
Gosto de pensar que as ausências são como pipas coloridas das quais soltamos as linhas por decisão própria. É certo que às vezes outras linhas as cruzam e cortam o movimento que até aí sustentávamos. A única palavra que no momento me ocorre para descrever esse tipo de experiência é indigência.
Em tempo1: não uma indigência cármica, mas momentânea, superável; sentimento que nos incita a desafiar Deus, até que percebemos que não somos nós os onipotentes, por mais que à imagem e semelhança tenhamos sido criados. Indigência que dura o momento exato entre o afrouxamento da linha e o abaixar do braço. Quem já teve cortado o vôo de uma pipa no ar há de entender do que estou falando.
Em tempo 2: não estou falando de amores românticos, paixões arrebatadoras e ilusórias, enlevos sexuais; falo de amores fundamentais, como os que unem pais e filhos, irmãos, amigos... Por isso prefiro pensar as ausências como linhas soltas a contar com a astúcia do vento. Essas pipas, quem sabe irão talvez muito mais alto — tanto que podemos até perdê-las de vista para sempre (sim... para sempre, por mais que pareça radical. É da natureza das pipas não traçar trajetórias de volta). E o melhor: vão em frente carregando toda a sua própria linha, até que o carretel se esgote. Um cenário de liberdade, mesmo que a linha solta se ponha e se ofereça ao alcance de novas mãos, atendendo aos apelos irresistíveis da gravidade dos limites. Mas gosto de pensar nesta espécie de finitude sem fim, contando com a generosidade do vento. Sabemos que nem os pássaros voam o tempo todo... mas quando dou as costas às linhas e suas pipas, construo uma ausência plena de perspectivas, possibilidades — para mim e para as pipas. E gosto de pensar que elas poderão voar e subir para sempre, sem nunca ter que descer ao chão. Quanto a mim? Ah... eu apenas continuo caminhando, com as emoções brincando com pipas, linhas, ventos... e o pensamento resvalando o infinito.
Porque hoje é sexta-feira, apesar da chuva, meus doces amores. Aproveitem!
Imagem: Pipas - Portinari, 1941.
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