
Eles existem... sim, existem... Fiquei surpresa ao me dar conta de que estava olhando aquela cena há tanto tempo. Aquele homem sério na imensa varanda daquela bela casa de campo, sentado em uma confortável cadeira de balanço em estilo antigo. Ele acariciava a barba com suavidade, como quem pensava no que mais construir naquele entorno já tão organizado e arquitetural. As mãos dele eram suaves e guardavam uma juventude que a seriedade das linhas do rosto teimavam em contradizer. E olhava para o horizonte largo, como se jamais fosse percorrer aquela distância; ao mesmo tempo, parecia apenas estudar o caminho. Lá ao fundo, uma montanha... alta e ensolarada, que parecia ter sido colocada na direção exata para que os olhos daquele homem pudessem mirar. E lá no topo, no seu mais alto ponto, uma mulher se banhando de um sol manso que clareava todo o lugar. Ela abaixava-se e levantava-se, abrindo os braços como quem emerge das águas do mar, deixando cair de si uma fina cortina de gotas. Mas não havia àgua... era apenas a luz do sol. Ela repetia esse movimento incansavelmente, como se distraída do tempo que passava, passava... E aquele homem ficava lá, balançando-se na cadeira suavemente e olhando aquela mulher na montanha. Ela estava vestida de luz, de alegria, de inteligência, com alguns adereços de tolice, futilidade e distração, naquela montanha adornada de acácias, verbenas e madressilvas; ele trajava a veste cinza da responsabilidade e da organização, com um toque de abrandamento oferecidos pelos complementos da prudência, da sinceridade e da lealdade. Ficavam assim, em uma cena roubada de uma época distante — aquele homem vigiando para que o tempo não voltasse a passar por aquele lugar, zelando a paz da mulher que se banhava em luz. E de repente me dei conta de que também estava ali, observando a cena como se o tempo também tivesse estancado para mim. Tentava analisar, entender e explicar. Do outro lado, quase no meio do caminho, alguém tentando descobrir como atravessar o campo largo e iluminado daquele quadro, sem quebrar-lhe o encanto ou ficar para sempre dentro dele encantado.