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16 dezembro 2007

Depois da chuva, que grande praia essa de hoje...

O sol estava calmo.. brilhando sem queimar. E o mar, de um verde translúcido, invadia-me o olhar. Parecia que eu estava nele e ele transbordava para dentro de mim, numa identificação que era cor mas, ao mesmo tempo, alguma coisa que é possível apenas aos que se dispõem à fruição do que imaginam ser em comunhão com o que realmente é. Tem que se ter uma humildade extrema para achar que o mar nos reflete os olhos... como se ele estivesse lá apenas por fantasia — seremos mesmo dignos de tanta beleza? Talvez seja a isso que chamamos "privilégio". Que bom que é para todos. Mas que praia linda foi essa... Um dia quase inteiro, na companhia do Le Monde Diplomatique, cujo artigo que mais me instigou foi o que falava da comodificação dos discursos (sem dizer exatamente isso, sobre o que falaremos depois) e de dois capítulos de Umberto Eco em Viagem na Realidade Cotidiana. Que praia linda... Contribuiram, também, pessoas que não compartilharam os assuntos de que falaremos nas próximas postagens, mas que estavam deliciosamente lá. E o domingo continua, até que a segunda-feira se estabeleça em sua hegemonia do trabalho. Mas que sorvam todos as últimas gotas do dia final do repouso remunerado... Com amor, carinho e solidariedade, Hanna.

Prestação de serviço útil...para não dizerem que não falo de flores

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14 dezembro 2007

Cantando na chuva

Toda vez que chove, eu me lembro do Lobão. Talvez apenas porque eu ande muito musical, indo do erudito ao rock, passando por uma ou outra coisa do Rush, e flanando em toda bossa nova que um dia já se cantou. Mas Lobão é frágil como uma flor quando canta "chove lá fora e aqui faz tanto frio...". É absolutamente encantadora a imagem de homens com aparência tão... masculina, digamos, cantando a fragilidade do sofrimento por um amor; sofrendo pela ausência de uma mulher. Muito já se esmiuçou sobre as dores de amor das mulheres - de revistas de fofocas a best sellers -, mas ninguém jamais se referiu às dores de amor do homens. Penso às vezes que não foram feitos para a dor, embora preparados para as batalhas e guerras. Deve ser tão mais doída, para os homens, a dor que vem quando o sangue não está aquecido pela expectativa da luta e a alma apenas pede piedade... Ah, e as mulheres que vão ao parto sem sequer lembrar da dor? Como deve ser tão mais grave para esses seres fortes...Mas eles não falam disso; é como se não acontecesse... Mas alguns deles se expõem em suas canções, como Lobão, por exemplo, apesar da inadequação gramatical... "aonde está você, me telefona...". Chico travestiu as emoções com o sofrimento de todas as mulheres para, quem sabe, sofrer em off de seu próprio amor. Como homem - sem uma configuração assim tão máscula... lindinho como uma boneca; igual a Tom Cruise! - mostrou-se o tolo comum que tem uma mulher e, distraído dela, leva uma rasteira e a perde para outro... "tinha cá pra mim que agora sim vivia um grande amor... mentira...". Para Chico, os homens são distraídos de suas mulheres e as mulheres, sempre prontas a sambar com outros. Um jeito de negar a dor. Mas Lobão, quando diz que "nem sempre se vê lágrimas no escuro..." é um homem de voz grave, figura e apelido rudes, e nos deixa ver que o amor abate a todos quando não se realiza. Um homem sofrendo por amor. Diferente de Caetano, que esculachou a mulher amada em Cê..."piranha, vagaba, nojenta e sei lá eu mais o quê...". Que coisa ressentida e feia. Mas Lobão, que conta a lenda comeu até a vovozinha, confessa "...me dá vontade de saber... me telefona...nem sempre se vê mágica no absurdo... lágrimas no escuro...cadê você?". É fato e não se pode negar: o ódio é a contraface de um amor renitente; e a recusa, nesse caso, a face mais explícita de um infinito desejo. É, Lobão, chove lá fora...
(Imagem: cena do filme Cantando na Chuva)
Post Scriptum: Os pagodeiros também não têm vergonha de sofrer de amor em suas músicas... e às vezes até se admitem cornos sem grandes dramas. Mas aí vira tratado sociológico... o que o meu Currículo Lattes não contempla...rssss.

12 dezembro 2007

Tocata e fuga em todos os tons

Tocata e fuga... sempre que ouço a expressão que descreve a concepção da forma musical me vem à mente a imagem de um menestrel fugindo após tocar no meio da praça. Menestréis eram um misto de poetas, músicos e vagabundos da idade média; tocata, uma espécie de introdução para testar a afinação dos instrumentos, ou os improvisos do jazz, do rock - aquilo que Sting e Stewart Copeland fizeram maravilhosamente no show do The Police -, e fuga são as vozes de um coro que vão aos poucos anunciando o tema, uma a uma, em contraposição, até que todas apareçam na graça majestosa e harmônica da música. Mas ainda assim penso no poeta-músico-vagabundo fugindo para lugar nenhum... e se for em ré menor chego mesmo a ficar triste. Nietzsche, que falava mal de Deus e do mundo, não resistiu à grandeza da música de J. S. Bach e disse, provavelmente extasiado, que a Paixão Segundo S. Mateus, de 1700 e alguma coisa, era capaz de reconverter qualquer um que já tivesse esquecido o cristianismo. Bach é considerado o precursor da música moderna, e talvez por isso não seria exagero dizer que Sting e Copeland lhe devem a raiz de suas toccate. Bach não era um menestrel, obviamente. Teve 20 filhos de dois casamentos e era funcionário público rigoroso com seus deveres para com o "público". No começo, compunha só para exercício da criatividade, uma espécie de hobby, até que seu talento conquistasse o mundo, que era ainda tão pequeno. Bach ficou cego aos 64 anos, mas continuou trabalhando no que seria sua obra genial, A Arte da Fuga. Morreu antes de terminá-la, em 28 de julho de 1750. Segundo Albert Schweiter (na foto, 1875-1965), biógrafo do compositor e seu maior intérprete, Bach era disciplinado e chegava a escrever uma cantata por semana e "acreditava tanto no trabalho quanto na inspiração". A arte da fuga é o que fazem as palavras quando nos deixam ao desamparo, justo quando precisávamos tanto escrever. Falava de fugas e tocatas, na tristeza em ré menor...Não é arte quando nos faltam palavras, mas pode ser tosca fuga... coisa de menestréis, poetas e vagabundos. Não que me enquadre em tão nobre elite...triste do texto quando lhe faltam palavras... Mas sem inspiração, resta ainda o trabalho. E a música de Bach que preencheria esse texto, fruto da falta de inspiração (se eu soubesse como postar músicas, claro..) não seria Fuga e Tocata, mas a belíssima Paixão Segundo S. Mateus. Procurem ouvi-la bem baixinho, durante a leitura de um livro preferido. Vão ver que é simplesmente mágico...

08 dezembro 2007

Do silêncio, do medo e seus discursos


"O real da linguagem - o discreto, o um - encontra sua contraparte no silêncio", quem diz isso é Enni Orlandi, que estudou as formas do silêncio e denunciou aí uma profusão de sentidos. E ela diz, ainda, que "em condições dadas, fala-se para não dizer". Trabalhou sobre discursos e silêncios explícitos com a maestria que se espera dos detentores de Currículos Lattes. E disse a doutora que o silêncio não é da ordem do implícito, não se deixa ler nas entrelinhas, não fala, apenas significa. Tratava ela de censura, discursos jornalísticos e que tais. Mas diminuamos o foco até chegar a nós mesmos: o que é o silêncio senão o medo? Medo do confrontar-se com seus próprios possíveis - às vezes desejos inadmissíveis, quase sempre prévia auto-censura,geralmente covardia inata. O que são nossas palavras em comparação com nossos grandiloqüentes silêncios? Como deve ser interessante o texto que não dissemos; como devem ser importantes as palavras que omitimos; como devem ser belos os poéticos amores que não traduzimos, as coisas mudas de cada um...
(Imagem: Rodin, sobre os humanos)