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09 abril 2008

Encrencas na TV Pública!

Transcrevo a notícia, para os que ainda gostam de acompanhar a realidade pela imprensa:

Jornalista acusa direção da emissora e o Planalto de interferência no noticiário da TV pública. Conselho investiga denúncia

Publicada em 07/04/2008, às 23h36m

Adauri Antunes Barbosa e Alan Gripp - O Globo

SÃO PAULO e BRASÍLIA - Uma comissão corregedora deve ser montada para ouvir a direção da TV Brasil e o jornalista Luiz Lobo, demitido na última sexta-feira da emissora e que saiu acusando o Palácio do Planalto de interferência na programação jornalística. Segundo Lobo, a direção da emissora o proibiu de usar a expressão dossiê e determinou que usasse "levantamento sobre uso dos cartões". O presidente do Conselho Curador da TV Brasil, Luiz Gonzaga Belluzzo, convocou nesta segunda, por e-mail, todos os conselheiros para uma "reunião eletrônica", na qual devem opinar, em 24 horas, sobre a criação da comissão corregedora.

" Temos que analisar o que aconteceu. Se aconteceu (o que Lobo afirma), é grave "

A comissão corregedora, segundo ele, vai ouvir os dois lados para saber quem está falando a verdade. O conselheiro Cláudio Lembo, ex-governador de São Paulo, endossou a proposta de Belluzzo de ouvir o jornalista e a direção da emissora.
- Seria injusto dar uma opinião sem ouvir a outra parte (a direção). Temos que analisar o que aconteceu. Se aconteceu (o que Lobo afirma), é grave. Mas, se não aconteceu, não podemos ficar na ilação - disse Lembo.
Para Luiz Gonzaga Belluzzo, qualquer opinião sobre as acusações de Luiz Lobo, de que há na emissora "um cuidado que vai além do jornalístico", seria um pré-julgamento.
- Ele usou um argumento que critica a independência da TV, mas a priori não posso aceitar esse seu argumento. Tenho que ouvir o outro lado. Não posso aceitar apenas uma versão - afirmou Belluzzo.
Possivelmente na quarta-feira ele já terá a resposta dos 14 conselheiros sobre o tema da "reunião eletrônica". Embora ainda não tenha uma data para a reunião e a decisão do conselho sobre o assunto, Belluzzo disse que isso deve acontecer "o mais rapidamente possível".
O jornalista Luiz Lobo, demitido sexta-feira passada da TV Brasil, deixou a empresa dizendo com todas as letras que o governo quebrou a promessa de não interferir em seu conteúdo, feita durante a discussão para a criação da emissora.
- O coração da TV Pública foi ferido - disse nesta segunda Luiz Lobo, que ocupava o cargo de editor-chefe do telejornal "Repórter Brasil". - Já vinha alertando que é preciso cuidado com o que está acontecendo ali. As dificuldades estavam cada vez maiores. E essa não é uma coisa só minha. As pessoas que estão ali (na direção) estão muito próximas a essa idéia de controle.

Direção da TV diz que houve só "reparo jornalístico"

Lobo evitou dizer nomes e contar casos. Em reportagem da "Folha de S.Paulo", publicada nesta segunda, ele contou que a pressão aumentou nos últimos dias, após o estouro do escândalo do dossiê contra o governo Fernando Henrique feito no Palácio do Planalto. Segundo ele, as reportagens só podiam usar a expressão "levantamento sobre uso dos cartões", copiando a versão do governo para o caso, e não dossiê. Também era obrigatório, ao falar de problemas na saúde, mencionar a derrubada da CPMF, segundo ele. A assessoria da TV diz que trata-se apenas de "reparo jornalístico".
- O que eu posso dizer é que estava havendo dificuldade de exercer o jornalismo como se deve - disse Lobo.
As palavras de Lobo se somam às do jornalista Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás no primeiro mandato de Lula. No livro "Em Brasília, 19 horas", que será lançado esta semana, Bucci faz relato minucioso das pressões exercidas pelo Palácio do Planalto contra o jornalismo que implantou na empresa, por vezes em formato de cartas. Algumas eram assinadas pelo então ministro José Dirceu (Casa Civil) e destinadas ao ministro Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação), mas foram enviadas a seu gabinete com selos de "confidencial". O Planalto não quis comentar.

" A TV Brasil é a tentativa de algo impossível: uma TV patrocinada pelo governo não consegue ser pública e independente "


Bucci não quis comentar a demissão de Luiz Lobo e suas acusações de que a TV Brasil também é pressionada a fazer um jornalismo chapa-branca. Mas, para alguns especialistas em TV, as semelhanças entre as duas acusações não são mera coincidência.
- Era apenas questão de tempo (surgir uma acusação de interferência do governo na TV Brasil). A TV Brasil é a tentativa de algo impossível: uma TV patrocinada pelo governo não consegue ser pública e independente - diz o professor de telejornalismo da Uerj e crítico de TV do site "Comunique-se", Antônio Brasil, para quem apenas a independência financeira daria à TV Brasil chances de algum dia se tornar algo próximo do que é hoje a BBC na Inglaterra.
O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo de Andrade, diz que as tentativas de interferência do governo na Radiobrás são naturais:
- É natural que o governo queira interceder e que o Eugênio Bucci busque que a pauta seja exclusivamente baseada em princípios jornalísticos. Faz parte da rotina das redações, inclusive das empresas privadas.
A TV Brasil nega que Lobo tenha sido demitido por questões político-ideológicas. Diz que ele recusou-se a assinar um contrato, que só aceitava um compromisso para trabalhar 30 horas semanais e que isso seria incompatível com a função de editor-chefe do principal telejornal da emissora. A assessoria da TV afirmou ainda que Lobo só aparecia para trabalhar às 16h e que, por isso, não acompanhava o processo de feitura do jornal. O jornalista contesta.

03 abril 2008

Era outra vez....

Aqueles passarinhos apareceram na varanda como crianças correndo uma da outra. Voavam ligeiros e barulhentos, como se rissem a seu modo. Cantavam, decerto, mas pareciam transmutar-se em gente feliz naqueles rodopios alvoroçados. Pousaram juntos na água clara que corria entre os jardins e ali ficaram brincando. Quase se ouvia o farfalhar das asas espargindo gotas um no outro. Ele cantava suas histórias, enquanto ela sorria; ela fingia-se distraída, enquanto ele olhava em volta como quem tem por missão proteger a mulher querida; mostrava o peito farto, com penas lisas e a força imbatível dos que se sabem amados. Durou apenas alguns minutos, ternos minutos que ludibriaram o tempo e se fizeram eternidade, escondidos que estavam nas astúcias da ilusão. Doce ilusão... Um vento morno atiçou as folhas das bananeiras, que balançaram de um lado a outro qual mão indolente que espanta para fora o que nem mesmo dá conta de ver. E eles saltaram um pouco, chacoalharam os chuviscos de alegria que ainda pendiam de suas asas. Puseram-se no prumo e ensaiaram alguns passos. Deram saltinhos lado a lado como se à espera da mão um do outro... mas não havia mãos para se dar. Olharam inquietos para todos os lados, como se já não conseguissem mais se ver. De repente, em vôo decidido, cada qual tomou seu rumo, numa estrada longa que levava para o alto, longe — lados opostos de um horizonte largo, fundo, onde meus olhos já não podiam mais estar.
Foto (editada): Ênio Rocio

02 abril 2008

Era uma vez...

Acreditem se quiserem, mas tenho leitores. Um deles me enviou um e-mail, preocupado porque eu havia "desaparecido", pois minha última postagem datava ainda do dia 26 de março. Fiquei lisonjeada, mas pouco pude fazer àquela hora, já quase uma da madrugada. Passei o dia pensando no blog, sem no entanto conseguir postar uma linha. Agora, novamente passa da meia noite e ainda não me vem qualquer coisa à imaginação. Passo e repasso imagens estanques, soslaios de vidas alheias, bisbilhotices de conversas de metrô, graças toscas de urbanidades cotidianas. Mas assim como vêm, as idéias vão e desaparecem ao dobrar a esquina do pensamento. Não viram palavras, textos, poesias, comédias, discursos. Estou em branco, diante de leitores pacientes. Na lembrança, nada além de coisas reais, acontecidas, vividas em mergulhos fundos num mar de águas claras e sol indolente. Mas amanhã acordo tarde e quem sabe trago do sonho uma história nova, inventada pela astúcia da realidade e travestida de sonho pelo gosto da ilusão. Aos meus amados leitores, uma noite repousante e um amanhecer de paz.
Foto: Angra dos Reis (Ênio Rocio)