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18 outubro 2007

Explicitudes - I

Que importância tem a importância que não nos dão? Se precisamos tanto dela é porque não sabemos, nós mesmos, se a temos ou não. Também não tem a menor importância a importância que os outros nos dão. O que fazer com isso, além de estagnar nosso sentido nas almofadas fofas da vaidade? Importância, na verdade, não tem a menor importância...

O que fizeram com esses pobres meninos...


Por tanto amor, quiseram lhes dar a hegemonia no mundo, ou apenas certificá-los de que esta lhes pertencia por direito e herança divina. O que sabem os deuses que habitam as fantasias humanas sobre os destinos que o mundo real reserva aos homens? Sofrem hoje, seus meninos, as dores de verem seus reinados destruídos. Que sabemos nós das demasias dos tempos, das águas que correm pelos rios, das lágrimas que nos desafiam a ser nós mesmos? Mas o fato é que os lugares se deslocaram, e a ruína dos sentidos arraigados começou a se apresentar. O que sou eu diante de ti, que sempre fui por ti o que de melhor tivestes? O que sou eu diante de mim que diante de mim nunca precisei perguntar? Que lugares são esses tão ermos e tão estranhos onde estamos agora diante um do outro e onde efetivamente somos? Quem é você e quem sou eu diante da vida que seguiu seu curso e nos trouxe até aqui? Não somos mais o que éramos e não sabemos mais o que ser. Por que ainda não sabemos como ser diante do novo que ainda não nos ensinou a viver. Estrada nova, diante de memória longa onde tudo era dado e conhecido, sem mistérios, sem temor, por mais que sofrido. Agora, é uma espécie de nada onde tudo se iguala. Mas o que fazer da memória retida, onde eu era maior que tu? O que fazer do todo aprendido, onde esperavas por mim? E eu agora que já não sei como chegar a ti? Que destino cruel o que nos ensina a viver... Que destino cruel o que nos desatina para deixar viver. E o que fazemos nós, os que tivemos a facilidade de errar, errar sem ter que aprender? A vida é rude no seu sentido perene. Não apenas para os que estão acostumados às suas migalhas, mas também para aqueles que sempre viveram de suas regalias. O lugar do conforto é apenas o lugar conhecido, não quer dizer que seja bom. Mas tudo muda na vida. Sobrevivem os que sabem amar a si mesmos - única forma de reaprender a reconhecer e amar o outro.

15 outubro 2007

Todo azul é blue...

Além de bisbilhotar o orkut, roubei a bela foto.
Roubei, mas dou o crédito:
Roberto Ferreira.
E acreditem... é a Praça XV à noite.
Agora tentem adivinhar de que ângulo a foto foi feita.
(Tentem... isto é, na hipótese de haver diversos leitores...rssss)

14 outubro 2007

A uma amiga querida

(Shoes, Van Gogh /1888 -Metropolitan Museum of Art, New York City)

É preciso saber que a nosso lado existe um eu antigo, educado nas práticas totalitárias da cultura hegemônica. Reinventar é um trabalho que requer paciência e atenção, mesmo quando o sono da inércia nos invade a alma e nos incita a dormir. O cansaço aí implícito é apenas a incorrigível vontade de ceder à sedução. A persistência promete o novo – e o outro eu pergunta: mas o que é o novo? O outro eu foi educado no silêncio de nossas vidas; conhece nossas verdades tímidas, aquelas que tivemos que deixar adormecer, e que talvez se tornassem nossas melhores qualidades. Muitas vezes já nem mais as sabemos; se confrontados com elas, podemos até nem as reconhecer. Serão muitas, certamente. Mas uma delas, com certeza, resiste ao tempo e espera; senta-se pacientemente a nosso lado toda vez que o cenário da ilusão se desfaz – é a certeza de que somos inteiros, perfeitos, amoráveis. Esta incansável verdade tímida espera que nossos olhos se voltem para nós mesmos e percebam que é aí que reside a fonte de todo amor. Que todos os amores sejam bem-vindos à nossa fonte generosa... mas se tiverem que ir embora, não levarão mais que os cenários de papel e sedução. Com as águas claras de nosso eu mais puro, lavaremos os olhos e o coração para saber reconhecer a diferença entre amor e ilusão. E isso é antes de tudo um exercício de paciência e vontade, que os sinos de vento da alegria vão anunciando até nos deixar ver – o amor e a felicidade residem em nós e, como o movimento dos rios, é inevitável que um dia se dê o transbordamento. E do outro lado, com certeza, haverá um mar... um mar que receberá as águas desse rio em suas águas próprias. Mas raramente temos paciência para esperar o curso natural de nossas vidas. É preciso curar o eu antigo e tudo certamente se dará.

Um beijo, amiga!

13 outubro 2007

Fado Tropical (Chico Buarque e Ruy Guerra)

Uma singela e sincera homenagem ao meu amigo Roberto






Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata

Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar

Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...''

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial

Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto

De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto

E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto


Quando me encontro no calor da luta

Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa''

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca

Num suave azulejo
E o rio Amazonas

Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

12 outubro 2007


"You can surrender without a prayer, but never really pray, pray without surrender. You can fight, fight without ever winning, but never ever win, win without a fight..." (Resist)

Nem tudo é como nos parece

"As vezes, nos é muito mais útil um adversário sincero que um amigo bajulador."
Chico Xavier

11 outubro 2007

Tratado acerca do fenômeno do poste na vida dos seres

Olha o poste..

Olha o pooste...

Olha o pooooste!!!

Os postes sempre exerceram uma atração singular na vida dos seres de todas as espécies e, na dos seres humanos, de forma muito particular. Por, em geral, sustentarem lâmpadas, estão sempre cercados de mariposas, pássaros noturnos e pequenos insetos que não resistem à sua atração, mesmo à custa, muitas vezes, da própria vida. Os postes que sustentam fios de alta tensão geralmente não carregam lâmpadas, mas exercem o mesmo fascínio, sobretudo nos seres humanos por volta da primeira infância, fenômeno que pode ser constatado nos subúrbios e nas áreas rurais onde sempre se poderá ver objetos como camisas, chinelos ou pares de tênis pendurados nos fios que os postes sustentam displicentemente. Sim, tão displicentemente que pode nos dar a impressão de que há um comprometimento entre os fios e o poste. Mas a impressão se desfaz à primeira chuva forte, tempestade ou ventania que lhes arrancam e jogam os fios ao chão. Permanecem lá os postes, impávidos e displicentes, enquanto a alta tensão dos fios ameaça os desavisados circunstantes - que geralmente não têm nada com isso e talvez jamais tenham topado com um poste na vida. E o poste... nem aí. Porque é de sua natureza e talvez seja esse seu principal ponto de atração. Se vivo fosse, Freud talvez explicasse os postes da modernidade pela sua forma – objeto fálico realmente. Na época do venerável Freud os postes tinham outra forma; carregavam lamparinas e belos arranjos que deixavam as luzes penderem de seu alto, desenhando bela curva descendente. Por isso, talvez, Freud não tenha se referido aos postes em sua época. Mas hoje...quem será que desenhou os postes como hoje se apresentam? Não vem ao caso de nosso objeto, mas seria interessante traçar o perfil psicológico da criatura. Voltando ao que nos ocupa, os postes estão caindo em desuso por motivos tecnológicos e, muito provavelmente, acabarão por desaparecer dos discursos dos seres humanos, deixando de exercer a forte atração que hoje vemos. E o que desaparece do discurso acaba por desaparecer da realidade. Seria interessante estudar os prejuízos psicológicos que o desaparecimento dos postes causa na vida dos cães – certamente haverá algum tipo de mutação genética nos seus delicados complexos urinários. Mas voltando a tão importante tema, a extinção dos postes alterará a análise de acidentes em relação a curvas e derrapagens. Ainda não se conseguiu explicar a grave atração dos postes nas curvas das estradas. Parece que abduzem algumas criaturas que invariavelmente se esborracham e às vezes alcançam a morte! Os estudos nessa área ainda incidem apenas sobre as curvas – às vezes, belas curvas, sem um milímetro que se possa criticar. Pontos críticos...neles sempre há um poste! Com as redes de alta tensão subterrâneas, os postes tendem a desaparecer da vida em sociedade. Temos que analisar a relação do desaparecimento dos postes com o crescimento dos consultórios psicanalíticos - cuja função primordial é fuçar os subterrâneos! E os bêbados? O que será dos bêbados sem os postes que lhes delimitavam o rumo? Aliás, uma corrente de pensamento acredita que o encantamento por postes é inato em alguns seres, o que os leva a tornarem-se bêbados. E as prostitutas românticas que faziam ponto sob sua luz e se encostavam neles vagabundamente? Outra corrente filosófica acredita que foram as prostitutas que construiram o simbolismo dos postes. E os revolucionários que encontravam suporte para seus reclamos? Os distraídos que se chocavam com eles e faziam a calçada toda rir. As calçadas sem postes já não serão as mesmas... A extinção dos postes poderá indicar uma evolução na vida dos seres humanos e de alguns animais. Mas como todo percurso evolutivo é longo, temos motivo para inferir que alguns seres ainda guardarão o arquétipo do poste em suas memórias afetivas, resistindo à realização do complexo e moroso trabalho de progresso a que está inevitavelmente fadada a humanidade. Os seres humanos vão ter que aprender a se encontrar sem a demarcação dos postes, onde invariavelmente estacionam por longo tempo ou se chocam até a morte. Tudo o que faz o homem estacionar é atraente...uma questão de preguiça existencial que nem Freud conseguiu explicar. Mas as mariposas? Essas temos que estudar à parte. O que atrai as mariposas? O poste ou a luz? Não importa, elas também acabam morrendo por isso. As mariposas, um dia, também serão obrigadas a evoluir, como tudo na vida. Mas que isso não nos custe a luz!

(Agradecimentos ao CNPq e à CAPES, sem os quais esse arrazoado não seria possível...hehehehehe)

10 outubro 2007

Grandes viagens III

Pensava ainda em travessias, canais, viagens e sentidos. Esperava sem urgência a hora marcada, que eu nem sabia se ia chegar. Estação fortuita que traria em si a própria estrada, como se todas as possibilidades começassem ou se perdessem ali. Pensava em presente sem futuros, sem passados, desenhando cada minuto no instante exato em que eles precisassem existir. Vida sem pressa, sem tempo, quase sem vida, leve. Trama lisa e delicada a tecer a ponte, o rasgo, a fenda, abrindo mansa cortina que escondia a porta e desvendava o beijo. Como são doces os beijos... Esperava ainda com gosto pela própria espera, como quem não precisa chegar, como quem não tem nem pressa, nem mesmo espera, como se apenas estivesse lá. Atravessei as portas, as cortinas, os beijos. Corpo leve, coberto de finas nuvens e vento, tecidos com fios de sol. Atravessei a ponte que começava a existir; o canal, que as águas claras de um mar ainda por ser abria em iluminada fenda; sabia da viagem apenas o limite do agora – fronteira tênue dos sentidos entre o sonho e o real. Sabia do agora como quem havia acabado de chegar. A areia fina e morna me aqueceu os pés e todo o corpo, incitando um espreguiçar que desenhou o resto e me deixou saber. Era a Grécia... sem dúvida era a Grécia...