Sobretudo, coisas relevantes. E nada é mais relevante do que a liberdade de pensar e a coragem de escrever. Nada é mais generoso do que compartilhar o que nos é relevante. Sobretudo, toda e qualquer coisa. Ano VIII
07 outubro 2007
Travessia (parte 3)
Eu queria entender com palavras, com som, com lágrimas, com dor, para reagir, para lutar, para gritar, impedir...o que eu não conseguia sequer saber, porque meu coração ficou lá. Segui a seu lado naquela mansidão insensível. Não sei por quanto tempo andamos; talvez o tempo de um sonho, tão poucas horas. Eu só via mesmo os seus pés, tão firmes, tão lindos, tão fortes, e um pouco dos pelos lisos que a perna da calça branca deixava ver. Mas sei que te enxerguei inteiro, de uma forma outra como se todo o meu ser pudesse ver; como se nós inteiros nos transformássemos no que nos permitisse saber. Uma simbiose estranha e fluida, acionada por uma espécie de pensamento saído do fundo de um coração que não havia lá. Restos de memórias que eram minhas e que pareciam não ser mais suas. Não, não que você tivesse esquecido; não. Mas era como se elas estivessem nuas, nuas e brancas, despidas daquela dolorosa significação. Onde estaria o seu coração? Em que lugar deixei o meu, enquanto estava ali. Não deveria ter querido saber; não deveria ter querido saber. Você indicou que estava na hora de voltar. E a palavra “voltar” se ampliou naquele universo, tomando conta de todo o espaço. Tentei emendar, tentei escrever e completar o verbo, conjugá-lo no plural, emendar aquela escrita, trazer você comigo, já que eu estranhamente sabia que era mesmo preciso voltar. Eu entendia mesmo sem querer aceitar. E seguia a seu lado em incompreensível calma para um lugar que aos poucos se tornava denso, estranho, desconfortável, colorido de pesada realidade, feio, sujo, miserável, perigoso, áspero, rude. Seguimos juntos até onde você não pôde mais vir. Não me recusei, enquanto estava a seu lado. Atravessei como quem guarda um bilhete escondido que vai nos guiar no caminho que nos traz de volta. Encontrei meu coração novamente, no momento exato em que passei e você ficou lá. Uma dor lancinante me atravessou o peito e eu quis voltar; eu queria tanto voltar. Você estava lá, naquele lugar branco, e eu estava suja de tanta cor, de tanta dor, escorregando para outro lugar. Você dizia alguma coisa que eu já não conseguia ver. Os seus pés lá parados; a sua mão se estendeu e eu não sabia mais como pegar; eu não entendia o que ela queira dizer, se queria me buscar. Foi um lapso minúsculo que minha memória jamais vai apagar. Nesse momento em que o caminho que me levou até você começou a se fechar, eu senti que meu coração voltava ao peito e que o seu também estava lá, comigo. Talvez por isso tenha seguido adiante, sem o desespero que eu pressentia. Passei pelas vielas brutas, ao lado de um muro alto onde um buraco me aguardava passar. Eu não quis ir, eu não queria atravessar! Me agarrei ao mato em volta; feri as mão no que pude agarrar. Implorei para voltar. Pensei naquela senha oculta que você tão discretamente colocou em mim. Onde estava? Era um bilhete? Uma carta? Uma senha? Onde? Onde? (continua na próxima semana)
Grandes viagens...

Estava pensando nas fotos de Morro de São Paulo que um casal querido visitou. Belas praias, visão paradisíaca da janela do bangalô do hotel, turistas encantados com a pequena vila. Deu vontade de viajar... Peguei um avião, atravessei a rua e me encantei com uma das praias mais famosas do mundo. Fui ao Rio de Janeiro, sentir o sol nas areias de Copacabana, ver turistas encantados fotografando o mar, gaivotas completando o cenário, barquinhos pintados na linha do horizonte...Quando o sol foi embora e começou a ventar, atravessei a areia, peguei um avião e voltei para casa. Da próxima vez, vou visitar a Grécia!
(crédito da foto: copacabanadetoledo.blogger)
06 outubro 2007
Das duras penas

Estou escrevendo um livro a partir de, digamos, reflexões sobre o jornalismo. Quem é jornalista sabe o quanto é difícil "refletir" publicamente sobre jornalismo. Por isso o pensamento vai e volta sobre questões que considero graves e importantes, mas não arredondam no texto. Caminhando na praia, resolvi fazer um prefácio do tipo salvo conduto, alguma coisa que me deixasse à vontade para criticar, do tipo imunidade parlamentar. No meu caso, o tal do lugar de fala. Lugar de fala, em análise do discurso, são as credenciais que te diferenciam do seu interlocutor e estabelecem a ordem hierárquica da interlocução. Mais ou menos um "você sabe com quem está falando?". Todo discurso se pretende hegemônico e o lugar de fala é a salvaguarda para, inclusive, uma montanha de tolices e insanidades. Claro que este não é o meu caso! Mas voltando ao assunto, resolvi estabelecer, no prefácio, o tal do lugar de fala. Doutora em Comunicação pela universidade mais conceituada do país! Doutorado conquistado a duras penas... E jornalista há muitos anos (não vem ao caso quantos). O doutorado eu conquistei, mas com o jornalismo foi diferente: fui conquistada. E, fazendo juz ao dialogismo que nos caracteriza o discurso - aquilo de dizermos coisas que já não sabemos de onde vieram, mas que se apresentam no nosso discurso atual, assumindo novos e às vezes múltiplos sentidos - comparei as "duras penas" com as penas dos pássaros. Nos dicionários, penas podem ser castigos e aflições, mas também podem ser as plumas que revestem o corpo das aves. Se fossem estas e não aquelas, as duras penas do doutorado teriam sido arrancadas em ato de tortura da minha vontade. Mas no jornalismo não; elas teriam sido as plumas que me revestiam o sonho, a vontade. E assim fui pensando sobre qual seria esse lugar de fala para estabelecer o diálogo com o meu futuro leitor. Claro que seria o lugar de jornalista! Quero escrever para que todos entendam! E assim acabaria por confirmar a fama de que todo jornalista é arrogante. Imagine! Descer de um doutorado para assumir um lugar majestático, tantos graus abaixo! E enquanto pensava sobre as duras penas que construíram meus lugares de fala, encontrei uma pena concreta fincada na areia. Coisa que há anos de praia nunca encontrei - uma pena preta de gaivota fincada na areia... Peguei a pena e olhei para o céu. Gaivotas rodopiavam abaixo do sol. Fiquei ali parada observando aquele espetáculo esotérico. Passei a pena no rosto em gesto suave de carinho. Pensei nas minhas penas. Abri mão do prefácio e pensei em fazer uma poesia, ou pintar um quadro no estilo de Carlos Scliar - natureza morta cercada de palavras. E o texto seria algo mais ou menos assim: com duras penas tecemos as asas que nos garantem o equilíbrio e a leveza que nos permitem voar. E o prefácio, o livro e as reflexões sobre jornalismo ficaram para outra hora.
03 outubro 2007
Parte 2 daquele conto que esqueci de continuar...
Não entendia racionalmente nossas presenças sem o desespero e o medo da separação. Íamos apenas assim, lado a lado, como se caminhássemos em direção ao infinito, onde tudo dura para sempre. Custei a me desligar da urgência e do medo que turgiam meu coração lá fora. Era como se realmente ele tivesse ficado lá, depositário das angústias, medos, solidões que não habitavam aquele lugar ali; como se para sempre se tornasse o refúgio onde guardar a lembrança do que eu sabia que iria esquecer. Mas aos poucos fui sendo abraçada pela tua presença e me deixei levar – sem medo, sem dor, sem tensão, sem pressa de sorver os minutos como se não fossem mesmo tão últimos. Seguimos pelas ruas novas que você me mostrava. A sua voz que eu não ouvia espalhava no ar o que você dizia. E eu entendia com toda a dimensão daquele meu corpo sem coração. Ah, como doem os corações... Você sabia do infinito tão mais do que eu. E eu tentava enxergar o horizonte máximo para prolongar esse infinito para um indizível além, sem saber que assim estava apenas delimitando o seu fim. Você sabia do infinito tão mais do que eu...Mas aquele lugar... O que você fez para estar ali? Tentei saber, mas era como se já soubesse em algum lugar do esquecimento que eu não conseguia rever. Mas o que significava estar ali?! E o que seria de mim, com aquele coração que deixei lá?! (continua na próxima semana, eu prometo...)
Mentes perturbadas
O passado e o futuro são construções da mente. O passado, porque se transforma em versão editada sobre fatos que possivelmente perderam a noção original; o futuro, obviamente por se tratar de uma ilusão, um desejo, uma mera pretensão. E são ambos tecidos em palavras. A mente é um imenso repositório de possibilidades de palavras. Não há fatos na mente; apenas possibilidades de invenção e relatos. Os fatos, ao serem apropriados pela memória, atendem a uma espécie de transliteração. E vai se perdendo a essência mesma que os tornou dignos de habitarem o acervo - para o bem ou para o mal. A mente não guarda palavras, mas os sons e letras que as podem formar; as possibilidades que a argamassa dos sentidos vai moldar. Com o tempo, abortamos a criatividade em nome da hegemonia do já-dito e repetimos aquilo que nossa essência é capaz de acessar...proferir. E o que são as mentes? De que essências são feitas para que definam-se por partes umas e não outras de tantas possibilidades? O Profeta Gentileza acessava um lado branco, lúdico, amorável; o Bispo do Rosário acessava o silêncio dos sons e preferia as letras, tecidas na memória inapagável dos fatos bordados em mantos urdidos em um diálogo solitário, sabe-se lá com quem. Ato extremo da liberdade de escolher onde já se dá tudo por escolhido - lá onde se escondem as possibilidades de todas as escolhas que a tão poucos é dado ver. Rebeldia santa, iluminada, mentes para além do que entende e deseja a palavra "sã". As escolhas são diagnósticos das doenças e das liberdades. O que escolheria uma mente perturbada? Em que páginas do rebelde dicionário estancaria seus sentidos? Exógeno: "originado no exterior do organismo". Inveja: "desgosto ou pesar pelo bem de outrem". Opressão: "exercício exagerado de poder sobre indivíduos ou grupos." Escolhas de sentidos já-dados, já-sentidos, aprendidos. Não se pode esperar que seja exógeno o que vem de dentro; não pode ser ato de amor o que a inveja aprecia; não se pode esperar que a liberdade seja fruto da opressão e do poder. Mas ainda se pode escolher não dizer - ato extremo da mente sã; rompimento com a mais extrema das opressões; privilégio de bispos e gentilezas. Uana miquara não inventa sentidos. Algumas palavras são fiapos soltos da camisa de força que aprisiona mentes perturbadas - nossas escolhas. É com eles que tecemos o presente. O passado pode realmente ser uma lástima...
01 outubro 2007
Fica assim não, Mana...
Passado e futuro não existem. São artimanhas do pensamento. Às vezes voltamos ao passado por necessidade de construir a culpa que dará utildade aos chicotes da consciência... que são tecidos a couro e fogo nas teias do próprio pensamento. Com o tempo, com as culpas, com os chicotes e os pensamentos, erguemos as paredes concretas das celas que nos prometem a redenção. Não há redenção para enredos do pensamento. O futuro, como qualquer boa ilusão, é perfeito mas não existe. É como um lençol azul que se infla sobre a cama e de leve vai pousando. Enquanto desce, pode ser como as nuvens, como a abóboda do céu, como o vento, como uma cabaninha da infância, como as ondas, como o mar... até que pousa apenas como um lençol, que cobre a cama e nos devolve aos pensamentos. Se passado e futuro não existem, o que é o presente? Para quem se rende às artimanhas do pensamento, presente é passado, presente é futuro, o presente não existe. E é o único lugar de onde podemos construir o futuro que nos poderá garantir um bom passado que valha a pena visitar. Os pensamentos se nutrem de diálogos, adoram conversa, nos pegam pela palavra. Experimente encerrar a conversa com o pensamento quando ele quiser falar de passado; experimente mudar de assunto quando ele quiser perder tempo com o inexistente futuro. Experimente e terá a boa surpresa de encontrar o único lugar real, de onde poderá construir qualquer coisa. Experimente e se surpreenda com as possibilidades do presente que tão raras vezes te ocupou.
"Fica assim não, que tudo na vida passa... e tudo vale a pena. Beijinho. Hanna"
"Fica assim não, que tudo na vida passa... e tudo vale a pena. Beijinho. Hanna"
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