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12 dezembro 2007

Tocata e fuga em todos os tons

Tocata e fuga... sempre que ouço a expressão que descreve a concepção da forma musical me vem à mente a imagem de um menestrel fugindo após tocar no meio da praça. Menestréis eram um misto de poetas, músicos e vagabundos da idade média; tocata, uma espécie de introdução para testar a afinação dos instrumentos, ou os improvisos do jazz, do rock - aquilo que Sting e Stewart Copeland fizeram maravilhosamente no show do The Police -, e fuga são as vozes de um coro que vão aos poucos anunciando o tema, uma a uma, em contraposição, até que todas apareçam na graça majestosa e harmônica da música. Mas ainda assim penso no poeta-músico-vagabundo fugindo para lugar nenhum... e se for em ré menor chego mesmo a ficar triste. Nietzsche, que falava mal de Deus e do mundo, não resistiu à grandeza da música de J. S. Bach e disse, provavelmente extasiado, que a Paixão Segundo S. Mateus, de 1700 e alguma coisa, era capaz de reconverter qualquer um que já tivesse esquecido o cristianismo. Bach é considerado o precursor da música moderna, e talvez por isso não seria exagero dizer que Sting e Copeland lhe devem a raiz de suas toccate. Bach não era um menestrel, obviamente. Teve 20 filhos de dois casamentos e era funcionário público rigoroso com seus deveres para com o "público". No começo, compunha só para exercício da criatividade, uma espécie de hobby, até que seu talento conquistasse o mundo, que era ainda tão pequeno. Bach ficou cego aos 64 anos, mas continuou trabalhando no que seria sua obra genial, A Arte da Fuga. Morreu antes de terminá-la, em 28 de julho de 1750. Segundo Albert Schweiter (na foto, 1875-1965), biógrafo do compositor e seu maior intérprete, Bach era disciplinado e chegava a escrever uma cantata por semana e "acreditava tanto no trabalho quanto na inspiração". A arte da fuga é o que fazem as palavras quando nos deixam ao desamparo, justo quando precisávamos tanto escrever. Falava de fugas e tocatas, na tristeza em ré menor...Não é arte quando nos faltam palavras, mas pode ser tosca fuga... coisa de menestréis, poetas e vagabundos. Não que me enquadre em tão nobre elite...triste do texto quando lhe faltam palavras... Mas sem inspiração, resta ainda o trabalho. E a música de Bach que preencheria esse texto, fruto da falta de inspiração (se eu soubesse como postar músicas, claro..) não seria Fuga e Tocata, mas a belíssima Paixão Segundo S. Mateus. Procurem ouvi-la bem baixinho, durante a leitura de um livro preferido. Vão ver que é simplesmente mágico...

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