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30 novembro 2007

O problema é maior do que o morro, presidente

O presidente Lula esteve hoje (30/11), no morro do Pavãozinho, favela que fica na Zona Sul do Rio de Janeiro, entre Copacabana e Ipanema. Fez discurso de palanque, garantindo que só não vai construir mansões para melhorar o astral da população porque o dinheiro não dá. Em uma espécie de discurso de auto-ajuda, garantiu que o pobre é a essência do povo brasileiro, e que com as obras que virão com os 35 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento - o tal do PAC - a favela ia ficar "um lugar decente e digno", onde a população do lugar pudesse ter orgulho de morar. Não critico o presidente por fazer um discurso tão desconectado da realidade das populações faveladas dos morros da cidade e até mesmo do cotidiano dos cariocas. Nem mesmo pelo desconhecimento do cenários que as palavras que usou carregam. Não; não culpo um presidente que viaja tanto e que tão poucas vezes esteve no Rio, e que conhece a realidade das favelas cariocas pelos filmes que talvez ainda assista em seu cinema particular. Aliás, torço até para que não tenha visto Tropa de Elite, exemplo de polícia do nosso Cabral. Mas culpo os assessores que não se empenham em pensar e pesquisar sobre o que o presidente terá que dizer - já que é fora de questão esperar que pensem - assessores, presidente e seus etcéteras - em como verdadeiramente resolver problemas que todos estamos cansados de conhecer. A solução parece estar no dinheiro que cava ruas e levanta muros, que o tempo irremediavelmente vai destruir e que outros virão para enterrar um monte de dinheiro na reconstrução. Dinheiro dá voto e estofa discurso, mas daí a achar que dá orgulho a favelado vai uma longa distância. Saneamento e urbanização é necessidade básica e não se constituirá em motivo de orgulho dizer que se recebeu, já que é uma vergonha jamais ter tido. E o orgulho não deverá ser do morador que se envergonha de não ter o que o estado deveria ter garantido, mas do Estado, que se redimirá da culpa de ter governado de costas para as encostas dos morros. Não cabe se orgulhar de tanto atraso. Tanto que mesmo o tal do PAC será pouco para dar conta da redenção de tamanha culpa. As pouco mais de quatro mil famílias que serão beneficiadas não enchem sequer a rua principal da favela da Rocinha. Ora, mas não vamos apelar para a batida retórica do que pouco é melhor do que nada. O presidente, ao invés de enaltecer esse insuficiente tantinho, deveria pedir desculpas aos que ainda vão continuar na mesma de anteontem, ou melhor dos séculos passados. O problema dos moradores dos morros também não está na diferença entre ricos e pobres, que aqui no Rio convivem até muito harmoniosamente, compartilhando a mesma praia, frequentando o mesmo bar, trocando serviços. O carioca nunca teve desses preconceitos. Dizer que só quando o pobre mora no morro é vergonha, é favela, e rico que mora no morro é chique, isso é desconhecer o lugar das bolas e plantar um separatismo que o Rio não alimenta - é favela porque padece de ausência do poder público; rico que mora em morro não é chamado de nada; é apenas cidadão. O conceito de cidadão implica uma relação com o Estado, com as garantias fundamentais que o estado deverá dar à pessoa; a sociedade paga para ter garantias básicas de cidadania que ao Estado compete honrar. E que tolice dizer que a elite vai achar que elevador no morro é luxo e que favelado não precisa disso. É de se perguntar: para quem o senhor acha que está falando, presidente? Para os banqueiros que são a única elite que jamais na história lucrou tanto? Será que eles se importam com o seu PAC ou com elevador para favelado? Ou está falando com a classe média desvalida e encurralada por outras e mais preocupantes mazelas que também habitam nossos morros? O elevador é até o de menos. Gerações sobre gerações têm subido e descido os morros com tudo o que a vida obriga a carregar, de criança na barriga, no colo, até tijolo e cimento para construir quase junto ao céu - e só Deus, que olha pelo alto, sabe como. Assessores, para que os tem, presidente? E quanto à declaração de que o Rio não é uma cidade tão violenta assim... ah, essa fica para mais tarde.
(Foto Agência Brasil)

27 novembro 2007

Com números, mas com afeto

Quando não tenho tempo para pensar – porque pensar toma um dia quase inteiro, saibam, mesmo que não se pense grandes coisas! – escrevo um poema, uma frase, qualquer texto tirado de outros que têm a competência que me falta. É uma espécie de diálogo com minha dezena de leitores fiéis e desconhecidos. O número se repete todos os dias – um pouquinho a mais, às vezes; mas em nem um dia um porquinho a menos! Meus leitores são o dois, feijão com arroz; o quatro, comer no prato; o seis que fala francês; o oito que come biscoito e o dez que come pastéis. Peço desculpas aos outros dois leitores restantes. As brincadeiras de criança não contavam além de dez.. assim como não falavam dos números irmãos, só dos primos; e omitiam os ímpares. Triste constatação nesta hora em que sei do que falavam os adultos. Escrevo para cada um desses números como se falasse com alguém que um dia vi; talvez até que um dia amei; talvez que jamais tenha visto e ainda queira ver; que talvez tenha amado e queira esquecer. Uma espécie de caleidoscópio de iluminadas mentiras, de encantadoras verdades, de possibilidades impossíveis – o cúmulo da dialética virtual. Nunca pensei que um dia pudesse gostar de matemática e seus insuportáveis números. Com carinho, apesar da incompetência, aos meus 12 leitores. Mas quando vocês forem centenas, esqueçam.... (risos que confirmam a mentira de alguém que prima pela fidelidade.)

Mário Quintana e a 'Noite estrelada" de Van Gogh

Se te contradisseste e acusam-te
Sorri, pois nada
houve em realidade
Teu pensamento é que chegou por si
Ao outro pólo da verdade
Não sei porque, s
orri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca."

21 novembro 2007

Pertinências I

Muito bem. Estávamos falando do documentário sobre o Afro Regae, do Cacá Diegues, cujo título é "Nenhum motivo explica a guerra". Sei que não devia, por lealdade aos afetos, falar com tanta, tanta franqueza. Mas já fiz minha declaração de recusa diante de coisas tão mais minhas, que não posso agora capitular. Difícil pensar que não sabemos o que explica a guerra, para começar pelo começo, ou seja, pelo título. Com toda a humildade de quem se preocupa em saber e que sabe que não sabe o que talvez jamais venha a entender, acho que o motivo ainda é o mesmo. Hoje podemos chamar por um nome que antes era difuso, escondido — ideologia. Acompanhando Gramsci e deixando ao relento o solitário, louco, assassino confesso e um dos mais lúcidos teóricos marxistas, Althusser, podemos dizer que a coisa assumiu outro nome - um batizado que lhe confirma a teoria e ao mesmo tempo lhe denuncia a face — o mercado. Vivemos a hegemonia do mercado. Ao preferir digladiar com a hegemonia, nos damos alguma chance na luta desigual. Mercado não é e nem tem ideologia, mas vive seu auge e acirramento como um capataz violento de um sistema que já não consegue mostrar a cara e falar de si mesmo, o capitalismo. Explico: em tempos idos, pensava-se que o capitalismo, assim de uma maneira abstrata e um tanto genérica, poria a perder o melhor da essência humana. Por conta disso, e antes que Althusser caísse em terrível descrédito, as ditaduras assumiram a frente da batalha como se fossem carros blindados a defender o essencial. Ficou o quanto quis, enquanto, ainda a la Althusser, os Aparelhos Ideológicos de Estado consolidavam no sentido das coisas o que realmente a ditadura defendia e o que ninguém exatamente viu - a prevalência do econômico sobre o social. Que se rendam, então, homenagens a Gramsci que relatitivizou essa influência da ideologia que a tudo domina irrecorrivelmente, e abre uma possibilidade. Nem que seja como mera esperança de que alguém passe a acreditar que é possível mudar ("era impossível, mas como eu não sabia disso, fui lá e fiz..."). Depois de tudo conquistado, na mais clara acepção do termo, é apenas a hegemonia de um sistema chamado "mercado" que temos que enfrentar. A declaração de que o tênis Nike é o sonho de todo jovem - principalmente dos que não podem ter - é a mais nítida confirmação de que os AIE de Althusser ainda cumprem uma função devastadora de convencimento e afirmação de um ideal totalmente deformante e letal - sim, letal! E um projeto como o Afro Reggae, quando dialoga com a ilusão do "poder ter", enche-me de incerteza a emoção de vê-los tocando com a Orquestra Sinfônica, com artistas internacionais, com os melhores da música brasileira. O que são aquelas latas de onde tiram som? O que "dizem" aquelas latas? Que discurso ainda subsiste ali? O dos vencedores que chegaram ao topo, legitimando a face doce do mercado, do sistema? São como jogadores de futebol, que podem sair da miséria para a fama e riqueza como em um passe de mágica? Quantos poderão chegar lá? Mas o que seria isso, senão uma nova versão de um velho truque armado pelo capitalismo decrépito em conluio com uma democracia tosca e vadia? Não... tenho novamente a sensação de estar falando sozinha, na contramão da Avenida Brasil. Quem pensaria em pensar, do projeto Afro Reggae, algo mais fundo, diferente daquilo que nos adestraram a pensar de projetos que midiaticamente nos consolam das misérias que crescem por trás dos out doors... e que já não conseguimos ver como parte de um grande todo onde também estamos nós.
Que o final de semana seja para todos iluminado, mas que nossos corações não se acomodem, porque senão eles param...

20 novembro 2007

Questões impertinentes III

Por que exigimos, daqueles que realizam, o ato supremo de pensar sobre o que realizaram? Por que propomos, à atualidade tosca, debates depois das apresentações? Melhor seria chamar eruditos e deixar que elocubrassem até serem contestados pela práxis. Mas fazemos o modelo aprendido e deixamos para depois a possibilidade de pensar em conjunto, no coletivo, nos bares... tempos idos... resta ainda o msn, cada um bebendo na sua em uma espécie de relação intelectual asséptica, onde as idéias não se contaminam.... mas também não se completam. Mas também tanto faz.
(Amo os blogs porque eles permitem que nossos enxeridos e rejeitados narizes se ponham assim antes de qualquer parágrafo de elucidação do motivo. Ah... e que gosto me dão os parêntese, que chegam gordos no meio do texto, empurrando para depois o essencial... mas nem tanto.. voilá)
Ainda há pouco assisti ao documetário de Cacá Diegues, “Nenhum motivo explica a guerra”, dele e Rafael Dragaud, no Cine ABI. O filme conta a trajetória do AfroReggae, que foi criado com a intenção de vencer a violência e resgatar crianças e jovens do poder dos traficantes de drogas nas diversas favelas cariocas.
Feliz pela oportunidade de captar depoimentos que a grande imprensa sempre malversou, o filme traz declarações contundentes e indicativas da realidade que efetivamente nos cerca, no sentido de se estar sob o cerco de quem nos pode tolher a liberdade e, quiçá, a vida (como é bom poder escrever "quiçá"; e os parêntese... ah.. os parêntese...). Mas antes que nos saquem a vida, convém pensar até que ponto contribuimos para tolher-lhes a opotunidade. E eles disseram... querem apenas uma oportunidade. Será que temos a hegemonia das oportunidades também?
Nas declarações de alguns dos integrantes e gestores do Afro Raegge, ficou clara a identificação de que os jovens das comunidades faveladas têm a necessidade de satisfazer sonhos de consumo que apenas o tráfico poderia realizar, dada a impossibilidade de qualquer um deles chegar a auferir, em qualquer trabalho formal, o suficiente para comprar um tênis da marca Nike. Uma espécie de marketing ao contrário — vejam o que os anúncios da Nike fazem com os mais pobres!
O trabalho de resgate que o Afro Reagge faz com os jovens atraídos pela criminalidade passa por aí! Dito por um dos gestores do projeto, todos usam tênis Nike e boas roupas quando vão fazer a "abordagem", de forma a competir com o tráfico no processo de cooptação do jovem. E acrescentam uma vantagem a mais: "o meu foi comprado em New York", ou seja, é melhor do que os "funcionários do tráfico podem conseguir". É a práxis da práxis! E conseguem, com isso, resgatar alguns, conquistados pela cenoura caleidoscópica, amarrada a um anzol, à frente de seus olhos inocentes e instruído por um sistema perverso que não os previa, encantados pelo consumo prometido por uma democracia burra e, pior ainda, excludente. Em algum momento, o gestor do projeto fala da escolha por critérios de beleza.. e justo quando nosso povo é tão feio para nossos padrões europeus arraigados... O que não invalida o fato de terem resgatado os mais belos e bem dotados! Mas Deus, quantos ficaram de lado...
Mas a vida é desse jeito.. precisa-se ter um mínimo de requistos...
Na verdade, a questão é mais funda, e passa por uma grave situação chamada "mercado". Voltaremos a isso amanhã, porque o meu dead line se esgotou... (ah... como adoro ser dona do meu próprio dead line e poder colocá-lo no conforto da boca cheia e bochechas gordas dos enxeridos parênteses...)
Aos meus poucos — mas fiéis e queridos — leitores peço que deixem um comentário para que eu saiba que por trás dos números que registram as visitas existe alguém para quem eu possa falar.
Até amanhã.

17 novembro 2007

Não... me recuso!


Há algum tempo venho jogando coisas pela janela, em ato absoluto de recusa. E de repente me vejo presa em antigas teias, que amarram em palavras novas as velhas críticas. Não... me recuso a atualizar o que já não tem crédito; o que já sei em toda a possibilidade de desmascaramento. Chega. Não vou falar mais por vozes outras, textos alheios, idéias mortas, técnicas sorrateiras. Morram por gosto os que quiserem; a esses, o diabo faz o enterro! Quanto a mim, que pulei o muro da resistência e pus no mundo todos os filhos que me aportaram ao ventre, me recuso a abortar minha própria redenção. Basta! Que me reclamem o que nunca me concederam; que me acusem do que nunca me reconheceram; que me denunciem pelo que sei que sei. Mas também já não me importa e sequer me incomoda. Não me importa mais... como quem entrega o jogo não por cansaço, mas por consciência. Para mim, chega! Que se enganem os tolos, que se enalteçam os fracos, que subsistam aqueles que se alimentam apenas para continuar vivendo, sem gosto, sem gozo, sem vontade. Não me importa mais. Morram por gosto, acreditando que chegarão aos céus, onde encontrarão o descanso eterno.. pobres que passaram a vida tentando descansar; que tiveram por meta o descanso... e partiram rumo ao nada. Mas o que sei eu do descanso alheio? Me recuso a sequer pensar. Façam da vida o que bem quiserem, porque para mim basta. Nem fausto nem degredo, apenas cansaço, apenas o ato inaugural que se impõe como recusa. Para mim... uma outra coisa totalmente diferente.
(Editado por Rafael Cahleo)

16 novembro 2007

Alguma coisa me fez lembrar que é assim...

Quanto mais próximo, mais custa a passar o impacto de uma bala perdida. Ainda ressoa nos ouvidos e olhos de todos nós, que estávamos tão perto, o noticiário mostrando a dor do jornalista Lênin Novaes pelo seu filho Wladimir, de apenas 28 anos, sétima vítima fatal entre 29 atingidos no mês de março, no Rio de Janeiro.

O estampido que se instalou em nossas almas desnorteou a todos e fez brotar ingênuas perguntas de um ofício em que se está acostumado a obrigar o poder público a pensar. A indignação vasculhando a caixa de ferramentas da técnica; a técnica mostrando-se insuficiente para dar conta da matéria; e o poder, que tantos atribuem aos jornalistas, atingido na nuca e posto ao chão.

Três dias depois, já em meio ao silêncio da banalização que nos entorpece a todos, a plenitude dos sentidos recobrada, telefonemas atravessaram o dia como balas de indignação desesperançada, tentando atingir o sistema em um coração que certamente não há. Alguns propunham vestirmos o imenso prédio da Associação Brasileira de Imprensa de preto; outros, a afixação de out doors em pontos estratégicos; outros, ainda, uma passeata, um movimento, um protesto, um discurso, um texto. E assim fomos, ao longo do dia, retornando aos nossos afazeres, esvaziados de soluções e estremecidos pelas notas pungentes dos que rememoravam o fato.

No começo da noite, os telefonemas ainda ecoavam, tentando esconjurar a terrível impotência, contra a urgência da vida que nos empurra para o lado. Entrei em sala de aula para ensinar Análise do Discurso a uma turma de futuros jornalistas – vivo falando sobre a historicidade que nos atravessa, a ideologia que nos interpela como sujeitos, a materialização da ideologia no discurso. E os exemplos foram me levando a uma história densa de significados e esperanças, de lutas e de coragem, de saber em que caixa se guardavam as ferramentas exatas para se lidar com os acontecimentos.

Em 64 eu era apenas uma criança, mas ao longo daquela década eu já sabia exatamente quem eram os heróis. Foucault, em um livro chamado A Ordem do Discurso, diz que “em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”. Pensei naquelas propostas, ao longo do dia, de se programar manifestações pela morte de Wladimir – do prédio da ABI de luto, da passeata, da imediata manifestação em que pessoas vestidas de preto seguravam cartazes em silêncio, nas escadarias da Câmara.

Na opinião de jovens que um dia serão jornalistas, manifestação é isso: abraços a prédios, luto, silêncio, passeata na orla; e chamam de baderna aquilo que fazem os moradores de favela quando balas perdidas atingem os seus. A análise do discurso controlado, selecionado e redistribuído revelou um incômodo diagnóstico que me devolveu à indigência de ferramentas para lidar com os acontecimentos.

Meu pensamento vagou na galeria fantasmagórica de meus heróis distantes, esbarrando com alguns dos quais hoje convivo. Na sala da memória ao lado, Nelson Luiz Souto, de 16 anos, Benedito Frazão, de 20, e Edson Luiz Lima Souto, de 18 anos, estudantes mortos pela Polícia Militar no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, exatamente no dia 28 de março de 68. E o que veio depois, definitivamente, nunca seria chamado de baderna.

Volto ao quadro do noticiário sobre a morte de Wladimir. Entendi a necessidade de defender a sociedade nas palavras do jornalista Lênin Novaes, ao dar entrevista para os colegas mais moços; entendi o choro que interrompeu a entrevista como um rio profundo e longo, trazendo em suas margens o entulho de um sonho que estancou.

O que terá atravessado uma história de tanta coragem para que hoje se enclausure no discurso controlado de manifestações cenográficas? O que aconteceu com alguns de nossos heróis, que hoje estão no poder, vendo nossos filhos serem atravessados pelo discurso banalizado das balas perdidas e não se apresentam? Onde está a juventude que deveria herdar o pranto daqueles que lhes restituíram a liberdade? Onde estão as pobres mães que perderam seus filhos? Onde, neste discurso controlado, apático, descomprometido e que morre ao fim de cada noticiário?

Sinto na alma todas as dores que atravessam a alma do pai de Wladimir, porque a qualquer momento poderá ser um filho nosso. Penso nos estudantes do Calabouço e sinto como se uma bala perdida houvesse atravessado uma geração inteira.

Na foto, Edson Luiz de Lima Souto

28/3/68 - quando os jovens morriam por outras causas

15 novembro 2007

Do que não é mesmo possível - I

Não se pode deter a água para agarrar o rio...

Os escafandristas...o que vão encontrar na cidade submersa?

Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha prá mim
Não faz assim, não vá lá, não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão frouxa de rir
Já te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo o salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão
Chico Buarque - Vitrines (do blog Clarões na Galeria- http://luznagaleria.blogspot.com)