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03 abril 2008

Era outra vez....

Aqueles passarinhos apareceram na varanda como crianças correndo uma da outra. Voavam ligeiros e barulhentos, como se rissem a seu modo. Cantavam, decerto, mas pareciam transmutar-se em gente feliz naqueles rodopios alvoroçados. Pousaram juntos na água clara que corria entre os jardins e ali ficaram brincando. Quase se ouvia o farfalhar das asas espargindo gotas um no outro. Ele cantava suas histórias, enquanto ela sorria; ela fingia-se distraída, enquanto ele olhava em volta como quem tem por missão proteger a mulher querida; mostrava o peito farto, com penas lisas e a força imbatível dos que se sabem amados. Durou apenas alguns minutos, ternos minutos que ludibriaram o tempo e se fizeram eternidade, escondidos que estavam nas astúcias da ilusão. Doce ilusão... Um vento morno atiçou as folhas das bananeiras, que balançaram de um lado a outro qual mão indolente que espanta para fora o que nem mesmo dá conta de ver. E eles saltaram um pouco, chacoalharam os chuviscos de alegria que ainda pendiam de suas asas. Puseram-se no prumo e ensaiaram alguns passos. Deram saltinhos lado a lado como se à espera da mão um do outro... mas não havia mãos para se dar. Olharam inquietos para todos os lados, como se já não conseguissem mais se ver. De repente, em vôo decidido, cada qual tomou seu rumo, numa estrada longa que levava para o alto, longe — lados opostos de um horizonte largo, fundo, onde meus olhos já não podiam mais estar.
Foto (editada): Ênio Rocio

02 abril 2008

Era uma vez...

Acreditem se quiserem, mas tenho leitores. Um deles me enviou um e-mail, preocupado porque eu havia "desaparecido", pois minha última postagem datava ainda do dia 26 de março. Fiquei lisonjeada, mas pouco pude fazer àquela hora, já quase uma da madrugada. Passei o dia pensando no blog, sem no entanto conseguir postar uma linha. Agora, novamente passa da meia noite e ainda não me vem qualquer coisa à imaginação. Passo e repasso imagens estanques, soslaios de vidas alheias, bisbilhotices de conversas de metrô, graças toscas de urbanidades cotidianas. Mas assim como vêm, as idéias vão e desaparecem ao dobrar a esquina do pensamento. Não viram palavras, textos, poesias, comédias, discursos. Estou em branco, diante de leitores pacientes. Na lembrança, nada além de coisas reais, acontecidas, vividas em mergulhos fundos num mar de águas claras e sol indolente. Mas amanhã acordo tarde e quem sabe trago do sonho uma história nova, inventada pela astúcia da realidade e travestida de sonho pelo gosto da ilusão. Aos meus amados leitores, uma noite repousante e um amanhecer de paz.
Foto: Angra dos Reis (Ênio Rocio)