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03 outubro 2007

Mentes perturbadas

O passado e o futuro são construções da mente. O passado, porque se transforma em versão editada sobre fatos que possivelmente perderam a noção original; o futuro, obviamente por se tratar de uma ilusão, um desejo, uma mera pretensão. E são ambos tecidos em palavras. A mente é um imenso repositório de possibilidades de palavras. Não há fatos na mente; apenas possibilidades de invenção e relatos. Os fatos, ao serem apropriados pela memória, atendem a uma espécie de transliteração. E vai se perdendo a essência mesma que os tornou dignos de habitarem o acervo - para o bem ou para o mal. A mente não guarda palavras, mas os sons e letras que as podem formar; as possibilidades que a argamassa dos sentidos vai moldar. Com o tempo, abortamos a criatividade em nome da hegemonia do já-dito e repetimos aquilo que nossa essência é capaz de acessar...proferir. E o que são as mentes? De que essências são feitas para que definam-se por partes umas e não outras de tantas possibilidades? O Profeta Gentileza acessava um lado branco, lúdico, amorável; o Bispo do Rosário acessava o silêncio dos sons e preferia as letras, tecidas na memória inapagável dos fatos bordados em mantos urdidos em um diálogo solitário, sabe-se lá com quem. Ato extremo da liberdade de escolher onde já se dá tudo por escolhido - lá onde se escondem as possibilidades de todas as escolhas que a tão poucos é dado ver. Rebeldia santa, iluminada, mentes para além do que entende e deseja a palavra "sã". As escolhas são diagnósticos das doenças e das liberdades. O que escolheria uma mente perturbada? Em que páginas do rebelde dicionário estancaria seus sentidos? Exógeno: "originado no exterior do organismo". Inveja: "desgosto ou pesar pelo bem de outrem". Opressão: "exercício exagerado de poder sobre indivíduos ou grupos." Escolhas de sentidos já-dados, já-sentidos, aprendidos. Não se pode esperar que seja exógeno o que vem de dentro; não pode ser ato de amor o que a inveja aprecia; não se pode esperar que a liberdade seja fruto da opressão e do poder. Mas ainda se pode escolher não dizer - ato extremo da mente sã; rompimento com a mais extrema das opressões; privilégio de bispos e gentilezas. Uana miquara não inventa sentidos. Algumas palavras são fiapos soltos da camisa de força que aprisiona mentes perturbadas - nossas escolhas. É com eles que tecemos o presente. O passado pode realmente ser uma lástima...

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