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21 novembro 2007

Pertinências I

Muito bem. Estávamos falando do documentário sobre o Afro Regae, do Cacá Diegues, cujo título é "Nenhum motivo explica a guerra". Sei que não devia, por lealdade aos afetos, falar com tanta, tanta franqueza. Mas já fiz minha declaração de recusa diante de coisas tão mais minhas, que não posso agora capitular. Difícil pensar que não sabemos o que explica a guerra, para começar pelo começo, ou seja, pelo título. Com toda a humildade de quem se preocupa em saber e que sabe que não sabe o que talvez jamais venha a entender, acho que o motivo ainda é o mesmo. Hoje podemos chamar por um nome que antes era difuso, escondido — ideologia. Acompanhando Gramsci e deixando ao relento o solitário, louco, assassino confesso e um dos mais lúcidos teóricos marxistas, Althusser, podemos dizer que a coisa assumiu outro nome - um batizado que lhe confirma a teoria e ao mesmo tempo lhe denuncia a face — o mercado. Vivemos a hegemonia do mercado. Ao preferir digladiar com a hegemonia, nos damos alguma chance na luta desigual. Mercado não é e nem tem ideologia, mas vive seu auge e acirramento como um capataz violento de um sistema que já não consegue mostrar a cara e falar de si mesmo, o capitalismo. Explico: em tempos idos, pensava-se que o capitalismo, assim de uma maneira abstrata e um tanto genérica, poria a perder o melhor da essência humana. Por conta disso, e antes que Althusser caísse em terrível descrédito, as ditaduras assumiram a frente da batalha como se fossem carros blindados a defender o essencial. Ficou o quanto quis, enquanto, ainda a la Althusser, os Aparelhos Ideológicos de Estado consolidavam no sentido das coisas o que realmente a ditadura defendia e o que ninguém exatamente viu - a prevalência do econômico sobre o social. Que se rendam, então, homenagens a Gramsci que relatitivizou essa influência da ideologia que a tudo domina irrecorrivelmente, e abre uma possibilidade. Nem que seja como mera esperança de que alguém passe a acreditar que é possível mudar ("era impossível, mas como eu não sabia disso, fui lá e fiz..."). Depois de tudo conquistado, na mais clara acepção do termo, é apenas a hegemonia de um sistema chamado "mercado" que temos que enfrentar. A declaração de que o tênis Nike é o sonho de todo jovem - principalmente dos que não podem ter - é a mais nítida confirmação de que os AIE de Althusser ainda cumprem uma função devastadora de convencimento e afirmação de um ideal totalmente deformante e letal - sim, letal! E um projeto como o Afro Reggae, quando dialoga com a ilusão do "poder ter", enche-me de incerteza a emoção de vê-los tocando com a Orquestra Sinfônica, com artistas internacionais, com os melhores da música brasileira. O que são aquelas latas de onde tiram som? O que "dizem" aquelas latas? Que discurso ainda subsiste ali? O dos vencedores que chegaram ao topo, legitimando a face doce do mercado, do sistema? São como jogadores de futebol, que podem sair da miséria para a fama e riqueza como em um passe de mágica? Quantos poderão chegar lá? Mas o que seria isso, senão uma nova versão de um velho truque armado pelo capitalismo decrépito em conluio com uma democracia tosca e vadia? Não... tenho novamente a sensação de estar falando sozinha, na contramão da Avenida Brasil. Quem pensaria em pensar, do projeto Afro Reggae, algo mais fundo, diferente daquilo que nos adestraram a pensar de projetos que midiaticamente nos consolam das misérias que crescem por trás dos out doors... e que já não conseguimos ver como parte de um grande todo onde também estamos nós.
Que o final de semana seja para todos iluminado, mas que nossos corações não se acomodem, porque senão eles param...

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