está acostumado a desafiar os limites e a ordem estabelecida (por quem?!). Ah! Falando nisso: tem Paulinho Moska aí embaixo, com "Tudo novo de novo". Tudo a ver.
Hanna.

Bom diaaaaa!!!!

16 setembro 2009

"Tornar feliz...". 
"Sejamos felizes em nossas realidades, tal qual a colapsamos".
Será mesmo assim? Será mesmo que fomos nós que decidimos que deveria ser assim? Será que gostamos que seja assim? Será que neste mundo cada coisa deve ocupar um único lugar? Será que somos donos dos lugares? Será que os lugares nos comportam? Será que não podemos nos mudar? Será que não podemos andar? Será que estamos condenados a ser apenas o que somos? Será que não podemos nos libertar?
Será... Será? Será?!!
Se for, então tá... Mas... e se não for?
H.

A dor

A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
A dor vai fechar esses cortes 
(Somente)
As flores de plástico não morrem...
Hanna, titaneando dores.

Adornos...

Há tempos, pensamentos emaranhados vêm me despertando na madrugada. Acordo e atendo como quem ouve um chamado urgente, ou como quem apenas aguardava este chamado para despertar. Levanto prontamente e abro as portas e janelas possíveis, como quem corre ao vento em longo esforço, na certeza de alcançar a mão distante do par —  ânsia incontida da dança, da roda, da leveza e paz da alegria de amar. Ontem duvidei da certeza, da esperança e da fé. O chamamento explícito não me fez levantar. Letras claras, monossílado, exclamações estampavam-se com estranha autonomia no pensamento, querendo emaranhar-se em mim como um código de resgate da certeza em aflição — "Sou eu! Sou eu sim! Abra a porta; estou aqui!", parecia querer dizer. Voltei-me para o outro lado, onde a realidade não comporta janelas e saídas, onde tudo é friamente calculado e inerte; lá onde não se conjugam as possibilidades escondidas sob o manto do impossível. Lá onde tudo é fato e nada é impressão; onde a vida exuberante cede o lugar à tosca versão. Cansaço, puro cansaço. Ou seria pressa, urgência, aflição? Não sei dizer e não quis pensar. Olhei a janela e duvidei. Dormi.

PS: Aí, vem a bobona da Hanna com uma explicação metafilosófica: 
"Você deve ter dormido com a TV ligada no desenho dos Flintstones...hahaha....
"Abra a porta, Wilmaaaaaaaa!!!!!!".
Então tá então...rsrs

Equações insolúveis

Qual é a distância que separa estes dois pontos? A distância mais curta, uma linha reta? Uma equação; um desequilíbrio? Quais são os pontos que balisam a linha reta? Um ponto parágrafo? Um ponto final? Ou uma  interrogação? 
Vai saber... vai saber... 
Não sei não.

15 setembro 2009

Non sense

Noites e manhãs... no meio, as madrugadas; antes, os dias. 
Depois, tudo outra vez; a vida.
Boa noite.
Hanna, non sense.

14 setembro 2009

O que não tem remédio, remediado está

Sim, dói. É claro que dói... mas fazer o que? Não depende de nós. Quanto mais a gente se debate, mais dói. Tem que deixar quieto, resistir, até passar. Quem sabe o que quer, sofre mais, porque custa mais a passar. Mas mesmo assim, sempre passa. Mesmo que não seja só vontade... passa. 
Que desperdício...