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03 abril 2008

Era outra vez....

Aqueles passarinhos apareceram na varanda como crianças correndo uma da outra. Voavam ligeiros e barulhentos, como se rissem a seu modo. Cantavam, decerto, mas pareciam transmutar-se em gente feliz naqueles rodopios alvoroçados. Pousaram juntos na água clara que corria entre os jardins e ali ficaram brincando. Quase se ouvia o farfalhar das asas espargindo gotas um no outro. Ele cantava suas histórias, enquanto ela sorria; ela fingia-se distraída, enquanto ele olhava em volta como quem tem por missão proteger a mulher querida; mostrava o peito farto, com penas lisas e a força imbatível dos que se sabem amados. Durou apenas alguns minutos, ternos minutos que ludibriaram o tempo e se fizeram eternidade, escondidos que estavam nas astúcias da ilusão. Doce ilusão... Um vento morno atiçou as folhas das bananeiras, que balançaram de um lado a outro qual mão indolente que espanta para fora o que nem mesmo dá conta de ver. E eles saltaram um pouco, chacoalharam os chuviscos de alegria que ainda pendiam de suas asas. Puseram-se no prumo e ensaiaram alguns passos. Deram saltinhos lado a lado como se à espera da mão um do outro... mas não havia mãos para se dar. Olharam inquietos para todos os lados, como se já não conseguissem mais se ver. De repente, em vôo decidido, cada qual tomou seu rumo, numa estrada longa que levava para o alto, longe — lados opostos de um horizonte largo, fundo, onde meus olhos já não podiam mais estar.
Foto (editada): Ênio Rocio

3 comentários:

Anônimo disse...

"Birds of a feather flock together."

Seres semelhantes tendem a fazer as mesmas coisas. Farfalham asas, piam memórias, cantam sonhos... Parece que os vi, esses dois, voando livres no horizonte fundo que criaram naquele instante.

É que estavam com as plumagens plenas e voar juntos, de asinhas dadas, seria demasiadamente pesado, contra-producente, segundo a aerodinâmica do amor.

Ih! Acho até que foi a passarinha que acabou de passar por aqui cantarolando:

"O nosso amor
a gente inventa
pra se distrair.
E quando acaba
a gente pensa
que ele nunca existiu..."

Será??

deabreu disse...

OBRIGADO POR TER VOLTADO DE ANGRA E RECOMESSADO A ESCREVER, COM OS MEUS 63 AINDO APRENDO MUITO COM VC, BEIJOS TEU FAN # 1.

Anônimo disse...

Comentário à lá Cazuza:
"Eu protegi teu nome por amor, em um codinome beija-floooor. Não responda nunca, meu amor, nunnnnca, pra qualquer um na rua beija -flor".

Beijo, neném...