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20 novembro 2007

Questões impertinentes III

Por que exigimos, daqueles que realizam, o ato supremo de pensar sobre o que realizaram? Por que propomos, à atualidade tosca, debates depois das apresentações? Melhor seria chamar eruditos e deixar que elocubrassem até serem contestados pela práxis. Mas fazemos o modelo aprendido e deixamos para depois a possibilidade de pensar em conjunto, no coletivo, nos bares... tempos idos... resta ainda o msn, cada um bebendo na sua em uma espécie de relação intelectual asséptica, onde as idéias não se contaminam.... mas também não se completam. Mas também tanto faz.
(Amo os blogs porque eles permitem que nossos enxeridos e rejeitados narizes se ponham assim antes de qualquer parágrafo de elucidação do motivo. Ah... e que gosto me dão os parêntese, que chegam gordos no meio do texto, empurrando para depois o essencial... mas nem tanto.. voilá)
Ainda há pouco assisti ao documetário de Cacá Diegues, “Nenhum motivo explica a guerra”, dele e Rafael Dragaud, no Cine ABI. O filme conta a trajetória do AfroReggae, que foi criado com a intenção de vencer a violência e resgatar crianças e jovens do poder dos traficantes de drogas nas diversas favelas cariocas.
Feliz pela oportunidade de captar depoimentos que a grande imprensa sempre malversou, o filme traz declarações contundentes e indicativas da realidade que efetivamente nos cerca, no sentido de se estar sob o cerco de quem nos pode tolher a liberdade e, quiçá, a vida (como é bom poder escrever "quiçá"; e os parêntese... ah.. os parêntese...). Mas antes que nos saquem a vida, convém pensar até que ponto contribuimos para tolher-lhes a opotunidade. E eles disseram... querem apenas uma oportunidade. Será que temos a hegemonia das oportunidades também?
Nas declarações de alguns dos integrantes e gestores do Afro Raegge, ficou clara a identificação de que os jovens das comunidades faveladas têm a necessidade de satisfazer sonhos de consumo que apenas o tráfico poderia realizar, dada a impossibilidade de qualquer um deles chegar a auferir, em qualquer trabalho formal, o suficiente para comprar um tênis da marca Nike. Uma espécie de marketing ao contrário — vejam o que os anúncios da Nike fazem com os mais pobres!
O trabalho de resgate que o Afro Reagge faz com os jovens atraídos pela criminalidade passa por aí! Dito por um dos gestores do projeto, todos usam tênis Nike e boas roupas quando vão fazer a "abordagem", de forma a competir com o tráfico no processo de cooptação do jovem. E acrescentam uma vantagem a mais: "o meu foi comprado em New York", ou seja, é melhor do que os "funcionários do tráfico podem conseguir". É a práxis da práxis! E conseguem, com isso, resgatar alguns, conquistados pela cenoura caleidoscópica, amarrada a um anzol, à frente de seus olhos inocentes e instruído por um sistema perverso que não os previa, encantados pelo consumo prometido por uma democracia burra e, pior ainda, excludente. Em algum momento, o gestor do projeto fala da escolha por critérios de beleza.. e justo quando nosso povo é tão feio para nossos padrões europeus arraigados... O que não invalida o fato de terem resgatado os mais belos e bem dotados! Mas Deus, quantos ficaram de lado...
Mas a vida é desse jeito.. precisa-se ter um mínimo de requistos...
Na verdade, a questão é mais funda, e passa por uma grave situação chamada "mercado". Voltaremos a isso amanhã, porque o meu dead line se esgotou... (ah... como adoro ser dona do meu próprio dead line e poder colocá-lo no conforto da boca cheia e bochechas gordas dos enxeridos parênteses...)
Aos meus poucos — mas fiéis e queridos — leitores peço que deixem um comentário para que eu saiba que por trás dos números que registram as visitas existe alguém para quem eu possa falar.
Até amanhã.

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