Metamorfose afetiva
Rosa Pena
Foi número um!
Passou para algum...
Virou multidão.
Rosa Pena
Foi número um!
Passou para algum...
Virou multidão.
Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
Toda vez que chove, eu me lembro do Lobão. Talvez apenas porque eu ande muito musical, indo do erudito ao rock, passando por uma ou outra bossa nova, e flanando em sambas e choros que há muito não ouvia. Mas Lobão é frágil como uma flor quando canta "chove lá fora e aqui faz tanto frio...". É absolutamente encantadora a imagem de homens com aparência tão máscula cantando a fragilidade do sofrimento por um amor; sofrendo pela ausência de uma mulher. Muito já se esmiuçou sobre as dores de amor das mulheres - de revistas de fofocas a best sellers -, mas não me lembro de referências às dores de amor dos homens. Penso às vezes que não foram feitos para a dor, embora preparados para as batalhas e guerras. Deve ser tão mais doída, para os homens, a dor que vem quando o sangue não está aquecido pela expectativa da luta e a alma apenas pede piedade... Ah... e as mulheres? Vão repetidamente ao parto sem sequer lembrar da dor! Como deve ser tão mais grave para esses seres fortes...Mas eles não falam disso; é como se não acontecesse... Mas alguns deles se expõem em suas canções, como Lobão, por exemplo, apesar da inadequação gramatical... "aonde está você, me telefona...". Chico travestiu as emoções com o sofrimento de todas as mulheres para, quem sabe, sofrer em off de seu próprio amor. Como homem - sem uma configuração assim tão máscula; lindinho como uma boneca; igual a Tom Cruise! - mostrou-se o tolo comum que tem uma mulher e, distraído dela, leva uma rasteira e a perde para outro... "tinha cá pra mim que agora sim vivia um grande amor... mentira...". Para Chico, os homens são distraídos de suas mulheres e as mulheres, sempre prontas a sambar com outros. Um jeito de negar a dor. Mas Lobão, quando diz que "nem sempre se vê lágrimas no escuro...", é um homem de voz grave, figura e apelido rudes, e nos deixa ver que o amor abate a todos quando não se realiza. Um homem sofrendo por amor. Diferente de Caetano, que esculachou a mulher amada em Cê..."piranha, vagaba, nojenta e sei lá eu mais o quê...". Que coisa ressentida e feia. Mas Lobão, que conta a lenda comeu até a vovozinha, confessa "...me dá vontade de saber... me telefona...nem sempre se vê mágica no absurdo... lágrimas no escuro...cadê você?". É fato e não se pode negar: o ódio é a contraface de um amor renitente; e a recusa, nesse caso, a face mais explícita de um infinito desejo. É, Lobão, chove lá fora...
"O primeiro dia do resto de nossas vidas". Prego na geladeira o ímã carregado de uma ambigüidade sonsa, que infiltra na alma a vontade de acreditar que temos nas mãos as rédeas do destino. Decisão repentina, apressada. Uma espécie de medo de perder o último trem que nos poderá levar até lá – um lá onde nem bem sabemos onde é. Ao lado, um pouco mais acima, pedaço restante de uma vida finda - uma graça tosca, como um sorriso que prendeu no espinho e não pode se retirar: “Sapos não foram feitos para serem engolidos. É anti-ecológico”. Penso em outro, de graça rude que não cabe em imã, não se sustenta em geladeiras, não vai para lugar algum. O que é ele neste universo previsível? Não é o que vejo, porque o que vejo não completa a imagem que conheço em estranhos detalhes. Uma janela fortuita se abre na realidade e lá está ele, como um outro que não atravessa o tempo.
Este título é apenas um pensamento, a partir da idéia que me ocorreu de que não sei quase nada, embora saiba fazer muitas coisas. Acho que no fundo ninguém sabe coisa alguma, ou sabe-se quase nada. Contento-me, então, em ser cursiosa e ter a incontrolável mania de compartilhar tudo o que vou descobrindo com outras pessoas. Acredito que tudo deve ter uma finalidade, uma aplicabilidade, resultar em algum benefício para alguém, ser compartilhado. Por isso acho que faço o que faço e sou como sou, sem o que não daria mesmo certo...hahahaha. Acabei de responder a um amigo que observou que não tenho escrito ultimamente; disse que é porque ando triste. Depois da longa conversa — tenho um gosto especial de conversar com esse amigo e ele, ao que parece, também gosta de conversar comigo — revi a decisão e deixei que fluísse uma frase, uma palavra, ou ponto, uma exclamação....reticências. Qualquer coisa que me desafiasse a dar sequência e me obrigasse a acordar o texto. Pois bem: estão aqui as palavras, muitas palavras, diversos pontos. Mas onde foi que se escondeu, afinal, o texto? Talvez tenha-se enfurnado no título, que este sim ficou bacana: "escrever é como construir a ponte por onde iremos passar". Desconfio apenas do verbo "iremos", mas de resto, pontes também têm aquelas partes menos bonitas que constituem suas armações, sustentações, estacas. Enfim, tudo é útil quando se precisa atravessar um grande vazio que vai dar no lado de lá. Então, meus caros e diletos amigos, recebam com generosidade esses cacos de letras, cimento, pedra e pontos que espero contribuam para a construção da dita ponte. Prometo apenas contar o que há de tão interessante do lado de lá que me leva a tanto esforço sem vontade; a tantas palavras desprovidas de discurso. Mas tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus...