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21 novembro 2008

Anjos, anjos... e uma pena que voou.

Eu vi. Alguém faz as asas dos anjos, antes que eles cheguem para usar. As penas alvas são coladas uma a uma, e depois que estão todas arrumadinhas são postas a secar. Demoram dois meses para ficar direitinho e não soltar quando os anjos apressados saem esvoaçando vida a fora. As menorezinhas, que ficam bem abaixo do fim de cada lado, são fininhas, tenras, suaves e sempre acabam se soltando, rindo e indo embora com o vento. Elas são feitas de fantasia. Por onde passam desafiam os sonhos e a imaginação - criam enredo, fazem história, enlaçam os inexistentes possíveis e os impossíveis desaforados. Desaforo... essa palavra vem do latim e quer dizer lugar onde se tratam de interesses públicos - fórum! Mas as penas leves só são penas perdidas; não são penas impostas e nem perdição. São penas das asas dos anjos não têm fórum, não habitam os templos e tribunais. Elas apenas riem com as cócegas do vento e a fé dos tolos. Os anjos que perdem as asas são desprovidos de foro, não têm onde defender o que por si é desprovido de culpa - indefensáveis, desaforados os anjos. Mas eu sei... eu vi aquelas mãos enrugadas e finas a tecer as asas, as estender ao sol e insistentemente avisar aos anjos: tem que deixar dois meses a secar.

19 novembro 2008

14 novembro 2008

09 novembro 2008

Poemeu...

O amor é um rio manso que inventa seus caminhos mesmo contra a vontade da terra.
Joseti Marques

22 outubro 2008

Não posso acreditar!!!!

Noooossa!!! Fui conferir a estatística deste modesto e humilde blog que tem sido relegado à última das minhas prioridades e vi que meus amados leitores continuam acreditando que vou manter um mínimo de periodicidade. Desde que postei o último texto até agora, duzentas e duas pessoas acessaram a página. Pode ser apenas uma pessoa, como podem ser 202; podem ser apenas duas, podem ser apenas 3,4,5,9,10. A minha carência é que elabora em torno da questão de quantos e quem. Mas somando tudo e temperando com a minha tendência ao otimismo, eu me sinto afagada, amada, acarinhada, aconchegada, xexelenta (seria com x?), antipática, metida e nojenta... mas querida, muito querida...e se bobear, extremamente amada.
Seja apenas um, como sejam apenas alguns, e ainda muitos, a todos e todas o meu amor. Aliás, como de sempre.

Nao...infelizmente, não

Acho que, em ato falho, produzi uma certa ambiguidade no texto que postei logo abaixo. Pessoas queridas - do Rio e de New Jersey, na verdade apenas duas - acharam que eu tinha decidido voltar pro Rio de Janeiro. Então esclareço: nunca saí do meu Rio de Janeiro. Vou para onde for por circunstâncias as mais diversas, mas pro Rio eu volto sempre, sem sombra de dúvidas. Mas só volto na hora certa, trabalho encerrado, tarefa cumprida. Ainda não acabou, mas estou me apressando. Só que, depois, me espera o Acre, aonde vou com a mesma paixão que me trouxe ao Pará. Sou extremada nas minhas paixões. Mas por enquanto, de eterna, só mesmo a paixão pelo Rio de Janeiro e aquelas figurinhas carimbadas e lindas que ilustram a minha vida. Aos demais, meus beijos, afeto e carinho, porque a todos amo. Como de sempre.

16 outubro 2008

O problema é que estou morrendo de saudades!!!!!

Pois é.... Para quem anda sentindo falta de minhas bobagens, devo dizer que morro de saudades de tudo e de todos - das coisa mais banais às mais insignificantes. Dá pra ver que o nível de exigência está abaixo de zero, né? Mas é fato: morro de saudades daquele sol que sai à francesa e deixa um frio do cacete no ar; daquela praia que aquece e venta, que manda embora no fim da tarde, mas que te atura se quiseres ficar, se tiveres tomado cerveja demais... A concordância do verbo é apenas uma charme de quem se sente abraçado por outro lugar. Sempre me soou mal o "tu vai" do carioca. Mas agora também me soa estranho o "você vai", diante do "tu fostes" do paraense. Como a gente daqui fala bonito... e eles, na verdade, só falam certo. Mas são observações que apenas denunciam minha indecisão entre o rio e o mar - e que rio... mas que mar. É o ônus de ter nascido sob o signo de gêmeos. Valei-me o ascendente em aquário! Mas tristeza me perdoe... estou de malas prontas - como naquela música que ouvi em um amanhecer longíquo, vindo de uma rua do centro da cidade, entrando por uma janela velha de um tempo que já passou. Até porque, agora, estou a caminho do Rio... do meu Rio de Janeiro.

21 setembro 2008

O problema é que...

"Diz uma história que em certa cidade apareceu um circo, e que entre seus artistas havia um palhaço com o poder de divertir, sem medida, todas as pessoas da platéia e o riso era tão bom, tão profundo e natural que se tornou terapêutico.
Todos os que padeciam de tristezas agudas ou crônicas eram indicados pelo médico do lugar para que assistissem ao tal artista que possuía o dom de eliminar angústias.
Um dia, porém, um morador desconhecido, tomado de profunda depressão, procurou o doutor.
O médico, então, sem relutar, indicou o circo como o lugar de cura de todos os males daquela natureza, de abrandamento de todas as dores da alma, de iluminação de todos os cantos escuros do nosso jeito perdido de ser.
O homem nada disse, levantou-se, caminhou em direção à porta e quando já estava saindo, virou-se, olhou o médico nos olhos e sentenciou: "não posso procurar o circo... aí está o meu problema: eu sou o palhaço".
Como professor vejo que, às vezes, sou esse palhaço, alguém que trabalhou para construir os outros e não vê resultado muito claro daquilo que faz.
Tenho a impressão que ensino no vazio (e sei que não estou só nesse sentimento) porque depois de formados, meus ex-alunos parecem que se acostumam rapidamente com aquele mundo de iniqüidades que combatíamos juntos.
Parece que quando meus meninos(as) caem no mercado de trabalho, a única coisa que importa é quanto cada um vai lucrar, não interessando quem vai pagar essa conta e nem se alguém vai ser lesado nesse processo.
Aprenderam rindo, mas não querem passar o riso à frente e nem se comovem com o choro alheio.
Digo isso, até em tom de desabafo, porque vejo que cada dia mais meus alunos se gabam de desonestidades.
Os que passam os outros para trás são heróis e os que protestam são otários, idiotas ou excluídos, é uma total inversão dos valores.
Vejo que alguns professores partilham das mesmas idéias e as defendem em sala de aula e na sala de professores e se vangloriam disso.
Essa idéia vem me assustando cada vez mais, desde que repreendi, numa conversa com alunos, o comportamento do cantor Zeca Pagodinho, no episódio da guerra das cervejas e quase todos disseram que o cantor estava certo, tontos foram os que confiaram nele.
"O importante professor é que o cara embolsou milhões", disse-me um; outro: "daqui a pouco ninguém lembra mais, no Brasil é assim, e ele vai continuar sendo o Zeca, só que um pouco mais rico", todos se entreolharam e riram, só eu, bobo que sou, fiquei sem graça.
O pior é quando a gente se dá conta que no Brasil é assim mesmo, o que vale é a lei de Gérson: "O importante é levar vantagem em tudo". ( Lei de Gerson...dá para rir...)
A pergunta é: "É possível, pela lógica, que todo mundo ganhe? Para alguém ganhar é óbvio que alguém tem de perder."
Lógico é guardar o troco recebido a mais no caixa do supermercado; é enrolar a aula fingindo que a matéria está sendo dada; é fingir que a apostila está aberta na matéria dada, mas usá-la como apoio enquanto se joga forca, batalha naval ou jogo da velha; é cortar a fila do cinema ou da entrada do show; é dizer que leu o livro, quando ficou só no resumo ou na conversa com quem leu; é marcar só o gabarito na prova em branco, copiado do vizinho, alegando que fez as contas de cabeça; é comprar na feira uma dúzia de quinze laranjas; é bater num carro parado e sair rápido antes que alguém perceba; é brigar para baixar o preço mínimo das refeições nos restaurantes universitários, para sobrar mais dinheiro para a cerveja da tarde; é arrancar as páginas ou escrever nos livros das bibliotecas públicas; é arrancar placas de trânsito e colocá-las de enfeite no quarto; é trocar o voto por empregos, cargos, pares de sapato ou cestas básicas; é fraudar propaganda política mostrando realizações que nunca foram feitas .
É a lógica da perpetuação da burrice. Quando um país perde, todo mundo perde. E não adianta pensar que logo bateremos no fundo do poço, porque o poço não tem fundo.
Parafraseando Schopenhauer: "Não há nada tão desgraçado na vida da gente que ainda não possa ficar pior".
Se os desonestos brasileiros voassem, nós nunca veríamos o sol. Felizmente há os descontentes, os lutadores, os sonhadores, os que querem manter o sol aceso, brilhando e no alto.
A luz é e sempre foi a metáfora da inteligência. No entanto, de nada adianta o conhecimento sem o caráter.

Que nas escolas seja tão importante ensinar Literatura, Matemática ou História quanto decência, senso de coletividade, coleguismo e respeito por si e pelos outros.
Acho que o mundo (e, sobretudo, o Brasil) precisa mais de gente honesta do que de literatos, historiadores ou matemáticos.
Ou o Brasil encontra e defende esses valores e abomina Zecas, Gérsons, Dirceus, Dudas e todos os marqueteiros que chamam desonestidades flagrantes de espertezas técnicas, ou o Brasil passa de país do futuro para país do só furo.
De um Presidente da República espera-se mais do que choro e condecoração a garis honestos, espera-se honestidade em forma de trabalho e transparência.
De professores, espera-se mais que discurso de bons modos, espera-se que mereçam o salário que ganham (pouco ou muito) agindo como quem é honesto.
A honestidade não precisa de propaganda e de homenagens, precisa de exemplos.
Quem plantar joio, jamais colherá trigo.
Quando reflexões assim são feitas cada um de nós se sente o palhaço perdido no palco das ilusões.
A gente se sente vendendo o que não pode viver, não porque não mereça, mas porque não há ambiente para isso.
Quando seria de se esperar uma vaia coletiva pelo tombo, pelo golpe dado na decência, na coerência, na credibilidade, no senso de respeito, vemos a população em coro delirante gritando "bis" e, como todos sabemos, um bis não se despreza.
Então, uma pirueta, duas piruetas, bravo ! bravo !
E vamos todos rindo e afinando o coro do "se eu livrar a minha cara o resto que se dane".
Enquanto isso o Brasil de irmã Dulce, de Manuel Bandeira, do Betinho, de Clarice Lispector, de Chiquinha Gonzaga e de muitos outros heróis anônimos que diminuíram a dor desse país com a sua obra, levanta-se, caminha em silêncio até a porta, vira-se e diz: "Esse é o problema... eu sou o palhaço".
(O autor não assinou)