Sorri, pois nada houve em realidade
Teu pensamento é que chegou por si
Ao outro pólo da verdade
Não sei porque, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca."
Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
Muito bem. Estávamos falando do documentário sobre o Afro Regae, do Cacá Diegues, cujo título é "Nenhum motivo explica a guerra". Sei que não devia, por lealdade aos afetos, falar com tanta, tanta franqueza. Mas já fiz minha declaração de recusa diante de coisas tão mais minhas, que não posso agora capitular. Difícil pensar que não sabemos o que explica a guerra, para começar pelo começo, ou seja, pelo título. Com toda a humildade de quem se preocupa em saber e que sabe que não sabe o que talvez jamais venha a entender, acho que o motivo ainda é o mesmo. Hoje podemos chamar por um nome que antes era difuso, escondido — ideologia. Acompanhando Gramsci e deixando ao relento o solitário, louco, assassino confesso e um dos mais lúcidos teóricos marxistas, Althusser, podemos dizer que a coisa assumiu outro nome - um batizado que lhe confirma a teoria e ao mesmo tempo lhe denuncia a face — o mercado. Vivemos a hegemonia do mercado. Ao preferir digladiar com a hegemonia, nos damos alguma chance na luta desigual. Mercado não é e nem tem ideologia, mas vive seu auge e acirramento como um capataz violento de um sistema que já não consegue mostrar a cara e falar de si mesmo, o capitalismo. Explico: em tempos idos, pensava-se que o capitalismo, assim de uma maneira abstrata e um tanto genérica, poria a perder o melhor da essência humana. Por conta disso, e antes que Althusser caísse em terrível descrédito, as ditaduras assumiram a frente da batalha como se fossem carros blindados a defender o essencial. Ficou o quanto quis, enquanto, ainda a la Althusser, os Aparelhos Ideológicos de Estado consolidavam no sentido das coisas o que realmente a ditadura defendia e o que ninguém exatamente viu - a prevalência do econômico sobre o social. Que se rendam, então, homenagens a Gramsci que relatitivizou essa influência da ideologia que a tudo domina irrecorrivelmente, e abre uma possibilidade. Nem que seja como mera esperança de que alguém passe a acreditar que é possível mudar ("era impossível, mas como eu não sabia disso, fui lá e fiz..."). Depois de tudo conquistado, na mais clara acepção do termo, é apenas a hegemonia de um sistema chamado "mercado" que temos que enfrentar. A declaração de que o tênis Nike é o sonho de todo jovem - principalmente dos que não podem ter - é a mais nítida confirmação de que os AIE de Althusser ainda cumprem uma função devastadora de convencimento e afirmação de um ideal totalmente deformante e letal - sim, letal! E um projeto como o Afro Reggae, quando dialoga com a ilusão do "poder ter", enche-me de incerteza a emoção de vê-los tocando com a Orquestra Sinfônica, com artistas internacionais, com os melhores da música brasileira. O que são aquelas latas de onde tiram som? O que "dizem" aquelas latas? Que discurso ainda subsiste ali? O dos vencedores que chegaram ao topo, legitimando a face doce do mercado, do sistema? São como jogadores de futebol, que podem sair da miséria para a fama e riqueza como em um passe de mágica? Quantos poderão chegar lá? Mas o que seria isso, senão uma nova versão de um velho truque armado pelo capitalismo decrépito em conluio com uma democracia tosca e vadia? Não... tenho novamente a sensação de estar falando sozinha, na contramão da Avenida Brasil. Quem pensaria em pensar, do projeto Afro Reggae, algo mais fundo, diferente daquilo que nos adestraram a pensar de projetos que midiaticamente nos consolam das misérias que crescem por trás dos out doors... e que já não conseguimos ver como parte de um grande todo onde também estamos nós.
Por que exigimos, daqueles que realizam, o ato supremo de pensar sobre o que realizaram? Por que propomos, à atualidade tosca, debates depois das apresentações? Melhor seria chamar eruditos e deixar que elocubrassem até serem contestados pela práxis. Mas fazemos o modelo aprendido e deixamos para depois a possibilidade de pensar em conjunto, no coletivo, nos bares... tempos idos... resta ainda o msn, cada um bebendo na sua em uma espécie de relação intelectual asséptica, onde as idéias não se contaminam.... mas também não se completam. Mas também tanto faz.
Quanto mais próximo, mais custa a passar o impacto de uma bala perdida. Ainda ressoa nos ouvidos e olhos de todos nós, que estávamos tão perto, o noticiário mostrando a dor do jornalista Lênin Novaes pelo seu filho Wladimir, de apenas 28 anos, sétima vítima fatal entre 29 atingidos no mês de março, no Rio de Janeiro.
O estampido que se instalou em nossas almas desnorteou a todos e fez brotar ingênuas perguntas de um ofício em que se está acostumado a obrigar o poder público a pensar. A indignação vasculhando a caixa de ferramentas da técnica; a técnica mostrando-se insuficiente para dar conta da matéria; e o poder, que tantos atribuem aos jornalistas, atingido na nuca e posto ao chão.
Três dias depois, já em meio ao silêncio da banalização que nos entorpece a todos, a plenitude dos sentidos recobrada, telefonemas atravessaram o dia como balas de indignação desesperançada, tentando atingir o sistema em um coração que certamente não há. Alguns propunham vestirmos o imenso prédio da Associação Brasileira de Imprensa de preto; outros, a afixação de out doors em pontos estratégicos; outros, ainda, uma passeata, um movimento, um protesto, um discurso, um texto. E assim fomos, ao longo do dia, retornando aos nossos afazeres, esvaziados de soluções e estremecidos pelas notas pungentes dos que rememoravam o fato.
No começo da noite, os telefonemas ainda ecoavam, tentando esconjurar a terrível impotência, contra a urgência da vida que nos empurra para o lado. Entrei em sala de aula para ensinar Análise do Discurso a uma turma de futuros jornalistas – vivo falando sobre a historicidade que nos atravessa, a ideologia que nos interpela como sujeitos, a materialização da ideologia no discurso. E os exemplos foram me levando a uma história densa de significados e esperanças, de lutas e de coragem, de saber em que caixa se guardavam as ferramentas exatas para se lidar com os acontecimentos.
Em 64 eu era apenas uma criança, mas ao longo daquela década eu já sabia exatamente quem eram os heróis. Foucault, em um livro chamado A Ordem do Discurso, diz que “em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”. Pensei naquelas propostas, ao longo do dia, de se programar manifestações pela morte de Wladimir – do prédio da
Na opinião de jovens que um dia serão jornalistas, manifestação é isso: abraços a prédios, luto, silêncio, passeata na orla; e chamam de baderna aquilo que fazem os moradores de favela quando balas perdidas atingem os seus. A análise do discurso controlado, selecionado e redistribuído revelou um incômodo diagnóstico que me devolveu à indigência de ferramentas para lidar com os acontecimentos.
Meu pensamento vagou na galeria fantasmagórica de meus heróis distantes, esbarrando com alguns dos quais hoje convivo. Na sala da memória ao lado, Nelson Luiz Souto, de 16 anos, Benedito Frazão, de 20, e Edson
Volto ao quadro do noticiário sobre a morte de Wladimir. Entendi a necessidade de defender a sociedade nas palavras do jornalista Lênin Novaes, ao dar entrevista para os colegas mais moços; entendi o choro que interrompeu a entrevista como um rio profundo e longo, trazendo em suas margens o entulho de um sonho que estancou.
O que terá atravessado uma história de tanta coragem para que hoje se enclausure no discurso controlado de manifestações cenográficas? O que aconteceu com alguns de nossos h
eróis, que hoje estão no poder, vendo nossos filhos serem atravessados pelo discurso banalizado das balas perdidas e não se apresentam? Onde está a juventude que deveria herdar o pranto daqueles que lhes restituíram a liberdade? Onde estão as pobres mães que perderam seus filhos? Onde, neste discurso controlado, apático, descomprometido e que morre ao fim de cada noticiário?
Sinto na alma todas as dores que atravessam a alma do pai de Wladimir, porque a qualquer momento poderá ser um filho nosso. Penso nos estudantes do Calabouço e sinto como se uma bala perdida houvesse atravessado uma geração inteira.
Na foto, Edson Luiz de Lima Souto
28/3/68 - quando os jovens morriam por outras causas
E sair da sessão frouxa de rir
A sangrenta tragédia dos Átridas, que se manteve durante gerações e gerações, teve início com um ato de Egisto. E Zeus, como um juiz olímpico enfastiado, pensou: "Estranho, como se queixam dos deuses os mortais!
Apenas de nós vêm seus males, acreditam;
Mas são eles que por insensatez, e mesmo contra o destino
causam o infortúnio."