Páginas

08 dezembro 2007

Do silêncio, do medo e seus discursos


"O real da linguagem - o discreto, o um - encontra sua contraparte no silêncio", quem diz isso é Enni Orlandi, que estudou as formas do silêncio e denunciou aí uma profusão de sentidos. E ela diz, ainda, que "em condições dadas, fala-se para não dizer". Trabalhou sobre discursos e silêncios explícitos com a maestria que se espera dos detentores de Currículos Lattes. E disse a doutora que o silêncio não é da ordem do implícito, não se deixa ler nas entrelinhas, não fala, apenas significa. Tratava ela de censura, discursos jornalísticos e que tais. Mas diminuamos o foco até chegar a nós mesmos: o que é o silêncio senão o medo? Medo do confrontar-se com seus próprios possíveis - às vezes desejos inadmissíveis, quase sempre prévia auto-censura,geralmente covardia inata. O que são nossas palavras em comparação com nossos grandiloqüentes silêncios? Como deve ser interessante o texto que não dissemos; como devem ser importantes as palavras que omitimos; como devem ser belos os poéticos amores que não traduzimos, as coisas mudas de cada um...
(Imagem: Rodin, sobre os humanos)

07 dezembro 2007

Finalmente...


Sexta-feira. Dei título de "finalmente" a essa postagem onde pretendia apenas desejar um final de semana feliz a todos os que por acaso ou por um certo vício ou prazer visitam esse meu humilde blog. Mas fico agora pensando... por que "finalmente"? Eu não estava nem um pouco apressada para que a semana chegasse ao fim... para dizer a verdade, pouco se me daria se terminasse em dias úteis ou fúteis. E não mais por excesso do que fazer; muito pelo contrário, por ter trocado o que se tem convencionalmente considerado trabalho pelo que me tem dado enorme prazer de fazer - e ninguém, certamente, associaria prazer a trabalho. E que não me interpretem mal, por favor! A vida, como de sempre, continua não sendo nada fácil. Mas ao fazer o que faço, tenho a impressão de que os dias úteis são iguais aos "inúteis", e os "inúteis", carregados de criativa utilidade. A diferença talvez esteja em não sentir culpa - culpa por desperdiçar os dias úteis e por aproveitar os inúteis... Acho que encontrei um atrium que leva a um lugar onde todos os dias são agradavelmente sábado à noite, domingo à tarde e sexta-feira depois das dez. E a todos, os meus votos de uma seqüência de dias felizes, iguais ao que chamamos de "finalmente sexta-feira".

Hymne à l'amour - Edith Piaf

06 dezembro 2007

Espelho Mágico

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...


(Mario Quintana)

04 dezembro 2007

Mas o que é isso, companheiro????

Deu no site do Ancelmo, no Globo On line. Postei o vídeo, para que todos possam ver e tirar suas próprias conclusões. O ator Caio Junqueira, que interpretou o policial quase honesto e destemperado que acabou morrendo de síndrome de Tom Cruise no filme Tropa de Elite, confundiu a vida com a arte, ou a arte com a vida, (tanto faz), enquanto gravava uma cena em um cruzamento da Avenida Chile, no Centro do Rio. Ao atravessar a rua como um transeunte comum foi abordado por um atravessador de piratarias, destes que a gente encontra aos montes no Centro do Rio, vendendo de cds a programas sofisticadíssimos de computador e... filmes. O "muleque" tentou vender uma cópia pirata de filmes "só lançamento"! Parece até armação, né? Mas não era; pura coincidência. O que surpreende é a reação do ator, que agiu como se ainda estivesse incorporando o policial do Bope que interpretou no filme. Fico pensando o que estará acontecendo com o pobre e ignorante povo brasileiro que viu o filme. Lembram da síndrome de Ayrton Senna, quando as ruas do Rio se tornaram verdadeiras pistas de corrida e a indústria automobilística floresceu como nunca na história desse país (copyright Lula)? Se um ator trata o "muleque", como chamou o camelô, da maneira como tratou, imaginem o que um policial fardado e armado não se sentirá autorizado a fazer com os desvalidos desta cidade. Tenho sérias dúvidas sobre onde está o real problema que nos aflige. Está aí o vídeo para vocês chegarem às suas próprias conclusões. Ah, e dêem uma passadinha lá no blog do Ancelmo também para ver como o assunto foi tratado - essa é uma reflexão importante para quem costuma acompanhar a vida pela imprensa.

02 dezembro 2007

Exposição dos "Cadernos" de Patrícia Burrowes

Estavam ali reunidos os filhos de Prometeu. Doutores, pós-doutores nas mais diversas ciências e os "comuns mortais", desprovidos de Currículos Lattes. Tentavam repartir com alegria o fogo minguado da sabedoria que nos ensina, ao contrário da academia, que o saber é da ordem da humildade, do não saber, do apenas ter curiosidade. Curiosidade por tudo e não apenas pelos que nos ensinaram a aprender. Pois estavam lá sorrindo como irmãos que se encontram depois de longa data e de dolorosa tarefa, autorizados já a brincar no quintal da humanidade. Faziam arte os doutores, e compartiam entre si e entre todos a arte-brinquedo que Patrícia Borrowes trouxe com sua poesia-arte. Poeta que limpa o suor com o dorso das mãos de artista, expôs ao sol sua extensa jornada. Estava dito em quadros e telas e litogravuras. Patrícia subiu a montanha íngreme onde acredita-se residam os doutos e seus conhecimentos; feriu os pés, as mãos e descobriu a duras penas os pés de barro dos ídolos moucos. Ao chegar ao cume onde conta-se que Deus interditou Babel, a poeta desceu de novo, abanando com o vento da alma a chama que lhe cabe neste vasto mundo. E foi assim desatando os fios que unem as letras em palavras, as palavras em textos, os textos em discurso. Desceu a poeta espalhando sentidos, deitando ao mar cada um dos pedacinhos. E depois mergulhou, foi lá dentro, lá fundo, lá longe buscar a possibilidade. Submergiu com os olhos e as mãos tomados por palavras que se desmancharam em tintas e papel. Ofereceu-nos a sua busca, o seu caminho e inquietude, compartilhando com todos o calor herdado do fogo de Prometeu. Uma pena que a exposição terminou antes que eu pudesse contar aos meus poucos mas queridos leitores sobre o emocionante trabalho de Patrícia.

30 novembro 2007

O problema é maior do que o morro, presidente

O presidente Lula esteve hoje (30/11), no morro do Pavãozinho, favela que fica na Zona Sul do Rio de Janeiro, entre Copacabana e Ipanema. Fez discurso de palanque, garantindo que só não vai construir mansões para melhorar o astral da população porque o dinheiro não dá. Em uma espécie de discurso de auto-ajuda, garantiu que o pobre é a essência do povo brasileiro, e que com as obras que virão com os 35 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento - o tal do PAC - a favela ia ficar "um lugar decente e digno", onde a população do lugar pudesse ter orgulho de morar. Não critico o presidente por fazer um discurso tão desconectado da realidade das populações faveladas dos morros da cidade e até mesmo do cotidiano dos cariocas. Nem mesmo pelo desconhecimento do cenários que as palavras que usou carregam. Não; não culpo um presidente que viaja tanto e que tão poucas vezes esteve no Rio, e que conhece a realidade das favelas cariocas pelos filmes que talvez ainda assista em seu cinema particular. Aliás, torço até para que não tenha visto Tropa de Elite, exemplo de polícia do nosso Cabral. Mas culpo os assessores que não se empenham em pensar e pesquisar sobre o que o presidente terá que dizer - já que é fora de questão esperar que pensem - assessores, presidente e seus etcéteras - em como verdadeiramente resolver problemas que todos estamos cansados de conhecer. A solução parece estar no dinheiro que cava ruas e levanta muros, que o tempo irremediavelmente vai destruir e que outros virão para enterrar um monte de dinheiro na reconstrução. Dinheiro dá voto e estofa discurso, mas daí a achar que dá orgulho a favelado vai uma longa distância. Saneamento e urbanização é necessidade básica e não se constituirá em motivo de orgulho dizer que se recebeu, já que é uma vergonha jamais ter tido. E o orgulho não deverá ser do morador que se envergonha de não ter o que o estado deveria ter garantido, mas do Estado, que se redimirá da culpa de ter governado de costas para as encostas dos morros. Não cabe se orgulhar de tanto atraso. Tanto que mesmo o tal do PAC será pouco para dar conta da redenção de tamanha culpa. As pouco mais de quatro mil famílias que serão beneficiadas não enchem sequer a rua principal da favela da Rocinha. Ora, mas não vamos apelar para a batida retórica do que pouco é melhor do que nada. O presidente, ao invés de enaltecer esse insuficiente tantinho, deveria pedir desculpas aos que ainda vão continuar na mesma de anteontem, ou melhor dos séculos passados. O problema dos moradores dos morros também não está na diferença entre ricos e pobres, que aqui no Rio convivem até muito harmoniosamente, compartilhando a mesma praia, frequentando o mesmo bar, trocando serviços. O carioca nunca teve desses preconceitos. Dizer que só quando o pobre mora no morro é vergonha, é favela, e rico que mora no morro é chique, isso é desconhecer o lugar das bolas e plantar um separatismo que o Rio não alimenta - é favela porque padece de ausência do poder público; rico que mora em morro não é chamado de nada; é apenas cidadão. O conceito de cidadão implica uma relação com o Estado, com as garantias fundamentais que o estado deverá dar à pessoa; a sociedade paga para ter garantias básicas de cidadania que ao Estado compete honrar. E que tolice dizer que a elite vai achar que elevador no morro é luxo e que favelado não precisa disso. É de se perguntar: para quem o senhor acha que está falando, presidente? Para os banqueiros que são a única elite que jamais na história lucrou tanto? Será que eles se importam com o seu PAC ou com elevador para favelado? Ou está falando com a classe média desvalida e encurralada por outras e mais preocupantes mazelas que também habitam nossos morros? O elevador é até o de menos. Gerações sobre gerações têm subido e descido os morros com tudo o que a vida obriga a carregar, de criança na barriga, no colo, até tijolo e cimento para construir quase junto ao céu - e só Deus, que olha pelo alto, sabe como. Assessores, para que os tem, presidente? E quanto à declaração de que o Rio não é uma cidade tão violenta assim... ah, essa fica para mais tarde.
(Foto Agência Brasil)

27 novembro 2007

Com números, mas com afeto

Quando não tenho tempo para pensar – porque pensar toma um dia quase inteiro, saibam, mesmo que não se pense grandes coisas! – escrevo um poema, uma frase, qualquer texto tirado de outros que têm a competência que me falta. É uma espécie de diálogo com minha dezena de leitores fiéis e desconhecidos. O número se repete todos os dias – um pouquinho a mais, às vezes; mas em nem um dia um porquinho a menos! Meus leitores são o dois, feijão com arroz; o quatro, comer no prato; o seis que fala francês; o oito que come biscoito e o dez que come pastéis. Peço desculpas aos outros dois leitores restantes. As brincadeiras de criança não contavam além de dez.. assim como não falavam dos números irmãos, só dos primos; e omitiam os ímpares. Triste constatação nesta hora em que sei do que falavam os adultos. Escrevo para cada um desses números como se falasse com alguém que um dia vi; talvez até que um dia amei; talvez que jamais tenha visto e ainda queira ver; que talvez tenha amado e queira esquecer. Uma espécie de caleidoscópio de iluminadas mentiras, de encantadoras verdades, de possibilidades impossíveis – o cúmulo da dialética virtual. Nunca pensei que um dia pudesse gostar de matemática e seus insuportáveis números. Com carinho, apesar da incompetência, aos meus 12 leitores. Mas quando vocês forem centenas, esqueçam.... (risos que confirmam a mentira de alguém que prima pela fidelidade.)