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06 outubro 2007

Das duras penas


Estou escrevendo um livro a partir de, digamos, reflexões sobre o jornalismo. Quem é jornalista sabe o quanto é difícil "refletir" publicamente sobre jornalismo. Por isso o pensamento vai e volta sobre questões que considero graves e importantes, mas não arredondam no texto. Caminhando na praia, resolvi fazer um prefácio do tipo salvo conduto, alguma coisa que me deixasse à vontade para criticar, do tipo imunidade parlamentar. No meu caso, o tal do lugar de fala. Lugar de fala, em análise do discurso, são as credenciais que te diferenciam do seu interlocutor e estabelecem a ordem hierárquica da interlocução. Mais ou menos um "você sabe com quem está falando?". Todo discurso se pretende hegemônico e o lugar de fala é a salvaguarda para, inclusive, uma montanha de tolices e insanidades. Claro que este não é o meu caso! Mas voltando ao assunto, resolvi estabelecer, no prefácio, o tal do lugar de fala. Doutora em Comunicação pela universidade mais conceituada do país! Doutorado conquistado a duras penas... E jornalista há muitos anos (não vem ao caso quantos). O doutorado eu conquistei, mas com o jornalismo foi diferente: fui conquistada. E, fazendo juz ao dialogismo que nos caracteriza o discurso - aquilo de dizermos coisas que já não sabemos de onde vieram, mas que se apresentam no nosso discurso atual, assumindo novos e às vezes múltiplos sentidos - comparei as "duras penas" com as penas dos pássaros. Nos dicionários, penas podem ser castigos e aflições, mas também podem ser as plumas que revestem o corpo das aves. Se fossem estas e não aquelas, as duras penas do doutorado teriam sido arrancadas em ato de tortura da minha vontade. Mas no jornalismo não; elas teriam sido as plumas que me revestiam o sonho, a vontade. E assim fui pensando sobre qual seria esse lugar de fala para estabelecer o diálogo com o meu futuro leitor. Claro que seria o lugar de jornalista! Quero escrever para que todos entendam! E assim acabaria por confirmar a fama de que todo jornalista é arrogante. Imagine! Descer de um doutorado para assumir um lugar majestático, tantos graus abaixo! E enquanto pensava sobre as duras penas que construíram meus lugares de fala, encontrei uma pena concreta fincada na areia. Coisa que há anos de praia nunca encontrei - uma pena preta de gaivota fincada na areia... Peguei a pena e olhei para o céu. Gaivotas rodopiavam abaixo do sol. Fiquei ali parada observando aquele espetáculo esotérico. Passei a pena no rosto em gesto suave de carinho. Pensei nas minhas penas. Abri mão do prefácio e pensei em fazer uma poesia, ou pintar um quadro no estilo de Carlos Scliar - natureza morta cercada de palavras. E o texto seria algo mais ou menos assim: com duras penas tecemos as asas que nos garantem o equilíbrio e a leveza que nos permitem voar. E o prefácio, o livro e as reflexões sobre jornalismo ficaram para outra hora.

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