O presidente Lula esteve hoje (30/11), no morro do Pavãozinho, favela que fica na Zona Sul do Rio de Janeiro, entre Copacabana e Ipanema. Fez discurso de palanque, garantindo que só não vai construir mansões para melhorar o astral da população porque o dinheiro não dá. Em uma espécie de discurso de auto-ajuda, garantiu que o pobre é a essência do povo brasileiro, e que com as obras que virão com os 35 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento - o tal do PAC - a favela ia ficar "um lugar decente e digno", onde a população do lugar pudesse ter orgulho de morar. Não critico o presidente por fazer um discurso tão desconectado da realidade das populações faveladas dos morros da cidade e até mesmo do cotidiano dos cariocas. Nem mesmo pelo desconhecimento do cenários que as palavras que usou carregam. Não; não culpo um presidente que viaja tanto e que tão poucas vezes esteve no Rio, e que conhece a realidade das favelas cariocas pelos filmes que talvez ainda assista em seu cinema particular. Aliás, torço até para que não tenha visto Tropa de Elite, exemplo de polícia do nosso Cabral. Mas culpo os assessores que não se empenham em pensar e pesquisar sobre o que o presidente terá que dizer - já que é fora de questão esperar que pensem - assessores, presidente e seus etcéteras - em como verdadeiramente resolver problemas que todos estamos cansados de conhecer. A solução parece estar no dinheiro que cava ruas e levanta muros, que o tempo irremediavelmente vai destruir e que outros virão para enterrar um monte de dinheiro na reconstrução. Dinheiro dá voto e estofa discurso, mas daí a achar que dá orgulho a favelado vai uma longa distância. Saneamento e urbanização é necessidade básica e não se constituirá em motivo de orgulho dizer que se recebeu, já que é uma vergonha jamais ter tido. E o orgulho não deverá ser do morador que se envergonha de não ter o que o estado deveria ter garantido, mas do Estado, que se redimirá da culpa de ter governado de costas para as encostas dos morros. Não cabe se orgulhar de tanto atraso. Tanto que mesmo o tal do PAC será pouco para dar conta da redenção de tamanha culpa. As pouco mais de quatro mil famílias que serão beneficiadas não enchem sequer a rua principal da favela da Rocinha. Ora, mas não vamos apelar para a batida retórica do que pouco é melhor do que nada. O presidente, ao invés de enaltecer esse insuficiente tantinho, deveria pedir desculpas aos que ainda vão continuar na mesma de anteontem, ou melhor dos séculos passados. O problema dos moradores dos morros também não está na diferença entre ricos e pobres, que aqui no Rio convivem até muito harmoniosamente, compartilhando a mesma praia, frequentando o mesmo bar, trocando serviços. O carioca nunca teve desses preconceitos. Dizer que só quando o pobre mora no morro é vergonha, é favela, e rico que mora no morro é chique, isso é desconhecer o lugar das bolas e plantar um separatismo que o Rio não alimenta - é favela porque padece de ausência do poder público; rico que mora em morro não é chamado de nada; é apenas cidadão. O conceito de cidadão implica uma relação com o Estado, com as garantias fundamentais que o estado deverá dar à pessoa; a sociedade paga para ter garantias básicas de cidadania que ao Estado compete honrar. E que tolice dizer que a elite vai achar que elevador no morro é luxo e que favelado não precisa disso. É de se perguntar: para quem o senhor acha que está falando, presidente? Para os banqueiros que são a única elite que jamais na história lucrou tanto? Será que eles se importam com o seu PAC ou com elevador para favelado? Ou está falando com a classe média desvalida e encurralada por outras e mais preocupantes mazelas que também habitam nossos morros? O elevador é até o de menos. Gerações sobre gerações têm subido e descido os morros com tudo o que a vida obriga a carregar, de criança na barriga, no colo, até tijolo e cimento para construir quase junto ao céu - e só Deus, que olha pelo alto, sabe como. Assessores, para que os tem, presidente? E quanto à declaração de que o Rio não é uma cidade tão violenta assim... ah, essa fica para mais tarde.(Foto Agência Brasil)
Um comentário:
Acho uma pena que você não esteja (está e eu não sei?) escrevendo em algum dos nossos "grandes jornais", como Folha ou Globo - sinceramente, faz falta. Aliás, vozes assim também são poucas na TV. Embora possam argumentar que o Jabor, por exemplo, fala-fala-fala e nada muda... Enfim, foi um prazer, mais uma vez, ler você. (também gosto da Hanna poeta)
Postar um comentário