"As coincidências são elegâncias da divina providência."
Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
28 dezembro 2007
Meus melhores desejos a absolutamente todos
Conte seu jardim pela flores, nunca pela folhas caídas.
FELIZ ANO NOVO!!!!!
*******
Um poemeu
Estou de saída,arrumando uma pequena mala.
Tão pequena que não suporta mais que o essencial,
o importante, o fundamental.
Três pequenas coisas...
Coisas apenas minhas.
Que as não cobicem o próximo,
que as não contestem os ricos,
que as admirem os pobres,
que as entendam as almas nobres.
Ao sair, fecho a porta
de onde todo o resto está meticulosamente ordenado,

arquivado por ordem de desimportância,
por data, por autor, por assunto, por absoluto cansaço.
A chave que tranca a porta não há,
para que eu exercite a cada instante a decisão de não voltar.
Na estação, o trem que faz surgir a estrada necessária,
à medida que ela precisar existir.
Nas janelas, todas as paisagens que meu olhar construir.
Diante de mim, o percurso.
Perto de mim, todas as saídas.
Dentro de mim, a vida.
O resto é apenas uma foto na parede morta da lembrança.
Uma prece árabe
Deus, não consintas que eu seja o carrasco que sangra
as ovelhas, nem uma ovelha nas mãos dos algozes.
Ajuda-me a dizer sempre a verdade na presença dos fortes,
e jamais dizer mentiras para ganhar os aplausos dos fracos
Se me deres a fortuna, não me tires a felicidade;
se me deres a força, não me tires a sensatez;
se me for dado prosperar, não permita que eu perca a modéstia,
conservando apenas o orgulho da dignidade.
para não enxergar a traição dos adversários,
nem acusá-los com maior severidade do que a mim mesmo.
Não me deixes ser atingido pela ilusão da glória,
quando bem-sucedido e nem desesperado quando sentir insucesso.
Lembra-me que a experiência de um fracasso
poderá proporcionar um progresso maior.
Faz-me sentir que o perdão é o maior índice da força,
e que a vingança é prova de fraqueza.
Se me tirares a fortuna, deixe-me a esperança.
Se me faltar a beleza da saúde, conforta-me com a graça da fé.
E quando me ferir a ingratidão e a incompreensão dos meus
semelhantes, cria em minha alma a força da desculpa e do perdão.
E finalmente Senhor, se eu Te esquecer,
te rogo mesmo assim, nunca Se esqueças de mim!
27 dezembro 2007
25 dezembro 2007
Casablanca segundo Umberto Eco
pensado à medida que ia sendo rodado, e que até o último instante nem o roteirista, nem o diretor sabiam se Ilse Lund Laszlo (Ingrid Bergman) iria embora com Richard Blane (Hamphrey Borgart) ou com Victor Laszlo (Paul Heinreid). Que maldade...Apesar dos grandes nomes que estrelavam o filme, Eco considerou que a receita de Casablanca era a de colocar na mesma tijela todos os ingredientes de aceitação já comprovada — e como eram todos os ingredientes, o resultado final se assemelhava à "igreja da Sagrada Família de Gaudí". Antoni Placid Gaudí i Cornet (1852-1926) era um arquiteto ligado às novas concepções plásticas do modernismo catalão; um dos seus trabalhos mais conhecidos é a igreja a que se refere Umberto Eco. A Catedral da Sagrada Família começou a ser construída quando Gaudí tinha 31 anos e se prolongou por mais 40 anos, até o fim da vida dele. A Catedral fica em Barcelona e ainda não está pronta; a previsão é de que a primeira parte construída já terá que ser restaurada quando todo o trabalho estiver terminado, em 2025. Pela foto se pode ter uma idéia do projeto "alucinatório" de Gaudí a que Eco comparou Casablanca. Ele diz que ao se entrar na catedral, fica-se com vertigem e esbarra-se na genialidade. Que coisa... em Casablanca, então, teríamos vertigens em contato com tantas proposições das mesmices emocionais a que todos estamos expostos, não importando nossas dessemelhanças; e assim esbarraríamos na "genialidade". Também acho que o estado de amor nos aproxima das nossas melhores possibilidades, mas a paixão não. Gaudí era apaixonado pelo projeto da catedral...inacabada, excessiva, esquisita. Os ingredientes que o diretor Michael Curtiz colocou no filme podem ter construído uma história assim estranha, como a catedral, mas quando todos os arquétipos irrompem sem decência, "são atingidas profundidades homéricas"! E lá estavam o amor infeliz, a fuga, a Terra Prometida (EUA, ora!), a espera, a chave mágica (passaporte e visto), o dinheiro e o dom, que Rick faz do seu desejo, sacrificando-se. No filme, todos aqueles que têm paixões impuras fracassam, é verdade. E triunfa o arquétipo da pureza. Mas os impuros se redimem através do sacrifício. O mito do sacrifício, segundo Eco, atravessa o filme inteiro: quando Ilse, em Paris, abandona o homem amado para voltar ao herói ferido; o sacrifício da esposa búlgara para ajudar o marido; Victor, que prefere perder Ilse para Rick, contanto que ela fosse salva. Eco chama isso de orgia de arquétipos sacrificiais. E justamente por essa mistura de fórmulas já testadas pelo cinema e aprovadas pelo público, e que dizem respeito a parcelas da intertextualidade das emoções humanas, é que Casablanca fez e ainda faz tanto sucesso. E Eco conclui dizendo que dois clichês provocam o riso, mas cem clichês comovem. E vale transcrever o parágrafo final do artigo cujo nome é "Casablanca ou o renascimento dos deuses", publicado em 1975: "Como o cúmulo da dor encontra a volúpia e o cúmulo da perversão beira a energia mística, o cúmulo da banalidade deixa entrever uma suspeita sublime. Algo falou no lugar do diretor. O fenômeno é digno pelo menos de veneração". Bom, data venia, ele acabou com o diretor, certo? Mas que tal testar se os velhos clichês ainda comovem nossos corações? Aí embaixo, a famosa música tema do amor sacrificial entre Rick e Ilse e que Sam canta maravilhosamente ao piano... "As time goes by"... a kiss is just a kiss...la la la la la....E boa semana a todos!!!!
24 dezembro 2007
FELIZ NATAL!!!!!!!!!!!
O GRANDE SERVIDOR"Sim, o Cristo não passou entre os homens como quem impõe.
Nem como quem determina.
Nem como quem governa.
Nem como quem manda.
Caminhou na Terra à feição do servidor.
Legou-nos o Evangelho da Vida, escrevendo a epopéia no coração das criaturas.
Mestre, tomou o próprio coração para sua cátedra.
Enviado Celestial, não se detém num trono terrestre e aproxima-se da multidão para auxiliá-la.
Fundador de Boa Nova, não se limita a tecer-lhe a coroa com palavras estudadas, mas estende-a e consolida-lhe os valores com as próprias mãos.
A prática é o seu modo de convencer.
O próprio sacrifício é o seu método de transformar.
Aprendamos com o Divino Mestre a ciência da renovação pelo bem. E modificar a nós mesmos para a vitória do bem, elevando pessoas e melhorando situações, é servir sempre como quem sabe que fazer é o melhor processo de aconselhar.
Emmanuel
Psicografada por Francisco Cândido Xavier
(Imagem: Emmanuel)
Neste dia em que se comemora o nascimento daquela amada criança, não esqueçamos a dor da mulher que lhe foi mãe.
23 dezembro 2007
21 dezembro 2007
Texto copiado do blog do Roberto...Nietzsche...lindo
Eu só poderia acreditar num deus que soubesse dançar.Coragem! Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a voar.
Assim falava Zaratustra.
Imagem: Rudolf Nureyev
Blog do Roberto Ferreira: www.luznagaleria.blogspot.com
Neruda para nosotros
No te amo como si fueras rosa de sal, topacio19 dezembro 2007
Glauber era baiano, Pernambuco
Glauber Rocha não nasceu em Pernambuco, como eu erradamente falei (e escrevi), ao comparar a voz e o jeito polêmico e irreverente de um amigo com o comportamento genial do cineasta. Glauber nasceu em Vitória da Conquista, na Bahia. E a correção veio por fonte autorizadíssima - o Jornal da ABI, em sua edição de número 322. A matéria é assinada por José Reinaldo Marques e fala sobre a produção de Glauber como crítico de cinema e artes para diversos jornais, entre eles o antigo JB. A coletânea de artigos já está disponível para o público no Tempo Glauber. Foi um trabalho de garimpagem feito por D. Lúcia Mendes de Andrade Rocha, mãe de Glauber, ao longo de dois anos, e inclui também as primeiras incursões do cineasta pelo texto e literatura.(Glauber Rocha)
16 dezembro 2007
Depois da chuva, que grande praia essa de hoje...
Prestação de serviço útil...para não dizerem que não falo de flores
A Janaína Salles é uma jornalista que se tem dedicado, no blog Para Todos, a informar sobre programação cultural a preços baixos. Veja a descrição do blog dela. E se estiver sem programa, certamente vai encontrar alguma coisa boa para fazer por lá. Divirtam-se...Bom domingo.
"No ParaTodos você encontra as melhores e mais baratas dicas de entretenimento. Entre e divirta-se!
Convidamos você a viajar conosco nessa aventura. Mande suas sugestões, críticas e comentários. Entre sem bater, é de graça!"
14 dezembro 2007
Cantando na chuva
Toda vez que chove, eu me lembro do Lobão. Talvez apenas porque eu ande muito musical, indo do erudito ao rock, passando por uma ou outra coisa do Rush, e flanando em toda bossa nova que um dia já se cantou. Mas Lobão é frágil como uma flor quando canta "chove lá fora e aqui faz tanto frio...". É absolutamente encantadora a imagem de homens com aparência tão... masculina, digamos, cantando a fragilidade do sofrimento por um amor; sofrendo pela ausência de uma mulher. Muito já se esmiuçou sobre as dores de amor das mulheres - de revistas de fofocas a best sellers -, mas ninguém jamais se referiu às dores de amor do homens. Penso às vezes que não foram feitos para a dor, embora preparados para as batalhas e guerras. Deve ser tão mais doída, para os homens, a dor que vem quando o sangue não está aquecido pela expectativa da luta e a alma apenas pede piedade... Ah, e as mulheres que vão ao parto sem sequer lembrar da dor? Como deve ser tão mais grave para esses seres fortes...Mas eles não falam disso; é como se não acontecesse... Mas alguns deles se expõem em suas canções, como Lobão, por exemplo, apesar da inadequação gramatical... "aonde está você, me telefona...". Chico travestiu as emoções com o sofrimento de todas as mulheres para, quem sabe, sofrer em off de seu próprio amor. Como homem - sem uma configuração assim tão máscula... lindinho como uma boneca; igual a Tom Cruise! - mostrou-se o tolo comum que tem uma mulher e, distraído dela, leva uma rasteira e a perde para outro... "tinha cá pra mim que agora sim vivia um grande amor... mentira...". Para Chico, os homens são distraídos de suas mulheres e as mulheres, sempre prontas a sambar com outros. Um jeito de negar a dor. Mas Lobão, quando diz que "nem sempre se vê lágrimas no escuro..." é um homem de voz grave, figura e apelido rudes, e nos deixa ver que o amor abate a todos quando não se realiza. Um homem sofrendo por amor. Diferente de Caetano, que esculachou a mulher amada em Cê..."piranha, vagaba, nojenta e sei lá eu mais o quê...". Que coisa ressentida e feia. Mas Lobão, que conta a lenda comeu até a vovozinha, confessa "...me dá vontade de saber... me telefona...nem sempre se vê mágica no absurdo... lágrimas no escuro...cadê você?". É fato e não se pode negar: o ódio é a contraface de um amor renitente; e a recusa, nesse caso, a face mais explícita de um infinito desejo. É, Lobão, chove lá fora... (Imagem: cena do filme Cantando na Chuva)
Post Scriptum: Os pagodeiros também não têm vergonha de sofrer de amor em suas músicas... e às vezes até se admitem cornos sem grandes dramas. Mas aí vira tratado sociológico... o que o meu Currículo Lattes não contempla...rssss.
12 dezembro 2007
Tocata e fuga em todos os tons
Tocata e fuga... sempre que ouço a expressão que descreve a concepção da forma musical me vem à mente a imagem de um menestrel fugindo após tocar no meio da praça. Menestréis eram um misto de poetas, músicos e vagabundos da idade média; tocata, uma espécie de introdução para testar a afinação dos instrumentos, ou os improvisos do jazz, do rock - aquilo que Sting e Stewart Copeland fizeram maravilhosamente no show do The Police -, e fuga são as vozes de um coro que vão aos poucos anunciando o tema, uma a uma, em contraposição, até que todas apareçam na graça majestosa e harmônica da música. Mas ainda assim penso no poeta-músico-vagabundo fugindo para lugar nenhum... e se for em ré menor chego mesmo a ficar triste. Nietzsche, que falava mal de Deus e do mundo, não resistiu à grandeza da música de J. S. Bach e disse, provavelmente extasiado, que a Paixão Segundo S. Mateus, de 1700 e alguma coisa, era capaz de reconverter qualquer um que já tivesse esquecido o cristianismo. Bach é considerado o precursor da música moderna, e talvez por isso não seria exagero dizer que Sting e Copeland lhe devem a raiz de suas toccate. Bach não era um menestrel, obviamente. Teve 20 filhos de dois casamentos e era funcionário público rigoroso com seus deveres para com o "público". No começo, compunha só para exercício da criatividade, uma espécie de hobby, até que seu talento conquistasse o mundo, que era ainda tão pequeno. Bach ficou cego aos 64 anos, mas continuou trabalhando no que seria sua obra genial, A Arte da Fuga. Morreu antes de terminá-la, em 28 de julho de 1750. Segundo Albert Schweiter (na foto, 1875-1965), biógrafo do compositor e seu maior intérprete, Bach era disciplinado e chegava a escrever uma cantata por semana e "acreditava tanto no trabalho quanto na inspiração". A arte da fuga é o que fazem as palavras quando nos deixam ao desamparo, justo quando precisávamos tanto escrever. Falava de fugas e tocatas, na tristeza em ré menor...Não é arte quando nos faltam palavras, mas pode ser tosca fuga... coisa de menestréis, poetas e vagabundos. Não que me enquadre em tão nobre elite...triste do texto quando lhe faltam palavras... Mas sem inspiração, resta ainda o trabalho. E a música de Bach que preencheria esse texto, fruto da falta de inspiração (se eu soubesse como postar músicas, claro..) não seria Fuga e Tocata, mas a belíssima Paixão Segundo S. Mateus. Procurem ouvi-la bem baixinho, durante a leitura de um livro preferido. Vão ver que é simplesmente mágico...09 dezembro 2007
08 dezembro 2007
Do silêncio, do medo e seus discursos

"O real da linguagem - o discreto, o um - encontra sua contraparte no silêncio", quem diz isso é Enni Orlandi, que estudou as formas do silêncio e denunciou aí uma profusão de sentidos. E ela diz, ainda, que "em condições dadas, fala-se para não dizer". Trabalhou sobre discursos e silêncios explícitos com a maestria que se espera dos detentores de Currículos Lattes. E disse a doutora que o silêncio não é da ordem do implícito, não se deixa ler nas entrelinhas, não fala, apenas significa. Tratava ela de censura, discursos jornalísticos e que tais. Mas diminuamos o foco até chegar a nós mesmos: o que é o silêncio senão o medo? Medo do confrontar-se com seus próprios possíveis - às vezes desejos inadmissíveis, quase sempre prévia auto-censura,geralmente covardia inata. O que são nossas palavras em comparação com nossos grandiloqüentes silêncios? Como deve ser interessante o texto que não dissemos; como devem ser importantes as palavras que omitimos; como devem ser belos os poéticos amores que não traduzimos, as coisas mudas de cada um...
(Imagem: Rodin, sobre os humanos)
07 dezembro 2007
Finalmente...

Sexta-feira. Dei título de "finalmente" a essa postagem onde pretendia apenas desejar um final de semana feliz a todos os que por acaso ou por um certo vício ou prazer visitam esse meu humilde blog. Mas fico agora pensando... por que "finalmente"? Eu não estava nem um pouco apressada para que a semana chegasse ao fim... para dizer a verdade, pouco se me daria se terminasse em dias úteis ou fúteis. E não mais por excesso do que fazer; muito pelo contrário, por ter trocado o que se tem convencionalmente considerado trabalho pelo que me tem dado enorme prazer de fazer - e ninguém, certamente, associaria prazer a trabalho. E que não me interpretem mal, por favor! A vida, como de sempre, continua não sendo nada fácil. Mas ao fazer o que faço, tenho a impressão de que os dias úteis são iguais aos "inúteis", e os "inúteis", carregados de criativa utilidade. A diferença talvez esteja em não sentir culpa - culpa por desperdiçar os dias úteis e por aproveitar os inúteis... Acho que encontrei um atrium que leva a um lugar onde todos os dias são agradavelmente sábado à noite, domingo à tarde e sexta-feira depois das dez. E a todos, os meus votos de uma seqüência de dias felizes, iguais ao que chamamos de "finalmente sexta-feira".
06 dezembro 2007
Espelho Mágico
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...
(Mario Quintana)
04 dezembro 2007
Mas o que é isso, companheiro????
02 dezembro 2007
Exposição dos "Cadernos" de Patrícia Burrowes
m alegria o fogo minguado da sabedoria que nos ensina, ao contrário da academia, que o saber é da ordem da humildade, do não saber, do apenas ter curiosidade. Curiosidade por tudo e não apenas pelos que nos ensinaram a aprender. Pois estavam lá sorrindo como irmãos que se encontram depois de longa data e de dolorosa tarefa, autorizados já a brincar no quintal da humanidade. Faziam arte os doutores, e compartiam entre si e entre todos a arte-brinquedo que Patrícia Borrowes trouxe com sua poesia-arte. Poeta que limpa o suor com o dorso das mãos de artista, expôs ao sol sua extensa jornada. Estava dito em quadros e telas e litogravuras. Patrícia subiu a montanha íngreme onde acredita-se residam os doutos e seus conhecimentos; feriu os pés, as mãos e descobriu a duras penas os pés de barro dos ídolos moucos. Ao chegar ao cume onde conta-se que Deus interditou Babel, a poeta desceu de novo, abanando com o vento da alma a chama que lhe cabe neste vasto mundo. E foi assim desatando os fios que unem as letras em palavras, as palavras em textos, os textos em discurso. Desceu a poeta espalhando sentidos, deitando ao mar cada um dos pedacinhos. E depois mergulhou, foi lá dentro, lá fundo, lá longe buscar a possibilidade. Submergiu com os olhos e as mãos tomados por palavras que se desmancharam em tintas e papel. Ofereceu-nos a sua busca, o seu caminho e inquietude, compartilhando com todos o calor herdado do fogo de Prometeu. Uma pena que a exposição terminou antes que eu pudesse contar aos meus poucos mas queridos leitores sobre o emocionante trabalho de Patrícia.30 novembro 2007
O problema é maior do que o morro, presidente
O presidente Lula esteve hoje (30/11), no morro do Pavãozinho, favela que fica na Zona Sul do Rio de Janeiro, entre Copacabana e Ipanema. Fez discurso de palanque, garantindo que só não vai construir mansões para melhorar o astral da população porque o dinheiro não dá. Em uma espécie de discurso de auto-ajuda, garantiu que o pobre é a essência do povo brasileiro, e que com as obras que virão com os 35 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento - o tal do PAC - a favela ia ficar "um lugar decente e digno", onde a população do lugar pudesse ter orgulho de morar. Não critico o presidente por fazer um discurso tão desconectado da realidade das populações faveladas dos morros da cidade e até mesmo do cotidiano dos cariocas. Nem mesmo pelo desconhecimento do cenários que as palavras que usou carregam. Não; não culpo um presidente que viaja tanto e que tão poucas vezes esteve no Rio, e que conhece a realidade das favelas cariocas pelos filmes que talvez ainda assista em seu cinema particular. Aliás, torço até para que não tenha visto Tropa de Elite, exemplo de polícia do nosso Cabral. Mas culpo os assessores que não se empenham em pensar e pesquisar sobre o que o presidente terá que dizer - já que é fora de questão esperar que pensem - assessores, presidente e seus etcéteras - em como verdadeiramente resolver problemas que todos estamos cansados de conhecer. A solução parece estar no dinheiro que cava ruas e levanta muros, que o tempo irremediavelmente vai destruir e que outros virão para enterrar um monte de dinheiro na reconstrução. Dinheiro dá voto e estofa discurso, mas daí a achar que dá orgulho a favelado vai uma longa distância. Saneamento e urbanização é necessidade básica e não se constituirá em motivo de orgulho dizer que se recebeu, já que é uma vergonha jamais ter tido. E o orgulho não deverá ser do morador que se envergonha de não ter o que o estado deveria ter garantido, mas do Estado, que se redimirá da culpa de ter governado de costas para as encostas dos morros. Não cabe se orgulhar de tanto atraso. Tanto que mesmo o tal do PAC será pouco para dar conta da redenção de tamanha culpa. As pouco mais de quatro mil famílias que serão beneficiadas não enchem sequer a rua principal da favela da Rocinha. Ora, mas não vamos apelar para a batida retórica do que pouco é melhor do que nada. O presidente, ao invés de enaltecer esse insuficiente tantinho, deveria pedir desculpas aos que ainda vão continuar na mesma de anteontem, ou melhor dos séculos passados. O problema dos moradores dos morros também não está na diferença entre ricos e pobres, que aqui no Rio convivem até muito harmoniosamente, compartilhando a mesma praia, frequentando o mesmo bar, trocando serviços. O carioca nunca teve desses preconceitos. Dizer que só quando o pobre mora no morro é vergonha, é favela, e rico que mora no morro é chique, isso é desconhecer o lugar das bolas e plantar um separatismo que o Rio não alimenta - é favela porque padece de ausência do poder público; rico que mora em morro não é chamado de nada; é apenas cidadão. O conceito de cidadão implica uma relação com o Estado, com as garantias fundamentais que o estado deverá dar à pessoa; a sociedade paga para ter garantias básicas de cidadania que ao Estado compete honrar. E que tolice dizer que a elite vai achar que elevador no morro é luxo e que favelado não precisa disso. É de se perguntar: para quem o senhor acha que está falando, presidente? Para os banqueiros que são a única elite que jamais na história lucrou tanto? Será que eles se importam com o seu PAC ou com elevador para favelado? Ou está falando com a classe média desvalida e encurralada por outras e mais preocupantes mazelas que também habitam nossos morros? O elevador é até o de menos. Gerações sobre gerações têm subido e descido os morros com tudo o que a vida obriga a carregar, de criança na barriga, no colo, até tijolo e cimento para construir quase junto ao céu - e só Deus, que olha pelo alto, sabe como. Assessores, para que os tem, presidente? E quanto à declaração de que o Rio não é uma cidade tão violenta assim... ah, essa fica para mais tarde.(Foto Agência Brasil)
27 novembro 2007
Com números, mas com afeto
Quando não tenho tempo para pensar – porque pensar toma um dia quase inteiro, saibam, mesmo que não se pense grandes coisas! – escrevo um poema, uma frase, qualquer texto tirado de outros que têm a competência que me falta. É uma espécie de diálogo com minha dezena de leitores fiéis e desconhecidos. O número se repete todos os dias – um pouquinho a mais, às vezes; mas em nem um dia um porquinho a menos! Meus leitores são o dois, feijão com arroz; o quatro, comer no prato; o seis que fala francês; o oito que come biscoito e o dez que come pastéis. Peço desculpas aos outros dois leitores restantes. As brincadeiras de criança não contavam além de dez.. assim como não falavam dos números irmãos, só dos primos; e omitiam os ímpares. Triste constatação nesta hora em que sei do que falavam os adultos. Escrevo para cada um desses números como se falasse com alguém que um dia vi; talvez até que um dia amei; talvez que jamais tenha visto e ainda queira ver; que talvez tenha amado e queira esquecer. Uma espécie de caleidoscópio de iluminadas mentiras, de encantadoras verdades, de possibilidades impossíveis – o cúmulo da dialética virtual. Nunca pensei que um dia pudesse gostar de matemática e seus insuportáveis números. Com carinho, apesar da incompetência, aos meus 12 leitores. Mas quando vocês forem centenas, esqueçam.... (risos que confirmam a mentira de alguém que prima pela fidelidade.)Mário Quintana e a 'Noite estrelada" de Van Gogh
21 novembro 2007
Pertinências I
Muito bem. Estávamos falando do documentário sobre o Afro Regae, do Cacá Diegues, cujo título é "Nenhum motivo explica a guerra". Sei que não devia, por lealdade aos afetos, falar com tanta, tanta franqueza. Mas já fiz minha declaração de recusa diante de coisas tão mais minhas, que não posso agora capitular. Difícil pensar que não sabemos o que explica a guerra, para começar pelo começo, ou seja, pelo título. Com toda a humildade de quem se preocupa em saber e que sabe que não sabe o que talvez jamais venha a entender, acho que o motivo ainda é o mesmo. Hoje podemos chamar por um nome que antes era difuso, escondido — ideologia. Acompanhando Gramsci e deixando ao relento o solitário, louco, assassino confesso e um dos mais lúcidos teóricos marxistas, Althusser, podemos dizer que a coisa assumiu outro nome - um batizado que lhe confirma a teoria e ao mesmo tempo lhe denuncia a face — o mercado. Vivemos a hegemonia do mercado. Ao preferir digladiar com a hegemonia, nos damos alguma chance na luta desigual. Mercado não é e nem tem ideologia, mas vive seu auge e acirramento como um capataz violento de um sistema que já não consegue mostrar a cara e falar de si mesmo, o capitalismo. Explico: em tempos idos, pensava-se que o capitalismo, assim de uma maneira abstrata e um tanto genérica, poria a perder o melhor da essência humana. Por conta disso, e antes que Althusser caísse em terrível descrédito, as ditaduras assumiram a frente da batalha como se fossem carros blindados a defender o essencial. Ficou o quanto quis, enquanto, ainda a la Althusser, os Aparelhos Ideológicos de Estado consolidavam no sentido das coisas o que realmente a ditadura defendia e o que ninguém exatamente viu - a prevalência do econômico sobre o social. Que se rendam, então, homenagens a Gramsci que relatitivizou essa influência da ideologia que a tudo domina irrecorrivelmente, e abre uma possibilidade. Nem que seja como mera esperança de que alguém passe a acreditar que é possível mudar ("era impossível, mas como eu não sabia disso, fui lá e fiz..."). Depois de tudo conquistado, na mais clara acepção do termo, é apenas a hegemonia de um sistema chamado "mercado" que temos que enfrentar. A declaração de que o tênis Nike é o sonho de todo jovem - principalmente dos que não podem ter - é a mais nítida confirmação de que os AIE de Althusser ainda cumprem uma função devastadora de convencimento e afirmação de um ideal totalmente deformante e letal - sim, letal! E um projeto como o Afro Reggae, quando dialoga com a ilusão do "poder ter", enche-me de incerteza a emoção de vê-los tocando com a Orquestra Sinfônica, com artistas internacionais, com os melhores da música brasileira. O que são aquelas latas de onde tiram som? O que "dizem" aquelas latas? Que discurso ainda subsiste ali? O dos vencedores que chegaram ao topo, legitimando a face doce do mercado, do sistema? São como jogadores de futebol, que podem sair da miséria para a fama e riqueza como em um passe de mágica? Quantos poderão chegar lá? Mas o que seria isso, senão uma nova versão de um velho truque armado pelo capitalismo decrépito em conluio com uma democracia tosca e vadia? Não... tenho novamente a sensação de estar falando sozinha, na contramão da Avenida Brasil. Quem pensaria em pensar, do projeto Afro Reggae, algo mais fundo, diferente daquilo que nos adestraram a pensar de projetos que midiaticamente nos consolam das misérias que crescem por trás dos out doors... e que já não conseguimos ver como parte de um grande todo onde também estamos nós.20 novembro 2007
Questões impertinentes III
Por que exigimos, daqueles que realizam, o ato supremo de pensar sobre o que realizaram? Por que propomos, à atualidade tosca, debates depois das apresentações? Melhor seria chamar eruditos e deixar que elocubrassem até serem contestados pela práxis. Mas fazemos o modelo aprendido e deixamos para depois a possibilidade de pensar em conjunto, no coletivo, nos bares... tempos idos... resta ainda o msn, cada um bebendo na sua em uma espécie de relação intelectual asséptica, onde as idéias não se contaminam.... mas também não se completam. Mas também tanto faz.(Amo os blogs porque eles permitem que nossos enxeridos e rejeitados narizes se ponham assim antes de qualquer parágrafo de elucidação do motivo. Ah... e que gosto me dão os parêntese, que chegam gordos no meio do texto, empurrando para depois o essencial... mas nem tanto.. voilá)
Ainda há pouco assisti ao documetário de Cacá Diegues, “Nenhum motivo explica a guerra”, dele e Rafael Dragaud, no Cine ABI. O filme conta a trajetória do AfroReggae, que foi criado com a intenção de vencer a violência e resgatar crianças e jovens do poder dos traficantes de drogas nas diversas favelas cariocas.
Feliz pela oportunidade de captar depoimentos que a grande imprensa sempre malversou, o filme traz declarações contundentes e indicativas da realidade que efetivamente nos cerca, no sentido de se estar sob o cerco de quem nos pode tolher a liberdade e, quiçá, a vida (como é bom poder escrever "quiçá"; e os parêntese... ah.. os parêntese...). Mas antes que nos saquem a vida, convém pensar até que ponto contribuimos para tolher-lhes a opotunidade. E eles disseram... querem apenas uma oportunidade. Será que temos a hegemonia das oportunidades também?
Nas declarações de alguns dos integrantes e gestores do Afro Raegge, ficou clara a identificação de que os jovens das comunidades faveladas têm a necessidade de satisfazer sonhos de consumo que apenas o tráfico poderia realizar, dada a impossibilidade de qualquer um deles chegar a auferir, em qualquer trabalho formal, o suficiente para comprar um tênis da marca Nike. Uma espécie de marketing ao contrário — vejam o que os anúncios da Nike fazem com os mais pobres!
O trabalho de resgate que o Afro Reagge faz com os jovens atraídos pela criminalidade passa por aí! Dito por um dos gestores do projeto, todos usam tênis Nike e boas roupas quando vão fazer a "abordagem", de forma a competir com o tráfico no processo de cooptação do jovem. E acrescentam uma vantagem a mais: "o meu foi comprado em New York", ou seja, é melhor do que os "funcionários do tráfico podem conseguir". É a práxis da práxis! E conseguem, com isso, resgatar alguns, conquistados pela cenoura caleidoscópica, amarrada a um anzol, à frente de seus olhos inocentes e instruído por um sistema perverso que não os previa, encantados pelo consumo prometido por uma democracia burra e, pior ainda, excludente. Em algum momento, o gestor do projeto fala da escolha por critérios de beleza.. e justo quando nosso povo é tão feio para nossos padrões europeus arraigados... O que não invalida o fato de terem resgatado os mais belos e bem dotados! Mas Deus, quantos ficaram de lado...
Mas a vida é desse jeito.. precisa-se ter um mínimo de requistos...
Na verdade, a questão é mais funda, e passa por uma grave situação chamada "mercado". Voltaremos a isso amanhã, porque o meu dead line se esgotou... (ah... como adoro ser dona do meu próprio dead line e poder colocá-lo no conforto da boca cheia e bochechas gordas dos enxeridos parênteses...)
Aos meus poucos — mas fiéis e queridos — leitores peço que deixem um comentário para que eu saiba que por trás dos números que registram as visitas existe alguém para quem eu possa falar.
Até amanhã.
17 novembro 2007
Não... me recuso!

Há algum tempo venho jogando coisas pela janela, em ato absoluto de recusa. E de repente me vejo presa em antigas teias, que amarram em palavras novas as velhas críticas. Não... me recuso a atualizar o que já não tem crédito; o que já sei em toda a possibilidade de desmascaramento. Chega. Não vou falar mais por vozes outras, textos alheios, idéias mortas, técnicas sorrateiras. Morram por gosto os que quiserem; a esses, o diabo faz o enterro! Quanto a mim, que pulei o muro da resistência e pus no mundo todos os filhos que me aportaram ao ventre, me recuso a abortar minha própria redenção. Basta! Que me reclamem o que nunca me concederam; que me acusem do que nunca me reconheceram; que me denunciem pelo que sei que sei. Mas também já não me importa e sequer me incomoda. Não me importa mais... como quem entrega o jogo não por cansaço, mas por consciência. Para mim, chega! Que se enganem os tolos, que se enalteçam os fracos, que subsistam aqueles que se alimentam apenas para continuar vivendo, sem gosto, sem gozo, sem vontade. Não me importa mais. Morram por gosto, acreditando que chegarão aos céus, onde encontrarão o descanso eterno.. pobres que passaram a vida tentando descansar; que tiveram por meta o descanso... e partiram rumo ao nada. Mas o que sei eu do descanso alheio? Me recuso a sequer pensar. Façam da vida o que bem quiserem, porque para mim basta. Nem fausto nem degredo, apenas cansaço, apenas o ato inaugural que se impõe como recusa. Para mim... uma outra coisa totalmente diferente.
(Editado por Rafael Cahleo)
16 novembro 2007
Alguma coisa me fez lembrar que é assim...
Quanto mais próximo, mais custa a passar o impacto de uma bala perdida. Ainda ressoa nos ouvidos e olhos de todos nós, que estávamos tão perto, o noticiário mostrando a dor do jornalista Lênin Novaes pelo seu filho Wladimir, de apenas 28 anos, sétima vítima fatal entre 29 atingidos no mês de março, no Rio de Janeiro.
O estampido que se instalou em nossas almas desnorteou a todos e fez brotar ingênuas perguntas de um ofício em que se está acostumado a obrigar o poder público a pensar. A indignação vasculhando a caixa de ferramentas da técnica; a técnica mostrando-se insuficiente para dar conta da matéria; e o poder, que tantos atribuem aos jornalistas, atingido na nuca e posto ao chão.
Três dias depois, já em meio ao silêncio da banalização que nos entorpece a todos, a plenitude dos sentidos recobrada, telefonemas atravessaram o dia como balas de indignação desesperançada, tentando atingir o sistema em um coração que certamente não há. Alguns propunham vestirmos o imenso prédio da Associação Brasileira de Imprensa de preto; outros, a afixação de out doors em pontos estratégicos; outros, ainda, uma passeata, um movimento, um protesto, um discurso, um texto. E assim fomos, ao longo do dia, retornando aos nossos afazeres, esvaziados de soluções e estremecidos pelas notas pungentes dos que rememoravam o fato.
No começo da noite, os telefonemas ainda ecoavam, tentando esconjurar a terrível impotência, contra a urgência da vida que nos empurra para o lado. Entrei em sala de aula para ensinar Análise do Discurso a uma turma de futuros jornalistas – vivo falando sobre a historicidade que nos atravessa, a ideologia que nos interpela como sujeitos, a materialização da ideologia no discurso. E os exemplos foram me levando a uma história densa de significados e esperanças, de lutas e de coragem, de saber em que caixa se guardavam as ferramentas exatas para se lidar com os acontecimentos.
Em 64 eu era apenas uma criança, mas ao longo daquela década eu já sabia exatamente quem eram os heróis. Foucault, em um livro chamado A Ordem do Discurso, diz que “em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”. Pensei naquelas propostas, ao longo do dia, de se programar manifestações pela morte de Wladimir – do prédio da
Na opinião de jovens que um dia serão jornalistas, manifestação é isso: abraços a prédios, luto, silêncio, passeata na orla; e chamam de baderna aquilo que fazem os moradores de favela quando balas perdidas atingem os seus. A análise do discurso controlado, selecionado e redistribuído revelou um incômodo diagnóstico que me devolveu à indigência de ferramentas para lidar com os acontecimentos.
Meu pensamento vagou na galeria fantasmagórica de meus heróis distantes, esbarrando com alguns dos quais hoje convivo. Na sala da memória ao lado, Nelson Luiz Souto, de 16 anos, Benedito Frazão, de 20, e Edson
Volto ao quadro do noticiário sobre a morte de Wladimir. Entendi a necessidade de defender a sociedade nas palavras do jornalista Lênin Novaes, ao dar entrevista para os colegas mais moços; entendi o choro que interrompeu a entrevista como um rio profundo e longo, trazendo em suas margens o entulho de um sonho que estancou.
O que terá atravessado uma história de tanta coragem para que hoje se enclausure no discurso controlado de manifestações cenográficas? O que aconteceu com alguns de nossos h
eróis, que hoje estão no poder, vendo nossos filhos serem atravessados pelo discurso banalizado das balas perdidas e não se apresentam? Onde está a juventude que deveria herdar o pranto daqueles que lhes restituíram a liberdade? Onde estão as pobres mães que perderam seus filhos? Onde, neste discurso controlado, apático, descomprometido e que morre ao fim de cada noticiário?
Sinto na alma todas as dores que atravessam a alma do pai de Wladimir, porque a qualquer momento poderá ser um filho nosso. Penso nos estudantes do Calabouço e sinto como se uma bala perdida houvesse atravessado uma geração inteira.
Na foto, Edson Luiz de Lima Souto
28/3/68 - quando os jovens morriam por outras causas
15 novembro 2007
Os escafandristas...o que vão encontrar na cidade submersa?
Te avisei que a cidade era um vão
Dá tua mão, olha prá mim
Não faz assim, não vá lá, não
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão frouxa de rirJá te vejo brincando gostando de ser
Tua sombra se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo o salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão
Chico Buarque - Vitrines (do blog Clarões na Galeria- http://luznagaleria.blogspot.com)
14 novembro 2007
13 novembro 2007
Zeus, a propósito do grave caso de Egisto
A sangrenta tragédia dos Átridas, que se manteve durante gerações e gerações, teve início com um ato de Egisto. E Zeus, como um juiz olímpico enfastiado, pensou: "Estranho, como se queixam dos deuses os mortais!
Apenas de nós vêm seus males, acreditam;
Mas são eles que por insensatez, e mesmo contra o destino
causam o infortúnio."
É como dizia, a propósito de minhas pesquisas, um saudoso amigo – que deve agora estar interpelando e divertindo os deuses: “Não se engane, minha flor; as relações de poder passam todas pela cama". E falávamos apenas de Brasil..., onde aliás, as relações de poder passam pela cama e vão dar em capa de revista. Ah, as relações incestuosas da imprensa com o poder... Entendo o fastio de Zeus.
Ilustração: Egisto sendo assassinado por Orestes - Museu do Louvre
Dos prazeres e da dor
Não, nunca fiz mal a ninguém.. pelo menos não conscientemente. Mas o mal que fazemos sem a consicência do mal — ou pelo menos sem a intenção de que o ato desabe sobre outro como uma catástrofe — esse não é mal, porque lhe falta o prazer da desdita, da tragédia e da vingança. Não, não sou eu quem diz isso, porque já confessei que nunca quis o mal de quem quer que fosse, e talvez, por isso, tenha me divertido tão pouco. Explico os dois últimos pensamentos de uma só vez : quem diz isso é Nietzche, respeitável e corajoso louco de quem não se pode negar a razão. Pois ele diz que o maior dos gozos é o prazer de ver a dor do outro pelo que o nosso ato pode realizar. Relação que ultrapassa a mera necessidade de confirmação de poder, embora aí também se possa dizer que o desejo de poder está. Nietzsche diz isso em Genealogia da Moral, com exemplos que atravessam os séculos até chegar à civilização da barbárie. Quanto a mim, que ao entrar no Coliseu de Roma congelei a alma — era tristeza sem dor, sem piedade, sem alegria, sem alívio, sem nada —, acho que redimi minhas culpas e meus prazeres. Não era mais platéia, nem espetáculo e nem leão. Estava apenas ali como se todos os sentimentos congelassem em seus próprios tempos e permanecessem assim... sem prazer nem diversão. Hoje, sei eu quantas existência depois, digo que não desejo o mal a ninguém e que não me compraz o ato. E talvez seja mesmo por isso que me divirto tão pouco. Se o prazer da humanidade está no mal que se faz por vilania ou leviandade, que me bastem os prazeres suaves dos amores mansos, das almas leves, com cara de domingo à tarde até segunda de manhã, espreguiçando entre travesseiros e lençois perfumados até o susto de se perceber que se perdeu a hora... mas acho que isso não faz mal a ninguém.11 novembro 2007
Totalmente abduzida por um livro
"Produto da neutralização das relações práticas nas quais funciona, a palavra que serve para tudo encontrada no dicionário não tem nenhuma existência social: na prática, ela só existe imersa em situações, a ponto de o núcleo de sentido que se mantém relativamente invariável através da diversidade dos merca...." bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla bla...Os bla, bla blas são meus.
A propósito...
Nietzsche, de novo... e os grifos são dele.
Questões impertinentes II
Essa é de Nietzsche... aquele doido!
10 novembro 2007
Questões impertinentes I
09 novembro 2007
De um poeta que me ama... e me quer sempre feliz
Quem há de se lembrar daquela criança tão linda de olhos azuis? Amadureceram os olhos, ficaram verdes, como a alma que caminha em sentido inverso.
Sorriso tão franco, de quem não conhece mesmo a vida.. tão linda aquela criança..
Cresceu, como não se esperava que conseguisse, apesar da vida.
Virou mulher, tão linda que nem ela mesma se dá conta de ser.
Cresceu para todos os lados – mulher, deusa, tudo o que a poesia permite ser.
Essa é ela ... mulher encantada, que quando fala derrama ouro e sonho por onde quer.
Abusa das palavras, como se perfumasse seu hálito com elas.
Ama a todos como se fossem seus, como se fosse sua única responsabilidade amar.
Como ama essa mulher!
Essa mulher anda nas nuvens, passeia com os anjos, fala com Deus, já dormiu com Zeus
– não um Zeus vulgar, mas aquele que cobrou de Prometeu a fidelidade que ele trocou pela sabedoria tosca da humanidade;
depois disso, dormiu com Prometeu, porque sabe que tem direito de liberdade...
e que a mais justa das liberdades é rever o caminho e escolher a direção contrária.
Essa mulher sabe do amor que habita os seres apesar de suas imperfeições,
Que mulher é essa?
Feliz de quem desvendar essa mulher tão densa.
Te amo, Hanna!
Jorge Otávio
Em tempo: Jorge é o pai; Otávio, o avô... Jorge Otávio, uma invenção.
08 novembro 2007
Questões irrelevantes III
07 novembro 2007
Darcy Ribeiro
"Fracassei em tudo o que tentei na vida.Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".
Fernando Barbosa Lima lançou um belíssimo documentário sobre Darcy Ribeiro
06 novembro 2007
Rimas toscas
Quantas coisas nos passam pela vida e só depois percebemos que viram apenas poesia... Quanto às minhas, espero ter tempo de escrevê-las todas. Do contrário ficariam em suspenso os maus amores, os amores não vividos, os amores distraídos e os traídos com toda a inconveniência da traição. Servem estes de ponto e vírgula, de traço, travessão. Traição é parte rude, estancamento...traição é quase ponto parágrafo! Faz parar o texto e começa uma parte outra. Raro não perder o fio da meada ao deixar aquele espaço entre o que vinha sendo dito e o que se passou a dizer. Mas ter ciência do texto não é o que basta para fazer rimar qualquer coisa com traição. A mais perfeita rima seria sem dúvida a palavra "perdão"... uma rima tão fácil e perfeita, interpelando quase toda imperfeição. Coisa de imortal que freqüenta outras academias que não apenas a de Letras. Não nos cabe tanta imortalidade. Melhor transformar em rima tosca, que extrapole o simples texto e redima o parágrafo inoportuno que interrompeu a seqüência do discurso. Traição também rima com violão — que se faça então em música o que o verso recusa... e que o som ajude a completar espaços sem inspiração. A música, que salva a poesia de seus embaraços, dos seus tropeços, prolongando com acordes e notas o inexorável final. Quantas coisas nos passam pela vida e não nos damos conta...até que passem.Filosofia do desejo
03 novembro 2007
Reflexos tardios

Um fio tênue escorre grave do ombro ao seio
Por dentro.
Rompe com delicada força as diversas partes que me unem ao corpo,
desembrulhando o coração translúcido do celofane novo, branco, barulhento,
que rola, vai e volta e não separa, não desgruda, não desfaz.
Tremor constante em alma quieta
Temor inquieto em alma frágil
Medo, astúcia, audácia tola
O gosto repetido de desafiar o abismo
Só para cair
Lá dentro, lá fundo, lá longe, lá fora...
Onde se escondem os amores e seus lindos campos de girassóis.


