Minhas dívidas são computadas em moedas de histórias. Ontem fui cobrada de uma delas. Uma história linda que não sei como contar. A realidade se encarregou da fantasia e dos adereços, não deixando nada que eu possa inventar. Até os desafios à sensatez dos fatos rechearam o enredo, colorindo com risos e alegria todas as longas horas daquele dia que parecia ter nascido entre parênteses. "E o samba-enredo, você lembra?" Não, eu não lembrava. Era em homenagem ao Cartola. Chovia também naquele dia, como ontem. Era carnaval, como ontem, Dia dos Namorados. Remexi meus bolsos, que estavam vazios de histórias. Mas encontrei o amuleto que ganhei de uma índia - um muiraquitã de jade. Era perfeito e combinava com o inusitado - caixinha prateada com laço de fios de palha. Um muiraquitã que, reza a lenda, protege o coração dos guerreiros para que eles voltem sempre de suas batalhas. Só os corações fortes se lançam às grandes conquistas. Não há risco, porque não há medo. E o amuleto era de quem eu o deveria dar. O amuleto sabia a quem deveria honrar. Tudo, então, estava certo, cada coisa em seu lugar. Tudo meticulosamente certo, embora difícil de entender. Talvez eu estivesse apenas recebendo, quando só me reconheço em dar. Quem recebe não percebe. Me deixei presentear. Deus tem sido pródigo ao me contemplar.Mas ainda assim... fiquei devendo a história.
Devo, não nego e um dia conto.
Devo, não nego e um dia conto.
Hanna, feliz.
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