Não, nunca fiz mal a ninguém.. pelo menos não conscientemente. Mas o mal que fazemos sem a consicência do mal — ou pelo menos sem a intenção de que o ato desabe sobre outro como uma catástrofe — esse não é mal, porque lhe falta o prazer da desdita, da tragédia e da vingança. Não, não sou eu quem diz isso, porque já confessei que nunca quis o mal de quem quer que fosse, e talvez, por isso, tenha me divertido tão pouco. Explico os dois últimos pensamentos de uma só vez : quem diz isso é Nietzche, respeitável e corajoso louco de quem não se pode negar a razão. Pois ele diz que o maior dos gozos é o prazer de ver a dor do outro pelo que o nosso ato pode realizar. Relação que ultrapassa a mera necessidade de confirmação de poder, embora aí também se possa dizer que o desejo de poder está. Nietzsche diz isso em Genealogia da Moral, com exemplos que atravessam os séculos até chegar à civilização da barbárie. Quanto a mim, que ao entrar no Coliseu de Roma congelei a alma — era tristeza sem dor, sem piedade, sem alegria, sem alívio, sem nada —, acho que redimi minhas culpas e meus prazeres. Não era mais platéia, nem espetáculo e nem leão. Estava apenas ali como se todos os sentimentos congelassem em seus próprios tempos e permanecessem assim... sem prazer nem diversão. Hoje, sei eu quantas existência depois, digo que não desejo o mal a ninguém e que não me compraz o ato. E talvez seja mesmo por isso que me divirto tão pouco. Se o prazer da humanidade está no mal que se faz por vilania ou leviandade, que me bastem os prazeres suaves dos amores mansos, das almas leves, com cara de domingo à tarde até segunda de manhã, espreguiçando entre travesseiros e lençois perfumados até o susto de se perceber que se perdeu a hora... mas acho que isso não faz mal a ninguém.A ilustração é de Henri Matisse.
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