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24 março 2009

Pensamentos inspirados


Acordei com um trecho de música ecoando no pensamento: "... pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz...". Não sei de onde veio e o que pretendia informar. Música antiga, que há muito não ouvia. Costumo pensar que existe um canal que às vezes sintoniza a fonte do universo e deixa antever determinadas coisas que nos chegam como mensagens cifradas. Passo pelo menos a metade do dia tentando entender, depois vai passando, até que um dia volta e do meio do nada eu descubro, como se fosse um eureka! ou um bingo! sei lá. O mistério não está na frase que brota, mas no que a faz brotar, o começo da conversa que entabulamos em algum lugar no espaço do estar dormindo. E só trazem um restinho de lembrança os cursiosos e os teimosos, que insistem em saber como foi que Deus fez isso. Não estou postando a história só para ilustrar o blog, mas para ver entre meus sempre amados leitores qual deles, mais esotérico, poderá me dar a pista do que acontece do lado de lá. A curiosidade é um dilema, na vida de um geminiano!

Mas nem tudo é ocultismo e mistério se o ascendente é aquário...rssr. Dia claro, pensamento alinhado com as possibilidades reais, conectei-me à fonte de inspiração concreta que vem acolhendo meus melhores pensamentos e instigando meus sonhos e devaneios - devaneios... fonte perene das humildes letras com que teço os textos que ofereço aqui, qual camelô das ruas tentando convencer a freguesia de que a mercadoria é boa. Não abra sua janela para universos sem paisagens - recomendei em um gesto de inspiração espontânea que nem eu sei de onde partiu. E fiquei eu mesma a tentar investigar se na minha casa de onze janelas havia alguma que por ventura daria para lugar nenhum. Não deu tempo de checar todas, porque o edifício é alto e se espalha para todo lugar. Tinha que seguir. O dia já reclamava um mínimo de bom senso e razão! Apressei-me e fui embora, contando as horas para um dia que promete chegar. No meio do caminho, abri a janela para ver a paisagem do aterro passar.

23 março 2009

Finalmente, segunda-feira

Piadinha de segunda-feira: a produção da crença
São marcos o que a humanidade arranjou para se dar sempre uma nova chance de recomeçar. O primeiro dia do ano... o primeiro ano ímpar... ano bissexto...o primeiro ano do novo século, do novo milênio. E por que não uma nova segunda-feira? Já que são apenas convenções, porque não inventar mais e nos dar mais chances a cada dia de fazer tudo diferente do que já provou ser projeto furado? Talvez por nossa leniência e preguiça, desperdiçamos a segunda-feira agregando a ela o discurso simbólico do trabalho. Mas a mim, que amo o trabalho, a segunda-feira só faz bem. Vem com cara de casa nova, onde a gente entra na sala vazia e começa a pensar como vai ser o lugar que vamos habitar — encher de nós mesmos e nossas tantas circunstâncias e circunstantes. Pois bem. Entrei na sala vazia, com as caixas entupidas de coisas que venho trazendo de outras casas e que às vezes transbordam nos sábados e domingos. Empacoto tudo em tambores de chumbo forte, como se césio 147 fosse — verde luminoso, pó de pirlimpimpim, mas mortal como a peste! E assim como acontece com nossas usinas nucleares, todo lixo passível de contaminação fica sem ter onde enterrar. Pego as tintas e pincéis com que ando enfeitando a realidade e faço nos tambores umas flores improvisadas , com jeito de arte moderníssima — pétalas de esquecimento, raízes de perdão, gravetos de alegria, sementes de amor, uma ou outra lágrima de orvalho aqui e ali. E ao final da tarefa enjoada, batuco neles um reagge para exorcizar. Everything is gonna be all right... E sigo em frente na nova segunda-feira, onde tudo está por começar e a se fazer. Abro a janela da sala vazia e deixo o sol entrar — primeiro habitante de uma vida que acaba de nascer. E se chover, não tem problema: daqui a sete dias começo tudo outra vez.
E aos meus amados, uma semana de muita paz!

22 março 2009

Encantos do acaso, da chuva e do mar

Chovia. O tempo ainda guardava um resto do dia de sol que fizera antes, mas chovia discretamente... quase sem molhar, mas chovia. Distraída, ela não percebeu a chuva quando abriu a janela para a esperança de um dia novo. Viu apenas um céu nublado, de um cinza todo por igual. Mas o que importava? O mar não se importava com os humores do céu e estava sempre lá. Somente ao chegar à rua, percebeu que chovia. E ela ali, vestida para um dia de sol, decidiu continuar. A ingenuidade tola, que por vezes se crê coragem, instigou um gesto de transgressão quase tão discreto quanto aquele tempo sem sol: caminhar à beira do mar e da chuva. O céu inteiro parecia estar de olhos fechados, mas as ondas lambiam a areia sem se importar. Por que ela se importaria? Seguiu apenas assim, olhando a paisagem nova que se oferecia - as gaivotas, que ela tanto invejava, estavam lá, suaves, navegando sem ter porque chegar; as espumas do mar se dissolviam na areia da certeza de que tudo é um eterno refazer; as ondas se dobravam em tubos de esmeralda cristalina, repetindo incansável que o que sabemos e o que somos são a arte que nos distingue, mesmo contra a nossa vontade. Um céu de olhos fechados, deixando que a vida seguisse à revelia, para gáldio da serenidade. E ela seguia se misturando aos elementos - a areia molhada sob os pés; o vento manso nos cabelos, o som do mar calando a voz do pensamento... Ao fundo, lá no fim do horizonte, o céu escondia as montanhas, deixando entrever apenas a silhueta cinza da cordilheira que separa o aqui do lá. E lá já nada havia que os olhos pudessem alcançar - uma cidade inteira que se apagou, porque os olhos do céu naquele dia não quiseram se abrir. Somente havia o aqui, por onde ela passava e se incluía. Os laços finos do biquini, que balançavam com o seu andar, alertaram-na para o que talvez jamais tivesse notado - um quadril de linhas suaves e ainda firmes; os seios que, por terem cumprindo repetidamente a missão, tiveram da natureza a recompensa de se manterem quase intactos. E ela se acreditou bonita sem que ninguém precisasse dizer. Talvez já não fosse a mesma; talvez já nem fosse... Se distraiu de si e se encontrou sem querer; surpreendeu-se de ver-se assim tão outra. Uma frase inesperada ressoou na percepção lúcida daquele dia sem sol; uma frase de um mestre ancestral que talvez nem tenha se dado conta de que passara por ali e da mensagem que lhe competia entregar: "Tudo que amo deixo livre. Se for meu, um dia volta; se não voltar é porque nunca foi meu". E ela se deixou ficar livre, em gesto de profundo amor por si mesma. Abriu a porta da gaiola onde ficava seu ser passarinho e o instigou a voar. No céu, as gaivotas rodopiavam sobre sua cabeça... e ela já não tinha mais por que as invejar. Agora ela sabia que a Felicidade é muito mais do que o Desejo... e que o Universo é muito generoso para apenas nos realizar a vontade. Deixou-se ir, assim tranquila, flertando com o acaso e deixando cair ao mar, distraída, tudo o que guardava em uma caixa antiga que sempre carregou, mas nunca conseguiu fechar. Se um dia ela volta ou se jamais vai voltar, não importa. Tudo o que amamos, devemos libertar.

21 março 2009


Desejo
(Glauber Rocha)

Queria você profundamente aberta
Num beijapaixonado sem memória e futuro

Queria
prazer desintegrado no infinitamor de nossos corpos desconhecidos

Queria um rio negro
como branco
contando a Vytoria
De uma tragycomedia morta

Queria o maramoroso
De tua pele viva
E a poesia da madrugada

"As coincidências são elegâncias da providência divina."

Um poemeu

Estou de saída,
arrumando uma pequena mala.
Tão pequena que não suporta mais que o essencial,
o importante, o fundamental.
Três pequenas coisas...
Coisas apenas minhas.
Que as não cobicem o próximo,
que as não contestem os ricos,
que as admirem os pobres,
que as entendam as almas nobres.
Ao sair, fecho a porta
de onde todo o resto está meticulosamente ordenado,
arquivado por ordem de desimportância,
por data, por autor, por assunto, por absoluto cansaço.
A chave que tranca a porta não há,
para que eu exercite a cada instante a decisão de não voltar.
Na estação, o trem que faz surgir a estrada necessária,
à medida que ela precisar existir.
Nas janelas, todas as paisagens que meu olhar construir.
Diante de mim, o percurso.
Perto de mim, todas as saídas.
Dentro de mim, a vida.
O resto é apenas uma foto na parede morta da lembrança.

Historinhas curtas do céu

Enquanto tentava ensinar a ela como amar e depois de ter resistido a seus apelos, ele declarou: "Tudo que amo, deixo livre. Se voltar é porque me pertence; se não voltar é porque nunca foi meu." Crédula na sabedoria dele, ela tomou um susto ao percebê-lo bem ali, diante de si, depois de ter ido embora. E mais intrigada ficou ao se dar conta de que ela também estava lá, no mesmo lugar onde ainda bem cedo prometera não mais voltar. Depois, sem preceber que se comprometia, ele perguntou a ela: "você não acha que está se comprometendo?".

FIM

Contos e desencontros da vida

E de repente as lágrimas começaram a vir, uma a uma, à superfície dos olhos. Não era previsto, não estava nos planos daquela mulher. E ela contava cada gota que caía, no desejo ingênuo de comparar com os rios que já tiveram aqueles olhos como nascente. Na conta do pensamento mágico, era simples assim. Alguns poucos desejos, algumas parcas alegrias, um quase romance, uma paisagem não concluída convertidos em poucas lágrimas, que ela contava no afã de se certificar de que eram mesmo tão poucas. A dimensão da dor era equivalente à dimensão do desejo, que ela mensurava por aquele fio d'água que insistente corria pelo seu rosto. Ela tentava racionalmente recolher as fantasias, para se convencer de que havia sido mesmo quase nada. Cabia tudo em uma pequena caixa: sonhos, desejos, alegrias, afagos não concebidos...
Não, não eram assim tão poucas as ilusões. Quando tentava incluir as lágrimas, a caixa não fechava. O que seria o destino? O que premedita o acaso? Haveria um plano? Quem comanda a razão? Quem inventou a distância? De onde vêm os sonhos? O que seria a vida se aquela caixa se fechasse...ou se estivesse vazia? Era da natureza daquela mulher encurralar a dor pela astúcia da razão. Não queria ter respostas; a ela bastavam as perguntas. Tinha um certo gosto pelo segredo. Talvez tivesse sido isso que infiltrou seu coração - o segredo e a tradição, estampados em um mapa que não desvendava o lugar, indicando apenas onde estava o céu. Ou teriam sido aquelas longas conversas que atravessavam a madrugada e invadiam o território dos sonhos? Impossível saber - o fato é que as tintas da vontade de paixão já haviam alterado a paisagem, preenchendo de sentido o espaço entre as montanhas lá no fim do mar. Não importava mais saber... Bastavam, como sempre, as perguntas. O tempo se encarregaria de acomodar todas as coisas. A paisagem e o mundo haveriam de voltar ao seu antigo lugar. O sol que iluminava o lado de lá das montanhas era apenas uma miragem de seu olhos verdes, imaturos. O som da voz que nunca ouviu se apagaria aos poucos. Os risos, os carinhos, a alegria e o desejo que nunca se realizaram voltariam a esperar. Não... não havia nada real sobre o que chorar. Ela se levantou e saiu, deixando para trás a caixa que ficou aberta para a possibilidade de o acaso se decidir a entornar.

Há coisas na vida que valem a pena mesmo não tendo acontecido...ou talvez valham apenas por isso


Quando temos sensibilidade para verdadeiramente ver o trabalho delicado que Deus fez sobre o universo, nós estamos nos encontrando com Ele. E desse encontro a gente nunca volta o mesmo, para o mesmo lugar. Trazemos um pouco de divindade nos olhos e colorimos nossa vida com outras tintas, mudando de lugar. E se compartilhamos o que vimos, descrevendo em fotos, palavras e êxtase, estamos oferecendo um pouco de Deus para o outro. E se o outro aceita... Deus sorri, porque valeu a pena o esforço para a realização do trabalho. Que o dia de todos seja pleno de consciência cósmica, permitindo que se emocionem de alegria por Ele nos ter incluído na paisagem.
Pôr do Sol em São Francisco
Foto: Anselmo Veríssimo

23 fevereiro 2009

Contos em cantos da vida

De dentro de uma gaiola, como quem revela um segredo, ela ensinava a três pequenos pássaros a liberdade de voar. Era exercício diuturno, que não encerrava nem mesmo quando a noite chegava e todos se recolhiam na escuridão. Era nesse momento de silêncio do mundo que ela diligentemente preparava o que haveria de dizer quando o dia voltasse e trouxesse de novo as três promessas de voo alto. Quando o sol começava a ensaiar seus primeiros raios, ela já estava desperta, pronta a recomeçar, embora nem sempre de onde havia parado. As lições teóricas falavam de liberdade, do que havia para além do que os olhos enxergavam e o pensamento podia ver. As palavras fortes se uniam em elos densos, formando um discurso que flertava com a contradição - ora coragem; ora receio... mas nunca medo. E era simples assim: a prática ia se intrometendo a cada espaço de silêncio necessário à decantação das longas dissertações. O que viria a seguir não se deixava saber. Não havia como perceber, de dentro daquela gaiola, como aquele imenso texto, tecido ao longo de tantos dias, poderia significar à luz do dia. Não havia tempo e nem espaço para a questão - o tempo urgia, na vida curta, o cumprimento de toda a lição. O hábito que faz o monge também disfarça o real do ser. E por repetição incansável, ela se tornou ciente de que aquilo era a trama de um dever - dever ser, devir, de servir, de se ver... O fato é que assim foi - vida seguindo, tempo voando e a teoria da liberdade aprendida se manifestando em prática tão forte como a contradição dos elos da corrente - corrente que aprisiona, corrente do pensamento, corrente de um rio que com persistência e força rompe os laços e cria seus próprios caminhos. Uma cena: "Do rio que tudo arrasta se diz que é violento; mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem." Essa uma das primeiras lições, tirada de Brecht, para dizer às águas que deviam transbordar. E ela brandia palavras consagradas na memória:
— Nenhum país, nenhuma vida precisa de heróis; os que acreditam que precisam não os merecem! Porque não há na vida heróis que antes não tenham sido mártires!
"You can surrender
Without a prayer
But never really pray
Without surrender
You can fight
Without ever winning
But never ever win
Without a fight".
E as palavras iam assim construindo a realidade... realidade à revelia.
Um dia, não se pode saber ao certo quanto tempo havia decorrido, as grades que conformavam a gaiola se dissolveram com a luz do dia que chegava. Não havia como evitar o dia, reter a luz do sol com as margens opressoras de um longo rio; não havia mais a divisão entre o lá dentro e o lá fora... os opostos não apenas se atraem, como passam a vida a justificarem-se mutuamente, a prover de sentido suas existências, driblando quaisquer outras possibilidades, instaurando o controle e o domínio. O fato é que não havia mais grades... e nem teorias que explicassem a irrecorrível liberdade que avultava sobre todas as coisas. E para espanto e constatação, aqueles três pequenos pássaros voavam! Apenas voavam, como se fosse mesmo de suas naturezas; como se sempre tivesse sido assim. E ela ficou ali, olhando, tentando classificar, categorizar, controlar, entender, explicar... Não fazia um único movimento, porque não apenas se foram as grades, como também já não havia chão. O que fazer? Para onde ir? Como andar, quando chão já não há? E ela ficou ali, maravilhada tentando aprender o que era, na prática, aquilo que só sabia ensinar.