Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
15 outubro 2007
14 outubro 2007
A uma amiga querida
(Shoes, Van Gogh /1888 -Metropolitan Museum of Art, New York City) É preciso saber que a nosso lado existe um eu antigo, educado nas práticas totalitárias da cultura hegemônica. Reinventar é um trabalho que requer paciência e atenção, mesmo quando o sono da inércia nos invade a alma e nos incita a dormir. O cansaço aí implícito é apenas a incorrigível vontade de ceder à sedução. A persistência promete o novo – e o outro eu pergunta: mas o que é o novo? O outro eu foi educado no silêncio de nossas vidas; conhece nossas verdades tímidas, aquelas que tivemos que deixar adormecer, e que talvez se tornassem nossas melhores qualidades. Muitas vezes já nem mais as sabemos; se confrontados com elas, podemos até nem as reconhecer. Serão muitas, certamente. Mas uma delas, com certeza, resiste ao tempo e espera; senta-se pacientemente a nosso lado toda vez que o cenário da ilusão se desfaz – é a certeza de que somos inteiros, perfeitos, amoráveis. Esta incansável verdade tímida espera que nossos olhos se voltem para nós mesmos e percebam que é aí que reside a fonte de todo amor. Que todos os amores sejam bem-vindos à nossa fonte generosa... mas se tiverem que ir embora, não levarão mais que os cenários de papel e sedução. Com as águas claras de nosso eu mais puro, lavaremos os olhos e o coração para saber reconhecer a diferença entre amor e ilusão. E isso é antes de tudo um exercício de paciência e vontade, que os sinos de vento da alegria vão anunciando até nos deixar ver – o amor e a felicidade residem em nós e, como o movimento dos rios, é inevitável que um dia se dê o transbordamento. E do outro lado, com certeza, haverá um mar... um mar que receberá as águas desse rio em suas águas próprias. Mas raramente temos paciência para esperar o curso natural de nossas vidas. É preciso curar o eu antigo e tudo certamente se dará.
Um beijo, amiga!
13 outubro 2007
Fado Tropical (Chico Buarque e Ruy Guerra)
Uma singela e sincera homenagem ao meu amigo Roberto


Oh, musa do meu fado

Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Sabe, no fundo eu sou um sentimental

Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar,
trucidar
Meu coração fecha aos olhos e sinceramente chora...''
Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial

Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa

Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa''
Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
12 outubro 2007
Nem tudo é como nos parece
Chico Xavier
11 outubro 2007
Tratado acerca do fenômeno do poste na vida dos seres
Olha o poste.. Olha o pooste...
Olha o pooooste!!!
(Agradecimentos ao CNPq e à CAPES, sem os quais esse arrazoado não seria possível...hehehehehe)
10 outubro 2007
Grandes viagens III
Pensava ainda em travessias, canais, viagens e sentidos. Esperava sem urgência a hora marcada, que eu nem sabia se ia chegar. Estação fortuita que traria em si a própria estrada, como se todas as possibilidades começassem ou se perdessem ali. Pensava em presente sem futuros, sem passados, desenhando cada minuto no instante exato em que eles precisassem existir. Vida sem pressa, sem tempo, quase sem vida, leve. Trama lisa e delicada a tecer a ponte, o rasgo, a fenda, abrindo mansa cortina que escondia a porta e desvendava o beijo. Como são doces os beijos... Esperava ainda com gosto pela própria espera, como quem não precisa chegar, como quem não tem nem pressa, nem mesmo espera, como se apenas estivesse lá. Atravessei as portas, as cortinas, os beijos. Corpo leve, coberto de finas nuvens e vento, tecidos com fios de sol. Atravessei a ponte que começava a existir; o canal, que as águas claras de um mar ainda por ser abria em iluminada fenda; sabia da viagem apenas o limite do agora – fronteira tênue dos sentidos entre o sonho e o real. Sabia do agora como quem havia acabado de chegar. A areia fina e morna me aqueceu os pés e todo o corpo, incitando um espreguiçar que desenhou o resto e me deixou saber. Era a Grécia... sem dúvida era a Grécia...09 outubro 2007
Grandes viagens II
Travessia (quarta e última parte)

(Pablo Picasso - Mulher dormindo/1927)
Já escorregava para o outro lado e não conseguia mais me agarrar. Pesava-me aquele coração escuro que batia de volta no meu peito e me puxava para baixo. Ainda tentei segurar alguma coisa que sei agora que era a sua mão. Levantei a minha e não alcancei a sua que eu não via mais. Lancei a minha e agarrei o vazio, batendo em algo que veio junto, quando desci ao chão. Estanquei o desespero e o choro que não cheguei a chorar, tão aflita que estava para ler a mensagem, o mapa, a senha, o código, a chave. Era uma peça pesada, coberta por uma espécie de ferrugem verde que não me deixava ver senão o seu contorno. Era um brasão e tinha algo escrito, que eu limpava, limpava, limpava, inutilmente. Fiquei longo tempo ali, no escuro, certa de que vencêramos o tempo, a distância, aquela estranha distância. De repente uma luz branca, incômoda, me atirou em outro lugar, outro momento de uma memória fria, concreta, corpórea. Quis trazer o brasão, agarrei-o como um náufrago se atira a uma esperança vã. Tentei identificar os símbolos inscritos ao perceber que ele se apagava de mim. Não quis abrir os olhos, me recusei, não queria voltar! Fiquei longo tempo assim, chorando de olhos fechados, como quem empurra o corpo contra uma parede dura que nunca mais vai se abrir. E o meu coração estava lá, guardado em mim, doendo sozinho, tristemente sozinho. Os anos se passaram e o que era uma saudade grave estancou


