Essa menininha de biquini de bolinhas fez aquele menininho de terninho lá embaixo sofrer. Era um tempo de onde Chico Buarque tirou a frase de uma canção chamada João e Maria (que podiam até ser eles dois): "...no tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido". E era mesmo fatal que o faz-de-contas tomasse outros rumos e desse no que cada rumo tem naturalmente que dar. Pra lá desse quintal, tantas histórias... Durante algum tempo o menininho sofreu, até que cresceu e empurrou o passado para a sala de brinquedos, trancou a porta e nunca mais foi lá. Passou, passou...A menininha, que seguiu feliz com a brincadeira que fez o menininho sofrer, também cresceu. E a brincadeira foi passando, passando até que a noite desceu sobre a casa, o jardim, o quintal. Mas ao contrário da Maria de Chico, essa noite também chegou ao fim. Ao abrir a porta da casa, depois que o medo do escuro passou e a noite clareou, a menininha foi correndo rever o quintal, tentar encontrar histórias, saber por que chegam ao fim. O quintal estava vazio, quieto, mudo. Não havia cantigas de roda, brincadeiras de passar anel, ninguém. E ela se viu de outro jeito, outra pessoa, outra expressão. Ao lado dela, uma pequena mala. Ela desejou que ali estivesse guardada a chave do tempo que faria a mágica da roda girar,
transformando em realidade o que tinha virado recordação. Lá estava apenas ele - pequeno, tritste. Queria não ter sido má para aquele menininho, que agora era a imagem imaculada de um afeto gentil, crianças que eram. Passaram pela memória tantos rostos, tantos risos, tantos choros, tantos... De repente, uma imagem parou e aquele menininho reapareceu. Ele não brincava mais, não fazia carinhos, não ensaiava a sedução que um dia iriam exercitar em outros corpos, outros corações. Ficava ali sofrendo, parado. Um sofrimento mudo, como só uma lembrança pode doer; deslocada, transferida para o coração da menininha, que não tinha mais como retroceder, entrar no passado e dizer: "perdão". Era uma espécie de culpa engasgada como um nó na garganta. Aquele menininho ali, doendo a cada vez que a menininha se desencantava com as coisas da vida, nas tormentas da ilusão. Como ela entendia agora o que ele sentiu; como queria reescrever a história com outras palavras, ou apenas dizer: "perdão". Ela também fechou a porta e empurrou o passado para lá — o que não tem remédio, remediado está. Seguiu a vida crescendo, com aquele espinho fino em pacto de convivência com seu coração. Um dia desses, a roda do universo parou; a tecnologia avançou e o menininho apareceu em novo terno, longe, bem longe. Mas ele estava ali! Perto, bem perto! Ela ficou sem jeito, como se o vento balançasse o espinho que ela insistia em amortecer. Ficou feliz ao ver que a vida fez por ele o que ela deixou de fazer. Falaram pouco, como quem tem medo do escuro, dos fantasmas, da ilusão.Um dia, belo dia, começaram a conversar. E antes que o assunto enredasse, ele disse "quase morri!", e ela respondeu: "Eu peço perdão!"
E o menininho e a menininha foram felizes para sempre, lá longe, no passado, para lá desse quintal.
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