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16 novembro 2007

Alguma coisa me fez lembrar que é assim...

Quanto mais próximo, mais custa a passar o impacto de uma bala perdida. Ainda ressoa nos ouvidos e olhos de todos nós, que estávamos tão perto, o noticiário mostrando a dor do jornalista Lênin Novaes pelo seu filho Wladimir, de apenas 28 anos, sétima vítima fatal entre 29 atingidos no mês de março, no Rio de Janeiro.

O estampido que se instalou em nossas almas desnorteou a todos e fez brotar ingênuas perguntas de um ofício em que se está acostumado a obrigar o poder público a pensar. A indignação vasculhando a caixa de ferramentas da técnica; a técnica mostrando-se insuficiente para dar conta da matéria; e o poder, que tantos atribuem aos jornalistas, atingido na nuca e posto ao chão.

Três dias depois, já em meio ao silêncio da banalização que nos entorpece a todos, a plenitude dos sentidos recobrada, telefonemas atravessaram o dia como balas de indignação desesperançada, tentando atingir o sistema em um coração que certamente não há. Alguns propunham vestirmos o imenso prédio da Associação Brasileira de Imprensa de preto; outros, a afixação de out doors em pontos estratégicos; outros, ainda, uma passeata, um movimento, um protesto, um discurso, um texto. E assim fomos, ao longo do dia, retornando aos nossos afazeres, esvaziados de soluções e estremecidos pelas notas pungentes dos que rememoravam o fato.

No começo da noite, os telefonemas ainda ecoavam, tentando esconjurar a terrível impotência, contra a urgência da vida que nos empurra para o lado. Entrei em sala de aula para ensinar Análise do Discurso a uma turma de futuros jornalistas – vivo falando sobre a historicidade que nos atravessa, a ideologia que nos interpela como sujeitos, a materialização da ideologia no discurso. E os exemplos foram me levando a uma história densa de significados e esperanças, de lutas e de coragem, de saber em que caixa se guardavam as ferramentas exatas para se lidar com os acontecimentos.

Em 64 eu era apenas uma criança, mas ao longo daquela década eu já sabia exatamente quem eram os heróis. Foucault, em um livro chamado A Ordem do Discurso, diz que “em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade”. Pensei naquelas propostas, ao longo do dia, de se programar manifestações pela morte de Wladimir – do prédio da ABI de luto, da passeata, da imediata manifestação em que pessoas vestidas de preto seguravam cartazes em silêncio, nas escadarias da Câmara.

Na opinião de jovens que um dia serão jornalistas, manifestação é isso: abraços a prédios, luto, silêncio, passeata na orla; e chamam de baderna aquilo que fazem os moradores de favela quando balas perdidas atingem os seus. A análise do discurso controlado, selecionado e redistribuído revelou um incômodo diagnóstico que me devolveu à indigência de ferramentas para lidar com os acontecimentos.

Meu pensamento vagou na galeria fantasmagórica de meus heróis distantes, esbarrando com alguns dos quais hoje convivo. Na sala da memória ao lado, Nelson Luiz Souto, de 16 anos, Benedito Frazão, de 20, e Edson Luiz Lima Souto, de 18 anos, estudantes mortos pela Polícia Militar no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, exatamente no dia 28 de março de 68. E o que veio depois, definitivamente, nunca seria chamado de baderna.

Volto ao quadro do noticiário sobre a morte de Wladimir. Entendi a necessidade de defender a sociedade nas palavras do jornalista Lênin Novaes, ao dar entrevista para os colegas mais moços; entendi o choro que interrompeu a entrevista como um rio profundo e longo, trazendo em suas margens o entulho de um sonho que estancou.

O que terá atravessado uma história de tanta coragem para que hoje se enclausure no discurso controlado de manifestações cenográficas? O que aconteceu com alguns de nossos heróis, que hoje estão no poder, vendo nossos filhos serem atravessados pelo discurso banalizado das balas perdidas e não se apresentam? Onde está a juventude que deveria herdar o pranto daqueles que lhes restituíram a liberdade? Onde estão as pobres mães que perderam seus filhos? Onde, neste discurso controlado, apático, descomprometido e que morre ao fim de cada noticiário?

Sinto na alma todas as dores que atravessam a alma do pai de Wladimir, porque a qualquer momento poderá ser um filho nosso. Penso nos estudantes do Calabouço e sinto como se uma bala perdida houvesse atravessado uma geração inteira.

Na foto, Edson Luiz de Lima Souto

28/3/68 - quando os jovens morriam por outras causas

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