Usar espinhos que só causam dor
Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu
Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, o lugar
Pro que eu sou
Eu não quero mais dormir
De olhos abertos me esquenta o sol
Eu não espero que um revólver venha explodir
Na minha testa se anunciou
A pé a fé devagar
Foge o destino do azar
Que restou
E se você puder me olhar
E se você quiser me achar
E se você trouxer o seu lar
Eu vou cuidar, eu cuidarei dele
Eu vou cuidar
Do seu jardim
Eu vou cuidar, eu cuidarei muito bem dele
Eu vou cuidar
Eu cuidarei do seu jantar
Do céu e do mar, e de você e de mim
Nando Reis - Os cegos do castelo
Hanna, a caminho de Paraty... ou será Paramim... ou Paraquem será? Paraty de mim.
Um comentário:
Penso/sinto, logo existo.
Existo, então me expresso/escrevo
e escrevo, escrevo, escrevo...
Para quê?
Antigamente, as grandes obras literárias tinham como sina a perenidade, uma certa vocação "eterna", que atravessava gerações com o prestígio inabalado, muitas vezes até acrescentado. Grandes autores trocavam cartas entre si e essa correspondência virava livro póstumo, com uma aura quase sagrada também.
Hoje... tudo bem, os clássicos continuam sendo lidos. Mas, em nossos dias, quais os livros que são lançados e que vão conseguir uma vaguinha na prateleria dos eternamente consagrados?
Um parêntese, lembrei de um poeminha que li certa vez:
" MEU POETA
És nome de rua, bronze de praça
verbete de enciclopédia
mas
teus versos, já ninguém os lê.
Como expressar tamanha tragédia? "
Tem isso também. Mesmo os clássicos, são lidos por tão poucos no planeta... e muitas vezes a leitura é apressada, ou são lidos apenas os fragmentos mais célebres da "grande obra".
Tudo que é sólido desmancha no ar... ???
Daqui a alguns bilhões ou trilhões de anos o planeta estará gelado, ao que tudo indica desabitado de qualquer humanidade...
... humanidade que talvez não precise de tanto tempo assim para se extinguir.
E quando não houver mais Terra nem seres humanos, qual será o valor dos clássicos? Quem lembrará deles? Quais serão os leitores, daqui a um quatrilhão de séculos?
O fato é que, apesar de tudo, como se fôssemos adeptos de uma religião arrebatadora e inevitável, que nos arrasta e obriga, continuamos a escrever, muito. E a "tragédia", hoje, parece ser mais imediata, diária.
Quanta preciosidade surge nesse admirável mundo novo virtual, para simplesmente volatizar no instante seguinte...
... quantos sites, blogues, textos riquíssimos, densos, poéticos, únicos, vão e vêm, e "se perdem" nos desvãos da vida acelerada, que explode num turbilhão-zão de manifestações as mais variadas, urgentes, incessantes?!
E as mensagens, o correio eletrônico?!? Cadê aquelas cartas trocadas com os melhores amigos, ou com os colegas escritores ou jornalistas, cartas que noutros tempos tinham como destino a nossa gaveta mais íntima, ou então uma pasta de couro, que as guardaria para sempre...? ou até o dia, anos e anos depois, em que as tiraríamos de lá com carinho, para relê-las, ou quem sabe para selecionar as que entrariam no nosso livro...
Já me angustiei um bocado com isso, com as centenas de textos preciosos (aos meus olhos e coração) trocados nos últimos anos de internet, lidos aqui no computador, e que...
... hoje, já não me angustio tanto, até porque creio que a Vida é muito mais, muito além, no tempo e no espaço, e que nossos espíritos estão todos irmanados na trilha da evolução, individual e coletiva, enfim:
Hanna, o que eu poderia lhe dizer, como retribuição singela à sua "ode ao imbuzeiro", é que (havendo ou não muitos leitores e comentaristas aqui no Sobretudo, qualquer coisa...) tem sido um raro privilégio poder estar aqui com relativa assiduidade, seguidor informal que sou das pegadas que você deixa na estrada da existência, das incrições que você imprime na Alma do Mundo.
No mais, como tenho dito a um amigo que criou recentemente um blog interessante e que se ressente um pouco por se dedicar muito e caprichar tanto nos textos, sem ter um "retorno" (numérico) satisfatório, quando você já tiver um volume robusto de "crônicas" ou quando se cansar de vez do blog, pare. Pare e comece a escolher o que de melhor ficou registrado ali, para publicar em livro.
Sim, ainda que daqui a um sextilhão de milênios já não exista mais nenhum vestígio do livro nem do papel nem das palavras, a emoção investida na criação e a intenção de semeadura ainda estarão preservadas, passeando aí pelo infinito eterno. Pelo menos, eu creio nisso.
Um abraço imenso e um carinhoso beijo, do amigo, irmão de caminhada.
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